Blogs e Colunistas

Arquivo de julho de 2012

31/07/2012

às 18:07 \ Loja de Antiguidades

‘Sportsperson número 137′

Petra Schneider

As duas medalhas de ouro da chinesa Shiwen Ye, nos 400 metros medley e nos 200 metros medley, a transformaram num gigante das piscinas – embora nem fosse preciso tê-la no alto do pódio para perceber os ombros largos e o jeitão um tanto quanto masculino. Nos 50 metros finais dos 400 medley, ela nadou mais rápido que o vencedor entre os homens na mesma prova, o americano Ryan Lochte. Bateu o recorde mundial. Nos 200 medley, foi outro passeio, desta vez com a melhor marca olímpica. O feito da moça imediatamente provocou reações prematuras, irresponsáveis até, mas incontornáveis. Disse o americano Leonard, diretor executivo da Associação Mundial de Técnicos de Natação: “Ela se parece com uma supermulher. Na história do nosso esporte, sempre que alguém se parecia com uma supermulher foi pega nos testes de doping”. A declaração provocou uma crise diplomática entre Estados Unidos e China, pôs o Comitê Olímpico em polvorosa e iluminou um passado que busca ser esquecido, e que esta Loja de Antiguidades revisita.

Os 400 medley era a prova por excelência de outra nadadora espetacular, a alemã oriental Petra Schneider. Na Olimpíada de 1980, em Moscou, Petra fez um tempo improvável, de 4m36s29 – quase 10 segundos mais rápida que a segunda colocada. Em Londres, agora, três décadas depois, a chinesa encerrou a prova em 4m28s43, menos de três segundos à frente da medalhista de prata. A diferença do desempenho da alemã em relação a suas adversárias autoriza entender o espanto provocado em um tempo em que as técnicas de detecção de doping engatinhavam e o Muro de Berlim mantinha-se firme e forte. Soube-se depois, por confissão da própria nadadora e por minuciosas investigações de jornalistas, que havia na Alemanha Oriental uma máquina de contrafação de resultados na natação.

Identificada como promessa ainda criança – tal qual a chinesa – Petra passou a ser identificada por um número, “Sportsperson 137”. Treinava o dia inteiro em uma piscina coberta como uma estufa, onde se reproduzia a pressão atmosférica de altitudes, de modo a tornar as travessias de 50 metros ainda mais cansativas. Fazia musculação (num tempo em que mesmo os homens não eram afeitos a braços e pernas exageradamente inchados) e tomava esteroides anabolizantes derivados da testosterona. Em 2005, Petra admitiu ter sido cobaia de uma farsa. Os laboratórios de experiências e alta performance esportivas criavam situações que beiravam o inacreditável. As nadadoras eram inseminadas artificialmente de modo que, recém-engravidadas, estivessem mais fortes no momento de competir, na medida em que o organismo liberava hormônios. Aos três meses, abortavam para prosseguir o treinamento a caminho da próxima enganação. Foi um período sem Twitter ou Instagram, sem computador ou smartphones, no qual as Olimpíadas eram tratadas como campo de batalha entre dois blocos, o soviético e o americano. Valia tudo. Essa sombra é que atrapalha o espetacular desempenho de Shiwen Ye, a “sereia mandarim”, no Parque Aquático de Londres. Sombra insuficiente para apagar a grande estrela dos Jogos até agora.

31/07/2012

às 15:52 \ Um Conto de Duas Cidades

Assentos vazios, um problema difícil de se resolver

Entre todos os problemas enfrentados pela organização de Londres 2012, talvez o mais difícil de ser resolvido é o dos assentos vazios em quase todos os locais de competição. As imagens de lugares vagos em eventos para os quais os ingressos haviam sido esgotados tem gerado bastante insatisfação entre o público e a mídia britânicos. A última decisão do comitê organizador foi fazer um balanço diário dos ingressos que patrocinadores, autoridades, VIPs e outros convidados não irão utilizar, e colocá-los à venda pelo site oficial na véspera das competições. O comitê ainda estuda a possibilidade de adotar a “regra dos 30 minutos”, tempo após o início de cada evento em que os lugares vazios poderiam ser ocupados por outros compradores.

