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Arquivo da categoria Rússia

24/04/2013

às 6:00 \ Boston, Putin, Rússia, Síria

Somos todos russos (nem tanto)

Os russos chegaram (Grozny, capital da Chechênia, anos 90)

Há uma enorme distância em vários sentidos entre a maratona de Boston, vítima do terror em 15 de abril passado, e os Jogos Olímpicos de Inverno que serão realizados em fevereiro próximo em Sochi, na Rússia, no Mar Cáspio, perto das montanhas do Cáucaso. Muita geografia. A conversa aqui é sobre geopolítica. Sochi 2014 faz parte da maratona do presidente russo Vladimir Putin para ser prestigiado e tratado com o devido respeito pelo mundo.

E Boston 2013 resultou em vitória para o autocrata russo na jornada para Sochi. Ele quer solidariedade agora, como vítima e inimigo do terror islâmico. Sua imagem de autocrata ameaçador está relegada para um plano secundário em capitais ocidentais. Putin, embora de forma desconfortável e suspeita, tem papel de aliado na boa causa.

Afinal, ele pode ajudar nas investigações sobre o que aconteceu em Boston. Os dois irmãos Tsarnaev, os suspeitos pelo terror na maratona, são muçulmanos, etnicamente chechenos e cresceram naquele fim do mundo turbulento do Cáucaso, onde pipocam militantes nacionalistas e jihadistas. O mais velho, Tamerlan, aquele que morreu na sexta-feira passada, circulou pelo Cáucaso no ano passado. O debate é se trouxe algo mais de lá, além de inspiração e mais fervor religioso.

Putin está numa de “bem-que-avisei sobre o perigo do radicalismo islâmico. A tragédia em Boston, portanto, é uma espécie de presente político para ele. A exemplo de outras ocasiões, como nas brutais e genocidas campanhas russas contra os chechenos nos anos 90 e começo da década passada, o Ocidente deve fazer agora vista grossa aos métodos de combate utilizados por Moscou contra insurgentes e terroristas, na contagem regressiva para Sochi. Tal atitude americana já fora acentuada depois dos atentados do 11 de setembro, a partir de quando Putin faturou como pôde com esta corrente para frente contra o terror islâmico.

No entanto, é importante lembrar o próprio papel de Putin na radicalização e mutação da mobilização nacionalista no Cáucaso para uma causa pan-islâmica. Em 2002, Putin parecia ter “pacificado” a Chechênia, após duas guerras em que os russos adotaram a política de terra arrasada (na tradição czarista e stalinista). E desde então, rebeldes nacionalistas (que nunca foram anjos também) foram ofuscados por jihadistas, envolvidos em atos terroristas simplesmente horrendos, como a tomada de reféns na escola na cidade de Beslan em 2004, que culminou com a morte de 380 pessoas.

Mas esta é uma conversa literalmente acadêmica (mais debatida por acadêmicos), pois em termos políticos existe esta tolerância com Putin. E o presidente russo não é bobo. Ele aproveita esta comoção gerada pelo terror em Boston para tentar ganhar pontos na Síria, onde apoia a ditadura de Bashar Assad.

Putin e Assad metralham sem cessar que a insurgência síria é dominada por grupos afiliados à rede terrorista Al Qaeda, Uma espécie de brigadas internacionais do jihadismo atua na guerra civil. De acordo com as autoridades russas ou seus papagaios na imprensa, centenas ou mesmo milhares de radicais chechenos estão combatendo na Síria.

No caminho de Damasco, agora está Boston. O terror na maratona reforça a narrativa russa no sentido de que é preciso uma união internacional contra o terror, em qualquer parte do mundo. Nesta linha de raciocínio de Moscou, o Ocidente não deve armar rebeldes sírios. Em última instância, isto vai beneficiar os jihadistas.

Tudo, claro, é mais complicado. Mas Putin, nunca camarada com as sutilezas, tem seus motivos para simplificar as coisas nestes momentos de indignação e alta ansiedade. Os Jogos Olímpicos de Sochi terão lugar só em fevereiro, mas Putin ganhou uma medalha na maratona de Boston.

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Colher de chá para o Felipe Goltz, como sempre infatigável nos assuntos russos. E uma noturna para o leitor Lord keynes do sec.XXI (dia 25, 21:11).

Eu não sou fã de Erdogan, mas…

Chapéu ao estilo Ataturk

Continuando a frase do título desta coluna, eu tiro o chapéu para o primeiro-ministro turco. São impressionantes as conquistas nos últimos dias de Recep Tayyip Erdogan para se tornar o maior líder do seu país desde Kemal Ataturk, o pai da Turquia moderna, que surgiu das cinzas do Império Otomano, e também para consolidar sua liderança regional. Erdogan inclusive tem apelado ao chapéu de estilo cossaco que era usado por Ataturk.

Foram dois lances: um deles pegou o mundo de surpresa e eu explico mais para a frente. O mais coreografado foi a trégua com os separatistas do Partido dos Trabalhadores do Curdistão, uma organização definida como terrorista na Turquia, Europa e EUA. Seu líder Abdullah Ocalan, que está em confinamento solitário há 14 anos em uma ilha, acertou com as autoridades o acordo. Os rebeldes devem baixar as armas e lutar politicamente por suas aspirações, que também baixaram.

