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22/05/2012

às 6:00 \ Crise nuclear, Egito, EUA, Europa, Irã, Israel, Uncategorized

Curtas & Finas (Gritos & Sussurros)

Os cochichos de Netanyahu e Barak

Eu tenho revelações bombásticas nesta terça-feira. Prontos? Quarta-feira vem aí. Será um dia agitado no mundo e aqui me limito a eventos programados: reunião de cúpula, em Bruxelas, dos dirigentes da União Europeia (mais pressão para a austera Angela Merkel amolecer), o primeiro dia do primeiro turno de históricas eleições presidenciais egípcias e uma intrigante rodada de negociações nucleares, em Bagdá, entre seis potências mundiais e o Irã.

No primeiro assunto (Europa), é previsível a capacidade europeia de empurrar com a barriga, no segundo (Egito) é imprevisível garantir quais candidatos irão sobreviver para o segundo turno (numa disputa em que ressurgiu até o nasserismo e na qual liberais e islâmicos da linha-dura salafista respaldam o mesmo candidato). Vou me concentrar um pouco mais no terceiro evento (Irã nuclear).

Existe no jargão diplomático, o chamado otimismo cauteloso de que seja possível romper o impasse. Por esta narrativa, o Irã sente o peso das sanções e todo falatório estridente não passaria de preparação para anunciar concessões (como aceitação de inspeções rigorosas de suas instalações nucleares e diminuição drástica da produção de urânio enriquecido). O tom otimista já foi manifestado nesta terça-feira pelo diretor da Agência Internacional de Energia Atômica, Yukiya Amano, acenando com um acordo pelo qual o Irã permitiria investigações de uma instalação suspeita de realizar testes para o desenvolvimento de uma ogiva nuclear.

Mas não posso passar batido pela estridência abjeta, como na declaração esta semana do chefe do Estado-Maior das Forças Armadas iranianas, general Hassan Firouzabadi, de solidariedade à causa palestina de “total aniquilação de Israel”. Do outro lado (a destacar os EUA de Barack Obama em campanha de reeleição), interessa algum tipo de compromisso para afastar o cenário de um ataque às instalações nucleares iranianas.

Falta sempre combinar com Israel  (aquele país que deve ser “aniquilado”) e aqui está a informação interessante: na imprensa israelense, há especulações, que para mim soam muito otimistas, de que o governo estaria mais flexível (ou resignado) na questão de enriquecimento de urânio iraniano. Tal disposição teria sido manifestada aos americanos pelo ministro da Defesa Ehud Barak, enquanto o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu mantém a postura pública de inflexibilidade.

Na segunda-feira, Netanyahu voltou a advertir o Ocidente para não mostrar fraqueza. E mesmo em público, também na segunda-feira Barak é durão. Ele alertou os países ocidentais que o Irã está apenas fingindo disposição para fazer concessões nas negociações. Alertas `a parte, Israel toparia que o Irã continuasse o enriquecimento de urânio no nível baixo de 3.5% (a partir dos 20%, o que já acontece, fica mais fácil saltar rapidamente para o nível que possibilita a construção da bomba).

Um cenário nestas negociações em Bagdá seria pavimentar o caminho para um acordo interino, pelo qual o Irã interromperia o enriquecimento de urânio a 20% e abriria mão de 100 quilos de material neste nível. Em troca, as seis potências mundias (EUA, Grã-Bretanha, França, Alemanha, Rússia e China) suspenderiam os esforços para impor novas sanções. No entanto, o embargo europeu de petróleo ainda entraria em vigor em julho, assim como as sanções americanas contra o Banco Central iraniano. Entenda-se por resignação em Israel o fato de que avanços efetivos em negociações inviabilizariam um ataque militar por uns tempos (bom para os EUA, bom para o Irã).

Vamos aguardar os desdobramentos nesta quarta-feira em Bruxelas, Cairo e Bagdá, além de ficar na escuta dos cochichos em Jerusalém.