Dos 8,8 milhões de ingressos disponíveis para os Jogos Olímpicos, 75% foram destinados à venda para o público do Reino Unido, 12% para o público internacional, por meio dos Comitês Olímpicos Nacionais, 8% para patrocinadores e parceiros do COI e 5% para as empresas que fornecem serviços de hospitalidade. Os patrocinadores acabam sendo demonizados pelo público, mas esta é uma batalha praticamente perdida. Para o ciclo olímpico de 2013 a 2016, o Comitê Olímpico Internacional deve arrecadar mais de 1 bilhão de dólares apenas com seus principais patrocinadores. Seria ingenuidade pensar que os parceiros comerciais, que ajudam a tornar o evento lucrativo, abririam mão de seus convites.

Há ainda outro aspecto pouco abordado pela imprensa daqui: a maioria dos ingressos vale para múltiplas sessões. No sábado, acompanhei a partida de basquete feminino entre Brasil x França, que teve início às 20h. A partida seguinte, entre Grã-Bretanha e Austrália, começou às 22h. Alguns brasileiros e franceses deixaram a Arena de Basquete, deixando lugares vazios. Uma fileira inteira à minha frente foi ocupada durante a segunda partida por soldados britânicos.

Uma possível solução para casos como esse seria adotar um sistema parecido com o do torneio de tênis de Wimbledon, que faz a “reciclagem” de ingressos: as entradas de quem deixa o evento antes de seu término são revendidas no local. Mas isso requer um esforço logístico difícil de equacionar em um evento desse porte. Com todo o volume de pessoas que já se dirige naturalmente às instalações olímpicas, criar uma fila de espera poderia causar mais transtorno e insatisfação.

A organização do Rio 2016 ainda tem outros desafios maiores pela frente, mas é bom que se comecem a pensar em soluções para um problema tão difícil de ser resolvido. A julgar pelos 50000 brasileiros que vieram a Londres para assistir aos Jogos, a procura por ingressos em 2016 deverá ser grande. De Londres 2012 fica a lição: não há quem fique satisfeito quando se sente excluído de uma festa – ainda mais quando ela acontece em sua casa, financiada pelo seu próprio dinheiro.

31/07/2012

às 13:51 \ O Brasileiro do Dia

A fã de Rogério Ceni

Existe pelo menos uma pessoa muito feliz com o retorno do goleiro Rogério Ceni ao gol do São Paulo, que voltou aos gramados no último domingo após um semestre de recuperação de uma lesão no ombro. É a goleira Chana Masson, titular da equipe brasileira feminina de handebol. “Eu sou mais torcedora do Rogério do que do São Paulo”, diz a catarinense de 33 anos. Apesar de não cobrar faltas como seu ídolo, a goleira diz ter se inspirado no estilo de Rogério para desenvolver seu próprio. Eleita a melhor goleira do campeonato mundial da modalidade no ano passado, quando o Brasil ficou com o quinto lugar, Chana segue os passos do jogador do time paulista quando se observa o papel de liderança da goleira dentro do grupo de jogadoras que veio a Londres.

Apesar de falar do ídolo com o entusiasmo de criança, Chana não é uma novata. Longe disso, inclusive. A goleira já está na sua quarta Olimpíada e é um dos destaques da atual seleção, que faz em Londres um ótimo início de competição – foram duas vitórias nas duas primeiras rodadas, contra Croácia e Montenegro. Nesta quarta-feira, o Brasil enfrenta a anfitriã Grã-Bretanha. Nos dois jogos anteriores, Chana se destacou tanto por sua habilidade quanto pela vibração dentro de quadra. Gol do Brasil, lá ia a goleira vibrar com a torcida, erguendo os punhos cerrados. Após cada defesa, ela corria para abraçar as companheiras no banco de reservas. “É meu estilo, não tem jeito. Gosto de vibrar, passar confiança para as outras jogadoras.”

