Blogs e Colunistas

Arquivo da categoria Primeira Impressão

Primeira Impressão (Islamistas)

Na semana que vem, teremos o primeiro turno das eleições presidenciais egípcias, mais uma fase de uma turbulenta transição pós-ditadura Mubarak, parte do turbulento processo que é a primavera árabe. Este processo não foi iniciado por partidos islamistas, mas agora eles tiram proveito de oportunidades democráticas ou de rachaduras na velha ordem em diversos países do Oriente Médio e norte da África para adquirir poder.
Portanto, vamos saudar a chegada do livro The Islamists Are Coming, editado por Robin Wright, uma veterana jornalista americana, muito chegada no Oriente Médio e que hoje está no Wilson Center, em Washington. São mais de 50 partidos islamistas no mundo árabe e o livro, com uma introdução de Robin Wright e ensaios de 10 especialistas, rastreia o que está acontecendo na Argélia, Egito, Jordânia, Líbano, Líbia, Marrocos, terrritórios palestinos, Síria e Tunísia.
Rótulos são complicados, mas algumas tendências são detectadas. Exceto Hezbollah, no Líbano, e Hamas (territórios palestinos), estes partidos islamistas não possuem braços armados e não pregam um conflito frontal contra Israel, embora hostilidade ao estado judeu e antissemitismo sejam componentes flagrantes. Ademais, existem condenações da rede Al-Qaeda e de jihadistas armados. que também tentam atuar no meio da encrenca. Basta ver o que está acontecendo na Sïria.
Importantes eventos históricos influenciam a atuação destes partidos, a destacar a revolução iraniana de 1979, a guerra contra os soviéticos no Afeganistão (1979-1989) e a guerra civil na Argélia (1992-1999). São eventos como triunfo de revoltas populares contra ditadores pró-ocidentais (Irã), de resistência à invasão de terras islâmicas (Afeganistão) e da possiblidade de vencer eleições parlamentares (Argélia).
Mas a experiência da Frente Islâmica de Salvação, na Argélia, que venceu o pleito mas foi derrotada por um golpe, mostrou a necesidade de um jogo político astuto e gradualista para permitir a ascendência do conservadorismo religioso. Variantes da Irmandade Muçulmana (Tunísia e Egito, por exemplo) exercem este jogo cauteloso.
A ascensão de partidos islamistas pelo voto gera uma conversa interminável sobre o que significa usar a liberdade para coibir a liberdade. Afinal, eleitos, partidos islâmicos podem reprimir liberdades individuais e perseguir minorias. Podem ser partidos democráticos (refletem a vontade da maioria), o que não é o mesmo que liberalismo.
No paradigma-alerta de Fareed Zakaria,  existem também democracias iliberais. E um corolário interminável desta conversa interminável é se islamismo é compatível com liberalismo, mesmo em países fora da esfera da primavera árabe, onde a democracia já está supostamente consolidada, como o caso da Turquia.
No livro editado por Robin Wright, as variáveis de desempenho econômico e de governança são trazidas para tentar entender vislumbrar o desfecho da primavera árabe. Os partidos islamistas que eventualmente irão adquirir e exercer o poder terão legitimidade através de bem-sucedidas políticas econômicas e governança de resultados. Não basta implementar a lei de sharia ou sonhar com um califato.
Discutir moralidade pode mobilizar a massa e desviar as atenções mas, no final das contas, os islamistas precisarão propor modelos de geração de empregos, baixar a inflação e atrair capital estrangeiro. Bastar que já existe um pouco de fadiga com a Irmandade Muçulmana no Egito, que comanda o Parlamento, e que as eleições presidenciais podem resultar na vitória de Amr Moussa, uma figura proveniente da velha ordem ditatorial.
Há um consenso no livro que desempenho econômico irá determinar o futuro político destes partidos. Mas sempre está aí o exemplo iraniano em que preservação no poder também é devida a outros fatores como repressão, fervor religioso, inimigos externos que desviam as atenções dos problemas internos e nacionalismo.
Também é importante lembrar como nesta primavera árabe, com o foco na Irmandade Muçulmana (vista como mais inclinada à cautela e ao pragmatismo), foi subestimado o avanço de grupos mais fundamentalistas, como os salafistas. São grupos que expressam posições rígidas em questões sociais e oposição ao sistema democrático de governo, embora participem de eleições.
Os ensaios no livro deixam em aberto questões como se os partidos islamistas estão realmente dedicados ao compromisso democrático e à tolerância, embora a prática será o teste (esperamos que não fatal). A linguagem ambígua, vaga e contraditória de partidos islamistas alimenta o ceticismo e o temor de seus opositores, como minorias religiosas, mulheres e liberais, além de integrantes da velha ordem ditatorial.
A história ainda está sendo rascunhada, mas os islamistas já chegaram para participar dela.
***
Colher de chá para o Lexikon.

