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Arquivo da categoria ‘Obesidade’

Obesidade mórbida e infertilidade masculina

domingo, 27 de dezembro de 2009 | 22:44

homem-obeso

A obesidade mórbida altera níveis de hormônios  sexuais

No homem de peso normal, com índice de massa corporal ao redor de 25kg/m², existe estímulo normal das gônadas por hormônios vindos da hipófise (chamados de LH e FSH), que induzem produção de hormônio masculino (testosterona) bem como estimulam o amadurecimento das células que irão se desenvolver como espermatozóides. Ambas as funções testiculares (testosterona e espermatozóides) são independentes, isto é, vinculam-se a diferentes fontes de estimulação para atingirem patamares de normalidade.

A obesidade de grande porte, com índice de massa corporal acima de 40kg/m², é prejudicial para a fertilidade masculina. O obeso mórbido pode conservar a capacidade erétil, pode ter libido normal, mas tanto o teor de hormônio masculino quanto a quantidade de espermatozóides podem estar em níveis baixos. Isso leva o obeso a ser considerado como relativamente infértil.

Mecanismo da infertilidade do obeso mórbido

A secreção de testosterona é realizada por um grupo de células especializadas do testículo, chamadas de células de Leydig. Estas sob influência dos hormônios da hipófise (LH e FSH) são estimuladas a secretar testosterona. Por outro lado, os hormônios da hipófise são essenciais para o estímulo de células germinativas culminando em reserva normal de espermatozóides.

Para a fecundidade masculina há necessidade de que o número de espermatozóides a cada ejaculação atinja valores ideais. A testosterona também estimula a espermatogênese além de manter intacta a libido (desejo sexual) e o mecanismo de ereção. No entanto pequena porção da testosterona é transformada em hormônio feminino (estradiol) em condições normais. Tal fenômeno é realizado por uma enzima chamada aromatase. Quando o homem chega a peso muito acima do normal, acima de 140-160 quilos, e índice de massa corporal maior do que 40kg/m², elevam-se os níveis desta enzima aromatase.

Consequentemente maior quantidade de testosterona é transformada em estradiol (hormônio feminino). E assim, o excesso de estradiol irá bloquear a hipófise (diminuem os estímulos para o testículo produzir testosterona e espermatozóides). Além disso, o excesso de hormônio feminino (estradiol) pode induzir aumento de mamas, reduzir a libido, causar disfunção erétil e infertilidade.

 O tratamento da infertilidade do obeso

É óbvio que o primeiro passo a ser dado seria a redução de peso por métodos clínicos (dieta hipocalórica, medicações apropriadas, exercícios aeróbicos) ou por opção a métodos cirúrgicos (cirurgia para redução de peso). Além disso, o médico pode usar medicamento que inibe a tal enzima chamada aromatase.

Este medicamento (anastrazol) bloqueando a aromatase irá impedir a conversão de testosterona em estradiol (hormônio feminino). Com a queda do estradiol a hipófise volta a funcionar produzindo LH e FSH, hormônios que estimulam os testículos a produzirem espermatozóides e testosterona. Em poucos meses, mesmo com perda de peso modesta de 10 a 20kg a nova configuração hormonal de queda de estradiol e maior secreção de hormônio masculino irá restaurar o vigor masculino e maior produção de espermatozóides.

Quanto ao problema do peso: o obeso mórbido tem a tendência a voltar a ser “muito gordo” com seguidos tratamentos clínicos e medicamentosos. Possivelmente a melhor opção, nas atuais circunstâncias, é considerar a cirurgia bariátrica para uma solução imediata do problema de grande excesso ponderal.

Por Geraldo Medeiros

Obesidade e o risco de câncer

segunda-feira, 13 de julho de 2009 | 7:56

Nos últimos anos, congressos médicos dedicados ao estudo da obesidade apontam para risco maior de câncer na população com obesidade. As principais suspeitas recaem sobre câncer de mama (na fase pós-menopausa), câncer do cólon (intestino grosso) câncer no endométrio (a camada de células que cobre o útero), o esôfago e os rins.