Foi dessa maneira, emanando energia, que ela conquistou o carinho e o respeito dos frios dinamarqueses, país onde joga profissionalmente há quase dez anos. Casada com um ex-jogador de futebol, Chana diz que tratam-se de modalidades diferentes, mas que os goleiros do esporte jogado com os pés já estão procurando aprender com os do handebol. “Teve um preparador de goleiros que trabalha lá na Dinamarca que gravou um tutorial comigo, mostrando como sair bem com os pés. Essa parte também é importante no futebol. Veja o (Manuel) Neuer, goleiro da Alemanha, e o Casillas, da Espanha. Eles saem muito bem do gol.” Se o handebol conquistar a tão sonhada medalha olímpica, daqui duas semanas poderá ser o goleiro do São Paulo a usar palavras de admiração para descrever a camisa 1 do Brasil.

31/07/2012

às 10:47 \ London Calling

Whole Lotta Love


No dia em que nasceu, no Hospital St. Mary’s, em Paddington, na região central de Londres, Zara Phillips era a sexta ocupante da linha de sucessão ao trono de sua avó, Elizabeth II. Vieram William, Harry e muitos outros – e Zara despencou para o 14º lugar da fila. Filha da princesa Anne, ela não detém nenhum título real, mesmo sendo a neta mais velha da rainha. De qualquer forma, os assuntos da realeza não parecem ser muito a praia dela: longe de ter a classe da mais recente integrante da família, Kate Middleton, Zara também não se sobressai pela beleza, não é referência de moda e não parece afeita ao clima solene dos palácios do clã dos Windsor. Casada desde 2011 com um ex-jogador da seleção inglesa de rúgbi, sempre mostrou excelente aptidão para os esportes. Na escola, jogou hóquei e praticou atletismo e ginástica. Que não se pense, contudo, que Zara é uma zagueira de várzea, uma ovelha negra na família. Na hora de escolher sua carreira, optou por uma modalidade que tem a cara da realeza, o hipismo. E foi a cavalo, em um circuito montado em Greenwich Park, que Zara ajudou a Grã-Bretanha a conquistar uma medalha de prata nesta terça-feira, na disputa por equipes (a Alemanha ficou com o ouro). Seu desempenho não foi dos melhores: sofreu uma punição por concluir o circuito acima do tempo e ainda perdeu pontos ao derrubar uma das barreiras.

De qualquer forma, ganhar uma medalha em casa, logo em sua primeira Olimpíada – em 2004 e 2008, perdeu a vaga por causa de contusões sofridas pelo seu antigo cavalo, Toytown – a transformou numa das estrelas destes Jogos, pelo menos para os britânicos, que adoraram ver uma integrante da realeza em ação na Olimpíada. Foi a primeira medalha olímpica conquistada por um integrante da família real britânica. Montando um cavalo com nome absolutamente perfeito para a ocasião, High Kingdom, Zara deixou os Windsor orgulhosos. A rainha não estava nas tribunas do parque, mas os primos William e Harry (acompanhados de Kate, como de costume), vibraram na arquibancada, ao lado das 50.000 pessoas que lotaram a arena e fizeram uma grande festa – dentro do que permite o protocolo do hipismo, pelo menos – para incentivá-la. Aflitas, a mãe Anne e a duquesa da Cornualha, Camilla Parker-Bowles, também acompanharam a tensa prova decisiva. A presença dos parentes famosos de Zara, aliás, foi mais do que adequada na prova equestre, um círculo em que as ligações familiares são bastante comuns. Sua mãe disputou a mesma prova em Montreal-1976, mas não conseguiu subir ao pódio. Mark Phillips, o pai de Zara, foi medalha de ouro, também na disputa por equipes, há quarenta anos, nos Jogos de Munique-1972 – hoje, divorciado de Anne, é o chefe da equipe equestre dos Estados Unidos, sétima colocada nesta terça (o Brasil ficou em nono). A mãe de Zara adorou: a princesa, cuja separação de Phillips foi terrível, não só viu a filha ganhar a prata como também saboreou o fracasso do ex. Na cerimônia de premiação, deu dois beijos em Zara antes de pendurar a medalha em seu pescoço.

 

. . ..


Whole Lotta Love
– Led Zeppelin, Led Zeppelin II (1969)
.

