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O que fazer com a criança que ‘molha a cama’

segunda-feira, 29 de junho de 2009 | 7:40

O fato de crianças escolares entre 8 e 14 anos urinarem na cama durante a noite, de forma involuntária (enurese), é bem mais comum do que se julga. Em estudo conduzido nos Estados Unidos 20% dos escolares no (primeiro grau) apresentaram, ocasionalmente, enurese noturna. Uma minoria, ou seja, 4% dos escolares molham a cama mais de quatro vezes por semana. O fenômeno é muito mais comum em meninos do que em meninas (meninos 7 a 9%, meninas 3 a 6%). As causas que levam a criança à molhar a cama durante o sono podem ser originarias de distúrbios emocionais. É bem conhecido o fato de que, para uma criança em idade escolar, o nascimento de um irmão ou uma irmã leva as atitudes de ciúmes, sensação de perda da exclusividade de ter os pais só para si, o seu espaço na casa terá de ser dividido e, mesmo com toda a preparação da criança durante a gravidez, os sintomas emotivos surgem no decorrer do nascimento, da amamentação e do desenvolvimento do irmão.

Havendo uma causa orgânica, por exemplo, uma bexiga de baixa capacidade de armazenamento, a criança passará a não controlar a emissão de urina à noite. Pais pouco compreensivos, mal informados, ou que não falam com o pediatra, podem piorar a situação, zangando-se com a criança, chamando-a de nomes impróprios, apontando a vergonha de ter a cama molhada, enfim, piorando o sentimento de culpa da criança. Outro rude golpe emocional para criança é a separação dos pais, o fato dos pais darem mais sinais de afeto e amor a outro irmão criando um ambiente emocional que predispõe a enurese.

Mecanismos que favorecem a enurese

Embora pareça trivial o fato de a criança ter constipação intestinal este é um fator desencadeante de enurese. A massa fecal, no intestino chamado de sigmoide, no lado esquerdo do abdômen pode comprimir a bexiga, reduzindo a sua capacidade de armazenar a urina. Mais uma vez, se a criança já tem uma bexiga de baixa capacidade este fator adicional irá provocar a emissão involuntária noturna de urina.

A constipação intestinal pode chegar a 36% das crianças que são trazidas ao médico. Por outro lado, a observação cotidiana do hábito de tomar líquidos indica que a maioria dos escolares não ingere líquidos durante a manhã e boa parte da tarde. Chegam em casa com muita sede, pelos exercícios comuns da vida escolar, e ingerem a maior parte dos líquidos necessários ao fim da tarde e à noite. Tal fato irá propiciar uma bexiga muito cheia antes de dormir e a criança deve ser instruída para esvaziá-la antes de ir para a cama. No entanto o resíduo de urina vesical é maior em criança com baixa capacidade volumétrica da bexiga e tal fato pode levar a enurese.

Infecções urinárias (cistite) mais comum nas meninas é outra causa frequente de enurese. Dor à micção, ardor durante o ato micional, frequentes idas ao banheiro são sintomas de cistite. O exame de urina irá confirmar a infecção que deve ser prontamente tratada.

Exames que podem ajudar no diagnóstico

É imperativo o exame completo da urina colhida, se possível, em frasco adequado e no laboratório. Com este exame afasta-se a presença de açúcar na urina (diabetes), infecção urinária (cistite) e doenças renais. Outro exame muito importante é a ultrassonografia da bexiga, que deve estar cheia. Mede-se a capacidade da bexiga, destacando-se se a criança tem baixa capacidade de armazenar líquido. Verifica-se, igualmente, se após a criança esvaziar a bexiga, quanto de resíduo permanece dentro da bexiga. No caso de haver resíduo maior que o normal, indica que a criança é incapaz de esvaziar completamente a bexiga o que, inevitavelmente, levará à emissão noturna.

Tratamentos aconselhados para a enurese

A terapêutica de enurese visa fazer cessar a emissão involuntária durante a noite e suas consequências para a criança, a qual se sente envergonhada, com baixa autoestima, e diferente de outras crianças. Três tipos de tratamentos deverão ser considerados. A decisão de iniciar a terapêutica nunca deverá ser baseada na afirmativa de que quando crescer este problema de molhar a cama irá desaparecer. O tratamento comportamental é baseado no fato de que a criança deverá ter hábitos intestinais e urinários normais durante a vida diurna.

A criança deverá esvaziar a bexiga antes de dormir, ingerir pouco líquido até o momento de ir para a cama e ter todo apoio psicológico dos pais e irmãos. A motivação para dar continuidade a um programa físico e emocional demanda um bom terapêutica (psicológico) e  pais cooperativos. O mais realista é aguardar resultados positivos lentos e contínuos, mas sempre elogiados. Estudos realizados em crianças com enurese indicaram que cerca de 60% tiveram “cura” da enurese em seis meses ou mais.

O método do alarme

O método do alarme deve ser um dos primeiros a ser utilizado, pois sua eficácia é excelente. Neste método um dispositivo colocado na cama emite um alarme sonoro quando o líquido vesical é vertido. Com o alarme a criança e os pais acordam. Cria-se o que se chama de reflexo condicionado. A eficiência deste sistema é surpreendente: em mais de 3.000 crianças estudadas com enurese o alarme conseguiu a cura da enurese em 65% das crianças. As que não conseguiram resultado positivo tinham o volume vesical muito menor do que o esperado para a idade. Depois que o sistema de alarme funciona a imensa maioria das crianças deixa de apresentar a enurese.

Métodos que empregam remédios

O nosso corpo secreta hormônio, pela hipófise posterior, que é chamado de hormônio antidiurético. A indústria farmacêutica já produz um agente químico similar chamado de desmopressina, que deve ser ingerido por via oral com a recomendação da criança não tomar água antes e após dormir (isto é, acordar para tomar água). Isto porque esta substância pode reter excesso de água levando a que se chama de “intoxicação aquosa” A desmopressina é altamente eficaz na eliminação da enurese (68%) e, novamente, as crianças que não tiveram o problema resolvido tinham diminuta capacidade vesical.

Outro medicamento que pode ser empregado é um tipo de antidepressivo chamado, genericamente, de tricíclico, que tem o nome de imipramina. O consenso geral é que este medicamento somente deve ser usado quando os outros métodos falharam, não foram aceitos pelos pais ou existe contra indicação por qualquer motivo.

Por Geraldo Medeiros

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