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Colher de chá para os comentários (concisos, algo que é uma benção para mim) desta terça-feira do João Felipe sobre as sutilezas da história, guerra e da diplomacia. 

01/05/2012

às 6:00 \ Eleições 2012, EUA, Obama, Romney, Terror, Uncategorized

Curtas & Finas (Obama & Osama)

O vivo e o morto no palanque eleitoral

Há um ano, Osama Bin Laden foi justiçado. Que não descanse em paz, onde estiver. Justiça seja feita. Foi uma grande proeza de Barack Obama. Foi uma decisão presidencial, com margem de risco, a operação lançada para dar cabo do terrorista número 1. Um ano depois, os olhos estão à frente, pois as eleições serão dentro de seis meses. O presidente democrata, o oponente republicano Mitt Romney e as respectivas campanhas passaram a segunda-feira trocando alfinetadas.

Obama tem o crédito Osama e abusa com politicagem. Estamos chocados, chocados. Os republicanos de Mitt Romney também aprontam. Estamos chocados, chocados. Eles querem diminuir o crédito democrata na proeza. E com razão, acusam a campanha presidencial democrata, com participação do ex-presidente Bill Clinton, pelo vídeo mesquinho de propaganda, questionando se Romney seria capaz de uma decisão tão audaciosa, como a que levou à morte de Bin Laden no Paquistão. E também mesquinho, Romney tenta associar Obama a um ex-presidente democrata desacreditado em segurança nacional, dizendo que “até Jimmy Carter teria ordenado o ataque contra Bin Laden”.

Bem visível na politização democrata, o vice de Obama, Joe Biden, tem repetido uma frase que dá um bom slogan de campanha eleitoral sobre feitos da administração em segurança nacional e economia: Osama Bin Laden está morto e a General Motors está viva (graças ao resgate de Detroit). Mas aí o verborrágico Biden arrematou num discurso que Romney reverteria o slogan.

São abusos de campanha democrata, como os feitos pelo republicano George W. Bush na campanha de reeleição em 2004 (estamos chocados, chocados), tirando proveito do patriotismo pós-11 de setembro e da remoção do poder de Saddam Hussein. Momentos históricos convertidos em pequenez eleitoral bipartidária. Política externa provavelmente não irá determinar a próxima eleição presidencial americana. De qualquer forma, para os democratas, a morte de Bin Laden é a prova de que Obama não é um fracote em segurança nacional. Para os republicanos, haverá esta condenação de abuso de campanha ao mesmo tempo em que minimizam o feito.

Se o que aconteceu em maio passado (a morte de Bin Laden) se revelar um fator decisivo em novembro, podemos levantar duas hipóteses: 1) Obama está desesperado e precisa apregoar qualquer coisa para ganhar pontos eleitorais. 2) A economia vai bem e com isto segurança nacional se torna um foco de campanha. E aí, será mais desespero dos republicanos.

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Em dia de demagogia trabalhista deste feitor, colher de chá para todos os leitores que se prestaram a trabalhar e comentar neste feriadão.   

30/03/2012

às 6:00 \ Mianmar, Uncategorized

Curtas & Finas (Primavera Asiática)

A tigresa da democracia Aung San Suu Kyi

Neste domingo, 1 de abril, tem eleição em Mianmar, o remoto e sofrido país asiático. É preciso acreditar que não será de mentira. A frágil tigresa da resistência democrática, Aung San Suu Kyi, uma favorita desta coluna, faz uma aposta que o voto será de verdade. Existe uma supreendente mudança no país, um exemplo de “primavera asiática”. Uma truculenta junta militar ficou mais civilizada e resolveu patrocinar uma abertura, algo no ritmo Ernesto Geisel de distensão lenta e gradual. Com a necessária cautela, Suu Kyi, Prêmio Nobel da Paz e sempre comparada a Nelson Mandela, é fiadora deste processo.