.

30/07/2012

às 17:37 \ O Brasileiro do Dia

O habitat da Girafa

Marcelo Melo (à esq.) e Bruno Soares na Olimpíada (Foto: Getty Images)

Marcelo Melo (à esq.) e Bruno Soares na Olimpíada (Foto: Getty Images)

Lugar de girafa é na grama. Uma rápida olhada na enciclopédia Britannica e lá está a confirmação: “esses mamíferos são vistos com facilidade em campos gramados no leste africano”. Está tudo certo, mas você me pergunta o que isso tem a ver com a Olimpíada? Eu digo sem pestanejar: tudo a ver. Afinal, temos uma girafa representando o Brasil no gramado do All-England Club. O habitat onde é realizado anualmente o tradicionalíssimo torneio de Wimbledon serve de palco para o tênis nos Jogos de Londres. O mineiro Marcelo Melo, ao lado do seu conterrâneo Bruno Soares, é o nosso representante no torneio olímpico de duplas. E a tal da girafa, meu caro? É isso, o Marcelo Melo é a Girafa.

Pelo menos é assim que o brasileiro é chamado entre os tenistas do circuito profissional. “Isso começou com um amigo nosso de circuito, o mexicano Santiago González que passou a me chamar de Girafa. O apelido foi ficando famoso e aí pegou, não teve jeito”, diz Melo. A alcunha tem a ver com o fato de Marcelo sustentar portentosos 2,03 metros de altura. Mas a familiaridade de Marcelo com a grama de Wimbledon não está apenas no gracejo um tanto infame do parágrafo anterior. Melo conhece muito bem o terreno do torneio pois em 2007, em dupla com também brasileiro André Sá, ele chegou a semifinal de duplas do Grand Slam britânico.

Melo e Soares passaram por uma pedreira na primeira rodada da chave. Enfrentaram os americanos Andy Roddick e John Isner – sim, aquele mesmo da partida mais longa da história, de 11 horas e 5 minutos, em 2010, justamente em Wimbledon. Mesmo jogando na mesma quadra número 18 da partida histórica de Isner e com a torcida predominantemente americana, os brasileiros conseguiram vencer por 2 sets a zero e deve jogar na segunda rodada nesta terça (isso se a infalível chuva londrina deixar, é claro).

O mineiro de Belo Horizonte tem 28 anos, é profissional desde 1998 e possui nove títulos na carreira. Hoje, ele é o duplista do Brasil mais bem ranqueado na lista da ATP: é o 24º colocado. Nem todo mundo sabe disso, e isso incomoda um pouco o brasileiro, que diz ficar um pouco chateado com a falta de reconhecimento. “Muitas vezes o foco fica todo no torneio de simples, mas podem ficar atentos. Ainda tem brasileiro na disputa da Olimpíada e o nosso objetivo é trazer uma medalha.” É bom mesmo ficar de olho na Girafa brasileira.

30/07/2012

às 15:27 \ Loja de Antiguidades

O segredo de Greg Louganis

A variedade de interesses nos Jogos Olímpicos é um fascinante exercício de diversidade. O atleta mais querido da torcida londrina é Tom Daley, de apenas 18 anos, dos saltos ornamentais, empertigado até o último fio de cabelo. Já o apelidaram de “Justin Bieber britânico”. Houve quem, jocosamente, o chamasse de “Neymar britânico”. Do cruzamento desses dois personagens, brotou um sujeito atarracado cuja primeira tentativa de medalha olímpica fracassou. Nesta segunda-feira, 30 de julho, Tom e seu companheiro de acrobacias da plataforma sincronizada de dez metros perderam a sincronia e ficaram com o quarto lugar. Até o primeiro-ministro David Cameron, presente ao Parque Aquático de Londres, ficou sem graça, se é mesmo capaz de Cameron ficar ainda mais sem graça do que já é. Tom Daley terá ainda outras chances de subir ao pódio, em provas individuais de plataforma e trampolim. Até lá, ficará a sombra do que pode vir a ser. Para não perder o fio da meada das comparações, ele anseia virar um Greg Louganis inglês.