O líder curdo Abdullah Ocalan

O conflito já custou 40 mil  vidas em  30 anos, quase todas curdas. Ao invés do sonho da independência para os curdos da Turquia, haverá aceitação de um estado unitário, com língua, cultura e direitos da minoria respeitados. Tudo isto inscrito em uma reforma da Constituição.

Os curdos são um povo sem pátria, que tiveram suas aspiraçães traídas por ingleses e franceses, com a derrota do Império Otomano na Primeira Guerra Mundial e vivem espalhados pela Turquia, Síria, Iraque, Irã e Armênia. Na Turquia, eles representam  20% dos 75 milhões de habitantes.

Erdogan seduz os curdos e espera conseguir o apoio deles no referendo para a reforma da Constituição em 2014 para criar uma presidência forte. E a próxima aspiração do ambicioso e autoritário Erdogan é chegar à presidência depois de três mandatos como primeiro-ministro, mas ele quer uma chefia de Estado com poder e não cerimonial.

Com o esforço para criar um modus-vivendi com os curdos na Turquia, Erdogan melhora ainda mais suas relações com o governo semiautônomo curdo no Iraque. Os turcos estiveram entre os grandes beneficiados da guerra no Iraque, mas em boa parte suas exportações e investimentos em construção foram na região curda, sem contar os projetos energéticos. Esta intimidade do sunita Erdogan com os curdos deixa furioso o primeiro-ministro xiita do Iraque, Nouri al-Maliki.

Ao fechar o acordo com os separatistas curdos, os turcos esperam também acalmar militantes do Partido dos Trabalhadores no Curdistão, que atuam na Síria, agora com sinal verde do ditador Bashar Assad, que se tornou inimigo de Erdogan, partidário dos rebeldes na guerra civil. Um dos motivos que este acordo com Ocalan pode melar serão os esforços de sabotagem do regime Assad e seus aliados iranianos. Existe também resistência nacionalista dentro da Turquia.

Erdogan com Obama

Neste complexo jogo de xadrez geopolítico, outro lance, mediado pelo presidente americano Barack Obama, foi a reconciliação entre a Turquia e Israel. Foram três anos de disputa e o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu pediu desculpas por erros isralenses fatais na tomada da embarcação turca que levava ajuda a palestinos em Gaza, em 2010. Erdogan, de sua parte, recuou da mais virulenta retórica antiisraelense, como equiparar sionismo a fascismo.

Esta reconciliação também pode melar. De qualquer modo, Turquia e Israel são aliados estratégicos dos EUA e compartilham a preocupação com a instabilidade regional, a destacar na Siria, com o qual ambos fazem fronteira. Será interessante saber como a Turquia irá se comportar em caso de ataque israelense ou americano contra as instalações nucleares do Irã, país com o qual também tem fronteira e mantém muitos negócios, em meio à competição por liderança regional.

Com estes lances políticos e diplomáticos dos últimos dias, Erdogan confirma sua influência e sua condição de ator indispensável na região. Mais do que isto, ao aparar as arestas com os EUA e Israel, ele mantém um pé no Ocidente, ao mesmo tempo que avança no mundo árabe-islâmico, com a pretensão de vender um modelo de conciliação entre islamismo e democracia, em particular na esteira da Primavera Árabe. Erdogan flerta e suspeita da Europa. Os sentimentos são mútuos.

Querem mais? A pequena ilha de Chipre se tornou epicentro da crise financeira europeia, com investidores russos no meio da confusão e peão de um grande jogo de interesses energéticos, com seus promissores campos offshore de gás e petróleo. A ilha está dividida entre o sul greco-cipriota e o norte turco-cipriota. A maior parte das águas territoriais são reinvindicadas pelos turco-cipriotas, cuja república é reconhecida apenas pela Turquia.

Erdogan com Putin

Entre dois mundos (o Ocidente e o Oriente), a Turquia é isso aí: um pé para cá, outro para lá. Pena que o dançarino seja alguém como Erdogan, um paladino do autoritarismo, dirigente de um país campeão mundial de encarceramento de jornalistas. Com as reformas constitucionais, o plano de Erdogan é firmar uma presidência forte ao estilo francês. O risco é o de que seja uma mutação do modelo de Vladimir Putin, o presidente da Rússia, outro país com um pé para cá, outro para lá.

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Colher de chá para os comentários do General Failure e do Henrique, bem amarrados e articulados. 

21/03/2013

às 6:00 \ Chipre, Europa, Rússia

Curtas & Finas (Rússia & Chipre)

Pequeno país, grande problema

Esta coluna ambiciosa e iconoclasta, conforme o seu mote, trata tanto de geopolítica, como de picuinhas. A ilha de Chipre, portanto, é assunto sob medida. O país representa apenas 0.2% do PIB da zona do euro, uma picuinha, mas se converteu em um grande problema, fruto do erro colossal que foi o plano da troica (União Europeia, Banco Central Europeu e FMI), rejeitado pelo Parlamento local, de taxação sobre os depósitos bancários para obter o pacote de resgate de bancos cipriotas.

Já que investi na expressão troica, vamos lá, para Moscou: esta taxação atingiria desde sardinhas (pequenos correntistas acima de qualquer suspeita) a tubarões (oligarcas russos que usam o sistema bancário cipriota como lavanderia). Foi um erro colossal punir os pequenos depositantes. Tal tipo de plano poderia abrir um precedente ao desestabilizar o compromisso elementar de acalmar correntistas. Afinal, a Europa decidiu assegurar depósitos de até 100 mil euros para evitar corrida aos bancos e foi tramado um plano para penalizar pequenos depositantes?

Existe uma coisa orwelliana ir atrás do dinheiro de depositantes (alô, alô, chamando Collor e Zélia) e até o “big brother” Vladimir Putin chiou lá em Moscou (1/3 dos depósitos nos bancos de Chipres são de russos).

Mas na encrenca, as autoridades cipriotas foram atrás do socorro russo. Existe a necessidade de manter a lavanderia em funcionamento e aqui não vou começar a lavar roupa suja em público sobre como se entrou na crise e como será possível limpar a situação. Não entendo o suficiente de complexos instrumentos financeiros para palpitar com detalhes. Eu prefiro conversar na minha língua geopolítica.

Os cipriotas podem estar usando a conexão em Moscou antes de tudo para conseguir oxigênio e para renegociar os termos de empréstimos russos feitos à ilha ou estendê-los. A mera ida a Moscou pode servir também para assustar os “big brothers” europeus, que assim topariam termos mais suaves para o resgate de Chipre.

O susto faz sentido diante do cenário de que o conglomerado energético russo Gazprom, intimamente associado ao presidente Putin, poderia oferecer um plano de resgate privado da ilha no Mediterrâneo. O conglomerado estatal significa 10% do PIB russo e fornece 40% do gás importado pela Europa. Tudo nebuloso e os russos desconversam, talvez esperando alguma decisão dos europeus para adotar os seus passos.

Gás é palavra-chave nesta conversa econômica e geopolítica. Os russos podem estar de olho nas promissoras reservas de gás offshore. Em troca de resgate russo, um bom acordo de gás cipriota. Há também o interesse russo em um porto ou base militar naval na ilha. Não custa lembrar que o único porto que os russos possuem fora do território da antiga União Soviética é em Tartus, no Mediterrâneo, no país do seu aliado Bashar Assad. E a situação na Síria não é promissora para Moscou.

Hora para os russos apostarem ainda mais no paraíso fiscal (bem menos paradisíaco agora) de Chipre, que ameaça se tornar em um tormento para a segurança econômica e geopolítica da Europa.

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Colher de chá matinal para o comentário muito informativo do Felipe Goltz (dia 21, 8:09). 

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06/12/2012

às 6:00 \ Brasil, China, Corrupção, Rússia

Pra não dizer que não falei das roses chinesas

Xi Jinping deixando as flores murcharem

Nem tudo são roses na luta contra a corrupção no Brasil. Mas poderia ser até pior. Na edição 2012 do relatório da Transparência Internacional, divulgado esta semana, o Brasil continua mal, mas deu um pequeno salto. Passou da posição 73 para a 69, entre os 176 países. Naquela marquetagem que são os Brics, até que o Brasil se saiu bem, empatado com a África do Sul. A China é número 80, a Ïndia, 94 e a submergente Rússia de VP, Vladimir Putin, está na posição 133.

Lá nas estepes russas, como escrevi na coluna de segunda-feira, nem tudo são roses… mesmo. Aquele coluna, aliás, falou da jogada espinhosa de VP para fazer alguma faxina contra as ervas daninhas da corrupção. O risco, claro, é varrer o próprio sistema político, que é uma espécie de crime organizado. Mas estas faxinas sempre são populares. Não vou novamente pisar nas roses russas.

Com fins educacionais, aqui vai uma menção para a China, que caminha para se tornar a primeira economia do mundial em questão de décadas. No entanto, vamos ver quanto tempo vai levar para ela sair desta posição 80 no ranking de corrupção.

Pra não dizer que não falei das flores, cito a primeira medida do politburo chinês, agora sob a liderança de Xi Jinping. Na campanha contra a corrupção e o desperdício, os burocratas comunistas baniram esta semana os gastos com elaborados arranjos de flores, boas vindas com tapetes vermelhos, banquetes nababescos, discursos intermináveis, excesso de babação de ovo dos poderosos, cerimônias fajutas de inauguração de obras e viagens ao exterior de inchadas delegações governamentais.

Campanhas a favor disso ou daquilo, de cima para baixo, sempre são problemáticas, ainda por cima em ditaduras. Já que agora estamos falando de flores, não custa lembrar que em 1956, Mao Tsé-tung, aquela flor de pessoa, determinou: “Deixem que desabrochem cem flores”, para incentivar críticas e correções para a melhoria do sistema comunista. O lema brotou da tradicional frase chinesa “que flores de todos os tipos desabrochem, que diversas escolas de pensamento se enfrentem”. Desabrochou demais para o odor comunista e, no ano seguinte, Mao cortou o mal pela raiz.

Na longa marcha chinesa, para Xi Jinping, o dirigente comunista de plantão, a solução é deixar as flores murcharem.

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De forma transparente, colher de chá para a dita cuja: Transparência Internacional. 

03/12/2012

às 6:00 \ Brasil, Corrupção, Lula, Putin, Rússia

Os espinhos e as roses para os poderosos chefões

Putin e Medvedev

De vez em quando, eu recebo cobranças de leitores: fale mais do Brasil, fale mal do Brasil, fale dos espinhos, fale das roses. Eu sei que a distância geográfica não é desculpa (afinal, pontifico sobre os cafundós do mundo) e muito menos a distância emocional (moro longe do Brasil, mas como jornalista vivo às custas do país). Tenho, portanto, uma obrigação profissional e até ética.

Michael e Don Vito Corleone

Mas, de certa forma, me sinto blindado e, quando pressionado a falar, só me resta recorrer ao maior filme de gangster da história, O Poderoso Chefão. Nada mais apropriado do que citar gangster se o assunto é Brasil, não? A citação do filme é manjada, dita por Michael Corleone: “Quando eu pensei que estava fora, eles me puxam para dentro”.

Pronto, puxado para dentro, eu já falei mal do Brasil, país mafioso, do crime organizado, dentro e fora do poder político. Prefiro, no entanto, sair pela marginal (opa!) para falar de poder, bandidagem e corrupção. Prefiro trazer outros prontuários para contribuir na discussão.

PR e Rosemary Noronha

A Rússia do presidente Vladimir Putin (VP) sempre funciona para fins educacionais. Ele, VP, que conseguiu o que o PR (o Lula daquela flor de pessoa que é a Rose) não obteve: um terceiro mandato de poder formal, ao trocar de posição no começo do ano com Dmitry Medvedev, agora primeiro-ministro. E na minha marginal, pego carona em um artigo emblemático na edição desta semana da revista The Economist.

Na televisão estatal russa, existem ultimamente espetáculos sobre os podres do país, com uma sequência de revelações e imagens de escândalos de corrupção, envolvendo ministros, ex-ministros, suas roses e malversação de fundos públicos. A campanha de moralidade começou em setembro com a demissão do ministro da Defesa, Anatoly Serdykov, metido em uma fraude de US$100 milhões. Agora, existe a negociata de US$ 200 milhões que ameaça o chefe da Casa Civil do Kremlin, Sergei Ivanov. Os campos da corrupção são fertéis nas estepes russas e os números se multiplicam. Um documentário na televisão estatal conecta a ex-ministra da Agricultura, Yelena Skrynnik, a uma fraude de US$ 1.2 bilhão.

Na era Putin, a corrrupção foi institucionalizada, com o expurgo de alguns magnatas que não aceitaram as regras de Don Corleone e a absorção de famílias para o sistema. Mas mesmo dentro do sistema, há desvios excessivos. Interessa a Putin fazer uma faxina mais rigorosa e intimidar os beneficiados. Cruzadas contra corrupção são populares e abafam um pouco o barulho da oposição. E são lances essenciais quando o apoio popular parece mais precário a Putin, exercendo há pouco mais de seis meses o seu terceiro mandato.

Um sistema corrupto precisa de purificação de tempos em tempos para continuar funcional. O desafio na Rússia (ou em qualquer outra rússia) é se esta cruzada contra corrupção ganha vida própria e foge ao controle do capo di tutti capi, com guerras entre famílias políticas e empresariais. The Economist arremata que, em caso de descontrole, Putin acaba mais fraco e não mais forte, um chefão menos poderoso.

Nunca se sabe e, ao contrário do que disse Don Corleone, alguma oferta pode ser recusada.

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Colher de chá para Mario Puzo e Francis Ford Coppola. Algum leitor recusa minha oferta?  O Ricardo Platero ousou e me dobro. Estendo a colher de chá a Marlon Brando e Al Pacino.

16/08/2012

às 6:00 \ Putin, Rússia

Curtas & Finas (Putin & Punk)

O punk no tribunal de Moscou

Nadezhda Tolokonnikova, Maria Alyokhina e Yekaterina Samutsevich são três moças desrespeitosas. Elas integram a banda punk, anarquista e coletivo de arte Pussy Riot (está aí um nome desrespeitoso, penetrem no Google para entender). Presas desde março, elas aguardam o veredito da justiça nesta sexta-feira. Podem pegar até três anos de cadeia. São acusadas de vandalismo e de incitar o ódio religioso.

Em fevereiro passado, as moças aprontaram uma provocação no altar da catedral da igreja ortodoxa na capital russa. O desrepeito do papa Vladimir Putin é muito maior. Dissidentes lendários como Alexander Solzhenitsyn expuseram o sistema soviético. As minhas bandoleiras expõem o sistema comandado por Putin. E elas se comparam a Solzhenitsyn, que não era chegado ao punk, abominava a “corrupção moral” esposada pelas três neodissidentes e que no final da vida cometeu a heresia de abraçar Putin. Falando em abraços, a revista The Economist batizou a igreja ortodoxa russa como uma “força de conservadorismo e xenofobia” (Solzhenitsyn adoraria a definição), que encetou um “abraço simbiótico” com o Kremlin.

O punk na catedral de Moscou

Minhas bandoleiras tomaram de assalto o altar da catedral para desempenhar uma “oração punk” depois que o líder da igreja ortodoxa, o patriarca Kirill, qualificou Putin, ex-agente da KGB, de “um milagre de Deus”, que retificou o ‘deformado caminho da história”. O patriarca recebeu residência no Kremlin, e assim restaurou um privilégio que detinha antes da revolução bolchevista de 1917, e apoiou abertamente o semiditador Putin, que retornou à presidência para um terceiro mandato em março.

Desde o colapso soviético em 1991, a igreja ortodoxa abençoa o estado russo como legítimo e o Kremlin faz o que pode para usar a continuidade histórica da religião do país em seu proveito. Em troca, a igreja depende da generosidade do estado. Embora a constituição russa estipule a separação entre as duas instituições, existe esta união muito mais escandalosa do que qualquer diatribe de uma banda de punk.

Outro escândalo exposto pelas bandoleiras é o atrelamento do sistema judicial ao Kremlin.Como observou John Lough, no jornal britânico The Daily Telegraph, é dado como certo que a juíza Marina Syrova vai se afinar como a promotoria. Nos 92% dos casos julgados por ela, os réus foram declarados culpados A dúvida é se as três moças irão mesmo para a prisão ou se vão receber uma sentença suspensa. Por mim, no máximo dava uma multa.

O caso devassou como funciona o sistema Putin. No seu espetáculo na catedral, as bandoleiras do Pussy Riot mencionaram o nome de Putin e assim condicionaram a máquina estatal a se afinar rigorosamente com o Kremlin. Provavelmente, não houve instruções de cima. Foi apenas acionado o piloto automático dos sicofantas num sistema de poder personalizado. Nao é à toa que no julgamento, uma das três moças, Maria Alyokhina, disse que elas aprontaram para denunciar a “verticalidade do poder”.

A igreja ortodoxa é engrenagem desta máquina, que desgovernou com sua reação desproprorcional a uma diatribe de um grupo marginal. Uma oração para as mocinhas do Pussy Riot.

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Colher de chá para o Davi (dia 16, 8:50), num debate complicado entre respeito e liberdade de expressão. 

31/05/2012

às 6:00 \ Putin, Romney, Rússia

Curtas & Finas (Rússia)

Putin é o grande aliado de Assad

Como ser camarada com a política externa de países como a Rússia e China? Países ocidentais podem conduzir seus “affaires” com dupla moralidade, jogo de interesses, hipocrisia, seletividade, blá blá, blá. Pelo menos. Vamos poupar hoje os chineses. Como o foco por estes dias é a Síria e os russos estão no caldeirão, vamos queimá-los mais um pouco. Moscou tem uma diplomacia simplesmente amoral. E raciocinando de forma puramente amoral, por que os russos não morrem com o prejuízo e puxam logo o tapete do Bashar Assad?

No caso sírio, o comportamento russo é atroz, bloqueando qualquer avanço político, o que acelera a espiral de brutalidade, com argumentos hilários de que os “dois lados” no conflito recorrem à violência (na mesma escala?) ou que intervenção estrangeira não é a solução. Talvez. Mas os russos não têm solução, além do esforço de preservação de um regime delinquente, resquício de sua zona de influência dos tempos da Guerra Fria. Este é um regime que no limite é capaz de causar muita dor (armas químicas?) no seu último rugido. Os russos deveriam ser um pouco mais responsáveis.

Já dei minha pancadinha no urso russo, agora vou passar o porrete para dois camaradas metidos a gurus, que escreveram juntos um artigo com provocações no jornal Financial Times fazendo a pergunta essencial: afinal, qual é o lugar russo no mundo de hoje? Um é o guru de economia, Nouriel Roubini, mais conhecido dos brasileiros, e o segundo da área de geopolitica é Ian Bremmer. Para eles, aliciar a Rússia para integrar grupos como o G-8 (G 7 + 1) não trouxe resultado positivos. A Rússia não atua como uma madura democracia de livre mercado. Em crises geopolíticas como Síria, Moscou é parte do problema, não da solução.

Do outro lado, também é difícil enquadrar a Rússia, apesar do rótulo Bric. Não dá para classificar o país como um dinâmico mercado emergente. Trata-se de um estado autoritário construído na reputação de durão de Vladimir Putin, movido a exportações de gás e petróleo. Pelos dados da Transparência Internacional, a Rússia (posição 143) bate de longe outros superemergentes em corrupção, como Brasil (73) e China (75). Não há dúvida que Putin, que iniciou seu terceiro mandato presidencial, seja popular, mas ele oferece basicamente estabilidade e não um projeto para o futuro.

Roubini e Bremmer consideram “absurdo” o alerta de Mitt Romney, o candidato presidencial republicano, de que a Rússia seja o “adversário geopolítico número um” dos EUA. É um país menos relevante, tanto como poder político global ou um atraente mercado emergente. Ironicamente, Romney apenas aumenta o poder de barganha de Putin, ao exagerar sua ameaça.

Ainda assim, eu creio que Roubini e Bremmer minimizam em excesso o impacto geopolítico e econômico da Rússia. Basta ver sua influência na crise síria, no Irã, na Coréia do Norte e o mero fato de ter poder de veto como membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, mas concordo que está aí um urso com garras menos afiadas e mais desdentado que não conhece mais o seu devido lugar no mundo.

PS: Eu prezo muito o debate neste espaço e por este motivo é interessante oferecer aos leitores um contraponto a esta visão acima em um texto de Simon Tysdall no jornal The Guardian, recomendado pelo leitor Felipe Goltz.
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Colher de chá para o Maivalia (dia 31, 14:37 e 14:50), pelo tom muito transparente nos comentários. 

Rabiscos Estratégicos (Síria e o Resto)

As vítimas de Houla

Desenhar cenários para a Síria pode ser basicamente um exercício escolar (ou acadêmico, para parecer mais sofisticado). Já vi alguns do gênero que o país irá se converter em mais um estado falido. A máfia Assad irá controlar alguns setores do país, a Irmandade Muçulmana terá o seu quinhão e numa terra de ninguém estará operando a rede Al Qaeda. Quem quiser se aventurar a desenhar seus cenários, bom exercício. Faz bem para a mente para esquecer das cenas do aqui e agora, como massacre de crianças pelas tropas e milícias da ditadura Assad.

O nó na Síria faz parte de um emaranhado de crises que vários atores não conseguem desenrolar. A opção de alguns, como potências ocidentais, é o simbolismo para escamotear a impotência para decisões mais vigorosas. Temos assim sanções, moções, a expulsão de diplomatas sírios, as monocórdicas declarações de indignação e advertências soltas no ar, como as do chefe do estado-maior das Forças Armadas dos EUA, general Martin Dempsey, de que poderá haver uma uma intervenção militar caso não cessem as atrocidades.

Pergunta acadêmica? Intervenção exatamente a favor de quem? Mais apropriado (e fácil) falar que se está contra esta coisa horrenda que é o regime Assad. Enquanto isto, sabemos que os russos estão a favor de Bashar Assad, mais exatamente de algum regime que garanta o status sírio como o último estado-cliente de Moscou no Oriente Médio.

O que não falta é apelo. Indignação moral é típica dos intervencionistas humanitários (nos sabores liberais e neoconservadores). O editorial de terça-feira do Wall Street Journal esbravejou contra as Nações Unidas e fez o inevitável paralelo com Srebrenica, na Bósnia, onde, em 1995, oito mil muçulmanos foram massacrados pelos sérvios enquanto os capacetes azuis holandeses da ONU não faziam nada. Na frase amarga de um ativista de Houla, palco do massacre da semana passada na Síria, como em Srebrenica, o trabalho dos monitores da ONU foi contar o número de mortos.

Na Síria, ocorrem massacres aos olhos e contas da ONU. Aliás, as milícias pró-Assad, dominadas por sua seita alauíta, lembram as milícias sérvias que circulavam na guerra civil da Bósnia nos anos 90. Srebrenica levou o governo Clinton a passar ao largo da ONU e intervir nos Balcãs. O Wall Street Journal passou o pito esperado no governo Obama, que nem clintoniano consegue ser, dizendo que seu objetivo é meramente deixar passar as eleições de novembro, sem precisar recorrer ao uso de força no Oriente Médio (só mandando de vez em quando tropas especiais e uns aviões não-tripulados para matar terroristas no Iêmen).

Oportunista, o oponente republicano Mitt Romney, secundado pelo neoconservador John McCain (derrotado por Obama em 2008), cobra ações, como armar os rebeldes sírios. Mas quem são os rebeldes? E se as armas ficarem nas mãos de setores ligados à Irmandade Muçulmana ou, pior, da rede Al Qaeda? A bem da verdade, Romney  se distanciou de muitos republicanos que acusaram Obama de ter puxado o tapete de Hosni Mubarak no ano passado, permitindo o avanço da Irmandade Muçulmana no Egito. Como Obama, ele percebeu que uma mudança de guarda era inevitável no Egito. Mas sobre a Síria, armar rebeldes pode significar uma guerra civil em larga escala, com ramificações regionais. O presidente Romney está pronto para esta parada? Conversa de palanque eleitoral é moleza.

Obama, de fato, não tem uma estratégia muito rígida. Não atua com indignação moral (o que alimenta a narrativa de alguns setores conservadores de que seja um apaziguador). Obama esta mais para a escola cerebral da realpolitik. Ele acolhe as mudanças democráticas da primavera árabe, mas se a conversa é sobre Arábia Saudita, deixa para lá. Falando em sauditas, aí está um pessoal disposto a armar rebeldes na Síria. Os sauditas tramam contra a ditadura Assad ao mesmo tempo em que tramam para manter a ditadura do Bahrein (aqui com cumplicidade americana).

Mas já fizemos estes rabiscos tortos antes nesta coluna. Precisamos reconhecer que indignação moral só pode ser o ponto de partida. Uma decisão sobre intervenção militar num atoleiro como a Síria envolve cálculos estratégicos, políticos e prudência. Claro que processo decisório pode ser impelido por indignação moral em algumas circunstâncias. E se Assad aprontar alguma coisa da escala de Srebrenica? O pai dele fez coisas pavorosas há 30 anos na cidade de Hama, mas antes de imagens transmitidas por telefones celulares e do Youtube.

Evidentemente que precisamos rabiscar muito quando falamos de Síria. O país não pode ser traçado isoladamente. Temos o risco de uma conflagração entre sunitas e xiitas (os blocos liderados, respectivamente, por sauditas e iranianos). Os contornos da atuação turca são muito complicados. O governo Erdogan é assertivo como campeão democrático e muçulmano no Oriente Médio, mas tem a carga neoimperialista otomana (e ainda por cima integra a aliança ocidental da Otan). Preocupa-se também com os clamores curdos dentro da Síria (enquanto bate pesado nos seus curdos dentro de casa).

As ansiedades de Israel são imensas. Difícil extrapolar o que é pior ou melhor para os israelenses. Assad é um status quo tolerável, mas a queda seria um golpe nos iranianos. É sintomático que o cauteloso primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu pela primeira vez tenha rompido o silêncio na crise síria para expressar indignação com o massacre na cidade de Houla.

Para o governo Obama, o que mais preocupa no momento na região é evitar uma guerra entre Israel e Irã e as expectativas de avanços nas negociações nucleares na semana passada estavam infladas. Obama não quer encrenca na campanha eleitoral (em Atenas, Damasco ou Teerã), embora seja cobrado pelos republicanos para tomar providências na Sïria e Irã (a Grécia pode pegar fogo). Mas especialmente a Síria, nos rabiscos estratégicos do governo Obama, leva jeito de Afeganistão. Lembram-se? Aquele atoleiro em que os americanos decidiram ficar com um pé dentro e um pé fora. Por que enfiar um na Síria? No máximo, Obama pode empurrar alguém para enfiar antes (turco ou saudita) ou se for jogado na vala comum por um episódio do gênero Srebrenica.

Crianças, podem desenhar o que bem entenderem (ou não)

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Colher de chá matinal para a rápida rabiscada do Fernando (dia 30, 10:10). 

O regime podre de Assad e a doutrina da cebola

Kofi Annan e Bashar Assad em Damasco - Foto Reuters

Alarmes falsos (e eu já soei tantos) sobre a iminência do fim da ditadura de Bashar Assad e também sobre planos de paz quando a rebelião supera um ano (e a marca de nove mil mortos). Agora, é o anúncio do enviado especial das Nações Unidas, o seu ex-secretário-geral, Kofi Annan, de que Assad aceitou seu plano baseado em cessar-fogo, retiradas das falanges governistas dos centros urbanos, agilidade para ajuda humanitária, libertação de presos, diálogo e direito ao protesto pacífico (na visão do regime, este último ponto deve ser o direito de protestar contra a oposição).

Como sempre duro é duro acreditar na implementação de um plano de paz na Sïria de Assad (pai ou filho). O novo plano sequer estipula um prazo. Natural que as tropas de Assad prossigam na sua política de arrasa-cidade (com uma escalada que chegou à zona fronteiriça com o Líbano). Natural que o anúncio de Annan tenha sido recebido com ceticismo pela oposição e diplomatas ocidentais, pois a prática de Assad é ganhar tempo, discutindo modalidades de um plano de paz, enquanto tenta esmagar a rebelião. No roteiro habitual, depois basta repudiar o plano diante de falta de cooperação da oposição, que, de fato, é confusa e desarticulada, unindo-se para desconfiar da sinceridade do ditador.

Neste impasse em que a repressão não acaba com a rebelião e a rebelião não acaba com o regime, as coisas melhoraram para Assad de algumas semanas para cá (faz semanas que eu não falo de sua queda iminente).  Como diz Marc Lynch, professor da George Washington University, em Washington, “Assad está claramente ganhando em termos militares, mas estes ganhos são vitórias táticas vazias. Em termos mais amplos, ele está perdendo controle, perdendo legitimidade”. Em entrevista à BBC, a comissária de direitos  humanos da ONU, Navi Pillay, disse que o dirigente pode ser indiciado por crimes contra a humanidade, por responsabilidade em atos como tortura de crianças. Claro que Assad está isolado (por exemplo, a Síria está suspensa da Liga Árabe, reunida nesta quarta-feira em Bagdá) e sofre crescentes sanções, embora conte com o respaldo de Rússia, China e Irã. Existem também os vexames com o vazamento de e-mails privados do casal Assad, confirmando venalidade e futilidade no despotismo moderno da era de iTunes.

Mas o tom essencial é que Bashar sobrevive e, para expressar desafio, na terça-feira ele visitou Homs, cidade que por algumas semanas foi um símbolo da resistência ao regime. Ademais, existe esta amarga constatação de que sua remoção do poder (como exigem países ocidentais e árabes) foi removida deste plano de paz. Ficou mais fácil para russos e chineses abençoarem o plano de Kofi Annan, pois ele carece do conceito maldito de “mudança de regime”. É inimaginável, porém, uma solução a longo prazo na Síria que permita a permanência de Assad (ou de algum fantoche) no poder. O regime precisa mudar.

Para constatar o óbvio, cada caso é um caso na primavera árabe (e a estação está de volta na região). Demonstrações em massa no Egito, em particular na praça Tahrir, no Cairo, e o abandono do apoio militar a Hosni Mubarak levaram ao colapso o regime. Na Líbia, a brutal repressão do regime Kadafi radicalizou a oposição, que conseguiu se unir na guerra civil e só ganhou graças à intervenção militar estrangeira. No Iêmen, o ditador Ali Abdullah Saleh participou da transição, mas este país lá nos confins das Arábias não serve de modelo para nada.

Na Síria, existem manifestações populares contra o regime, mas não na escala egípcia. Além disso, Assad tem blocos de sustentação popular (entre alauítas, cristãos e também sunitas). O núcleo duro no aparato militar e de segurança não desintegrou e Assad não é um completo pária internacional, como Kadafi. Seus aliados internacionais estão aí para manter o status quo enquanto der. A oposição que mistura desolação com triunfalismo ainda acredita que o apoio ao regime irá descascar (na doutrina da cebola), com o abandono, camada após camada, de oficiais militares, empresários, funcionários do governo, do partido Baath e já ocorreu uma “deserção mental” da população mesmo nas duas grandes cidades, Damasco e Aleppo, onde nunca ocorreram protestos de grande magnitude.

Infelizmente, eu preciso concordar com o presidente russo Dmitry Medvedev de que a alternativa a este plano de paz de Annan é uma guerra civil sangrenta e prolongada, de ramificações sectárias e na qual haverá um incremento do jogo competitivo envolvendo atores regionais (e não só regionais, é claro). Mas a plena aceitação do plano de paz por Assad é conversa mole. Sua premissa é a de que os grupos de oposição deponham as armas (e não o regime) e como Assad irá aceitar manifestações pacíficas, ao estilo da praça Tahrir? Annan, por outro lado, foi costurando seu plano de paz, enquanto EUA e Turquia confirmavam o fornecimento de ajuda “não letal” à oposição síria.

O mais provável adiante é mesmo uma guerra civil. Eu espero que não seja prolongada, de alta intensidade e com crescente envolvimento de extremistas islâmicos (algo que alimentaria a narrativa de Assad). Bom mesmo seria o sucesso da doutrina da cebola, com as camadas de sustentação do regime sendo descascadas, até que ele caia de podre. Mas basta de alarmes falsos.

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Colher de chá para o Henrique por seus comentários (dia 28, 11:13 e 13:39) por lembrar a coisa boa que seria o regime Assad cair, apesar das ramificações incertas. E outra para a Vania (dia 28, 14:45), pelo depoimento pessoal e político.

05/03/2012

às 6:00 \ Putin, Rússia, Uncategorized

O butim de Putin

Que seja o último voto de Putin em Putin - Foto EFE

Putin rima com democracia de festim, rima com butim. O homem forte que voltará à presidência russa sem nunca ter deixado o poder pratica uma pilhagem das esperanças de renovação, com sua vitória no primeiro turno das eleições no domingo. Putin preside um sistema personalizado, não apenas corrupto, mas cada vez mais anacrônico. É inconcebível que o projeto Putin sobreviva a longo prazo (a idéia é na sequência mais um mandato de seis anos). Se isto se concretizar, Putin ficará no poder até 2024, em um padrão stalinista de tempo de serviço. Está bem, não vou exagerar na rima de Putin com Stálin.

O triunfo eleitoral, sob redobradas denúncias de fraudes e obstáculos para a participação de candidatos oposicionistas, mascara um sistema exaurido. Talvez não haja benefício imediato para uma oposição exasperada que tem muitas palavras de ordem, mas pouco ordem para se organizar. Também não é fácil no regime de semiditadura russa exercer uma plena oposição. E de pensar que o segundo colocado nas eleições foi o veterano líder comunista Gennady A. Zyuganov, um perdedor crônico nesta imitação de democracia na Rússia.
Existem estes protestos impulsionados com a fraude nas eleições parlamentares de dezembro passado e uma manifestação está programada para a noite desta segunda-feira, mas claro que esta mobilização ainda é incipiente, embora seja suficiente para mexer com os nervos do sistema. O apoio a Putin murchou depois da fraude de dezembro, mas aí ele deu uma regada populista com promessas de aumentos salariais para funcionários públicos e incrementou os gastos militares.
Sistemas como este presidido por Putin conseguem legitimidade através da expansão econômica, do nacionalismo estridente e do culto a personalidade. O resto é garantido por intimidação, repressão e algumas válvulas de escape para a atuação da oposição. Este tipo de sistema não tem a legitimidade enraizada em instituições democráticas. A oposição ainda não oferece uma convicta alternativa a este sistema exaurido, mas cada vez mais russos querem instituições democráticas e transparentes, em que o poder possa trocar de mãos, em que o poder vigente não enfie a mão para roubar dinheiro ou votos e que a oposição não seja tratada a pontapés ou pancadas bem mais severas.
De novo, o triunfo de Putin não esconde crescente desencanto com o líder russo e o desgaste de um contrato social entre o povo e o regime: passividade política em troca de crescente prosperidade. Não há mais a conveniente passividade e existe o fato inconveniente de que nesta segunda fase do Putin na presidência será impossível garantir a mesma prosperidade alavancada pelas receitas de gás e petróleo.
Ironicamente, as receitas que reforçaram a autoridade do estado (o putinismo), também foram o fator do amadurecimento político de uma classe média urbana e mais educada, agora mais inquieta. O futuro da Rússia não foi decidido com a democracia de festim que consagrou Putin no domingo. Isto vai acontecer mais adiante com esta classe média mais assertiva e suas demandas pelo fim do sistema. Putin agora será menos convincente com seu argumento de estabilidade acima de tudo.
Um segmento expressivo da população já tem suficiente segurança material para não tanta reclamar de barriga cheia, mas para exigir uma voz cívica. Como o autocrático Putin irá reagir a estas reinvindicações por mais abertura e clima competitivo, sem reprimir ou apelar para a lenga-lenga de que se trata de uma conspiração externa para desestabilizar o seu regime?
Putin está de novo na na presidência, mas esta não é a velha Rússia. O  homem forte assumirá em maio em uma posição mais fraca do que quando deixou o cargo em 2008 para o afilhado Dmitry Medvedev. Hora de começar a campanha contra a reeleição de Putin em 2018.
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Colher de chá para o Henrique (dia 5, 11:23), leitor bem informado, bem lido e que costuma dar boas dicas de textos relacionados com minha coluna do dia.
 

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