Neste domingo, estarão em jogo apenas 48 das 650 cadeiras do Parlamento até agora fantoche. Suu Kyi concorre a uma delas por seu partido, a Liga Nacional pela Democracia, que projeta ganhar 2/3 das cadeiras em disputa. Países ocidentais acompanham com atenção e caso concluam que teve lugar uma votação livre e limpa, devem começar a suspender sanções contra Mianmar. (atualização: esta coluna tão subjetiva dá os parabéns para o anúncio não oficial da eleição de Suu Kyi para deputada, por uma margem esmagadora, como se previa)

A abordagem mais flexível de Suu Kyi contribuiu para que ela costurasse coalizões com bolsões reformistas dentro deste regime brutal e corrupto, íntimo da ditadura chinesa, que está no poder desde 1962. O atual presidente, Thein Sein, hoje fardado de paletó e gravata, é o promotor destas mudanças que incluem medidas contra corrupção, reformas econômicas e libertação de presos políticos. A própria Suu Kyi teve revogada a prisão domiciliar. Há duas décadas, ela fez uma aposta em reformas e perdeu. A junta militar não reconheceu uma estrondosa vitória eleitoral do seu partido, não permitiu que assumisse o poder e empreendeu uma bárbara repressão.

Como nos tempos da abertura política brasileira, existem bolsões radicais nos meios militares de Mianmar. Um golpe nunca pode ser descartado para reverter os avanços, assim como impaciência na oposição com o cauteloso ritmo de Suu Kyi. Esta distensão política é precária e personalizada. É ilustrativo que os dois fiadores, Suu Kyi e o presidente Thein Sein, estejam em um frágil estado de saúde. Suu Kyi, 66 anos, não tem óbvios herdeiros políticos, ela que é uma figura icônica, filha do herói da independência nacional. Se o processo avançar, uma etapa posterior será Suu Kyi conquistar a presidência em eleições programadas para 2015. Até lá será necessária sua transformação de ícone dissidente em líder política com a mão na massa e propostas concretas. Antes, é claro, será o teste da verdade das reformas democráticas neste 1 de abril.

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Conversa desgalhou um pouco, mas colher de chá para Amauri e Maisvalia pelos comentários desta sexta-feira sobre democracia.

05/03/2012

às 6:00 \ Putin, Rússia, Uncategorized

O butim de Putin

Que seja o último voto de Putin em Putin - Foto EFE

Putin rima com democracia de festim, rima com butim. O homem forte que voltará à presidência russa sem nunca ter deixado o poder pratica uma pilhagem das esperanças de renovação, com sua vitória no primeiro turno das eleições no domingo. Putin preside um sistema personalizado, não apenas corrupto, mas cada vez mais anacrônico. É inconcebível que o projeto Putin sobreviva a longo prazo (a idéia é na sequência mais um mandato de seis anos). Se isto se concretizar, Putin ficará no poder até 2024, em um padrão stalinista de tempo de serviço. Está bem, não vou exagerar na rima de Putin com Stálin.