O americano Louganis é um dos grandes personagens da Loja de Antiguidades que dá título a esta coluna. Maior atleta da modalidade (cinco medalhas olímpicas), ex-bailarino, teve uma dramática trajetória de cinema. Na Olimpíada de 1988, em Seul, Louganis protagonizou um dos momentos mais fortes da história dos Jogos. Ao realizar um duplo mortal e meio reverso no trampolim de três metros, ele não impulsionou o corpo à frente com a devida força. Ao dar o segundo rodopio, bateu a cabeça. O ruído assustou a plateia. Louganis conseguiu sair sozinho do tanque de saltos, foi atendido pelos médicos, recebeu uma sutura no couro cabeludo e meia hora depois tinha voltado à competição. Ganhou a medalha de ouro. Subiu no pódio com a cabeça raspada ao redor do ferimento e um sorriso constrangido de quem carregava um segredo.

Em 1993, Louganis publicou uma autobiografia reveladora. Seis meses antes da Olimpíada, ele tinha sido diagnosticado com HIV positivo. Apenas ele e seu treinador sabiam do resultado do exame. Ao relembrar o episódio, Louganis lamentou o risco ao qual, supostamente, submetera o médico que – sem luvas – o acompanhou. Era um tempo de muitas dúvidas a respeito das formas de contaminação da aids. Louganis admitiu ser homossexual, virou ator de teatro e hoje é consultor da equipe americana de saltos ornamentais. Tem ótima saúde. O médico que aplicou os pontos na cabeça do campeão fez testes e teve resultado negativo para HIV. Louganis – o Pelé do mergulho, e eis aqui uma comparação adequada – é o inalcançável modelo de Tom Daley.

No vídeo a seguir – em inglês – o acidente de Louganis no trampolim de 1988 e um outro, em 1979, quando ele bateu a cabeça na plataforma:

30/07/2012

às 12:53 \ Um Conto de Duas Cidades

Os anéis capazes de parar o trânsito

Após o primeiro fim de semana dos Jogos Olímpicos, já havia me preparado para escrever um texto sobre impacto do evento no dia a dia de Londres. No sábado à tarde tive que visitar Oxford Circus, o cruzamento de Oxford e Regent’s Street, duas das principais ruas de compras da capital. É uma região que naturalmente costumo evitar, pela grande aglomeração de turistas, especialmente em fins de semana. De lá, usaria o metrô para chegar ao Parque Olímpico. Tinha tudo para ser a pior experiência possível.

Surpreendentemente, não encontrei o caos que esperava. As ruas e lojas estavam cheias de turistas, mas nada além do normal. Se não me falha a memória, o movimento nas semanas que antecederam o Natal, por exemplo, era muito mais intenso. A nacionalidade dos visitantes, extremamente diversa, tampouco é novidade em Londres – a única diferença é a proporção dos que usam camisas e bandeiras de seus países. Entre Oxford Circus e Stratford, o metrô levou os mesmos 20 minutos que leva costumeiramente, sem que estivesse lotado por isso.

Mas antes de afirmar que os Jogos não causaram o impacto negativo que todos esperavam, decidi esperar pelo primeiro dia útil desde a cerimônia de abertura. Nesta segunda-feira, tive que dirigir da Zona Norte ao centro da cidade – um percurso de aproximadamente 8 quilômetros, que normalmente pode ser feito em, no máximo, 25 minutos. A primeira metade do caminho foi feita de maneira extremamente tranquila. No rádio, um repórter da BBC falava ao vivo da estação London Bridge e relatava um movimento bem menos intenso que o previsto.

Foi quando cheguei à segunda metade do caminho, próximo à região da estação King’s Cross St. Pancras. Congestionamentos são frequentes por lá, mas hoje a lentidão estava fora do comum. Enquanto os carros permaneciam parados em duas das pistas, uma delas permanecia vazia: era uma das Games Lanes, as faixas exclusivas criadas para a circulação de veículos oficiais dos Jogos Olímpicos. Os motoristas que se atreverem a usar a faixa receberão multas de até 130 libras.

