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Arquivo da categoria Terror

01/05/2012

às 6:00 \ Eleições 2012, EUA, Obama, Romney, Terror, Uncategorized

Curtas & Finas (Obama & Osama)

O vivo e o morto no palanque eleitoral

Há um ano, Osama Bin Laden foi justiçado. Que não descanse em paz, onde estiver. Justiça seja feita. Foi uma grande proeza de Barack Obama. Foi uma decisão presidencial, com margem de risco, a operação lançada para dar cabo do terrorista número 1. Um ano depois, os olhos estão à frente, pois as eleições serão dentro de seis meses. O presidente democrata, o oponente republicano Mitt Romney e as respectivas campanhas passaram a segunda-feira trocando alfinetadas.

Obama tem o crédito Osama e abusa com politicagem. Estamos chocados, chocados. Os republicanos de Mitt Romney também aprontam. Estamos chocados, chocados. Eles querem diminuir o crédito democrata na proeza. E com razão, acusam a campanha presidencial democrata, com participação do ex-presidente Bill Clinton, pelo vídeo mesquinho de propaganda, questionando se Romney seria capaz de uma decisão tão audaciosa, como a que levou à morte de Bin Laden no Paquistão. E também mesquinho, Romney tenta associar Obama a um ex-presidente democrata desacreditado em segurança nacional, dizendo que “até Jimmy Carter teria ordenado o ataque contra Bin Laden”.

Bem visível na politização democrata, o vice de Obama, Joe Biden, tem repetido uma frase que dá um bom slogan de campanha eleitoral sobre feitos da administração em segurança nacional e economia: Osama Bin Laden está morto e a General Motors está viva (graças ao resgate de Detroit). Mas aí o verborrágico Biden arrematou num discurso que Romney reverteria o slogan.

São abusos de campanha democrata, como os feitos pelo republicano George W. Bush na campanha de reeleição em 2004 (estamos chocados, chocados), tirando proveito do patriotismo pós-11 de setembro e da remoção do poder de Saddam Hussein. Momentos históricos convertidos em pequenez eleitoral bipartidária. Política externa provavelmente não irá determinar a próxima eleição presidencial americana. De qualquer forma, para os democratas, a morte de Bin Laden é a prova de que Obama não é um fracote em segurança nacional. Para os republicanos, haverá esta condenação de abuso de campanha ao mesmo tempo em que minimizam o feito.

Se o que aconteceu em maio passado (a morte de Bin Laden) se revelar um fator decisivo em novembro, podemos levantar duas hipóteses: 1) Obama está desesperado e precisa apregoar qualquer coisa para ganhar pontos eleitorais. 2) A economia vai bem e com isto segurança nacional se torna um foco de campanha. E aí, será mais desespero dos republicanos.

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Em dia de demagogia trabalhista deste feitor, colher de chá para todos os leitores que se prestaram a trabalhar e comentar neste feriadão.   

Entre Israel e Gaza, um jogo de tensão e acomodação tática

Escalada de ataques em Gaza e sul de Israel - Fotos Reuters/Getty

De uns dias para cá, ocorreu uma escalada de violência nas bandas de Gaza/Israel, com os ataques aéreos/assassinados seletivos praticados por israelenses contra terroristas palestinos (e nas ações morreram também civis) e lançamento de foguetes contra cidades israelenses por radicais islâmicos mais radicais do que o Hamas. Existe um interesse tanto de Israel como do Hamas de impedir que a coisa se degringole. A disposição mútua é tática, manifestada em negociações indiretas mediadas pelo Egito. Naquelas bandas, tréguas são frágeis. Vamos ver.

O foco de Israel no momento é a questão nuclear iraniana, enquanto o Hamas tenta se ajustar a uma nova realidade regional (em função da primavera árabe). O grupo, ao que tudo indica, se distancia dos seus patronos sírios e iranianos (isolados no mundo árabe-sunita) e obviamente fortalece os laços com a Irmandade Muçulmana, na qual tem suas raízes, e que está a um passo do poder no Egito. No cálculo do Hamas, luta política e o mero reconhecimento tático que Israel existe talvez tragam mais ganhos do que a via armada/terrorista. Entre outras coisas, enfraquece a narrativa israelense de que não dá para negociar com um bando de terroristas que prega a destruição do estado de Israel.

Para o Hamas, e por extensão os palestinos, até que convém a eliminação da ameaça nuclear iraniana e a queda do regime Assad na Síria. Entre as ramificações, estaria a recolocação da questão palestina no centro dos acontecimentos no Oriente Médio. Claro que não podemos prever com precisão os desdobramentos em Gaza e na Cisjordânia caso ocorra um ataque israelense às instalações militares iranianas.

O que aconteceria, por exemplo, se o Hezbollah libanês lançar foguetes contra Israel como parte de uma retaliação iraniana? O Hamas ficaria de braços cruzados, apesar de garantias dadas recentemente por alguns dos seus dirigentes? Um dado importante aqui: nesta última escalada de violência, o estrago apenas não foi maior em Israel  devido à taxa de sucesso (70%)  do sistema de interceptação de foguetes disparados contra áreas povoadas. Maiores estragos talvez resultassem em retaliações mais severas. E vale lembrar que existe um racha no Hamas sobre mais resistência ou algum tipo de acomodação tática com Israel. Em contrapartida, interessa a iranianos e sírios botar lenha na fogueira palestina para desviar as atenções dos desafios que enfrentam.

Na questão palestina em si, um desafio é que o processo de paz, estabelecido com os acordos de Oslo em 1993, está essencialmente morto há três anos com o fracasso de negociações entre o então primeiro-ministro israelense Ehud Olmert e o presidente palestino Mahamoud Abbas sobre um status final em questões como fronteiras, refugiados, segurança e Jerusalém.  Com Olmert e seu antecessor Ehud Barak, Israel fez propostas que os palestinos não deveriam ter recusado. Foram maximalistas e perderam uma chance histórica. O de sempre, os palestinos não perderam nenhuma oportunidade de perder oportunidade. Já o atual primeiro-ministro Benjamin Netanyahu é minimalista e quer apenas manter um processo diplomático em curso com os palestinos, mas sem avanços substantivos. É o processo pelo processo.

