
Vou iniciar este artigo com um exemplo clínico, relativamente comum, uma mulher de 30 anos, que se queixa de falta de menstruações desde que parou de tomar pílulas anticoncepcionais há 6 meses. Ela conta também que sua menarca (primeira menstruação) foi normal (12 anos), seguindo-se períodos menstruais também normais. Aos 19 anos começou a usar a pílula anticoncepcional. O exame clínico é normal, sem excesso de pelos ou acne e peso normal. O diagnóstico a ser considerado é de insuficiência ovariana primária.
Os ovários são estruturas gonadais que, sistematicamente, a cada mês, têm um óvulo que se matura, secretando, progressivamente, níveis mais elevados de estradiol, até o 14° dia, quando ocorre a ovulação. Com a ovulação, o óvulo após 2 semanas migra para a trompa iniciando a produção de progesterona (o segundo hormônio ovariano). Na ausência de fecundação o óvulo é eliminado junto com a perda de sangue (menstruação) e novo ciclo se repete a cada 28 dias.
Estes ciclos são contínuos durante a vida da mulher (exceto durante a gravidez) até a menopausa, que normalmente ocorre por volta dos 50 anos (mais ou menos 4 anos). É comum, no entanto, mulheres que menstruaram por vários anos acima desta média.
Insuficiência ovariana primária
Este é o nome do quadro que pode justificar uma mulher jovem – como a do exemplo acima – parar de ovular e, portanto, de ter menstruações com idade inferior a 40 anos. Essa situação é totalmente diferente da menopausa (quando não existem óvulos disponíveis), porque 50% das mulheres com insuficiência ovariana podem ter ainda ovulação, mas de ocorrência totalmente imprevisível. Confirmou-se que entre 5% e10% destas mulheres podem conceber e conduzir uma gravidez normal após o diagnóstico ser estabelecido.
Em 90% dos casos de insuficiência ovariana a causa é desconhecida. Alguns defeitos genéticos em determinados genes foram apontados como possibilidade, mas são raros eventos e não explicam porque a maioria das mulheres deixa de ter função ovariana normal. Algumas anormalidades no cromossoma X podem também causar insuficiência ovariana ao lado de outros sintomas e sinais, mas é um fenômeno raro.
Duas possibilidades foram aventadas. A primeira é a disfunção essencial do ovário em que algum agente patológico ou processo interveniente impede a maturação do folículo ovariano e, portanto, não existe a cíclica maturação de óvulos. Outra possibilidade é a teoria de que as mulheres com insuficiência ovariana têm, desde sua concepção, e desde a vida embrionária, uma escassa quantidade de óvulos comparativamente a mulheres normais.
Como é feito o diagnóstico
Inicialmente deve-se verificar o estado geral de saúde da mulher jovem que parou de menstruar. Verificar se existe alguma forma de anorexia, stress excessivo, gotas de leite secretadas pelas mamas, excesso de pelos e acne indicando inadequada presença de hormônio masculino, diabetes não controlado, exercícios extenuantes e falta de função da glândula tireóide (hipotireoidismo).
Para iniciar uma investigação laboratorial completa, as causas indicadas acima devem ser excluídas. Os exercícios extenuantes de atletas profissionais ou de maratonistas amadoras que correm horas por dia como treinamento podem levar à amenorréia.
Convencionou-se que o diagnóstico de insuficiência deve ser considerado quando a mulher jovem deixa de menstruar por 4 a 6 meses sem explicação causal para o fato. Sintomas de falta de hormônio feminino (estradiol) surgem em algumas pacientes – fogachos e calores acompanhados por sudorese (idênticos aos de menopausa), distúrbios do sono, e dificuldade de relacionamento sexual por queda de libido e falta de lubrificação vaginal adequada.
Curiosamente existe, em boa parte das mulheres, uma história familiar de falta de menstruação enquanto a mulher é jovem. Tal ocorrência foi notada em cerca de 15% das pacientes e possivelmente, o fato está ligado a fator genético ainda não identificado. Estas pacientes devem ter uma investigação mais concentrada em doenças autoimunes.
Exames laboratoriais
É preciso investigar também a possibilidade de secreção anormal de prolactina (um hormônio da hipófise que induz secreção de leite pelas mamas). E ainda: mensurar os hormônios de tireóide (T4 livre, T4 total, T3 total) e o TSH secretado pela hipófise, e mais importante, os dois hormônios da hipófise que são os responsáveis pela estimulação dos ovários, isto é, o LH e o FSH.
LH é o hormônio luteinizante e o FSH é o hormônio folículo estimulante. No caso da insuficiência ovariana o FSH se encontra elevado, tal como na menopausa e o hormônio feminino, estradiol, geralmente (mas não sempre) em valores muito baixos.
Como tratar o problema
É óbvio que a falta de menstruações em mulher jovem leva a alterações psicológicas de grau variável e este aspecto não pode deixar de ser considerado. Há imperiosa necessidade de uma assistência clínica e psicológica adequada, principalmente se a paciente em idade fértil estiver pensando em engravidar.
A reposição hormonal com estrógenos é totalmente indicada. Sabe-se que as mulheres que não fizeram reposição (por motivos vários) evoluíram para osteoporose e fraturas ósseas importantes mais tarde na vida. Ambos os hormônios, estradiol e progesterona, devem ser administrados para recomeçar os ciclos menstruais e o restabelecer vida sexual adequada. Além dos hormônios acima indicados deve-se fazer reposição de cálcio e considerar o uso de fosfatos. Se a função tireoidea for anormal deve ser corrigida com o uso de Tiroxina todos os dias.