A existência da faixa exclusiva fez com que meu percurso durasse cerca de 30 minutos além do normal. Durante todo o tempo de trânsito lento, fiz questão de contar quantos carros oficiais dos Jogos trafegaram por ela: dois ônibus e um veículo de passeio. Nesta segunda-feira, o prefeito Boris Johnson já anunciou que parte dos quase 100 quilômetros de ruas e avenidas da cidade transformados em corredor exclusivo para a “família olímpica” serão desativados, pelo baixo índice de uso.

Lembrei-me de uma pesquisa divulgada recentemente pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), segundo a qual 22% dos moradores do Rio de Janeiro levam mais de uma hora para chegar ao trabalho. Sem um transporte público eficiente como o de Londres, é difícil imaginar que o COI abra mão de ter faixas exclusivas na cidade em 2016. O leitor carioca pode se preparar para viver dias de trânsito intenso daqui a quatro anos – e para maldizer os anéis olímpicos pintados sobre o asfalto.

30/07/2012

às 12:48 \ London Calling

You Can’t Always Get What you Want

Tom Daley (Foto: Reuters)

O Centro Aquático do Parque Olímpico de Londres foi inaugurado no dia em que a cidade iniciou sua contagem regressiva de um ano para os Jogos. Para marcar a ocasião, o britânico Tom Daley, então com 17 anos, foi convidado a dar o salto inaugural na piscina, numa cena transmitida ao vivo para o mundo todo. Desde então, seu rosto de bom garoto ilustrou boa parte das reportagens, propagandas e campanhas que tratavam do evento. Xodó da torcida local desde que participou dos Jogos de Pequim, em 2008, quando tinha apenas 14 anos, Daley transformou uma competição que costuma ficar em segundo plano, os saltos ornamentais, numa das modalidades mais disputadas na fila pelos ingressos olímpicos. Nesta segunda-feira, ele finalmente estreou nos Jogos, na final dos saltos sincronizados, diante de um mar de bandeiras britânicas, acompanhado de Peter Waterfield. E a torcida da casa, já desanimada com as derrotas no ciclismo e na natação, e já cansada de ver o fracasso de seus atletas preferidos, teve de amargar mais uma decepção – e justamente com Daley, um queridinho do esporte britânico em busca de redenção nas piscinas de Londres.

A estreia olímpica de Daley nos saltos sincronizados, em Pequim, foi traumática. Ainda era um menino, e sentiu o peso de representar seu país nos Jogos. Não ajudou em nada o fato de seu colega de equipe, Blake Aldridge, ter atendido o celular para conversar com a mãe durante a competição. Ficaram na última colocação – e Aldridge colocou a culpa no garoto, dizendo que ele estava nervoso demais. A dupla foi desfeita, e Daley subiu de patamar. No ano seguinte à Olimpíada, foi campeão mundial nos saltos individuais da plataforma de 10 metros, o mais jovem atleta a conquistar o título. Nos últimos anos, amadureceu, ganhou massa muscular (ainda que continue aparentando menos idade do que tem) e ficou ainda mais famoso. Daley é uma espécie de Kaká britânico: é bom filho, bom aluno, participa de projetos de caridade e tem uma legião de garotas seguindo cada um de seus passos. No ano passado, perdeu o pai, de 40 anos, vítima de um tumor no cérebro. Num documentário exibido pela rede BBC a poucos dias da abertura dos Jogos, ele prometia conquistar uma medalha para honrar a memória dele. Na final dos saltos desta segunda, ele e Waterfield lideravam a briga pelo ouro até a metade da competição. Na quarta rodada, um péssimo salto fez a dupla britânica despencar para o quarto lugar, de onde não conseguiu mais sair. Daley ainda está no páreo por uma medalha, agora na competição individual. Depois do revés desta segunda, porém, terá de carregar nos ombros o peso de um país inteiro faminto por medalhas a cada vez que subir as escadas da plataforma de saltos.

 

.
.
..

You Can’t Always Get What you Want – Rolling Stones, Let it Bleed (1969)

.

