PUBLICIDADE

O teste do pezinho

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008 | 18:46

Todos nós sabemos a ansiedade que cerca o nascimento do primeiro filho. No caso de ser o primeiro neto, então, temos esta grande expectativa multiplicada por dois, sem contar os futuros tios e tias, amigos e conhecidos. A futura mamãe faz o pré-natal adequadamente, segue todas as recomendações do obstetra, controla o seu peso, vê o bebê na ultra-sonografia e muitas vezes já sabe se é menino ou menina, embora centenas de milhares de casais deixem essa surpresa para o dia do nascimento.

Nascido o bebê, muitas famílias coletam o sangue do cordão, pois nunca se sabe o que o futuro nos aguarda. O pediatra examina a criança e tudo parece estar perfeito, dentro do esperado. A mãe já leva a criança ao peito e uma nova vida se inicia com o debate de como vai se chamar o herdeiro ou herdeira. Já no terceiro dia de vida o pediatra diz que é necessário fazer o “teste do pezinho”. A mãe se sobressalta e pergunta: “Mas ele tem algum defeito no pé?”. Nada disso. O teste do pezinho é o nome popular de um exame em que gotículas de sangue são coletadas do calcanhar do recém-nascido e absorvidas em um papel especial para análise de hormônios, substâncias químicas e hemoglobina. O objetivo é verificar se o recém-nascido é portador de alguma doença de cunho genético, hereditário.

Como surgiu esse importante exame

Os pediatras já sabiam que uma criança entre cada 3.000 nascidas vivas poderia ter doença genética afetando a tireóide ou o metabolismo de um aminoácido, a fenilalanina. As conseqüências da falta de diagnóstico dessas duas enfermidades metabólicas têm um desfecho trágico: a criança não consegue maturar o seu sistema nervoso central e pode ficar com rebaixamento mental irreversível, ou seja, com dificuldade de aprender e de falar, às vezes com problemas de surdez e crescimento somático atrasado (não cresce, fica “baixinha” para a idade).

Nada disso acontece quando o diagnóstico da falta de tireóide é feito logo nas primeiras semanas de vida e a criança toma o remédio — um simples comprimido — que lhe permite desenvolver-se normalmente e atingir maturidade normal do sistema nervoso central. A dificuldade está em fazer o diagnóstico no recém-nascido, logo nas quatro primeiras semanas de vida. São poucos os sinais e sintomas que caracterizam a falta de tireóide no bebê: Criança muito quieta, que quase não chora, apresenta icterícia por muito tempo, tem hérnia do umbigo, não consegue sugar o leite materno, entre outros.

Embora o conjunto dos sintomas permitisse o diagnóstico, os médicos pediatras notavam que só entre o terceiro e o sexto mês de vida é que se descobria que a criança estava com falta de tireóide. Já era muito tarde: algumas anormalidades cerebrais seguramente estavam presentes de forma irreversível. Em 1974, um médico canadense, Jean Dussault, introduziu a possibilidade de dosar hormônios da tireóide em uma gota de sangue absorvida em papel. Essa metodologia permite que a gota de sangue absorvida no papel permaneça estável, e torna possível enviar ao laboratório milhares dessas amostras, pelo correio, sem necessidade de resfriamento.

O teste torna-se realidade

O doutor Dussault testou 250.000 crianças nascidas no Canadá e detectou cerca de 600 casos de crianças com defeito na tireóide, todos prontamente tratados e hoje totalmente normais com a ingestão do comprimido diário de L-Tiroxina. No Brasil, o teste do pezinho começou com o médico Benjamin Schmidt, da Apae de São Paulo, em 1974. Hoje a Apae é um dos centros mais eficientes e de maior experiência na detecção de doenças neonatais.

Programa Nacional de Triagem Neo-Natal

Foi durante a gestão de José Serra no Ministério da Saúde que se criou, organizou e deu força para que as 3,5 milhões de crianças nascidas vivas no Brasil tivessem acesso ao teste do pezinho. Em cada estado formaram-se núcleos de atendimento ao recém-nascido, com laboratório, equipe médica e assistente social, todas chefiadas por uma coordenadoria treinada e eficiente. O objetivo maior era tornar o teste do pezinho totalmente acessível aos bebês do país. Só para comparar, menos de 50% das nossas crianças faziam esse teste em 2000; em 2006, atingimos 81,6% das crianças, o que já é um grande feito. Apesar disso, ainda é preciso melhorar nossas estatísticas.

Só metade das coletas do teste do pezinho é feita até o sétimo dia de vida, como recomendado. Mais de 50% das crianças são submetidas ao teste na segunda ou até na quarta semana pós-parto, o que é muito tardio. Além disso, o início de tratamento está longe do ideal — acontece, em média, ao redor de 43 dias, quando o ideal seria menos de 30 dias. Alguns estados são campeões na organização e na eficiência do teste do pezinho, como Paraná, Santa Catarina e Minas Gerais.

O mais importante, contudo, é que os responsáveis pelo teste do pezinho se reúnam periodicamente para debater os problemas regionais e dificuldades para localizar a criança que precisa de tratamento. É fácil prever que, na imensidão da Amazônia, sem muitos meios de comunicação, a assistente social terá dificuldade para localizar uma criança com defeito na tireóide e que precisa ser tratada. O mesmo ocorre em estados do Nordeste. Mas com o apoio da população e com o conhecimento cada vez maior da importância do teste, nós teremos, em breve, a quase totalidade das nossas crianças testadas — e, se for o caso, tratadas com êxito, evitando seqüelas irreversíveis.

    1 comentário em “O teste do pezinho”

    1. Juliana disse:

      Olha,eu adorei essa pesquisa,me ajudou muito obrigada!

    Comentar

    Powered by WP Hashcash