Nas estatísticas oficiais norte-americanas notou-se que 41.000 novos casos de câncer ocorriam em pessoas com índice de massa corporal (IMC) acima de 30. O IMC é um índice obtido da divisão do peso da pessoa (em quilos) dividido pela altura (em metros) elevado ao quadrado. Por outro lado, quando se procurou saber a causa de morte por câncer (de várias partes do corpo) notou-se que 14% tinham excesso de peso. Este número é mais elevado em mulheres onde 20% apresentavam algum tipo de câncer.

Câncer de mama em obesas

As mulheres com excesso de peso, desde que em idade fértil não apresentam maior prevalência de câncer de mama comparativamente às mulheres de peso normal. No entanto após a menopausa as obesas têm o dobro da prevalência de câncer de mama. O risco de morte por câncer de mama após a menopausa é muito maior nas obesas. Para se ter uma idéia do que poderia ser evitado (câncer de mama e morte) estima-se que 18.000 mulheres por ano teriam evitado o câncer de mama e morte se o seu peso ficasse dentro de limites razoáveis na fase pós-menopausa.

Diante deste número, os pesquisadores e epidemiologistas passaram a investigar quais os fatores que levam as mulheres obesas menopausadas a terem maior risco de câncer de mama. O primeiro ponto a ser considerado foi a dificuldade dos métodos de imagem de detectar nódulos mamários em mulheres obesas. Tanto a mamografia como a ultrassonografia têm dificuldade de visualização de nódulos em mamas muito volumosas.

Outro fator considerado importante é o excesso de hormônio feminino (estrogênio) nas obesas. Antes da menopausa os hormônios femininos (estradiol, progesterona) são produzidos pelos ovários, em ritmo cíclico, com ovulações mensais. Com a menopausa cessam as ovulações, mas os ovários podem secretar estrógeno por alguns meses.

Após algum tempo os ovários deixam de secretar o estradiol e os sintomas da menopausa podem surgir. Nas mulheres de peso normal ou pouco elevado a massa de células com gordura (adipócitos) é pequena. Mas nas obesas o grande número de adipócitos pode levar a uma elevada produção de hormônio feminino. Isto porque os adipócitos contêm uma enzima (aromatase) que converte outros hormônios circulantes em estradiol e estrona. Este excesso de estrógenos (particularmente estrona) tem sido considerado como um fator cancerígeno para as mamas.

Câncer de endométrio

A camada de células que recobre o interior do útero tende a regredir em espessura e número de células após a menopausa. No entanto as estatísticas apontam aumento dos casos de câncer do endométrio (útero) em obesas comparativamente às pessoas de peso normal. Novamente tal prevalência mais elevada de câncer do útero em obesas está muito ligada ao excesso de hormônios estrogênicos (estradiol, estrona) produzidos pelas células adiposas.

Os hormônios femininos são estimuladores da proliferação da camada interna do útero. O estímulo permanente para crescimento destas células endometriais pode gerar o câncer do útero. Muito se discute sobre o papel, também estimulante, da insulina. Em mulhres obesas, com dieta rica em doces, massas, batatas, farináceos (carboidratos) existem aumento da insulina, hormônio do pâncreas que regula o açúcar circulante (glicemia). A insulina muito elevada em conjunção com excesso de estrógenos cria o ambiente hormonal mais propício de desencadear câncer do endométrio.

Câncer de cólon

Em mulheres obesas, com baixa atividade física, hábitos alimentares restritos a carboidratos e alguma carne, ave, peixe, mas nenhuma verdura, legumes e frutas, surgem condições favoráveis para o câncer de cólon. Primeiro porque a dieta é muito pobre em fibras e, a partir deste fato, surge a constipação intestinal crônica.

Foi documentado, em exames por colonoscopia (visualização direta do intestino) que os pólipos (crescimento de pequenos tumores, geralmente benignos) são mais comuns em obesas do que em mulheres de peso normal. Além disso, o excesso de carboidratos (muitos doces, farináceos, batatas, etc) desde que haja concentração de gordura na área abdominal, leva a um quadro de excesso de insulina.

Sabe-se que o câncer cólon-retal (do intestino grosso e recto) é mais frequente em associação com excesso de insulina e outros hormônios a ela relacionados (IGF-1). As obesas também têm baixa produção de um ‘ônibus’ que transporta hormônios femininos pela circulação. A falta deste ‘ônibus’ chamado de SHBG leva ao fato de que o estradiol e a estrona estão mais elevados na sua forma livre, isto é, pronto para atuar seja na massa, no endométrio e na área do cólon.

O excesso de energia acumulada e risco de câncer

Em toda mulher obesa existe grande quantidade de células adiposas, repletas de gordura. É um excesso de energia calórica acumulada. Este excesso de gordura leva a múltiplos efeitos no metabolismo de outras células, principalmente no maior nível de radicais livre e possível dano ao DNA das células, induzindo a possibilidade de câncer. Em conclusão, mulheres de peso normal, com dieta rica em fibras, pouco carboidrato e muito exercício, terão menos chance de serem vítimas de vários tipos de câncer.

Por Geraldo Medeiros

A gordura que emagrece

segunda-feira, 1 de junho de 2009 | 7:56

A gordura no corpo humano, assim como em todos os vertebrados, não pode ficar “solta” no meio dos tecidos. Para que isso não ocorra a natureza criou um tipo especial de célula chamada adipocito (adipo = gordura, em grego).

Os adipocitos, no corpo humano, são totalmente diferentes quanto a sua distribuição, localização, variando de acordo com o sexo feminino ou masculino. A distribuição de gordura no sexo feminino é bem característica, localiza-se no abdômen inferior, nas áreas laterais das coxas (culotes) e nos glúteos. Essa disposição de gordura envolvendo toda a bacia do corpo feminino tem como finalidade a proteção de uma eventual gravidez, pois forma um “colchão protetor” em torno do útero.

No corpo masculino a gordura, quando excessiva, se acumula no abdômen. Aí encontramos dois tipos de células gordurosas. Uma facilmente palpável que é a gordura subcutânea e outra que se encontra entre as alças intestinais, formando cordões de células adiposas -chamadas de gordura visceral.

Esta gordura visceral é a mais perigosa, pois produz colesterol e lipoproteínas que irão formar placas de gordura dentro das artérias coronárias. É consenso unânime entre cardiologistas e endocrinologistas que o acúmulo de gordura abdominal do tipo masculino é aquela que oferece maior risco de futuro problema coronariano, ou seja, o infarto do miocárdio.

As células adiposas secretam vários hormônios e produtos químicos
Dados muito recentes de pesquisas médicas indicam que as células adiposas formam um sistema de secreção de várias substâncias, ligadas à coagulação do sangue, à manutenção do peso, à interligação entre o tecido adiposo e o cérebro, além de hormônios.

Um exemplo é o fato de que as células adiposas femininas na época da menopausa passam a formar um hormônio feminino chamado estrona (que é muito semelhante ao estradiol, clássico hormônio feminino). A produção de estrona pelo tecido adiposo irá aliviar os sintomas desagradáveis da menopausa feminina, aliviando os fenômenos de sudorese noturna e calores.

Por outro lado, as células adiposas em ambos os sexos produzem uma substância muito importante chamada leptina. A leptina se dirige ao cérebro onde atua em área especial chamada hipotálamo, avisando que já existe um excesso de gordura acumulada e que o indivíduo deve moderar a ingestão de comida. Esse circuito bioquímico entre a gordura acumulada e o cérebro funciona muito bem para aqueles felizes seres humanos que são, por natureza, sempre magros.

No gordinho parece que a leptina não consegue ter muito sucesso no sentido de comunicar-se com o cérebro, induzindo menor ingestão de calorias. Isso se deve à ausência ou defeito no receptor de leptina no hipotálamo.

Gordura acumulada é reserva de energia

O tecido adiposo é a nossa reserva de energia. Ele fornece “combustível” para que o músculo possa se contrair, utilizando a gordura liberada pelo tecido adiposo.  É o que chamamos de “queima de gordura”, ou em linguagem médica o gasto energético. A comunidade médica que lida com o problema do excesso de peso está muito interessada em que haja maior gasto energético para propiciar maior “queima” de gordura. O esquema é bastante simples: quanto mais gastarmos energia acumulada e diminuirmos a ingestão de calorias, maior será a perda ponderal.

Existem medicamentos que aumentam o gasto energético, mas com alguns efeitos colaterais inconvenientes. A ciência tem procurado descobrir medicamento que seja bastante eficiente no aumento do gasto energético, mas que não atrapalhe os outros sistemas ou órgãos. Esses produtos (em estudo) são muito semelhantes aos hormônios da glândula tiroide e já estão sendo empregados em pesquisas com pacientes.

O tecido adiposo marrom é um gastador

Em roedores (ratos e camundongos) existe grande quantidade de um tecido adiposo muito especial de cor marrom, que se localiza no dorso do animal. Quando o animal é colocado em temperaturas muito baixas, como por exemplo, a 4ºC, imediatamente o tecido adiposo marrom é ativado de forma a gerar calor de forma extremamente eficiente.

Em humanos, o tecido adiposo marrom é encontrado em recém-nascidos e durante o primeiro ano de vida. Da mesma forma que nos animais experimentais, a criança tem nesse tecido uma forma rápida de gerar calor se, por ventura, estiver em ambientes frios. Com o passar do tempo, o tecido adiposo marrom aparentemente se atrofia, sendo raro encontrá-lo em adultos.

No começo deste ano, três grupos de cientistas, com trabalhos independentes, confirmaram que o tecido adiposo marrom está presente em todos nós, mesmo na fase adulta da existência. Da mesma forma que nas crianças, os métodos de imagem capazes de indicar a presença de tecido marrom confirmaram que ele aumenta a sua atividade quando o indivíduo é exposto ao frio.

Compararam também as imagens da presença de tecido adiposo marrom em indivíduos de peso normal e em obesos. Verificaram, com grande surpresa, que os obesos tinham quantidades muito pequenas de tecido adiposo marrom, mesmo quando submetidos por algum tempo a temperaturas baixas.

Como o tecido adiposo marrom é uma excelente e eficiente máquina de “queimar gordura”, os gordinhos estão em grande desvantagem em relação aos indivíduos magros, pois esses têm uma arma muito poderosa para transformar gordura em calor e, desta forma, manter o peso.

Como o tecido marrom queima gordura

As células do tecido adiposo marrom possuem um “maquinário celular” preparado para gerar energia armazenada. No caso de ser acionado, o maquinário se modifica para que essa dissipação de calor seja a mais eficiente possível.

Nesse processo, entram em cena os hormônios da tiroide e a formação de uma proteína especial que dirige a energia obtida da gordura corporal para gerar calor. O processo é tão eficiente que um porcentual enorme da gordura acumulada no corpo é conduzido para a geração de calor. Isso significa um gasto energético excepcional, que se for associado à ingestão calórica diminuída levará a uma perda natural do peso.

O problema é que somente os indivíduos de peso normal têm um sistema adiposo marrom altamente competente, enquanto que os gordinhos possuem poucas células deste maravilhoso queimador de gordura.
O passo seguinte, naturalmente, é saber por que os obesos teriam uma relativa atrofia do tecido adiposo marrom. Se nós conseguirmos desvendar este mistério, poderemos passar para o passo seguinte: induzir o aparecimento desse sistema eficiente de queimar gordura.
Essas pesquisas recentes nos dão uma excelente perspectiva para a terapêutica da obesidade, seja em crianças ou em adultos, utilizando um mecanismo natural e fisiológico que o nosso corpo já possui.

As áreas escuras correspondem ao Tecido Adiposo Marrom em um indivíduo de peso normal. Ao lado encontra-se indivíduo obeso com escassa presença de Tecido Adiposo Marrom.
O Tecido Adiposo Marrom aumenta sua atividade de produzir CALOR a partir de gordura em temperaturas frias, como se vê na figura à esquerda, comparativamente, ao mesmo indivíduo e
m condições ambientais de temperatura de 25° graus centígrados.

Por Geraldo Medeiros