Do lado palestino, tampouco existe algo substancial. Abbas sabe que suas posições em questões como o direito de retorno de refugiados palestinos a Israel são irreconciliáveis com a realidade (este retorno é inaceitável para Israel,  seria um suicídio demográfico) e que a expansão dos assentamentos judaicos na Cisjordânia (que deve ser contida por si) não é o único obstáculo em conversações. Abbas tem uma posição fraca, pois não controla Gaza e a perspectiva de reconciliação do seu grupo, o Fatah, com o Hamas é duvidosa, apesar de infindáveis negociações. Ironicamente, se isto acontecesse seria até uma desculpa para mais imobilismo diplomático israelense.

Temos, portanto, acomodação tática, negligência, falta de foco, farsa diplomática e ausência de paradigmas que substituam a fórmula dos acordos de Oslo. Este status quo provisório não pode se tornar crônico. É insustentável

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Estou surpreso, assim como alguns leitores, como o tom calmo dos comentários sobre esta coluna. Debates civilizados. Parabéns aos leitores. Portanto uma colher de chá (de cactus do deserto?) para todos.

O perigoso Paquistão está cada vez mais perigoso

Os dúbios militares paquistaneses- Foto John Moore/Getty

Eu não sou grande fã do plantel de candidatos republicanos à presidência americana, muito menos da deputada Michele Bachmann, que já teve seus 15 minutos de fama como queridinha do Tea Party. No entanto, no debate da semana passada dos candidatos sobre política externa, ela deu uma resposta muito honesta e sofisticada sobre a complexa crise do Paquistão (da sua posição estratégica e bem informada como integrante do Comitê de Forças Armadas da Câmara), em meio `a gritaria de tantos candidatos para o governo americano dar uma de macho e cortar ajuda para este aliado que, de fato, merece toda desconfiança do mundo (de todo mundo) e age com duplicidade.

Michele Bachmann foi direto ao ponto, dizendo que o Paquistão é uma “nação que mente”, mas, ao mesmo tempo, compartilha dados de inteligência sobre a rede terrorista Al Qaeda com os americanos. E a candidata republicana alertou que a ajuda deve continuar pois, na sua boa frase de efeito, o “Paquistão, como nação, é muito nuclear para fracassar”. É a mesma analogia para os bancos na crise econômica. Eles agem com duplicidade, mas são muito grandes para quebrar.

O Paquistão é a esquina mais perigosa do mundo, com suas armas nucleares, conflito com a também nuclear Índia e este jogo duplo de ser aliado ocidental e, ao mesmo tempo, ajudar o Talibã e outros grupos insurgentes do Afeganistão. E tudo ficou mais perigoso no fim-de-semana com o incidente no qual ataques com helicópteros e aviões na Otan mataram 24 soldados paquistaneses na fronteira com o Afeganistão, onde insurgentes afegãos atuam.

As autoridades afegãs (com sua própria relação de duplicidade com os EUA e o Paquistão) inclusive esquentaram as coisas dizendo ser falsa a versão paquistanesa de que não houve provocação antes do ataque da Otan. Os paquistaneses, claro, que estão furiosos e denunciam violação da soberania nacional, mas parte da fúria é encenação, justamente em função do jogo duplo. Uma primeira represália foi bloquear duas rotas de tráfego terrrestre de suprimentos para a Otan no Afeganistão e exigir que os americanos fechem uma base no país para o lançamento de ataques com aviões não tripulados dentro do próprio Paquistão (a exigência já foi feita antes e não se concretizou).

Há muita encenação e não se espera o rompimento total, mas não há dúvidas que existe uma séria deterioração das relações dos EUA com o seu duvidoso aliado. Como era de esperar, e em função do incidente, as autoridades americanas estão tentando conter o estrago e colocar panos quentes nas coisas, apesar do círculo vicioso. São décadas de desconfiança e duplicidade de ambas as partes.

E o ano de 2011 tem sido especialmente espinhoso, com os danos colaterais causados pelos ataques com aviões não tripulados, as acusações de envolvimento da inteligência paquistanesa em operações terorristas na embaixada americana em Cabul e o assassinato de um ex-presidente afegão e obviamente a morte de Osama Bin Laden em maio, por forças especiais americanas, realizada sem aviso prévio ao governo local, com as questões levantadas sobre conivência de parte da inteligência paquistanesa para abrigar o líder da rede Al Qaeda.

A duplicidade paquistanesa sempre foi flagrante ao longo de décadas. O país se proclamava aliado americano contra o comunismo soviético e agora contra a rede Al Qaeda, mas seus militares querem, isto sim, faturar ajuda e receber armas para se reforçar contra a Índia. Da parte americana, são as proclamações de que existe a prioridade para ajudar a construção de um país estável, democrático e próspero. E Washington se comporta de forma imperial e imperativa. O resultado da cooperação são sucessivas ditaduras militares (ou militares mandando nos bastidores) e mais instabilidade regional.

Os americanos ajudam militares que, no final das contas, preferem a monstruosidade do Taliban ou outros grupos insurgentes medievais a um governo em Cabul pró-ocidental (mas também próximo da Índia). Soldados americanos morrem no Afeganistão, enquanto o líder do Taliban, o mulá Mohammed Omar, recebe santuário da inteligência paquistanesa no país. Os americanos ajudam seus amigos inimigos. Na expressão em inglês, o Paquistão é um “frenemy” (friend and enemy).

Existem setores civis no Paquistão empenhados em melhorar as relações com a índia e o Afeganistão, além de manter uma relação mais honesta com os EUA. Mas eles são simplesmente fulminados pelos militares. Um governo democrático, embora corrupto e ineficiente, foi eleito em 2008, tendo a frente Asif Zardari (viúvo da ex-primeira-ministra Benazir Bhutto, assassinada há quatro anos, num atentado reinvindicado pela Al- Qaeda), tentou cooperar com a Índia, depois dos atentados terroristas em Mumbai em 2008, mas foi neutralizado pelos militares. Agora ocorreu a queda do embaixador paquistanês em Washington, aliado de Zardari, depois que vazou um memorando no qual ele tentava costurar um acordo secreto com os americanos para que eles ajudassem a liderança civil a imporem sua autoridade sobre o establishment militar paquistanês.

