Só falta combinar com o Assad como será sua partida
Sobre esta viagem de primeira classe, voam as especulações de que Bashar Assad já teria recebido oferta de asilo dos Emiratos Árabes Unidos e comprado propriedade no valor de US$ 60 milhões em Dubai. Em termos concretos, vizinhos, como o rei Abdullah, da Jordânia, e agora o todo-poderoso Recep Erdogan, da Turquia, pediram a partida do dirigente sírio. Erdogan recomendou que Assad renuncie o mais cedo possível para escapar da execução de um Kadafi.
Até partir, obviamente, Bashad Assad pode deixar um rastro de sangue ainda mais escabroso. Na coluna de terça-feira sobre o Egito, eu alertei contra o perigo de preguiça intelectual na análise da primavera árabe. Minha vez de ser preguiçoso. Vou mais ou menos seguir o rastro de Rami Khouri, um analista bem posicionado e bem informado em Beirute, editor do jornal Daily Star e associado da American University, na capital libanesa.
Existe uma escalada de violência na Síria, com ramificações cada vez mais sectárias (basicamente a maioria sunita contra a minoria alauíta, que é a seita do clã Assad), mas a maior responsalidade é do próprio regime. O que começou como um protesto localizado de adolescentes no sul do país, em março, se converteu em uma insurreição nacional que agora busca a derrocada de Assad.
O regime se mostrou incapaz ou avesso a lidar com os protestos de forma política e recorreu a uma repressão brutal. O resultado foi a resistência, cada vez mais militarizada. Houve também a incompetência ou aversão de Assad para se engajar com iniciativas diplomáticas regionais. Temos agora o regime isolado, embora ainda conte com as boas graças de alguns aliados tradicionais, como a Rússia, que evitam sanções duras no Conselho de Segurança das Nações Unidas.
Até a Liga Árabe se insurgiu e suspendeu um dos seus membros fundadores e, quem diria, o regime dos aiatolás em Teerã (sustentáculo do secular regime de Damasco) dá conselhos para que Assad abrande a repressão. Até a assembleia-geral das Nações Unidas condenou a Sïria por violação de direitos humanos na terça-feira, até com o voto do Brasil, com abstenção russa e chinesa, o que é mau sinal para Damasco. A decisão, porém, não tem o mesmo impacto de uma no Conselho de Segurança.
Para a Síria, trata-se de uma vasta conspiração mundial e à primeira vista o regime se entrincheira. Rami Khouri, porém, considera improvável uma guerra civil em larga escala na Síria. Ele acredita que quando as coisas caminharem nesta direção, haverá o colapso ou deserção de um ou mais pilares do regime Assad. A saber: militares, classe empresarial, alauítas, outras minorias (cristãos, por exemplo) e a classe média silenciosa das principais cidades (Damasco e Aleppo).
O desfecho seria um rápido colapso da ordem vigente. Cada transição na primavera árabe tem suas características e uma das novidades no caso sírio é o papel saliente da Turquia (país não árabe), interessada em inspirar transições nas linhas do seu modelo de um partido islâmico no poder, mas com um estado formalmente secular e liberdades democráticas circunscritas. Falta combinar com a filial síria da Irmandade Muçulmana esta conversão ao modelo turco.
Khouri avalia que a discussão é cada vez mais como vai ocorrer a transição para uma era pós-Assad. Parece provável, mas ainda falta combinar com o ditador os detalhes da partida.
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Perdão pela demora. Colher de chá para o Érick (dia 23, 13:19). Assunto Assad é sempre triste.







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