O triunfo eleitoral, sob redobradas denúncias de fraudes e obstáculos para a participação de candidatos oposicionistas, mascara um sistema exaurido. Talvez não haja benefício imediato para uma oposição exasperada que tem muitas palavras de ordem, mas pouco ordem para se organizar. Também não é fácil no regime de semiditadura russa exercer uma plena oposição. E de pensar que o segundo colocado nas eleições foi o veterano líder comunista Gennady A. Zyuganov, um perdedor crônico nesta imitação de democracia na Rússia.
Existem estes protestos impulsionados com a fraude nas eleições parlamentares de dezembro passado e uma manifestação está programada para a noite desta segunda-feira, mas claro que esta mobilização ainda é incipiente, embora seja suficiente para mexer com os nervos do sistema. O apoio a Putin murchou depois da fraude de dezembro, mas aí ele deu uma regada populista com promessas de aumentos salariais para funcionários públicos e incrementou os gastos militares.
Sistemas como este presidido por Putin conseguem legitimidade através da expansão econômica, do nacionalismo estridente e do culto a personalidade. O resto é garantido por intimidação, repressão e algumas válvulas de escape para a atuação da oposição. Este tipo de sistema não tem a legitimidade enraizada em instituições democráticas. A oposição ainda não oferece uma convicta alternativa a este sistema exaurido, mas cada vez mais russos querem instituições democráticas e transparentes, em que o poder possa trocar de mãos, em que o poder vigente não enfie a mão para roubar dinheiro ou votos e que a oposição não seja tratada a pontapés ou pancadas bem mais severas.
De novo, o triunfo de Putin não esconde crescente desencanto com o líder russo e o desgaste de um contrato social entre o povo e o regime: passividade política em troca de crescente prosperidade. Não há mais a conveniente passividade e existe o fato inconveniente de que nesta segunda fase do Putin na presidência será impossível garantir a mesma prosperidade alavancada pelas receitas de gás e petróleo.
Ironicamente, as receitas que reforçaram a autoridade do estado (o putinismo), também foram o fator do amadurecimento político de uma classe média urbana e mais educada, agora mais inquieta. O futuro da Rússia não foi decidido com a democracia de festim que consagrou Putin no domingo. Isto vai acontecer mais adiante com esta classe média mais assertiva e suas demandas pelo fim do sistema. Putin agora será menos convincente com seu argumento de estabilidade acima de tudo.
Um segmento expressivo da população já tem suficiente segurança material para não tanta reclamar de barriga cheia, mas para exigir uma voz cívica. Como o autocrático Putin irá reagir a estas reinvindicações por mais abertura e clima competitivo, sem reprimir ou apelar para a lenga-lenga de que se trata de uma conspiração externa para desestabilizar o seu regime?
Putin está de novo na na presidência, mas esta não é a velha Rússia. O  homem forte assumirá em maio em uma posição mais fraca do que quando deixou o cargo em 2008 para o afilhado Dmitry Medvedev. Hora de começar a campanha contra a reeleição de Putin em 2018.
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Colher de chá para o Henrique (dia 5, 11:23), leitor bem informado, bem lido e que costuma dar boas dicas de textos relacionados com minha coluna do dia.

21/02/2012

às 6:00 \ Crise nuclear, Irã, Israel, Uncategorized

Mais folias não carnavalescas iranianas (III)

A ameaça interna - Foto Getty

O Irã dos aiatolás e do presidente Mahmoud Ahmadinejad já tem uma bomba. É uma bomba-relógio. Por quanto tempo um regime como este poderá persistir? Claro que petróleo ajuda. E mais crise, eleva os preços do barril. Mas existem outros barris no país, com retorno cada vez mais baixo. O que está em alta são as divisões na cúpula do poder, que podemos definir como radicais do A x contra radicais do B. Existem diferentes blocos de poder na folia nuclear iraniana, mas em última instância quem toma a decisão sobre matar ou morrer é o aiatolá Khamenei. O dia em que não for assim, o Irã deixará de ser uma ditadura teocrática para se converter em uma mera ditadura.

Khamenei está entretido em uma guerra pelo poder com Ahmadinejad. Um iranólogo respeitado, Ali Ansari, da St. Andrews University (Escócia), avalia que as respostas confusas do Irã nesta crise nuclear, além de encenarem um típico jogo de ambiguidade em negociações e avanços na crise nuclear, de fato, refletem incerteza decisória.  Alguns lances recentes como os amadores atentados terroristas antiIsrael na Índia, Tailândia e Geórgia, podem ser reflexo também de desespero. O país sente o impacto das sanções e o quadro é de deterioração econômica. Ansari chega ao ponto de cogitar de estado terminal do regime, o que parece exagerado.
Para complicar, haverá eleições parlamentares em março, que serão boicotadas pelo oposição, que nunca engoliu a fraude eleitoral que conferiu um segundo mandato a Ahmadinejad em 2009. Como medida de precaução, o regime investe no bloqueio da Internet para impedir que a opposição use redes sociais para se mobilizar como em 2009. De qualquer forma, o boicote eleitoral será mais um golpe para a legitimidade do regime, que, é verdade, tem um bloco de convicta sustentação popular, ao lado da repressão, da fraude, da mentira e da paranóia.
Neste quadro, interessa a muito gente no Irã reforçar a visão de hostilidade implacável de forças estrangeiras contra o país, numa usual jogada de ditaduras para tentar forjar união nacional e desviar as atenções dos problemas internos. E por que não complicar e provocar, enviando dois navios de guerra para a Síria,  além de advertir o Ocidente para não ajudar a oposição síria?  Isto enquanto Teerã é sustentáculo do regime de Damasco. Sempre é razoável  fazer a pergunta: a maior ameaça para o regime iraniano é externa ou são suas contradições internas e seu estado de exaustão? Bombas de todos os lados. Melhor que o regime nunca tenha a sua, pois é um perigoso folião.
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Colher de chá para as folias especulativas do Alberto (dia 21, 12:22). E outra para as colocações do Pedro (dia 21, 13:43).

Na Síria de Assad (pai ou filho), tudo igual, tudo pior

Com Bashar Assad, "horror hereditário"

Para parafrasear o jogador pensante de beisebol Yogi Berra e suas frases folclóricas, na Síria, é déjà vu novamente. Vamos começar com o ministro das Relações Exteriores da Turquia (e está tudo tão desolador na Síria, que dou até colher de chá para a diplomacia turca). Ahmed Davutoglu disse que quando russos e chineses vetaram uma resolução no Conselho de Segurança das Nações Unidas, no sábado, condenando a brutalidade na Síria e pedindo a saída do poder do ditador Bashar Assad, estavam agindo com uma mentalidade de Guerra Fria, “baseando os votos, não em realidades existentes, mas em uma atitude mais automática contra o Ocidente”. E, de fato, na Guerra Fria, russos e chineses já apoiavam os massacres praticados por um ditador sírio, mas era Hafez Assad, o pai de Bashar.

Claro que também soa déjà vu novamente, como naquelas cruzadas do mundo livre contra o comunismo na Guerra Fria, integradas por Somoza e Pinochet, quando a secretária de Estado, Hillary Clinton, reage ao anacronismo sino-soviético (oops, russo), dizendo que agora será preciso articular uma coalizão dos “amigos da Síria democrática” a favor da oposição e contra a brutalidade do regime Assad. O que fazer? A coalizão vai incluir a Arábia Saudita.
Diplomacia tem estas ambiquidades e paradoxos, mas alguns casos são bem piores do que outros. Melhor ter a Arábia Saudita contra Assad do que a favor. A Rússia tem o despudor de argumentar que não podia apoiar uma resolução sobre a Síria, pois significava tomar partido de um dos lados. Vladimir, Vladimir, seu veto significa mais do que tomar partido de um dos lados, como você está fazendo na condição de grande sustentáculo internacional de Bashar Assad. Significa dar sinal verde para o ditador avançar na matança, tentar se entrincheirar no poder e dificultar ainda mais uma solução política para a crise, que ganha feições de guerra civil em larga escala.
Só há um argumento plausível a favor de Assad: o day after à sua queda pode ser pior do que o dia de hoje. com guerra de mílícias ou a ascensão ao poder de fundamentalistas sunitas. Talvez. Existe a idéia, portanto, de que seja melhor ficar com o demônio conhecido. Como assim? Sabemos que ele é horrível. Este é consolo? Com uma ditadura como a de Assad vamos justificar o status quo, na lógica russa de venalidade? E, de qualquer forma, o debate é acadêmico. A dúvida é quando Assad irá cair. Ele se tornou carga pesada até para as demais ditaduras da região.

Existem interesses geopolíticos contra o regime Assad (como o empenho de autocracias sunitas do Oriente Médio para enfraquecer o único aliado regional do Irã xiita), mas também os gestos humanitários. E pouca coisa deixa russos e chineses tão horrorizados como gestos humanitários. Afinal, tais gestos podem ser usados para condenar as condutas da semiditadura Putin e da ditadura do politburo chinês contra seus próprios povos e suas minorias. Mas já estamos refletindo com mais profundidade do que Yogi Berra. Há algo mais superficial, imediato e cínico para comentar. Neste episódio do Conselho de Segurança, o Ocidente (e seus aliados suspeitos do Oriente Médio) tiveram uma grande vitória em termos de realpolitik.

Os países ocidentais têm a vantagem moral na crise síria. Russos e chineses agora são cúmplices escancarados da carnificina praticada pelo regime Assad. São co-responsáveis acintosos pela escalada de violência, pois a oposição, que já está militarizada, tem pouco a fazer além de incrementar a luta armada. O que aconteceu no sábado nas Nações Unidas foi um vexame histórico para russos e chineses. Na frase dita à exaustão nos últimos dias, eles deram a Assad permissão para matar (para matar mais ainda).

Moscou e Pequim vetaram uma resolução, que já fora diluída para satisfazê-los, no momento em que as forças de Bashar Assad massacravam inocentes na cidade de Homs (os números de baixas são incertos, variam de dezenas a centenas). Existe ojeriza quase que universal ao regime de Assad. Do lado dos sírios estão os russos (chineses menos ativamente), a desgraça que é o regime iraniano, os asseclas do Hezbollah (até o Hamas se livra da saia justa), as tralhas bolivarianas e relíquias do ativismo terceiro-mundista. Em termos táticos, teria sido mais conveniente para russos e chineses engolirem o sapo. Para que queimar bala diplomática (no caso russo, bala mesmo) por um ditador que dia menos dia será carta fora do baralho? E qual  é o cenário mais provável? Uma intervenção militar americana parece improvável (talvez , assim como um sucesso diplomático. Hillary Clinton alerta sobre uma “brutal guerra civil”. Podemos acrescentar que terá violentas tonalidades sectárias, com apoio de monaquias sunitas à oposição.

Esta coluna está recheada de citações diplomáticas. Vamos terminar com mais uma. O embaixador francês nas Nações Unidas, Gerard Araud, lembrou como tudo é parecido na Síria,. Este massacre em Homs em 2012 teve lugar quando eram lembrados os 30 anos da mortandade em Hama (entre 10 mil e 40 mil mortos),. Em 1982, o responsável foi o ditador Hafez Assad. Agora, é o seu filho. Como disse o embaixador Araud, na Síria o “horror é hereditário”. Déjà vu novamente.

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Colher de chá para o comentário do Pablo (dia 6, 13:50)  sobre as posturas da Rússia e China. E uma colher de café para a Carmem (dia 6, 15:40),  por sua saborosa advertência contra as estapafúrdias analogias, especialmente as hitleristas.

 

30/01/2012

às 11:18 \ Uncategorized

Curtas & Finas (Comentários II)

Pessoal, atenção!!!

Seção de comentários foi reativada. Boa sorte para os leitores, nem sempre para mim. Abraços, Caio

24/01/2012

às 6:00 \ Eleições 2012, EUA, França, Uncategorized

Curtas & Finas (França & EUA)

Monsieur Maionese (François Hollande) - Foto Thomas Coex/AFP

Barack Obama é um democrata e Nicolas Sarkozy, um conservador. Em comum, são dois presidentes que. buscam a reeleição quando o terreno econômico é tão íngreme e amargam impopularidade. Dirigentes de países ricos foram ladeira abaixo nos últimos meses e perderam eleições ou o poder. Obama e Sarkozy são bons de campanha e querem reverter a tendência. A missão de Sarkozy é mais urgente. O primeiro turno da eleição francesa é agora em abril (nos EUA, em novembro).

