Obama se divorcia dos princípios no casamento gay
Eu estou como o vice-presidente americano, o democrata Joe Biden, que se diz “absolutamente confortável” com o casamento gay. Na sequência, esta semana, o ministro da Educação Arne Duncan disse algo semelhante. Mas na sua politicagem eleitoral, o presidente Barack Obama não dá sua benção, embora lá no seu íntimo ele concorde com os subordinados.
Com a prevaricação, Obama frustra a base mais liberal (e gay) e alimenta a ansiedade do país mais jovem, cada vez mais confortável nestas questões sociais e morais. O presidente quer se preservar em um terreno ainda minado. Eleições são ganhas em um punhado de “swing states” (estados oscilantes), como Carolina do Norte, onde na terça-feira foi aprovada uma legislação banindo não apenas o casamento gay, mas a união civil entre pessoas do mesmo sexo (este duplo banimento já acontece em 19 dos 50 estados, sendo que 30 proíbem apenas o casamento).
A emenda constitucional estadual na Carolina do Norte definindo casamento como estritamente entre um homem e uma mulher foi aprovada por margem folgada. Mas uma crescente maioria dos americanos evolui a favor do casamento gay de uma década para cá. É verdade que a pesquisa Gallup na terça-feira mostrou uma queda do apoio de 53%, no ano passado, para 50%, com desaprovação de 48%. Mais ilustrativa é uma outra pesquisa, esta NBC/Wall Street Journal de março: 49% a favor do casamento gay e 40% contra. Era o reverso em 2009.
Basta ver a crescente aceitação de diversas orientações sexuais em programas de televisão. O seriado mais popular é Modern Family, da rede ABC, onde o casal gay (Cameron e Mitchell), está tentando adotar um segundo filho na atual temporada. O país avança no tema e Obama diz há tempos que está evoluindo no tema (é a favor de união civil entre pessoas do mesmo sexo). Mas numa merecida maldade, a publicação de esquerda The Nation observou em 2009 que o presidente “evolui para a direita”.
No começo de carreira política, o professor de Direito Constitucional e campeão de direitos civis era um aberto defensor do casamento gay. Mas Obama foi subindo na escada politica e descendo nas convicções. Estimou que não trazia benefício eleitoral tanto liberalismo moral e nos direitos civis. Entre eleitores democratas, há setores que resistem ao casamento gay. Um exemplo é o eleitorado latino, mais conservador em questões morais. O mesmo acontece entre negros. A maior evolução no apoio ao casamento gay acontece entre mulheres, base crucial de apoio aos democratas
Para Obama, até hoje foi conveniente ficar na pista lenta, embora tenha assumido posições históricas como o repúdio ao compromisso “não pergunte, não conte”, em que militares escondiam sua orientação sexual. Mas agora o presidente foi ultrapassado por seu próprio vice Biden, que pertence a uma geração mais velha. Claro que a declaração de Biden também serve como um lance para apaziguar setores que votam nos democratas e que estão decepcionados com a reticência de Obama na questão do casamento gay. Com oportunismo, os democratas tentam se cobrir como podem, tanto com setores mais abertos, como os mais comedidos.
Sei, sei dos cálculos políticos, mas seria legal (em todos os sentidos) que a prevaricação política fosse alijada e o presidente se casasse com seus princípios. Do republicano Mitt Romney não se espera audácia na questão. Ele também está evoluindo, se desviando já para o acostamento à direita da pista. Romney firmou a promessa do grupo antigay Organização Nacional pelo Casamento, cobrando do Congresso, entre outras coisas, a aprovação de uma emenda na Constituição federal banindo o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Hoje ele é legal em oito estados e na capital Washington.
O estado de espírito do país sobre homossexualismo se desloca na direção certa de mais tolerância (em meio a estes bolsões de resistência principalmente encastelados no Partido Republicano e no universo evangélico), mas um líder (e este é o cargo de Barack Obama) deveria de vez em quando assumir mais riscos, abandonar a pista lenta e fazer a sua parte para acelerar a marcha para uma guinada moral e cultural.
ATUALIZAÇÃO: A evolução do presidente Obama finalmente terminou. Na tarde de quarta-feira, em entrevista `a rede de televisão ABC, ele deu apoio ao casamento entre pessoas do mesmo sexo. É o primeiro presidente no exercício do cargo a assumir a corajosa posição. Obama deixou claro que se trata de sua opinião pessoal e que a decisão a respeito cabe a cada estado. Considero a decisão correta, como cerca de metade da opinião pública americana. O anúncio presidencial obviamente terá implicações na campanha eleitoral, pois o candidato republicano Mitt Romney tem posição diametralmente oposta à opinião do presidente. O lance de Obama é, repito, correto, mas também esperto e, ao mesmo tempo, arriscado.
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Não consigo me divorciar de leitores. Colher de chá para o Amauri, Felipe e Maisvalia que me cercaram logo cedo (dia 9) para debater o tema da coluna. Pedi um “break”, não para fugir do debate ou por falta de argumentos, mas simplesmente por estar casado com outros compromissos.












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