09/05/2012
às 6:30 \ Diário OlímpicoO futuro do doping
Coube a Hans-Gunnar Liljenwall o papel de primeiro atleta desclassificado dos Jogos Olímpicos pelo uso de substâncias proibidas. Em 1968, na Cidade do México, o sueco bebeu duas cervejas para se acalmar antes da prova de tiro esportivo do pentatlo moderno. A Suécia teve que devolver o bronze por equipes que o ébrio Liljenwall havia ajudado a conquistar.
Desde então o doping evoluiu para muito além de uma inocente cervejinha. O caso mais icônico dos Jogos Olímpicos é a final dos 100 metros rasos de Seul 1988, quando o canadense Ben Johnson bateu o recorde mundial ao cruzar a linha de chegada em 9.79 segundos. Três dias depois, o atleta foi flagrado pelo uso de anabolizantes. Outros finalistas daquela prova acabaram envolvidos em escândalos de doping em algum momento de suas carreiras – inclusive o americano Carl Lewis, que herdou o ouro após a desclassificação de Johnson.
Por mais qualificadas que sejam as agências que investigam o uso de substâncias proibidas, há sempre a impressão de que o doping está um passo à frente. O espantoso desempenho de atletas da Alemanha Oriental nos anos 70 e 80, por exemplo, foi explicado anos depois pela existência de um esquema sistemático de doping, que na época não havia sido revelado pelos testes.
Por isso mesmo, as amostras colhidas nos Jogos Olímpicos são congeladas e mantidas durante oito anos, para que possam ser testadas caso surjam novos métodos de testes. É o que está prestes a acontecer agora, às vésperas do dia 29 de agosto de 2012. A data marca os oito anos do encerramento dos Jogos de Atenas 2004, e é o limite para que as amostras guardadas em Lausanne, na Suíça, sejam testadas novamente.
Ontem o presidente da comissão médica do Comitê Olímpico Internacional, Arne Ljungqvist, confirmou a possibilidade de que as amostras sejam reexaminadas. Atenas 2004 entrou para a história como a edição recordista de testes positivos, com 26 atletas. Desde então, as técnicas para detectar o uso de insulina e hormônio do crescimento evoluíram, e mais atletas poderiam ser desclassificados.
No último domingo, o jornal The Observer publicou uma entrevista com o professor de bioquímica Chris Cooper, da Universidade de Essex, que acaba de lançar o livro Run, Swim, Throw, Cheat: The science behind drugs in sport. Cooper afirma que “é preciso ser muito estúpido para ser pego nas Olimpíadas”, uma vez que a maioria das drogas que de fato melhoram o desempenho dos atletas não precisam ser usadas durante os Jogos.
Na entrevista, Cooper afirma que esteroides podem fazer grande diferença para mulheres, mas nem tanto para homens. “Se dopássemos Usain Bolt, ele correria mais rápido? É provável que não”, diz o autor do livro. Ele também relativiza o real efeito de determinadas substâncias no desempenho dos atletas, como descongestionantes e cafeína.
A discussão é bem atual: na semana passada, o presidente da Agência Mundial Antidoping (WADA), John Fahey, admitiu que o uso de maconha pode em breve deixar de ser considerado doping, a não ser em esportes em que de fato possa oferecer alguma vantagem ao atleta – como em competições de tiro e golfe, em que é preciso ter firmeza nas mãos.
O Observer também publicou um trecho do livro em que Chris Cooper aponta um provável desafio ao controle antidoping nos próximos anos: identificar modificações genéticas capazes de melhorar o desempenho de atletas. O texto (em inglês) pode ser lido aqui.
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