Obama tem um Mitt Romney no meio do caminho que, por sua vez, tem agora um Newt Gingrich no meio do caminho. Sarkozy tem o socialista François Hollande no meio do seu caminho. Existem muitas diferenças na paisagem eleitoral e nos mecanismos partidários entre a França e os EUA. No país europeu, outros candidatos, além das figuras dos dois partidões, podem embolar o primeiro turno. Temos Marine Le Pen , que modera a mensagem de extrema direita da Frente Nacional, associada a seu pai Jean Marie Le Pen, e o centrista François Bayrou.
Mas como no caso dos republicanos nos EUA, os socialistas franceses têm tudo para ganhar. Existem as ressalvas. A liderança de Holllande nas pesquisas é mais atribuída à insatisfação com Sakrozy do que a seus méritos. Em comum com Mitt Romney, Hollande não comove, é travado na campanha, acusado de carecer de genuínas convicções e de pecar pelo estilo tecnocrático (embora, na atual crise europeia os tecnocratas como o italiano Mario Monti, estejam com melhor cotação do que as notas da dívida conferidas aos países).
Conservadores maldosos nos EUA dizem que Romney se contorce tanto nos seus posicionamentos que é o Mr. Pretzel. Já na França, alguns dos apelidos mais venenosos dados a Hollande são Monsieur Marshmallow e Monsieur Maionese. Com culinária francesa ambos pelo menos derrotam o pretzel americano.
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Colher de thé matutina para o Ícaro (dia 24, 10:19), pela panorâmica francesa.

23/01/2012

às 6:00 \ Eleições 2012, Obama, Republicanos, Uncategorized

Tia doidinha, tio condescendente e sobrinhos confusos

o

Gingrich, Obama e as caricaturas

Newt Gingrich é caricatural e caricatura as coisas, justamente ele que agora ameaça com algum grau de seriedade, depois de sua espetacular vitória nas primárias da Carolina do Sul, a inevitabilidade de Mitt Romney como candidato republicano nas eleições de novembro. Na expressão de uma fiel leitora desta coluna, Gingrich é nossa “tia doidinha” (outras tias, perdão), por falar algumas verdades que poucos têm coragem de falar. Minha observação é que ele fala alto o que muita gente pensa (e nem sempre são as verdades). Mas política e em particular campanhas eleitorais são movidas por caricaturas.

Com intensidade, fúria e demagogia, Gingrich ataca os democratas e o presidente Obama como elitistas, socialistas e protetores de um bando de parasitas que não quer trabalhar e prefere viver às custas de uns trocados do governo e do vale-alimentação. Nesta caricatura, Obama nem professa os valores americanos e pode querer implantar, no segundo mandato, algo até pior do que um modelo europeu (Oh My God!) neste país excepcional, os EUA, o melhor país do mundo (USA, USA, USA). Gingrich vai na jugular. Na expressão em inglês, ele joga red meat, a carne sangrando, para a voraz base mais conservadora.
Já a demagogia de Obama é mais cool, coisa de personalidade. Mas o presidente caricatura os republicanos como plutocratas desalmados (o discurso ainda é mais direcionado a Mitt Romney, precisa ser ajustado a Gingrich), mais preocupados em zelar pelos privilégios dos ricos. Os republicanos são insensíveis às aflições da classe média espremida e de uma população mais empobrecida, tudo herança maldita da era Bush. Para Obama, existe o míope propósito republicano de sabotar o necessário papel do estado na vida nacional. E ainda por cima os republicanos são ingratos, pois não reconheceram seu esforço épico para impedir uma depressão economica.
A demagogia de Obama vem mesclada com condescendência. Ele faz um tremendo esforço para explicar as coisas e no, entanto, os cidadãos não entendem o fardo do cargo. Com seu habitual veneno, a colunista do New York Times, Maureen Dowd, escreve que, nós, o povo, decepcionamos Obama e sua mulher Michelle. Obama está mais para tio condescendente.
Caricaturas desenhadas por tias doidinhas ou tios condescendentes ilustram algumas verdades. Não há dúvida que uma batalha crucial nesta guerra eleitoral de 2012 envolve o papel do Estado em uma era tão deficitária. Em jogo está o desafio de dividir as contas dos encargos sociais e os sacrifícios. Existe uma batalha cultural para decidir se o estado é amigo ou inimigo da sociedade. Existe uma batalha ideológica se o estado minora injustiças ou é por si injusto, pois recompensa quem não merece e oprime com sua taxação quem trabalha e investe. Existe um grande duelo se o combate à desigualdade pode travar a prosperidade.
Os sobrinhos precisam decidir em novembro entre as caricaturas, mas antes os republicanos devem escolher entre a tia doidinha e o tio almofadinha.
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Hoje começo cedo com as premiações, pois estou na correria: colher de chá para o Samuel (dia 23, 11:20) pela observação interesssante sobre o Gingrich e de sopa para o Ivan (dia 23, 11:24), pela sacada. E que ingratidão da minha parte.  Colher de sopa também para a Betty, de quem roubei a idéia para esta coluna. E colher de chá noturna para o J.R. (dia 23, 22:38), que desmonta algumas balelas. 

06/01/2012

às 6:00 \ Republicanos, Uncategorized

Curtas & Finas (Princípios x Pragmatismo)

Os virtuosos Goldwater e McGovern - Fotos AFP/Getty

Princípios brigam com pragmatismo em guerras eleitorais. Nada de novo na frente republicana na atual campanha para escolher o candidato presidencial.  E nem sempre princípios e pragmatismo são excludentes. Existe a questão do jogo de cintura, ou seja, da ênfase. Princípios podem se converter em dogma e pragmatismo no mais chulo oportunismo. Política não é apenas a arte do possível. Exige também timing e uma certa intimidade com a realidade. Neville Chamberlain foi atroz e amoral com seu pragmatismo (apaziguamento de Hitler). Churchill mostrou que era preciso lutar “nas praias, campos, ruas e colinas” para derrotar o nazismo, mas fez isto com a ajuda de Stálin.

Puristas republicanos vão à guerra sem disposição para tomar prisioneiros. Tudo na base de independência ou morte, qualquer um menos Mitt Romney. Para eles, Romney é pior do que um pragmático, nada de compromisso. Melhor até perder a guerra do que se sujar no mar de lama eleitoral. Romney nem com detergente. Não passa de um chulo oportunista, de acordo com os puristas. Mas aí estão as lições clássicas de dois purismos em eleições presidenciais americanas, transmitidas com com espírito bipartidário.

Em 1964, indignados com os gastos sociais e o inchaço estatal no governo democrata de Lyndon Johnson, a base republicana botou  para quebrar e impôs o nome do purista Barry Goldwater como candidato presidencial, alijando nomes mais moderados como Henry Cabot Lodge e Nelson Rockefeller. Em 1972, os democratas, com ódio do governo Nixon, optaram pelo pacifista George McGovern, um ícone do movimento contra a guerra do Vietnã, rechaçando nomes mais moderados, mais “sujos”,  como os de Hubert Humphrey e Edmund Muskie. Defensor das virtudes do extremismo, Goldwater levou uma surra eleitoral de Lyndon Johnson. O quixotesco McGovern tomou de lavada de Nixon. O resto é história a ser escrita sobre a guerra eleitoral de 2012.

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Colher de chá para o Samuel (dia 6, 14:07), boas observações sobre Jimmy Carter e Rick Santorum.


 

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