29/07/2012

às 20:35 \ Torre de Londres

Um trem para Manchester

Old Trafford

O trem anterior havia partido dez minutos antes. Lotado. O que saiu pontualmente às 8h20 também da estação Euston, na região norte de Londres, neste domingo frio do verão britânico, estava ainda mais cheio. Todos os lugares ocupados. E com passageiros em pé ou sentados nos corredores. “Pedimos desculpas a todos”, repetiam pelos alto-falantes a cada parada. “Quem se sentir incomodado ou sofrer de claustrofobia poderá descer na próxima estação e aguardar na plataforma a composição seguinte, que provavelmente estará mais vazia.”

Mas as pessoas não desciam. Queriam mesmo que passassem logo as pouco mais de duas horas e meia de viagem para desembarcar em Manchester. Tudo por causa do velho futebol inventado na Inglaterra que teima, apesar da eterna má vontade do Comitê Olímpico Internacional, em ser há mais de 100 anos uma das maiores atrações de público – se não a maior – nos Jogos criados pelos gregos e ressuscitados pelos franceses.

Havia um séquito de brasileiros, formado pelos que estudam ou trabalham na Inglaterra, moradores de outros países europeus e turistas que travessaram o Atlântico para acompanhar a Olimpíada . Jovens, casais, mulheres em grupo e aqueles inevitáveis barrigudos, de bigode, boné amarelo, bermuda e corneta. Uns gatos pingados da Bielorússia, país que a imensa maioria não seria capaz de localizar no mapa e cuja seleção enfrentaria a nossa. E muitos, muitos fãs do mais popular dos esportes que queriam simplesmente presenciar ao vivo a segunda exibição da seleção pentacampeã mundial em sua campanha pela jamais alcançada medalha de ouro.

Poucos lugares seriam mais adequados para isso. O Old Trafford, local da partida, não é apenas um majestoso estádio. É um santuário da bola. Dono da casa, o Manchester United tornou-se um dos mais ricos, organizados e bem sucedidos clubes do planeta. A coleção de suas láureas é de tirar o fôlego. Só para citar algumas: já foi dezenove vezes campeão inglês, onze vezes campeão da Copa da Inglaterra, três vezes campeão europeu, duas vezes campeão mundial.

Quem ama o futebol fica arrepiado ao cruzar seus portões. Quem são os três heróis imortalizados lado a lado na escultura intitulada The United Trinity? A santíssima trindade George Best, Dennis Law e Bobby Charlon. E aquela outra figura imponente, de terno e gravata, no lado oposto? Sir Matt Busby, que treinou o time de 1945 a 1969. Ele é igualmente o nome de uma rua ao lado. E quem aparece em uma placa enorme em cima das arquibancadas que foram batizadas em sua homenagem? Sir Alex Ferguson, técnico da equipe desde 1986. Sim, um ficou no cargo por 24 anos. O outro está há 26. Por aí se vai entendendo uma das razões do poderio dos Diabos Vermelhos, como são conhecidos.

Para ir de um lado a outro do estádio é preciso atravessar o longo Túnel Munique. Trata-se de um comovente memorial da tragédia ocorrida em 6 de fevereiro de 1958, quando a delegação do Manchester United, ao voltar de Belgrado, capital da extinta Iugoslávia, fez uma escala na cidade alemã, onde aconteceria o triste acidente com o avião que a transportava. Fotos, documentos, reproduções de jornais da época e inscrições lembram que morreram 22 pessoas, entre os quais oito jogadores e sete outros membros da equipe. Sobreviveram 21 passageiros, incluindo Bobby Charlton, que jogaria 909 partidas com a camisa rubra e ganharia a Copa do Mundo de 1966, e o treinador Matt Busby, que chegou a receber a extrema-unção.

Perto de tais legendas, tratamento com o qual são sempre reverenciados, Beckham, Cantona, Cristiano Ronaldo e Rio Ferdinand, que defenderam o clube, entre inúmeros craques famosos, tornam-se coadjuvantes de sua história gloriosa. Um de seus atuais jogadores é o jovem Rafael, lateral-direito da seleção brasileira.

Depois de Cardiff, cidade do rúgbi, com seu gramado que se desfazia em tufos, o cenário foi perfeito para a segunda vitória canarinha na Olimpíada e para que Neymar, passado um bom tempo, voltasse a ser protagonista de um encontro importante. Fez um belíssimo gol ao cobrar maravilhosamente uma falta, antes havia cruzado na medida para Alexandre Pato marcar e depois daria um passe fulminante de calcanhar que permitiu a Oscar liquidar o jogo com um chutaço. Sir Matt Busby aplaudiria.

“Viu o menino? Com calma, ele vai acertando”, comentou comigo o técnico Mano Menezes ao deixar a sala de entrevistas e passar perto de todas aquelas estátuas dos deuses vermelhos no caminho no ônibus. O público já se dispersara. Era uma plateia do tamanho que hoje em dia raramente se vê nas nossas arenas. “Hoje vocês são 66 212 espectadores”, anunciou a locutora em francês, com indisfarçável orgulho na voz, informação repetida a seguir em inglês. (Rituais olímpicos: primeiro na língua de Proust, depois no idioma de Shakespeare.)

E olha que até não era tanta gente assim. Com seus 150 000 sócios que ficam até quatro anos na fila para comprar o season ticket, ingresso válido para a temporada inteira, o clube costuma ter uma média de 75 000 pagantes nos jogos que realiza no Old Trafford.

É por tudo isso que os trens partem tão lotados para Manchester.

29/07/2012

às 15:19 \ London Calling

Heroes

Foto: Reuters

Para um atleta, disputar os Jogos Olímpicos em seu próprio país é uma honra – e, às vezes, uma grande fria, como podem testemunhar alguns dos maiores ídolos britânicos depois dos dois primeiros dias de competições em Londres. Secundado pelo campeão da Volta da França, Bradley Wiggins, o ciclista Mark Cavendish arrastou uma multidão de torcedores às ruas do percurso de sua prova, no domingo. Era favorito ao ouro, mas passou de estrela a fiasco em 40 segundos, o tempo que o separou do vencedor da prova. “Demos nosso melhor, mas não sobrou combustível no tanque. Somos seres humanos”, lamentou, aparentemente em referência às manchetes de jornais que tratavam os ciclistas do país como super-heróis após a vitória na França. Se no sábado a imprensa local destacava o orgulho britânico por causa da belíssima cerimônia de abertura de sexta, no dia seguinte a notícia já era a apreensão pela falta de medalhas conquistadas logo no primeiro dia dos Jogos. A cobrança foi amenizada já na manhã deste domingo, quando, também no ciclismo, Lizzie Armitstead conquistou a prata na prova de estrada, colocando, enfim, os britânicos no quadro de medalhas.

Lizzie, de 23 anos, perdeu o ouro no sprint final, diante do Palácio de Buckingham, depois de um exaustivo caminho de 140 quilômetros – a holandesa Marianne Vos foi a ganhadora. Ainda assim, virou uma heroína instantânea. Fanático e extremamente crítico, o torcedor britânico – como quase qualquer outro, com raríssimas exceções – eleva seus ídolos ao olimpo ou o lança nas profundezas do inferno num piscar de olhos. Uma diferença, porém, chama atenção quando se observa a relação do público local com seus atletas favoritos. Para um britânico, a derrota é tolerada – porque, é claro, ninguém gosta de perder – desde que o desempenho tenha sido bravo e honroso. Pense na imagem de um leão, o animal a que os britânicos mais recorrem na hora de representar seu próprio país. Pois bem: é assim que um atleta precisa se comportar para merecer o status de ídolo no país desta Olimpíada. Na festa de abertura que tanto apelou ao orgulho da nação, a delegação da casa desfilou ao som de Heroes. Na letra da canção, David Bowie, londrino do distrito de Brixton, fala em “roubar o tempo por apenas um dia” para “ser um herói para todo o sempre”. Para os 541 atletas britânicos que formam a maior equipe nacional destes Jogos, é disso que se tratam essas duas semanas.

 

.
.
..

Heroes – David Bowie, Heroes (1977)

.

 

Serviços

 

Assinaturas



Editora Abril Copyright © Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados