Blogs e Colunistas

Arquivo da categoria Wall Street

16/11/2011

às 6:00 \ Crise econômica, EUA, Wall Street

É a mensagem, estúpido! Não o método idiota

A proclamação policial no Zuccotti Park em 15 de novembro - Foto Stan Honda/AFP

Os manifestantes contra Wall Street em vários partes dos EUA, que se acham o centro do universo, repetem o slogan 68 “o mundo inteiro está vendo”. E, de fato, está, embora hoje em dia o mundo veja qualquer coisa na TV e na Internet, das mais transformadoras às mais triviais. E todo mundo na terça- feira viu a limpeza do parque Zuccotti, em Nova York, berço deste movimento, que, sem dúvida, ocupou espaço político.

Vou, antes de mais nada, deixar claro meu apoio à desocupação de acampamentos urbanos como objetivos permanentes. Basta destas falsas sociedades em miniatura nos EUA, no Canadá, na Austrália e na Europa. Mas me curvo ao impacto de uma boa operação teatral de agitação e propaganda. Foi um golpe de mestre agitar no coração financeiro e da mídia nos EUA. Nada de comparações levianas entra a turma do parque Zuccotti (ou em Oakland ou Portland, na costa oeste) e a ocupação imbecil da USP, por exemplo.

Por mais inconsequentes e alopradas que sejam as poses e algumas mensagens, os slogans essenciais são afinados com as preocupações nacionais. Nada de estocadas baratas de que se trata apenas de um bando de maconheiros tatuados, com argola no nariz furado, fazendo xixi na rua e tocando tambor, aliados a alguma Quarta Internacional, arregimentada para derrubar o sistema.

Sim, nestes protestos há maconheiros tocando tambor, vagabundos e radicais com agendas bizarras. Residentes e donos de lojas da área, com toda razão, deveriam marchar com alívio se tiverem um pouco de sossego e silêncio. O movimento tem um componente de atentado à segurança sanitária (mais do que contra a segurança nacional).

Não é, portanto, o fim da civilização ocidental. Tornou-se, porém, uma chatice, na verdade, uma irritação. A ação policial foi um favor, um oxigênio para a turma do movimento. Melhor isto do que ser despejado pelo inverno que se aproxima ou o tédio. E a desocupação do acampamento, please, também não mostra a consolidação de um estado policial ou um golpe devastador contra a liberdade de expressão. O prefeito Michael Bloomberg está cumprindo o seu trabalho cívico.

A ação policial foi contra a transformação do Zuccotti Park em acampamento permanente, com suas tendas e sacos de dormir, e não contra o protesto ou a presença no local. Estado policial é em qualquer parque na Síria ditatorial quando os manifestantes tentam protestar. Como decidiu o juiz em Nova York (não em Damasco) na terça-feira, acampar no parque (que é propriedade privada e não pública) não é uma forma de liberdade de expressão protegida pela Primeira Emenda da Constituição.

Vamos nos concentrar no essencial, indo além dos maconheiros tocando tambor. Na variação da frase já clássica do marqueteiro James Carville, é a mensagem, estúpido! Não o método idiota. Este movimento conhecido como Occupy Wall Street (OWS) é sintoma de um crescente mal-estar nacional com o funcionamento da economia.

Claro que há um choque quando muita gente constata que as coisas não vão ser entregues de mão beijada, que existe uma grave crise econômica, contas a serem pagas, impossiblidade de consumo sempre movido a dívida e perspectivas profissionais ingratas, mas a frustração faz sentido. Este é um país mal acostumado, melhor dizendo, não está acostumado com problemas tão graves há tempos, que tinha a ilusão de prosperidade permanente, de uma geração com uma vida melhor do que a anterior. Ajustes serão necessários, dos 99% e do 1% (dos slogans dos manifestantes).

Os frutos do sucesso econômico são distribuídos de forma crescentemente desigual nos EUA. O drama moral comove, mas injustiça social por si, nem sempre, não é um escândalo, pois ela serve de motivadora para a competividade, é um antídoto para a acomodação social. Um desafio é a percepção de ausência de mobilidade social nos EUA. E os fatos estão aí: 1% dos americanos detém quase 1/4 da renda, é o dobro em relação há 25 anos. O sistema bancário abusa dos seus privilégios e de suas conexões com Washington. Este é um clamor ouvido no espectro social, da esquerda para a direita.

Movimentos como este Occupy Wall Street sinalizam inquietações, aliás como o Tea Party, que teve um papel-chave para reger a nova sinfonia do Partido Republicano, numa banda mais à direita. Uma olhada nos simpatizantes do Occupy Wall Street e do Tea Party (indo mais fundo do que na superfície dos seus militantes nos parques e nas ruas) indica que os dois movimentos expressam ansiedade econômica, frustração e fúria com o sistema, que vão além da periferia ideológica.

Os dois movimentos conseguiram levar suas agendas para o centro do debate político. Pesquisas mostram que quase metade dos americanos se identificam ou apóiam um dos movimentos (e outros tantos se irritam com ambos, hoje mais com o Tea Party). O foco conservador é mais contra o estado, enquanto o Occupy Wall Street (hello!) é mais contra Wall Street. Numa pesquisa Wall Street Journal/NBC News, 38% dos americanos disseram que tanto o tamanho e alcance do governo, como dos bancos, devem ser reduzidos.

Os dois “partidões” e candidatos presidenciais (inclusive o presidente Obama) tentam agora incorporar as mensagens destes movimentos populistas. Ambos ocuparam um espaço político. Deveria haver no ciclo eleitoral que está esquentando terreno fértil para algum terceiro partido ou candidato independente plantar sua mensagem, algo mais consequente do que fincar uma tenda no parque.
***
Colher de chá bem matinal para o Sérgio (dia 16, 8:56), que fez uma crítica pertinente ao meu texto.


 

Serviços

 

Assinaturas



Editora Abril Copyright © Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados