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Arquivo da categoria Síria

Os camelos de Mubarak e os tanques de Assad

Os métodos de combate a uma rebelião popular - Fotos Getty/AFP

Coluna tem uns rituais. Houve semanas em que toda bendita quarta-feira eu escrevia sobre o circo das primárias presidenciais republicanas (terça-feira foi o bye bye do fervoroso Rick Santorum. Hora de dizer God Bless, Mitt Romney). A maldita crise na Síria está mais para arena sangrenta da primavera árabe do que para circo republicano, mas de uns tempos para cá o assunto é ritual de coluna de quarta-feira. Vamos lá.

Incrédulo, eu vi na televisão o mediador da crise e ex-secretário geral da ONU, Kofi Annan, com aquela cara de quem não dorme há uns 300 anos, dizer que ainda é cedo para anunciar que o seu plano de paz morreu. Annan exige que o cessar-fogo seja implantado, enquanto a ditadura síria exige imediatamente novas condições para que isto aconteça. Ditadura exigente e mentirosa. Em um movimento circular, ela retira tanques de uma cidade, conforme determina o plano de Annan, e aí eles são deslocados para outra.

A suspensão total de hostilidades supostamente deve acontecer agora na quinta-feira. O editorial do Wall Street Journal define a mediação de Annan como farelo diplomático. O editorial do Washington Post diz que o plano não passa de cobertura para o regime sírio massacrar o seu próprio povo. Até os russos, benfeitores de Assad, expressam desconforto com a enrolação do afilhado, mas vão segurar a barra. O primeiro-ministro turco Recep Erdogan, que já foi irmão de Bashar, mas se cansou e deserdou o vizinho, não tem papas na língua. Acusa Bashar de ser pessoalmente responsável pela morte de civis sírios. Desde o anúncio do plano de paz de Kofi Annan, no começo do mês, morreram cerca de mil pessoas na Síria, na maioria civis. São mais de nove mil desde que a rebelião começou em março do ano passado.

Exasperado, pois tropas sírias atacaram até acampamentos de refugiados sírios dentro da Turquia, Erdogan disse que Assad “continua matando 60, 70, 80, 100 cada dia. Tropas sírias atiram sem piedade nas costas de mulheres e crianças em fuga”. No jargão do regime, quem se move integra gangues armadas de terroristas, a serviço de forças estrangeiras. Falando em gangues terroristas, até o Hamas palestino, que já foi afilhado de Assad, tirou o corpo fora e foi buscar a benção das autocracias sunitas do golfo Pérsico. Em breve, a TV estatal síria irá enfiar o Hamas neste balaio de gangue terrorista, finalmente concordando com alguma coisa dita pelas autoridades israelenses.

Em meio à confusão e à exasperação, o esfarrapado plano de paz foi adotado pelo Conselho de Segurança da ONU e a Liga Árabe diante da impossiblidade de aceitação de um plano I (intervenção). Força militar estrangeira num conflito interno é uma decisão atroz. Pode funcionar, como nos Balcãs na década de 90 ou na Líbia no ano passado, mas as condições sírias são mais espinhosas, com as ramificações sectárias regionais. Um outro caminho, igualmente atroz, envolve a determinação e sacrifício de movimentos internos por liberdade, secundados por apoio global. Mianmar da briosa Aung Sang Suu Kyi sinaliza esta via.

As ações brutais do regime sírio chocam, mas, na verdade, não devem surpreender. Este é o seu modus operandi desde os anos 80. Irrompe uma revolta popular e a resposta é esmagar a oposição e punir cidades com o intuito de que nunca mais se levantem. A política de arrasa-cidades, porém, não impede a retomada do ciclo.

Rami Khouri, da American University, em Beirute e que escreve coluna no jornal libanês Daily Star, lembra a diferença essencial entre a insurreição em curso na Síria e o que aconteceu no ano passado na Tunísia e no Egito. O presidente Ben Ali fugiu quando a coisa engrossou e Hosni Mubarak despachou asseclas montados a camelo contra os manifestantes na praça Tahrir. Bashar Assad solta os cachorros no sentido figurado. Espalha tanques, artilharia, franco-atiradores, gangues de assassinos e estupradores pelo país. A prioridade é a barbárie, secundada pela encenação diplomática. Há relatos de brutalidades praticadas por rebeldes e atos terroristas (sobre os quais é difícil atribuir responsabilidade), mas nem de longe é possível equivalência com os crimes contra a humanidade praticados pelo regime Assad.

A ditadura síria dizima civis e as esperanças de reconciliação. Sem repressão, esta ditadura simplesmente não sobrevive. No processo, o regime Assad militariza a oposição. Rami Khouri ainda acredita que uma insurreição não militar em larga escala possa dar conta do serviço, mas depende de apoio unânime do Conselho de Segurança da ONU (algo ilusório diante da cumplicidade russa e chinesa com a ditadura em Damasco).

Os camelos de Mubarak não foram páreo para o levante popular (especialmente quando os militares egípcios decidiram não atirar na massa). Na Síria, os tanques de Assad não resolvem a parada, mas a questão é se o regime poderá ser apeado do poder sem tanques do outro lado ou intervenção estrangeira.

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Colher de chá para Felipe e Pablo, com os quais tive troca de idéias sobre a situação síria.

05/04/2012

às 6:00 \ Bósnia, Síria

Curtas & Finas (Bósnia & Síria)

As primeiras vítimas em Sarajevo

Em um 5 de abril, há exatamente 20 anos, duas mulheres morreram, em uma marcha pacífica e multiétnica com dezenas de milhares de pessoas em Sarajevo, vítimas de franco-atiradores sérvios. A estudante de medicina Suada Dilberovic e Olga Sucic, funcionária do Parlamento e mãe de duas crianças pequenas, foram as primeiras vítimas do cerco de três anos e meio da que era conhecida como a cosmopolita Sarajevo (10 mil mortos), um caldeirão de bósnios muçulmanos, sérvios ortodoxos, croatas católicos e judeus. No total, mais de 100 mil pessoas morreram na guerra na Bósnia, em meio a atrocidades na Europa que não se viam desde a Segunda Guerra Mundial.

Não existe nada angelical em guerras, mas os militares e paramilitares sérvios, instigados pelo nacionalismo do ex-comunista Slobodan Milosevic, com o racha da Iugoslávia, foram os maiores demônios nos conflitos nos Balcãs na década de 90, com crimes também praticados por muçulmanos e croatas. Depois do massacre de oito mil homens muçulmanos desarmados em Srebrenica, na Bósnia, em julho de 1995, houve a intervenção aérea da Otan contra os sérvios. Seus líderes e comandados foram e são maioria nos bancos dos réus, no Tribunal Internacional Criminal para a Antiga Iugoslávia, em Haia. Milosevic, que era presidente da Sérvia, morreu de ataque cardíaco em 2006, na sua cela, ainda antes do veredito.

Hoje todas as seis repúblicas da ex-Iugoslávia são países individuais, dentro ou na fila de espera para entrar na União Europeia. São eles Sérvia, Croácia, Macedônia, Montenegro, Eslovênia e a Bósnia (embora esta última seja separada em repúblicas para os sérvios e outra para croatas e muçulmanos). Kosovo, que é em grande parte albanesa e muçulmana, rompeu em 2008, mas a Sérvia não reconhece sua independência. Em meio a ansiedades e sobressaltos, a região esta mais ou menos em paz, embora haja tiroteios ocasionais em Kosovo, onde forças internacionais de paz ainda estão presentes.

Na ex-Iugoslávia, se consagraram expressões como limpeza étnica e a necessidade de intervenção humanitária, uma expressão que deixa os russos horrorizados. São temas urgentes em um conflito cada vez mais militarizado como o da Síria. E como na época de Milosevic, Moscou vai segurar de Bashar Assad até onde der. Na Síria, em pouco mais de um ano, morreram cerca de 10 mil pessoas no pais brutalmente governado pelo clã Assad, que promove um jogo sectário. O cerco da cidade de Homs, que terminou com o assalto das tropas oficiais, fez muita gente se lembrar de Sarajevo. Não sabemos o que vamos falar de Homs e da Síria dentro de 20 anos, mas infelizmente teremos até lá cada vez mais histórias como as de Suada Dilberovic e Olga Sucic.

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Pessoal, colher de chá vai mesmo para vítimas inocentes em conflitos como Bósnia e Síria. 

As mentiras de Assad e as meias verdades da Al Jazeera

Al Jazeera nem sempre é liberdade - Foto Getty

Nenhuma colher de chá para o brutal regime sírio, que diz ter concordado com um cessar-fogo da ONU, em mais uma encenação para ganhar tempo na sua repressão a uma rebelião cada vez mais militarizada. Ativistas sírios e televisões por assinatura no mundo árabe prestam um serviço de utilidade pública, exibindo as vítimas e as engrenagens da máquina de repressão do regime sírio (como crianças torturadas e mortas). Mas precisamos conter nosso entusiasmo e levar em conta os alertas de alguém como Ali Hashem, o jornalista que pediu demissão da rede Al Jazeera no começo de março, reclamando da “cobertura parcial e não profissional” da insurreição síria.

Em um comentário no jornal britânico The Guardian, Hashem, que era correspondente baseado em Beirute, elabora críticas, não apenas de sua ex-empresa, mas de meios de comunicação em geral do mundo árabe. Ele diz que se estes veículos se tornaram partidos, transmitindo a parte da história que serve à agenda política dos proprietários ou dos interesses dos países onde estão estacionados. No caso da Al Jazeera, o emirato do Catar. Nem se trata de contar mentiras. Para Hashem, o modus operandi é contar apenas parte da verdade e enterrar o resto.

Claro que é verdade a brutalidade do regime sírio e que sua narrativa dos acontecimentos é mentirosa, fantasiosa e mera peça de propaganda, num atentado de maniqueísmos. Mas a narrativa do outro lado tem tons cinzentos. A bem da verdade, apesar de tudo, a Al Jazeera  é um avanço jornalístico no mundo árabe. Dando uma desgalhada, dou o exemplo aqui de uma análise no seu site em inglês sobre a encrenca política no Egito (tema de minha coluna de terça-feira). Análise razoável (a versão em inglês costuma ser mais razoável), sinalizando o descrédito da Irmandade Muçulmana.

Mas voltando à Síria, num exemplo específico, Hashem diz que a Al Jazeera se recusou a transmitir imagens de rebeldes armados lutando na fronteira entre Síria e Líbano, no empenho para manter a narrativa de que se trata de uma rebelião “pacífica e limpa”. É uma narrativa formulada pelos governantes do Catar, os mesmos goverrnantes que censuraram a cobertura da rebelião e de massacres no Bahrein. E por quê? Países sunitas como Catar e Arábia Saudita estão na linha de frente da campanha para derrubar regimes como o da Síria (aliado do xiita Irã), mas não querem saber do clamor por liberdade na sua vizinhança, especialmente se há rebeldes xiitas, como é o caso do Bahrein, governado por uma minoria sunita.

Para Hashem, a busca de credibilidade pela Al Jazeera e outros canais da região se tornou um exercício de futilidade. Os grupos que controlam estas emissoras estão se comportando como ditadores da escola Assad, que obviamente manipulam a cobertura da midia estatal (aqui achei a comparação hiperbólica). Hashem conclui que muita gente na região recorre cada vez mais à imprensa ocidental para saber o que está acontecendo. Isto é refletido nos ganhos de audiência do serviço árabe da BBC de Londres. Hashem arremata que quando governos que possuem organizações de mídia no Oriente Médio impõem suas agendas, canais como Al Jazeera estão caminhando para o “suicídio jornalístico”.

E tudo isto, enquanto os Assads matam (e alguns rebeldes também).

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Pessoal, a colher de chá vai mesmo para o Ali Hashem. 

O regime podre de Assad e a doutrina da cebola

Kofi Annan e Bashar Assad em Damasco - Foto Reuters

Alarmes falsos (e eu já soei tantos) sobre a iminência do fim da ditadura de Bashar Assad e também sobre planos de paz quando a rebelião supera um ano (e a marca de nove mil mortos). Agora, é o anúncio do enviado especial das Nações Unidas, o seu ex-secretário-geral, Kofi Annan, de que Assad aceitou seu plano baseado em cessar-fogo, retiradas das falanges governistas dos centros urbanos, agilidade para ajuda humanitária, libertação de presos, diálogo e direito ao protesto pacífico (na visão do regime, este último ponto deve ser o direito de protestar contra a oposição).

Como sempre duro é duro acreditar na implementação de um plano de paz na Sïria de Assad (pai ou filho). O novo plano sequer estipula um prazo. Natural que as tropas de Assad prossigam na sua política de arrasa-cidade (com uma escalada que chegou à zona fronteiriça com o Líbano). Natural que o anúncio de Annan tenha sido recebido com ceticismo pela oposição e diplomatas ocidentais, pois a prática de Assad é ganhar tempo, discutindo modalidades de um plano de paz, enquanto tenta esmagar a rebelião. No roteiro habitual, depois basta repudiar o plano diante de falta de cooperação da oposição, que, de fato, é confusa e desarticulada, unindo-se para desconfiar da sinceridade do ditador.

Neste impasse em que a repressão não acaba com a rebelião e a rebelião não acaba com o regime, as coisas melhoraram para Assad de algumas semanas para cá (faz semanas que eu não falo de sua queda iminente).  Como diz Marc Lynch, professor da George Washington University, em Washington, “Assad está claramente ganhando em termos militares, mas estes ganhos são vitórias táticas vazias. Em termos mais amplos, ele está perdendo controle, perdendo legitimidade”. Em entrevista à BBC, a comissária de direitos  humanos da ONU, Navi Pillay, disse que o dirigente pode ser indiciado por crimes contra a humanidade, por responsabilidade em atos como tortura de crianças. Claro que Assad está isolado (por exemplo, a Síria está suspensa da Liga Árabe, reunida nesta quarta-feira em Bagdá) e sofre crescentes sanções, embora conte com o respaldo de Rússia, China e Irã. Existem também os vexames com o vazamento de e-mails privados do casal Assad, confirmando venalidade e futilidade no despotismo moderno da era de iTunes.

Mas o tom essencial é que Bashar sobrevive e, para expressar desafio, na terça-feira ele visitou Homs, cidade que por algumas semanas foi um símbolo da resistência ao regime. Ademais, existe esta amarga constatação de que sua remoção do poder (como exigem países ocidentais e árabes) foi removida deste plano de paz. Ficou mais fácil para russos e chineses abençoarem o plano de Kofi Annan, pois ele carece do conceito maldito de “mudança de regime”. É inimaginável, porém, uma solução a longo prazo na Síria que permita a permanência de Assad (ou de algum fantoche) no poder. O regime precisa mudar.

Para constatar o óbvio, cada caso é um caso na primavera árabe (e a estação está de volta na região). Demonstrações em massa no Egito, em particular na praça Tahrir, no Cairo, e o abandono do apoio militar a Hosni Mubarak levaram ao colapso o regime. Na Líbia, a brutal repressão do regime Kadafi radicalizou a oposição, que conseguiu se unir na guerra civil e só ganhou graças à intervenção militar estrangeira. No Iêmen, o ditador Ali Abdullah Saleh participou da transição, mas este país lá nos confins das Arábias não serve de modelo para nada.

Na Síria, existem manifestações populares contra o regime, mas não na escala egípcia. Além disso, Assad tem blocos de sustentação popular (entre alauítas, cristãos e também sunitas). O núcleo duro no aparato militar e de segurança não desintegrou e Assad não é um completo pária internacional, como Kadafi. Seus aliados internacionais estão aí para manter o status quo enquanto der. A oposição que mistura desolação com triunfalismo ainda acredita que o apoio ao regime irá descascar (na doutrina da cebola), com o abandono, camada após camada, de oficiais militares, empresários, funcionários do governo, do partido Baath e já ocorreu uma “deserção mental” da população mesmo nas duas grandes cidades, Damasco e Aleppo, onde nunca ocorreram protestos de grande magnitude.

Infelizmente, eu preciso concordar com o presidente russo Dmitry Medvedev de que a alternativa a este plano de paz de Annan é uma guerra civil sangrenta e prolongada, de ramificações sectárias e na qual haverá um incremento do jogo competitivo envolvendo atores regionais (e não só regionais, é claro). Mas a plena aceitação do plano de paz por Assad é conversa mole. Sua premissa é a de que os grupos de oposição deponham as armas (e não o regime) e como Assad irá aceitar manifestações pacíficas, ao estilo da praça Tahrir? Annan, por outro lado, foi costurando seu plano de paz, enquanto EUA e Turquia confirmavam o fornecimento de ajuda “não letal” à oposição síria.

O mais provável adiante é mesmo uma guerra civil. Eu espero que não seja prolongada, de alta intensidade e com crescente envolvimento de extremistas islâmicos (algo que alimentaria a narrativa de Assad). Bom mesmo seria o sucesso da doutrina da cebola, com as camadas de sustentação do regime sendo descascadas, até que ele caia de podre. Mas basta de alarmes falsos.

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Colher de chá para o Henrique por seus comentários (dia 28, 11:13 e 13:39) por lembrar a coisa boa que seria o regime Assad cair, apesar das ramificações incertas. E outra para a Vania (dia 28, 14:45), pelo depoimento pessoal e político.

Entre Israel e Gaza, um jogo de tensão e acomodação tática

Escalada de ataques em Gaza e sul de Israel - Fotos Reuters/Getty

De uns dias para cá, ocorreu uma escalada de violência nas bandas de Gaza/Israel, com os ataques aéreos/assassinados seletivos praticados por israelenses contra terroristas palestinos (e nas ações morreram também civis) e lançamento de foguetes contra cidades israelenses por radicais islâmicos mais radicais do que o Hamas. Existe um interesse tanto de Israel como do Hamas de impedir que a coisa se degringole. A disposição mútua é tática, manifestada em negociações indiretas mediadas pelo Egito. Naquelas bandas, tréguas são frágeis. Vamos ver.

O foco de Israel no momento é a questão nuclear iraniana, enquanto o Hamas tenta se ajustar a uma nova realidade regional (em função da primavera árabe). O grupo, ao que tudo indica, se distancia dos seus patronos sírios e iranianos (isolados no mundo árabe-sunita) e obviamente fortalece os laços com a Irmandade Muçulmana, na qual tem suas raízes, e que está a um passo do poder no Egito. No cálculo do Hamas, luta política e o mero reconhecimento tático que Israel existe talvez tragam mais ganhos do que a via armada/terrorista. Entre outras coisas, enfraquece a narrativa israelense de que não dá para negociar com um bando de terroristas que prega a destruição do estado de Israel.

Para o Hamas, e por extensão os palestinos, até que convém a eliminação da ameaça nuclear iraniana e a queda do regime Assad na Síria. Entre as ramificações, estaria a recolocação da questão palestina no centro dos acontecimentos no Oriente Médio. Claro que não podemos prever com precisão os desdobramentos em Gaza e na Cisjordânia caso ocorra um ataque israelense às instalações militares iranianas.

O que aconteceria, por exemplo, se o Hezbollah libanês lançar foguetes contra Israel como parte de uma retaliação iraniana? O Hamas ficaria de braços cruzados, apesar de garantias dadas recentemente por alguns dos seus dirigentes? Um dado importante aqui: nesta última escalada de violência, o estrago apenas não foi maior em Israel  devido à taxa de sucesso (70%)  do sistema de interceptação de foguetes disparados contra áreas povoadas. Maiores estragos talvez resultassem em retaliações mais severas. E vale lembrar que existe um racha no Hamas sobre mais resistência ou algum tipo de acomodação tática com Israel. Em contrapartida, interessa a iranianos e sírios botar lenha na fogueira palestina para desviar as atenções dos desafios que enfrentam.

Na questão palestina em si, um desafio é que o processo de paz, estabelecido com os acordos de Oslo em 1993, está essencialmente morto há três anos com o fracasso de negociações entre o então primeiro-ministro israelense Ehud Olmert e o presidente palestino Mahamoud Abbas sobre um status final em questões como fronteiras, refugiados, segurança e Jerusalém.  Com Olmert e seu antecessor Ehud Barak, Israel fez propostas que os palestinos não deveriam ter recusado. Foram maximalistas e perderam uma chance histórica. O de sempre, os palestinos não perderam nenhuma oportunidade de perder oportunidade. Já o atual primeiro-ministro Benjamin Netanyahu é minimalista e quer apenas manter um processo diplomático em curso com os palestinos, mas sem avanços substantivos. É o processo pelo processo.

Do lado palestino, tampouco existe algo substancial. Abbas sabe que suas posições em questões como o direito de retorno de refugiados palestinos a Israel são irreconciliáveis com a realidade (este retorno é inaceitável para Israel,  seria um suicídio demográfico) e que a expansão dos assentamentos judaicos na Cisjordânia (que deve ser contida por si) não é o único obstáculo em conversações. Abbas tem uma posição fraca, pois não controla Gaza e a perspectiva de reconciliação do seu grupo, o Fatah, com o Hamas é duvidosa, apesar de infindáveis negociações. Ironicamente, se isto acontecesse seria até uma desculpa para mais imobilismo diplomático israelense.

Temos, portanto, acomodação tática, negligência, falta de foco, farsa diplomática e ausência de paradigmas que substituam a fórmula dos acordos de Oslo. Este status quo provisório não pode se tornar crônico. É insustentável

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Estou surpreso, assim como alguns leitores, como o tom calmo dos comentários sobre esta coluna. Debates civilizados. Parabéns aos leitores. Portanto uma colher de chá (de cactus do deserto?) para todos.

27/02/2012

às 6:00 \ Hollywood, Síria

A paródia do ditador e a paródia O Ditador

O ditador Assad votando com a mulher Asma e o "ditador" Sacha Baron Cohen

E o vencedor do Oscar é…Bashar Assad, Oscar de melhor paródia, Oscar de melhor farsa em meio à tragédia na Síria, um país que caminha para uma guerra civil em larga escala. Nada mais apropriado que no mesmo domingo das premiações da academia de Hollywood, o ditador Assad (oops, presidente) tenha encenado um referendo para reforma constitucional.

Para que uma nova Constituição? Pela atual já não é permitida a tortura e as liberdades individuais florescem no país em que o governo passa de pai para filho. Quando chegou a poder no ano 2000 com a morte do pai Hafez, Bashar até que realizou um esforço para se desfazer das roupagens de um típico ditador do Oriente Médio, do gênero que inspirou o meu querido Sacha Baron Cohen a fazer o general-almirante Shabazz Aladeen, personagem da comédia O Ditador que irá estrear em maio e que, com seu timing promocional, apareceu fantasiado e deu um show na festa do Oscar.

Mas para Bashar Assad não adiantou se fantasiar de reformista. Ele é a paródia no meio da tragédia. Em referendos anteriores, Assad conseguiu 97% dos votos. Neste referendo dominical, a proposta mais importante era o fim do monopólio do partido Baath (no poder desde 1963), convocação em três meses (dá para acreditar?) de eleições multipartidárias para o Parlamento e limite de mandato presidencial. Isto, é claro, depois que Bashar Assad permanecer mais 16 anos no poder, para um total de 28 (até 2028). Um avanço, afinal papai mandou por 30.

No roteiro previsível, Rússia e China endossaram a paródia, mas da oposição e de amplos setores da comunidade internacional ecoaram as denúncias de que este referendo não passa de uma farsa. Como votar em um país com os massacres de civis em curso em Homs e tantas outras partes? Como votar em um país em que franco-atiradores das forças de segurança alvejam participantes em funerais de vítimas de franco-atiradores das forças de seguranca? Como votar em um país que já está votando com armas, ou seja, os tanques e a artilharia pesada das tropas governistas contra os rifles de uma resistência que se militariza?

O referendo e esta coluna sobre o assunto não passam de distrações. Foco em Sacha Baron Cohen, o ditador do fictício país Wadiya. Se é para discutir tecnicalidades (na Sïria, não em Wadiya), a proposta constitucional tem cláusulas que impedem um efetivo jogo democrático. É impossível uma oposição de verdade vencer eleições presidenciais. Um candidato precisará ter vivido no país por 10 anos sucessivos e não ter uma mulher nascida no exterior. Ademais, partidos não podem ser baseados em religião e etnicidade.

Tudo isto fruto das maquinações legalistas de uma ditadura secular que faz o que pode para alimentar as divisões sectárias. Não há dúvida que existem bolsões de apoio ao regime Assad, especialmente nas duas maiores cidades, Damasco e Aleppo, entre alauítas (a seita da família) e cristãos, que temem o triunfo da maioria sunita. E cabe à oposição encontrar mecanismos que abafem os temores de banho de sangue se o regime cair (a gente não viu nada ainda).

Como eu já disse, este referendo é apenas uma distração quando se torna cada vez mais implausível a busca de uma solução negociada para uma crise que ameaça desembocar em guerra civil em larga escala, quando um grande debate no exterior é sobre armar a oposição. Justo debater se, no final das contas, não é isto que interessa a Bashar Assad. Com uma guerra civil em larga escala, ele poderá perder de vez os pudores e partir para o vale-tudo, antes de não valer nada.

Pensando melhor, não vou dar o Oscar de melhor paródia para Bashar Assad. Vai mesmo para Sacha Baron Cohen. O seu ditador Aladeen apenas nos mata de rir.

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Como estamos no gênero de paródia, a colher de chá vai mesmo para o regime de Bashar Assad. Nesta segunda-feira, ele anunciou que o referendo foi aprovado por 89.4% dos votantes (participação  de 57.4%).

PS: E no departamento de paródia, uma pérola:

Nesta segunda-feira, o Irã declarou vitória sobre a “criminosa entidade sionista”…em Hollywood. Na lógica da TV estatal iraniana, o Oscar de melhor filme estrangeiro dado à produção iraniana Separação (numa categoria que contava também com um filme israelense), comprova “o começo do colapso” da influência israelense. Sacha Baron Cohen, a TV estatal iraniana está te dando uma rasteira.

23/02/2012

às 6:00 \ Imprensa, Síria

Curtas & Finas (Marie Colvin)

Ao lado do fotógrafo francês Rémi Ochlik, a lendária repórter americana Marie Colvin, a serviço do jornal britânico The Sunday Times, morreu na quarta-feira enquanto cobria o conflito na Síria. Ela foi vítima, talvez intencional, de um bombardeio das forças de Bashar Assad na cidade de Homs. Horas antes de morrer, Marie Colvin, que já tivera sua tragédia pessoal ao cobrir a guerra civil em Sri Lanka, onde perdeu a visão de um olho, comparou Homs a outros palcos de tragédia, como Sarajevo e Srebrenica (na Bósnia dos anos 90). Para o editor do Sunday Times, John Withrow, Marie Colvin acreditava profundamente que reportagens como as dela poderiam “diminuir os excessos de regimes brutais e fazer a comunidade internacional prestar atenção”.

Marie Colvin, de fato, fazia a sua parte. Na noite de terça-feira, ela relatava em televisões nos EUA e Grã-Bretanha coisas horríveis, como a morte de um bebê em uma clínica improvisada de Homs. Eram relatos acompanhados de imagens de ativistas contrários a este brutal regime de Bashar Assad. O mundo, portanto, presta atenção. Mas as indicações não são de diminuição dos excessos. Existe uma escalada da brutalidade do regime sírio (que não discrimina entre civis e rebeldes armados), que resultou em ações de uma oposição que se militariza e na qual grupos como a rede Al Qaeda pegam carona.
No ar, estão os apelos por uma intervenção estrangeira por razões humanitárias e também para ajudar rebeldes que não são páreo para as forças governamentais. Existe uma escalada da brutalidade do regime Assad, mas também sua hesitação tática e estratégica para usar o seu arsenal, a todo vapor, a todo calibre. Para dar uma medida, em pouco menos de um ano, morreram oito mil pessoas no conflito na Síria, mas até agora a resposta tem sido calibrada (não existe ironia na expressão). Papai Assad (Hafez), matou talvez cinco vezes mais apenas na cidade de Hama, numa insurreição da Irmandade Muçulmana em 1982. A operação durou 26 dias.
E por que a diferença? Em parte, tecnologia. Viva, sim, a geração Facebook ou YouTube. Ela contribui, assim como Marie Colvin fazia, para reduzir excessos dos regimes brutais como o de Bashar Assad. Por esta razão, eles matam repórteres incansáveis e cidadãos-jornalistas como o vídeo blogueiro sírio Ramy al-Sayed.

O regime Assad, no seu cinismo, acredita que se controlar a brutalidade, mesmo com uma escalada como a que está em curso, a comunidade internacional irá tolerar a violência sem recorrer a envolvimento militar direto. As forças governamentais até agora, ao contrário de 1982, ainda não recorreram a bombardeios aéreos ou mísseis balísticos. Marie Colvin chamava a atenção, portanto, apenas para uma carnificina temperada. Eu espero que sua morte não tenha sido em vão, a morte de mais uma vítima deste regime brutal e venal.

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A colher de chá vai mesmo para os jornalistas que, como Marie Colvin, cobrem conflitos como o da Síria, apesar dos riscos pessoais.

14/02/2012

às 6:00 \ Síria

Curtas & Finas ( Contras & Prós na Síria)

O que fazer? Foto AFP

O regime sírio mata e fere, sem discriminar entre civis inocentes e resistentes armados que desafiam um dos sistemas mais brutais do Oriente Médio. O regime Assad parece empenhado em permanecer no poder a qualquer preço. E fora do país, se discute o preço de uma intervenção. Este tipo de debate não é novo. Desde os anos 90, nos Balcãs, existe um alinhamento de falcões neoconservadores e o que podemos chamar, no meu caso nunca de forma pejorativa, de humanistas liberais a favor de intervenção. Contra esta coalizão, existe uma outra que envolve guerreiros frios e também esquerdistas. Nesta banda, existe gente que considera um erro de cálculo se envolver em encrencas como a da Síria por motivos estratégicos, gente que teme que depois do ruim (Assad) venha algo ainda pior (como a ascensão de fundamentalistas islâmicos) e, pior, gente que se contrapõe de forma automática ao Ocidente (liderado pelo império do mal estadunidense). Para dar uma medida do debate, ofereço aos leitores dois textos. O primeiro da escola de alerta contra uma intervenção, mas com algumas propostas práticas, menos ambiciosas, como santuários para refugiados sírios em áreas fronteiriças. Seu autor é Leslie Gelb, presidente emérito do influente Conselho de Relações Exteriores, nos EUA. O segundo texto, também com algumas propostas práticas, é uma argumentação eloquente a favor de uma intervenção feita por Jonathan Freedland, do jornal britânico The Guardian. O título dá uma medida do argumento: “Síria não é Iraque. E nem sempre é errado intervir”. Nem sempre.

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Colher de chá para o Leslie Gelb e o Jonathan Freedland, que logo cedo estimularam um debate entre leitores. 

09/02/2012

às 6:00 \ Crise nuclear, Irã, Israel, Oriente Médio, Síria

Curtas & Finas (Síria & Irã)

Amigão e amiguinho - Foto Atta Kenare/AFP

Israel vai atacar ou não o Irã? Deve ou não atacar? São dilemas estratégicos com ramificações globais. Há momentos em que uma decisão parece iminente. Em outros, parece cortina de fumaça ou realmente o dilema está sendo negociado em público por vários atores, dentro e fora de Israel. Uma medida didática dos prós e contras está neste texto da National Public Radio, nos EUA, da qual sou um viciado ouvinte e leitor.

Outro texto importante foi publicado na quarta-feira no New York Times. O autor é Efraim Halevy, ex-diretor do Mossad. uma das vozes, como outras na comunidade de inteligência e nos meios militares, advertindo contra um ataque às instalações nucleares iranianas, que parece ter como advogados mais estridentes o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e o ministro da Defesa Ehud Barak. Há a impressão também que o presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad está pedindo este ataque, além do infame aiatolá Khamenei, aquele que considera Israel um tumor cancerígeno.
Halevy pega uma terceira via interessante (as outras são pressões/sanções e ataque militar) neste texto com o título “O Calcanhar de Aquiles do Irã”. É a Síria. O ex-chefe do Mossad escreve que o debate público nos EUA e Israel parece estar “focado obssessivamente” se deve haver um ataque contra o Irã para deter suas ambições nuclelares. Ele lamenta que não haja a devida atenção para os eventos na Siria (discordo, existe a devida atenção), na medida em que a queda de Bashar Assad pode significar um desastre estratégico para o Irã.
No tabuleiro regional, a queda do peão Assad (o único país aliado do Irã nas vizinhanças) privaria o regime de Teerã de acesso a seus asseclas do Hezbollah (Líbano) e Hamas (Gaza), além de abalar ainda mais o poder e prestígio dos aiatolás dentro e fora de casa. Halevy não tem dúvidas que a queda de Assad “seria uma opção mais segura e compensadora do que a opção militar”.
Obviamente existem as ressalvas: não adianta Assad cair, mas a presença iraniana no Síria sobreviver a esta queda. E Halevy lembra que seria preciso convencer russos e chineses a puxarem o tapete de Assad. Seriam necessários também desdobramentos domésticos (no Irã). Como diz Halevy, “o povo precisa se levantar novamente contra o regime que inflinge tanta dor e sofrimento”.
No cenário mais otimista de Halevy, uma hemorragia na Teerã pós-Assad poderia levar  os iranianos a suspenderem suas ambições nucleares. Muitos verbos no tempo condicional. Mas se estivessem lendos juntos este artigo, está aí um dia em que Netanyahu, Ahmadinejad e Assad concordariam em discordar de alguma coisa.
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Colher de chá (erva doce) para a fiel e vigilante leitora Betty (dia 9, 10:59), azeda comigo, pois eu disse que Netanyahu, Ahmadinejad e Assad concordariam com alguma coisa. Obviamente, eu jamais trataria a trinca de forma equivalente. Creio que a Betty extrapolou, mas estou aqui para ser cobrado.

China quer um mundo cheio de harmonia, mas e a Síria?

Os presidentes Bashar Assad e Hu Jintao - Foto AFP

A China quer negócios, não quer confusão. Qualquer encrenca geopolítica em algum buraco do planeta e lá vem o porta-voz do ministério das Relações Exteriores de Pequim com a declaração anódina de que os chineses esperam que tudo seja resolvido de forma harmoniosa, sem interferência externa nos assuntos internos de qualquer país, qualquer ditadura, qualquer regime genocida.

A exemplo da Rússia, a China tem uma uma visão tradicional de soberania nacional, enraizada em princípios diplomáticos do século 19, mas esta postura pode ser um tiro pela culatra, especialmente quando a não-interferência colide com seus interesses econômicos. Estamos falando da Síria, mas nem vamos falar da incoerência que é apregoar não-interferência, enquanto russos e chineses seguram a barra de um governo terrível.
A China secundou a Rússia ao vetar no fim-de-semana a resolução no Conselho de Segurança das Nações Unidas, pedindo uma transição política na Síria, com a saída do poder de Bashar Assad. Pequim também secundou Moscou e anunciou que vai despachar emissários para conversar sobre a tal harmonia com o truculento regime de Assad. Em parte, com o veto na ONU, Pequim não quer endossar o repúdio à brutal repressão de um governo contra o seu próprio povo, pois o feitiço pode se virar contra o feiticeiro em função do tratamento que a ditadura comunista dispensa à sua população e minorias étnicas e religiosas.
Esta crescente preocupação que instabilidade ao estilo da primavera árabe bata nas portas de Pequim fez com as autoridades comunistas batessem prontamente ao menor sinal de protesto político no ano passado. E explica também a disposição chinesa de segurar a barra do regime de Bashar Assad. E aqui precisamos levar em conta que a Síria é um produtor de petróleo de terceira categoria, de pouca importância econômica para a voraz China. Situação bem diferente de um arco de países que vão da costa atlântica da Africa à Ásia Central, com os quais os negócios chineses estão a plena vapor.
 O problema é que muitos países neste arco estão em polvorosa política, alguns ritmo de insurreição, a destacar no mundo árabe. Com sábio oportunismo ou por interesses geopolíticos ou sectários, muitas ditaduras do mundo árabe se afastam da Síria, entre elas monarquias do golfo Pérsico. E aqui a China tem parceiros petrolíferos essenciais. Saia justa para uma China, que não gosta de encrenca com parceiros comerciais.
Na crise líbia, foi relativamente fácil para os chineses se livrarem do dilema. Pequim se absteve na votação no Conselho de Segurança que efetivamente autorizou a intervenção militar internacional. Na verdade, a diplomacia chinesa foi adiante e apoiou sanções contra o regime Kadafi. Mesmo na crise nuclear iraniana, os chineses endossam as resoluções mais diluídas contra o regime de Teerã. Mais do que isto, em situações extremas, a China viola sua política de não-interferência, como no deslocamento de navios para a costa da Somália para combate pirataria.
São passos, porém, tímidos e incompatíveis com as ambições de uma superpotência emergente. As movimentações no seu quintal (especialmente marítimo) já são mais assanhadas, o que assusta a vizinhança. A China abomina o que considera o imperialismo moral do Ocidente e com razão. Sabe que pregação sobre direitos humanos (mesmo quando acompanhada de uma agenda econômica) expõe, em última instância, a falência moral do seu sistema, cujo pilar é o comunocapitalismo autoritário, no qual vale tudo na arena internacional desde que haja um bom negócio.
Mas a ascensão da China irá exigir uma atuação global mais muscular. Isto significará tomar partido em conflitos domésticos. Será uma China mais ativa, para o bem ou para o mal, uma China mais contraditória, a exemplo dos países ocidentais, e não apenas consistente no seu mercantilismo.
PS- Sobre os desafios diplomáticos de uma potência emergente, eu recomendo o artigo sobre o Brasil na edição desta quarta-feira no Financial Times.
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Colher de chá matinal para o Maisvalia (dia 8, 11:17). Cobrou logo cedo dos amantes da nobre causa de Pequim um ataque contra os defensores dos direitos humanos. Mas este pessoal parece que acorda tarde. Colher de chá noturna para a Karen (dia 8, 23:50), pela panorâmica. É um prazer para mim desenhar este arco.  Maisvalia e Karen, leitores com visões de mundo opostas, me acompanham desde o começo da coluna e “aprenderam” a se respeitar.

 

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