31/07/2012
às 18:07 \ Loja de Antiguidades‘Sportsperson número 137′
As duas medalhas de ouro da chinesa Shiwen Ye, nos 400 metros medley e nos 200 metros medley, a transformaram num gigante das piscinas – embora nem fosse preciso tê-la no alto do pódio para perceber os ombros largos e o jeitão um tanto quanto masculino. Nos 50 metros finais dos 400 medley, ela nadou mais rápido que o vencedor entre os homens na mesma prova, o americano Ryan Lochte. Bateu o recorde mundial. Nos 200 medley, foi outro passeio, desta vez com a melhor marca olímpica. O feito da moça imediatamente provocou reações prematuras, irresponsáveis até, mas incontornáveis. Disse o americano Leonard, diretor executivo da Associação Mundial de Técnicos de Natação: “Ela se parece com uma supermulher. Na história do nosso esporte, sempre que alguém se parecia com uma supermulher foi pega nos testes de doping”. A declaração provocou uma crise diplomática entre Estados Unidos e China, pôs o Comitê Olímpico em polvorosa e iluminou um passado que busca ser esquecido, e que esta Loja de Antiguidades revisita.
Os 400 medley era a prova por excelência de outra nadadora espetacular, a alemã oriental Petra Schneider. Na Olimpíada de 1980, em Moscou, Petra fez um tempo improvável, de 4m36s29 – quase 10 segundos mais rápida que a segunda colocada. Em Londres, agora, três décadas depois, a chinesa encerrou a prova em 4m28s43, menos de três segundos à frente da medalhista de prata. A diferença do desempenho da alemã em relação a suas adversárias autoriza entender o espanto provocado em um tempo em que as técnicas de detecção de doping engatinhavam e o Muro de Berlim mantinha-se firme e forte. Soube-se depois, por confissão da própria nadadora e por minuciosas investigações de jornalistas, que havia na Alemanha Oriental uma máquina de contrafação de resultados na natação.
Identificada como promessa ainda criança – tal qual a chinesa – Petra passou a ser identificada por um número, “Sportsperson 137”. Treinava o dia inteiro em uma piscina coberta como uma estufa, onde se reproduzia a pressão atmosférica de altitudes, de modo a tornar as travessias de 50 metros ainda mais cansativas. Fazia musculação (num tempo em que mesmo os homens não eram afeitos a braços e pernas exageradamente inchados) e tomava esteroides anabolizantes derivados da testosterona. Em 2005, Petra admitiu ter sido cobaia de uma farsa. Os laboratórios de experiências e alta performance esportivas criavam situações que beiravam o inacreditável. As nadadoras eram inseminadas artificialmente de modo que, recém-engravidadas, estivessem mais fortes no momento de competir, na medida em que o organismo liberava hormônios. Aos três meses, abortavam para prosseguir o treinamento a caminho da próxima enganação. Foi um período sem Twitter ou Instagram, sem computador ou smartphones, no qual as Olimpíadas eram tratadas como campo de batalha entre dois blocos, o soviético e o americano. Valia tudo. Essa sombra é que atrapalha o espetacular desempenho de Shiwen Ye, a “sereia mandarim”, no Parque Aquático de Londres. Sombra insuficiente para apagar a grande estrela dos Jogos até agora.
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