Obviamente, existem motivos de suspeitas e ressentimento dos dois lados. O Paquistão, por exemplo, denuncia o envolvimento americano no Afeganistão como responsável pelo crescimento do Taliban e outros grupos insurgentes no próprio país, algo que não poderia acontecer sem a cumplicidade dos militares paquistaneses, que são seletivos na repressão.

A deterioração das relações entre EUA e Paquistão ocorre em meio ao desengajamento americano no Afeganistão, depois de 10 anos de uma guerra que pode ser definida como empacada. Há os esforços infrutíferos de Washington para algum tipo de compromisso político com o Taliban e qualquer remendo de solução negociada vai exigir costura paquistanesa, ou seja, roupa de péssimo acabamento.

Os americanos, infelizmente, precisam deste escandaloso relacionamento com o Paquistão. O país, como reconheceu Michele Bachmann, é muito importante para que não haja promiscuidade geopolítica. Afinal, o Paquistão caminha para possuir o terceiro maior arsenal nuclear do mundo. Evidentemente é vital vitaminar a anêmica democracia paquistanesa e conter seus generais. Mas a missão se mostra frustrante na esquina mais perigosa do mundo e não existe uma política alternativa decente.

O que temos é um país fraco, pobre e dividido, com o potencial de uma implosão. Há um sentimento antiamericano institucional e popular. E incidentes como o do fim-de-semana apenas agravam as feridas. O espetáculo de um desastre geopolítico no Paquistão fará do vizinho Afeganistão um sideshow.
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Colher de chá para dois comentários abrangentes do Lunardeli (dia 28, 12:32 e 13:31) e históricos do Alberto (dia 28, 13:37).

20/10/2011

às 6:00 \ Curdos, Hamas, Terror, Turquia

Semicurtas & Finas (Curdos)

Funeral de militar turco - Foto Adem Altan/AFP

Países têm legítimas preocupações com terrorismo e grupos insurgentes. No zelo para se proteger, podem recorrer a ações desproporcionais, invasões e ocupações de terras. Violam direitos humanos. Seus dirigentes usam linguagem truculenta e maniqueísta. Estamos falando de Israel, só pode ser de Israel. Negativo. Estamos falando da Turquia, aquele país que hoje desfralda a bandeira da “primavera árabe” e aproveita para redobrar sua campanha contra Israel, o ex-aliado. Mas a Turquia também tem estas preocupações legítimas com terrorismo e grupos insurgentes. E recebe apoio e credibilidade do Ocidente na sua campanha contra separatistas curdos.

Na quarta-feira, os militantes do Partido dos Trabalhadors do Curdistão (para os turcos, com razão, são terroristas, ao contrário dos heróicos resistentes do Hamas) mataram dezenas de soldados turcos na fronteira da Turquia com o Iraque, no maior ataque em 18 anos. O presidente Abdullah Gul e o primeiro- ministro Recep Erdogan prometem vingança, anunciam combate sem trégua contra o terror e garantem que não vão recuar um milímetro.

E a escala deste último ataque (na sequência de atentados terroristas dentro da Turquia) afasta a possiblidade de uma rápida solução negociada. No começo do mês, o Parlamento turco renovou a carta branca para as tropas do país lançarem ataques por terra, e não apenas bombardeios aéreos, contra os insurgentes curdos que têm bases dentro do Iraque. Resta saber por quanto tempo o governo iraquiano e o governo autônomo curdo vão tolerar estas incursões.

Na sua bravata, O Partido dos Trabalhadores do Curdistão diz representar 25 milhões de pessoas da etnia, que vivem na Turquia, Iraque, Irã e Síria (onde começou uma repressão da pesada da minoria pela ditadura Assad, inclusive com o assassinato de lideranças). Já são mais de 25 anos de insurgência curda na Turquia, com estimativas de 35 mil mortos no lado curdo (além de 20 mil desaparecidos) e cinco mil baixas turcas. Cerca de quatro mil aldeias curdas foram destruídas. O grosso da matança foi nos anos 80 e 90, mas temos agora uma nova escalada de violência, depois de uma fase de concessões mútuas. De um ano para cá, o governo turco prendeu milhares de curdos, inclusive prefeitos eleitos.

A causa curda não tem a mesma visibilidade da causa palestina (e a conversa é muito mais sobre autonomia do que criação de um estado). Os turcos querem cada vez mais apoio militar, diplomático e moral ocidental (nesta hora é conveniente ser membro da Otan) contra os militantes curdos, enquanto dão cobertura aos radicais islâmicos do Hamas. EUA e União Européia, que condenaram este recente ataque, consideram tanto o Hamas como o Partido dos Trabalhadores do Curdistão organizações terroristas. Os dirigentes turcos concordam com metade desta classificação.

19/10/2011

às 6:00 \ Israel, Palestinos, Terror

Com soldado solto, Israel continua prisioneiro do seu dilema

O que farão os "heróis" palestinos libertados? Foto Abbas Momani/AFP

Há uma visão otimista relacionada com a troca de mais de mil prisioneiros palestinos pelo soldado israelense Gilad Shalit, que fora sequestrado pelo grupo islâmico Hamas em 2006. Como parte de uma mudança estratégica e pelas vias indiretas das negociações para a libertação de Shalit, Israel está reconhecendo o Hamas e vai afrouxar o cerco de Gaza, o território controlado pelo grupo islâmico, que fora endurecido com o sequestro do soldado.
E o Hamas, apesar de sua retórica militante e instransigente, começa a cair na real e se converterá em um ator efetivo no processo de negociações de paz. Ganhará assim legitimidade internacional, além do seu círculo de suspeitos habituais: gente como o aiatolá Ali Khamenei, no Irã, e o presidente sírio Bashar Assad, ou grupos como a Irmandade Muçulmana, no Egito, e o Hezbollah, no Líbano. O Hamas já está mais próximo das novas autoridades (autoridades?) egípcias pós-Hosni Mubarak e da Turquia.
A fresta que permite a passagem desta esperança é muito pequena.  Muito precisa acontecer para Israel e Hamas ajustarem os ponteiros pelo menos para um afrouxamento do bloqueio em Gaza e conseguirem algum tipo de modus-vivendi. Vamos, portanto,  a uma visão ampla “realmente” mais realista. O maior responsável (e o maior perdedor no jogo)  por esta troca assimétrica é o rival do Hamas, o líder do grupo Fatah e presidente palestino Mahmoud Abbas, baseado na Cisjordânia. Ele, tão desacreditado, ficara vitaminado com o seu lance em setembro de buscar o pleno reconhecimento do estado palestino nas Nações Unidas. Mostrara vigor com uma diplomacia teatral, ao invés de penosas negociações bilaterais com Israel ou o uso do terrorismo.
O Hamas precisava também de sua vitamina. Conseguir a libertação dos prisioneiros palestinos, muitos condenados por participação direta em terrorismo, ofusca Abbas. Nos últimos meses, crescera a inquietação do Hamas com o sufoco na vida dos seus patronos, o Irã e a Síria. Para o Hamas, havia, portanto, timing para o acordo depois de tantos alarmes falsos nesta caso Shalit. O grupo abriu mão de alguns nomes na lista dos prisioneiros em Israel e agilizou as negociações. Havia timing também para o primeiro-ministro israelense Benjamim Netanyahu, às voltas com populares protestos sociais em casa e com a jogada de Abbas.
O que vimos na terça-feira  foi a prova que alguns atores pagam qualquer preço para alcançar os seus objetivos. Num tortuoso compromisso moral com sua sociedade, Israel libertou gente com as mãos sujíssismas de sangue para trazer um soldado para casa, passando por cima de considerações de segurança. E o Hamas mostrou que é uma força a ser reconhecida, uma força determinada e capaz de conquistas efetivas, como a libertação dos prisioneiros. Algo conveniente quando a popularidade do Hamas está em baixa em Gaza, com clamores por reformas ao estilo da “primavera árabe”.
O sucesso, claro, pode motivar o Hamas a continuar com suas táticas inescrupulosas. Sobre isto adiante. Antes outro ponto importante. Num relato do repórter do jornal britânico The Guardian, em Gaza, as famílias de prisioneiros libertados expressaram sua alegria com o desfecho, mas evitavam falar dos motivos que levaram os parentes a serem presos e condenados em primeiro lugar: muitos praticaram hediondos atos de terrorismo. Não há uma conversa aberta na massa nas ruas de Gaza se o terrorismo é uma estratégia falida (sem falar, obviamente, do componente moral), que provocou e provocará tantas vítimas israelenses e resultou e resultará em sofrimento para a população palestina.
Apologistas da causa palestina costumam argumentar que aqueles que praticaram terrorismo estavam apenas resistindo à ocupação israelense, mas como justificar as mortes de inocentes em atentados suicidas dentro das fronteiras de Israel anteriores à guerra de 1967? Em Gaza e na Cisjordânia, na terça- feira, terroristas foram recepcionados como heróis e simplesmente absolvidos na corte popular.
Os relatos mais abomináveis sobre os prisioneiros palestinos libertados envolvem atos de terrorismo na segunda intifada, no começo desde século 21. São relatos que nos fazem mergulhar novamente nas profundezas da degradação da cultura política palestina naquela época. O assassinato em massa por si já é um chocante instrumento de guerra, mais grave ainda quando se torna a carteira de identidade de uma sociedade, um motivo de orgulho de sua cultura política.
Não estamos vendo reflexões a este respeito por estes dias em Gaza e mesmo na Cisjordânia. É verdade que Mahmoud Abbas não é Yasser Arafat e formalmente renunciou à violência como arma política. Já o Hamas promete manter um “cessar-fogo” e  não parece interessado de imediato em impulsionar a carnificina em larga escala como dez anos atrás. Há outros grupelhos radicais capazes de melar este precário e volátil modus-vivendi.
Há tantas estatísticas nesta guerra assimétrica entre Israel e os palestinos, além de um soldado trocado por 1027 soldados. Efraim Inbar, do Centro Sadat -Begin para Estudos Estratégicos, em Israel, tem estatísticas mostrando que 60% dos terroristas libertados em trocas anteriores voltaram à prática terrorista. Existem os incentivos, portanto,  para capturar mais soldados israelenses devido ao alto preço pago pelo outro lado. Este tipo de ação o Hamas não considera terrorismo,  mas um mero ato de guerra.
Evidentemente,  as autoridades de Israel trabalham com estes cálculos. Por esta razão, o governo Netanyahu faz um jogo arriscado com a decisão envolvendo Shalit. Um ato de terrorismo praticado por um destes “heróis” trocados por Shalit pode ser fatal para o primeiro-ministro,  mas tomar decisões é isso aí.  Um dos 1.150 prisioneiros palestinos trocados em 1985 por três soldados israelenses capturados no Líbano foi então o responsável pela morte de 178 israelenses.
Em termos mais amplos, a troca de agora vitaminará o Hamas, em particular sua ala mais militante.  Irá minar seriamente os moderados palestinos (os que sobraram). Neste cenário, fica no ar a pergunta: como será possível alguma abertura diplomática com a ala mais radical do Hamas mais segura de si? No entanto, apesar deste fatalismo, foi correta a decisão de fazer a troca, que,  aliás, contou com maciço apoio da opinião pública israelense (4/5 a favor,  embora metade espere mais terrorismo agora)
Quanto aos “heróis” palestinos só podemos esperar que a maioria desafie as estatísticas e sejam heróis de verdade, não retornando ao terrorismo. Quem sabe, então,  será possível ampliar a fresta de esperança.
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Questão palestina sempre é explosiva.  Colher-de-chá para os leitores Devildom Voyeur (dia 19, 10:20) e Érick (dia 19, 10:35). Não concordo com todas as avaliações, mas valem pela visão abrangente. Registro também para o comentário de Viviane (dia 19, 12:28), diretamente de Israel.

18/10/2011

às 6:00 \ Israel, Palestinos, Terror

Curtas & Finas (Israel/Hamas)

O soldado Shalit, que nunca matou (Foto: AFP)

O soldado Shalit, que nunca matou (Foto: AFP)

Esta é curta e grossa. Israel está pagando um preço exorbitante (intolerável para as famílias de vítimas do terror) para trazer de volta o soldado Gilad Shalit, sequestrado pelo grupo terrorista palestino Hamas em 2006. O preço são 1027 prisioneiros palestinos. Entre os libertados, estão militantes com as mãos sujíssimas de sangue (de acordo com Israel, entre os mais de cinco mil presos por razões de segurança, cerca de 70% têm “sangue nas mãos”). Está havendo uma troca, mas cuidado com equivalências entre combatentes. O soldado Shalit, recruta compulsório, nunca matou mulheres e crianças. Nunca matou. Eis a ficha resumida de alguns palestinos inseridos no acordo para a libertação de Shalit:

Hussan Badran: comandante militar do Hamas na Cisjordânia, condenado à prisão perpétua pelo planejamento de vários ataques terroristas, entre eles o atentado suicida na pizzaria Sbarro, em Jerusalém, em agosto de 2001, na qual morreram o brasileiro Giora Balazs, de 68 anos, e outras 14 pessoas.

Abdul al-Aziz Salaha: garoto-propaganda do terror. Entre seus crimes, esteve a participação no linchamento de dois soldados israelenses capturados em 12 de outubro de 2000, uma das imagens definitivas da segunda intifada (insurreição) palestina

Yehya Sinwar: um dos fundadores do braço militar do Hamas, as Brigadas Izzedin al-Qassam. Começou sua vida de assassino executando palestinos suspeitos de colaborar com Israel. Deverá ocupar alto cargo no Hamas, após 23 anos na prisão.

Walid Anajas: condenado a 36 sentenças de prisão perpétua por envolvimento em dois atentados terroristas. Um deles provocou 12 mortes no Moment Cafe, no coração de Jerusalém Ocidental em 2002, perto da sede da presidência israelense. O ataque no auge da intifada é considerado marca registrada do Hamas, motivo de júblilo para os simpatizantes do movimento. Eu espero que motivo de muita tristeza para os leitores.
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PS: Um dos fichados do texto acima, Yehiya Sinwar, não perdeu tempo. Assim que foi libertado, disse na TV do Hamas, al-Aqsa, que as Brigadas Izzedin al-Qassam, devem sequestrar mais soldados israelenses para conseguir a libertação de prisioneiros palestinos.

11/09/2011

às 12:00 \ EUA, Nova York, Terror

Ainda somos todos novaiorquinos

Foto Spencer Platt/ Getty

Paul Andrew Acquaviva, Grace Alegre-Cua, Sean Caton, Anthony Dionisio Jr., Brendan Dolan, Timothy J. Finnerty, Joseph Francis Holland III, Damian Meehan, David Robert Meyer, Richard Morgan, Daniel M. Van Laere. Como eu, as 11 pessoas acima citadas eram residentes de Glen Rock, minha casa, uma cidade-subúrbio de Nova York, no estado de Nova Jersey. Foram nossas 11 vítimas em 11 de setembro de 2001.

Como eu, eram eles novaiorquinos em tempo parcial, um pé em Glen Rock, um pé em Nova York. Naquele dia, entre as quase três mil vítimas, morreram 679 residentes destas cidades e subúrbios de Nova Jersey. Não sei se eram boas ou más pessoas. Sei que que foram vítimas indefesas.

Alguns destes moradores de Nova Jersey morreram heroicamente, como Todd Beamer, de Cranbury, um dos passageiros do vôo United 93, que decolara do aeroporto de Newark, em Nova Jersey, com destino a San Francisco, numa viagem que terminou no solo de Shanksville, Pensilvânia. Heróis como Todd Beamer impediram que o avião colidisse contra a Casa Branca ou o Capitólio, em Washington, como era o plano dos terroristas.

Os onze moradores de Glen Rock, Todd Beamer e os demais morreram porque a rede Al Qaeda decidiu matá-los, embora eles não tivessem feito nada para merecer este destino. Como escreveu Jeffrey Goldberg, na revista The Atlantic, o terror não é uma arma do fraco, é uma arma empregada contra o fraco. O resto são ilusões e falácias. Não culpe a política externa americana. Não culpe a arrogância ocidental. Não faça jamais a apologia do terror. Naquela terça feira ensolarada dez anos atrás, 19 homens decidiram praticar o mal. Simples.

Como eu, as onze vítimas de Glen Rock cruzavam pontes e túneis de carro, trem e ônibus para trabalhar, para passear, para estar em Nova York. Ao longo dos séculos, pessoas cruzaram oceanos e a imensidão do continente americano para chegar a Nova York. Fala-se que Osama Bin Laden queria destruir as torres gêmeas do World Trade Center por serem símbolos da prosperidade e poder dos EUA. Foi um ataque também contra a torre de Babel que é Nova York, com sua diversidade, sua vibração, sua balbúrdia, seus imigrantes e seus sonhos. Entre as vítimas no World Trade Center, estavam pessoas de 115 países.

Eu estou entre estes cidadãos do mundo que circulam em Nova York. Com nossos diferentes sotaques e a balbúrdia da Babel, é possível não se sentir estrangeiro na capital do mundo. É verdade que muitos americanos se sentem estrangeiros nesta Babel, que para eles também é Sodoma e Gomorra, coisa do demônio. Que nada. Capital do mundo, isto sim, e nenhuma outra cidade vai tirar tão cedo este título desta metrópole metida a besta.

Os demônios vieram naquela manhã daquela terça-feira ensolarada. Eu estava na torre da Reuters, em Times Square, onde na época tinham lugar a produção e a gravação do programa Manhattan Connection, da Globonews. Estava na cantina da Reuters, no décimo-sexto andar, matutando a pauta do programa seguinte com Lucas Mendes, amigo e colega de sempre do Manhattan Connection. O ataque terrorista resolveu nossos dilemas criativos. Aquele 11 de setembro aprofundou minhas conexões com o Lucas e Nova York.

Meu heroísmo é banal, não do estilo Todd Beamer. A ameaça de mais terror não me intimida e mantenho minha rotina em Nova York. Estaciono o carro em partes da cidade que levam jeito de serem alvos preferenciais de um atentado. Na sexta feira passada, minha maleta foi vistoriada na estação de metrô de Union Square com a “neura” de um plano da Al Qaeda para investir durante as celebrações do décimo aniversário do 11 de setembro. Pode vistoriar. Sacrifico nesta hora minhas liberdades civis. No sábado à noite, empaquei no trânsito em Tribeca devido a barreiras policiais. Paciência. Meus desafios e meu espírito estóico, como disse, são banais, mas é o mínimo que posso oferecer contra meus inimigos, nossos inimigos.

A gravação do Manhattan Connection agora acontece nos escritórios da Globo, em Tribeca, a algumas quadras daquele local de destruição dez anos atrás e agora local de frenética construção. Do nosso estúdio, no décimo-sétimo andar, vejo a a torre subindo no novo World Trade Center. Sobe para desafiar o terror, sobe como prova de reerguimento de Nova York, sobe porque nossa civilização avança, embora sejam dias de desmoralização e dúvidas geradas por problemas econômicos e falta de firme liderança ocidental, muitas das quais não vinculadas às sequelas do 11 de setembro.

Mas vamos nos concentrar no 11 de setembro no dia 11 de setembro. Ali, do estúdio da Globo, além da nova torre, vejo o rio Hudson e Nova Jersey. Lá ainda somos todos novaiorquinos. E eu espero que você também.
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Colher de chá vai para a Vânia (dia 11, 13:50), comentário muito a meu favor, mas hoje, primeiro aniversário da coluna, mereço.

O terror do 11 de setembro e os atentados contra a verdade

Fugindo do terror e da negação da realidade- foto Doug Kanter/AFP

O que aconteceu em 11 de setembro de 2001? Resposta simples e histórica: terroristas suicidas da rede Al Qaeda lançaram ataques nos EUA. Mas, como diz Christopher Hitchens, “é muito provável que aqueles que aceitam esta narrativa convencional são, pelo menos globalmente, a minoria”. Estamos, de fato, na era da desinformação, dos atentados às verdades mais elementares e da persistência das mais bizarras teorias conspiratórias, alimentadas na Internet.

A descrença no convencional sobre o 11 de setembro nestes dez anos não foi lugar-comum apenas no mundo muçulmano. Logo após os ataques, ganharam vida em todas as partes as bizarrices sobre um complô do governo americano e dos judeus (sempre eles). Havia a história que quatro mil judeus tinham sido alertados sobre os atentados e não apareceram para trabalhar naquele dia no World Trade Center, inicialmente publicadas no jornal sírio Al Thawra. Existem as fantasias detalhadas sobre o míssil que o próprio Pentágono disparou contra o Pentágono. Na França, o livro de Thierry Meyssan sobre a “mentira assustadora” do 11 de setembro foi best-seller, disparando esta fantasia sobre o míssil ou um pequeno avião investindo contra o Pentágono.

Arautos profissionais da paranóia na imprensa alternativa americana, de direita e de esquerda, se uniram para denunciar as tramas. Personagens folclóricos como o apresentador de rádio Alex Jones e o repórter conspiratório Michael Ruppert tinham certeza sobre os planos diabólicos do governo Bush para manufaturar os atentados. Tudo elementar: era preciso um pretexto para invadir o Afeganistão e o Oriente Médio, beneficiar a indústria petrolífera e de armamentos, forjar um estado fascista que suprimisse as liberdades civis e consolidar uma nova ordem mundial. Sacou? World Trade Center? Centro do Comércio Mundial.

Logo depois dos atentados, a maluquice popular nos EUA até que estava sob controle. Numa pesquisa no começo de 2002, apenas 8% acreditavam que o governo Bush, então muito popular, mentia sobre o que acontecera. Os números cresceram depois da guerra do Iraque diante do fato real de que o governo Bush, de fato, enganara sobre as armas de destruição em massa de Saddam Hussein. O número de céticos sobre a narrativa convencional dos atentados do 11 de setembro saltou para 16% em 2004. Escaramuças burocráticas em Washington e esforços do governo (como acontecem em qualquer governo) para acobertar ou minimizar suas falhas na prevenção dos atentados também alimentaram as teorias conspiratórias.

Políticos da ala mais esquerdista do Partido Democrata deram munição para os conspiradores e Michael Moore com o seu documentário Fahrenheit 11 de Setembro foi uma festa para os paranóicos ao martelar nas conexões da família Bush com a Arábia Saudita e o clã Bin Laden. Por volta de 2007, pesquisas revelararam que até 1/3 dos americanos duvidavam da narrativa convencional sobre o 11 de setembro.

O tempo passou, Bush esvaneceu e Barack Obama assumiu a presidência. O ódio a um presidente foi transferido a outro. Um parte dos conspiradores sobre a verdade do 11 de setembro (os “truthers”) inclusive migrou para a nova conspiração sobre as falsidades na vida daquele “queniano” que mentira sobre ter nascido no Havaí. Hoje “só” uns 10% dos americanos não acreditam que a rede Al Qaeda tenha sido responsável pelos atentados. Um alerta deve ser feito: o campo continua fértil para teorias conspiratórias, de qualquer gênero, em tempos de incerteza econômica nos EUA, falta de confiança nas lideranças políticas e um descrédito sem precedentes das instituições, a destacar o governo federal.

E já que não dá para ter um final feliz para esta história, vamos para o mundo islâmico. Uma pesquisa de julho do Centro Pew confirma que, uma década depois, existe ceticismo no mundo islâmico sobre os eventos de 11 de setembro de 2001. A maioria dos muçulmanos acha inconcebível que árabes tenham sido responsáveis pelos ataques (numa descrença que inclui vergonha para assumir a verdade, crença no pacifismo da religião, desconfiança na capacidade técnica de árabes realizarem os atentados, preconceitos, antiamericanismo e antissemitismo). Dos 19 terroristas suicidas, 15 eram sauditas, dois dos Emirados Árabes Unidos, um libanês e um egípcio. A pesquisa englobou sete países e os territórios palestinos. Em nenhum deles, sequer 30% aceitam que árabes realizaram os ataques. Pior, muçulmanos na Jordânia, Egito e Turquia estão mais céticos hoje do que há cinco anos.

Um dos dados mais preocupantes, aliás, é que esta pesquisa foi feita com a primavera árabe em curso. E no mesmo revolucionário Egito que derrubou Hosni Mubarak existe o nivel mais alto de negação da realidade, com 75% dos egípcios registrando sua descrença que árabes tenham sido responsáveis pela obra de destruição.

Eric Trager, um especialista em Oriente Médio da Universidade da Pensilvânia, passou alguns meses no Egito, fazendo pesquisas e seu relato sobre a percepção do 11 de setembro é desolador. Islamistas encampam este revisionismo sobre o terror, pois reescrever a história é fundamental para desviar a acusação de que sua ideologia motiva o assassinato em massa. O ex-guia supremo da Irmandade Muçulmana, Mehdi Akef, disse para o incrédulo Trager “que não existe o terror da Al Qaeda, é uma expressão americana”. Na narrativa de Akef, os atentados do 11 de setembro representaram um ataque americano contra o Oriente Médio e existe uma política islamista de autodefesa.

Líderes mais jovens da Irmandade Muçulmana gostam da tese que os atentados do 11 de setembro, por sua sofisticação, só podem ter sido obra da CIA ou do Mossad. Mesmo líderes seculares, socialistas ou liberais no “novo Egito” também negam a responsabilidade da Al Qaeda. Mustafa Shawqui, da Coalizão da Juventude Revolucionária, disse a Trager que se tratou de maquinação para dominação global por interesses imperiais. Até o vice-primeiro-ministro do governo provisório, Ali ElSalmy, pisou na bola. Homem educado nos EUA, integrante do governo Sadat nos anos 70 e ex-vice-diretor da Universidade do Cairo, ele disse “não ter certeza sobre quem foi responsável pelos atentados”.

Dez anos depois dos atentados do 11 de setembro, é preciso impedir novos ataques e ainda por cima estes atentados à verdade em países com ou sem primavera árabe.

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A colher-de-chá madrugou. Vai para Ivanildo Terceiro (dia 7, 8:27), por trazer o material didático e visual da construção e desconstrução das teorias conspiratórias no 11 de setembro.

Os destroços e as construções de setembro

Bush nos destroços do World Trade Center- Foto Win McNamee/Reuters

O décimo aniversário dos atentados de 11 de setembro de 2001 é uma data redonda, um maná dos céus para a imprensa. Existe, portanto, uma exuberância celebratória. Mas, como este aniversário acontece em um momento de fragilidade econômica e de crise de confiança na liderança ocidental, uma narrativa constante (com as metáforas inevitáveis) é vincular a derrubada das torres gêmeas do World Trade Center a um colapso econômico.

Ironicamente, uma tese que esvazia um pouco o triste furor comemorativo é que a crise econômica terá mais impacto histórico do que os ataques terroristas do 11 de setembro. Basta ver um artigo na edição corrente de VEJA (um especial de 31 páginas sobre os 10 anos dos atentados, leitura obrigatória!), de Bill Emmott, jornalista e escritor (ex-diretor da revista The Economist). O título é O 15 de setembro de 2008, em referência à quebra do Banco Lehman Brothers, um estopim da crise econômica.

Mas, deixemos este debate detalhado sobre o impacto da crise econômica para 15 de setembro de 2018. No aqui e agora, estamos prestes a ultrapassar os dez anos dos atentados. A data é sóbria e existem questões sobre a validade de vários aspectos da obra no Marco Zero, em particular a construção da nova torre com o nome 1 World Trade Center e o risco de uma localizada bolha imobiliária. Porém, vale muito mais destacar esta mescla de comemoração e renascimento.

Não existem apenas destroços físicos e emocionais. A torre sobe em Manhattan, num desafio ao terror. Claro que esta é uma nação fragilizada, polarizada, frustrada e incerta sobre o seu futuro. Na narrativa do historiador Paul Kennedy, não vai dar outra: os excessos imperiais (e aqui contam custos de guerras americanas sem a devida tributação, sem falar, é claro, das perdas humanas) deverão levar a um declínio inevitável. Sim, o declinio acontece em meio ao que o guru Fareed Zakaria chama de “ascensão do resto”, inclusive o Brasil. No entanto, por favor, não vamos assinar o atestado de óbito dos United States of America ou desmerecer a capacidade de recuperação.

Nesta semana de tanto enfoque sombrio no décimo aniversário de uma data nada querida, vamos ressaltar alguns aspectos positivos: Osama bin Laden está morto, o perigo do terror Al Qaeda sobrevive, mas a rede está enfraquecida e desde aquele 11 de setembro nenhum grande atentado aconteceu nos EUA. Infelizmente, tantas outras sociedades foram vítimas. A infame agenda ideológica de uma jihad global não tem vez contra o Ocidente. Pode causar estragos, mas até no mundo islâmico está desacreditada, embora a mensagem mais moderadamente islamista (como a da Irmandade Muçulmana) tenha appeal e ganhe espaço na primavera árabe.

O Ocidente e sua capital Nova York aguentaram o tranco há dez anos (podemos reconversar sobre aspectos mais complexos do rombo em 15 de setembro de 2018, ao estilo Bill Emmott) e os ataques deixaram destroços, mas, apesar de alguns excessos na guerra contra o terror, prevalecem sólidas instituições democráticas. A rede Al Qaeda não destruiu o nosos modo de vida (inclusive coisas patéticas como o atual nível do confronto político-partidário nos EUA).

Houve o ataque direto em 11 de setembro e existe aquela conversa que o grande plano de Osama bin Laden era fazer a gente sofrer com a hemorragia (inclusive econômica) e morrer. Ele morreu. Viveremos na banda ocidental. É verdade que num clima de mais tempestades econômicas, medo de novos ataques terroristas e competição de modelos que contestam a democracia e o capitalismo liberal, seja nas bandas chinesas, seja em bandas islamistas.

A crise econômica poderá ser longa e brava e o perigo mora em qualquer esquina, em qualquer torre, mas é vital que o valor da democracia liberal permaneça intacto, por todos os setembros adiante.
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A colher-de-chá nos comentários vai para o Maurício (dia 5, 13:05) pelas pinceladas do anti-americanismo crônico, solidariedade em larga escala no mundo aos americanos no 11 de setembro e o debate sobre oportunidades perdidas na era Bush. A colher-de-chá está generosa. Outra para a Carmem (13:16), pela declaração de amor a Nova York (que, de colher, ela estendeu ao Rio de Janeiro)

04/05/2011

às 6:00 \ Paquistão, Terror

A esquina paquistanesa ficou ainda mais perigosa

Luto por Osama no Paquistão - Asif Hassam/AFP

E estamos de volta ao Paquistão, a esquina mais perigosa do mundo. Perspicácia de almanaque: país com 187 mihões de habitantes -95% são muçulmanos e 35% têm menos de 15 anos-, que faz fronteiras com a China, Índia, Irã e Afeganistão. Há setores que são virulentamente antiocidentais na população e fora do controle do governo. Mais um detalhe: o Paquistão tem um arsenal nuclear (como a vizinha e rival Índia), com um prontuário de exportar a tecnologia.

E é uma esquina, portanto, também de atividades muito nebulosas. Claro que era “inconcebível” (na expresão de John Brennan, assessor de contraterrorismo da Casa Branca) que Osama bin Laden não tivesse uma rede de apoio no país. Afinal, sua “caverna” era uma casa fortificada no coração do país, a uma curta caminhada do equivalente da academia militar de West Point. Mas quem apoiava e como explicar a impunidade? Todas as respostas são perturbadoras, indo de proteção à incompetência.

O Paquistão é o país da duplicidade institucional. O governo do presidente Asif Ali Zardari alega que não sabia que a pessoa mais procurada no mundo estava em Abbottabad. Mais: ele diz que o Paquistão faz sua parte na luta contra a rede Al Qaeda. Qual a percentagem? Fácil fazer piada. Zardari é conhecido como Mr. Ten Percent, pelas alegações de corrupção envolvendo as comissões que costumava receber quando sua mulher, Benazir Bhutto, governava o pais. Mas ele é viúvo. Benazir Bhutto foi assassinada pelo terror em dezembro de 2007.

É concebível que o fraco governo civil não soubesse da confortável caverna em Abbottabad. É um governo mais simpático ao Ocidente. No entanto, precisa fazer o jogo de cena para a platéia com muitos componentes antiamericanos e agora chia contra a violação da soberania ocorrida com a operação para pegar e matar Osama Bin Laden.

Já o aparato militar e de inteligência fingia não saber ou simplesmente era cúmplice do terrorista. A relação deste aparato com os americanos é promíscua. Joga a favor e contra e, por falta de melhores opções, os americanos participam deste jogo. Vale lembrar que a ajuda dos EUA para gente como Osama Bin Laden nos tempos da luta contra a ocupação soviética no Afeganistão há 30 anos era conduzida através do então regime militar paquistanês.

De volta à promiscuidade do presente. Há setores deste aparato militar paquistanês que patrocinam grupos extremistas no país e também o Taliban no Afeganistão. Há setores que são de forma ativa ou passiva pró-Al Qaeda. Por outro lado, lideranças terroristas são presas e mortas e milhares de soldados paquistaneses já morreram nos combates. É perfeitamente concebível que setores do aparato militar paquistanês tenham facilitado a operação americana contra Osama bin Laden, embora não soubessem dos detalhes ou quem fosse o alvo. Os paquistaneses são sempre cúmplices de alguém. Fazem um discurso público e agem ao contrário na surdina.

Esquina perigosa e nebulosa. Guy Sorman, o acadêmico francês, tem uma sacada interessante. Ele diz que é possível fazer uma localização geográfica do Paquistão, mas o país é uma ilusão. É uma frouxa associação de nações e etnias, sem língua comum e poucos interesses comuns. A exceção nesta fragmentação é este aparato militar, na maioria de descendência punjabi. O seu propósito é combater a Índia. Desde a partilha do subcontinente indiano, em 1947, tudo é feito por este combate: construção do arsenal nuclelar, patrocínio de variantes do terrorismo islâmico (basta lembrar o ataque em Mumbai em 2008) e apoio ao Taliban para impedir qualquer governo a favor dos indianos em Cabul.

Osama bin Laden era conveniente para este propósito, gerando terror e instabilidade, além de impedir que os EUA se aproximassem demais da Índia, na medida em que Washington precisa do Paquistão para combater o extremismo islâmico. O país é vital em termos estratégicos e não tem credibilidade.

O que fazer, portanto, com esta duplicidade institucional do Paquistão? O escritor Salman Rushdie (muçulmano e indiano) escreveu esta semana que o Paquistão deve ser declarado um estado terrorista. O Paquistão tem este componente de república de banana, mas também é uma república nuclear. O Paquistão não é um inimigo frontal dos interesses americanos ou ocidentais, mas deve ser tratado com toda suspeita.

E se o Paquistão fosse realmente inimigo declarado, como lidar com ele? Confrontar é perigoso, abandonar também é. Seria talvez ideal fornecer menos bilhões de dólares para seus militares e dar mais ajuda para seu sistema educacional (o seu colapso contribuiu para o fortalecimento de madrassas, as escolas religiosas que são foco de recrutamento para jihadistas). No Congresso em Washington, aliás, existe uma crescente chiadeira contra esta ajuda generosa.

E melhor manter alguns inimigos ou elementos suspeitos mais perto da gente. Não há dúvida que o episódio da operação que culminou na morte de Osama bin Laden é um sério desafio à preservação da duplicidade institucional do Paquistão. Mas a implosão definitiva na esquina mais perigosa do mundo seria uma herança maldita do astro global do terrorismo.


 

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