11/05/2012

às 6:00 \ Lyndon Johnson, Primeira Impressão

Primeira Impressão (Caro & Johnson)

O quarto volume do épico

Como tanta gente (de uma certa idade), eu me lembro do dia em que John Kennedy foi assassinado em 1963. Eu tinha 6 anos. Mas meu primeiro presidente americano foi o sucessor Lyndon Johnson, que eu via no Repórter Esso e sobre o qual lia no Estadão. E não dá para deixar de acompanhar até hoje o trígésimo-sexto presidente americano (governou de novembro de 1963 a janeiro de 1969). Culpa de Robert Caro.

Ele acaba de lançar o quarto volume de sua biografia épica sobre Johnson (The Passage of Power), o texano que ascendeu da pobreza para liderar o país mais poderoso do mundo, nos dias tumultuados dos assassinatos dos irmãos Kennedy e Martin Luther King, da guerra do Vietnã e de legislações históricas nos direitos civis e sistema social.

Caro é obcecado pelo objeto do seu estudo. Imagine, quando eu cheguei aos EUA para estudar em 1982, o historiador estava lançando o primeiro volume. As resenhas do novo livro (a no New York Times foi escrita por Bill Clinton) são acompanhadas de intermináveis perfis sobre a obsessão e as manias de trabalho de Caro, que vive enfiado no que chama de “bunker”, seu escritório em Manhattan, atulhado de prateleiras de livros e fichários com dados. Avesso a computador, ela ainda escreve o rascunho a mão e depois, mais moderno, refina na máquina de escrever Smith-Corona.

Intimidador

Caro já publicou mais de três mil páginas sobre Johnson, que no clichê apropriado era maior do que a vida. Com 1m95, era um político que usava do seu tamanho para intimidar e dissuadir. Johnson era vingativo, emotivo, realizador, destruidor, generoso, mesquinho, corrupto, corruptor, cruel e solidário. Era poderoso e inseguro. Herói de causas domésticas (de racista cru se transformou em paladino dos direitos civis) e vilão (Vietnã). Havia o good Johnson, o bad Johnson.

Caro é apaixonado por seu objeto de obsessão, o que não o mesmo que dizer que goste dele. Para Caro, o que fascina em Johnson é o fato de ter sido na segunda metade do século 20 a figura política americana que melhor entendia o poder político.

O épico de Caro sobre Johnson é um estudo sobre o poder, como adquiri-lo e como usá-lo, mas este quarto volume em particular é um estudo sobre o ódio. Era mútuo entre o ex-presidente e Robert Kennedy. E Johnson desprezava John Kennedy, o qual considerava um “diletante”. Sim, o senador diletante que deu uma rasteira na raposa do Senado, faturou a indicação do Partido Democrata nas eleições de 1960 e o seduziu para ser companheiro de chapa, para o desalento do irmão mais novo, que tentou abortar a dobradinha. Bob Kennedy disse que o dia da indicação presidencial do irmão fora o melhor de sua vida. O pior,  quando Johnson se juntou  à chapa.

Foi um casamento arranjado. Kennedy precisava de Johnson para vencer no sul e o político texano fez as contas: nos 100 anos anteriores, cinco em dezoito presidentes tinham morrido no cargo. Logo, sua chance de ocupar o posto principal estava acima de 20%.

O quarto volume começa com a campanha presidencial de 1960, quando Johnson foi manobrado por John Kennedy, e termina com o grande legado do trigésimo-sexto presidente: a assinatura da Lei dos Direitos Civis em 1964. Político inescrupuloso e de princípios, o democrata Johnson estava consciente que enterrar a segregação racial significava perder amplas parcelas do eleitor branco do seu partido no sul do país para os republicanos. Dito e feito.

O quinto e último volume vai cuidar, entre outras coisas, da escalada fatal no Vietnã. Inseguro por natureza e alquebrado pelo choque da guerra, Johnson optou por não concorrer à reeleição no turbulento ano de 1968. Voltou para o rancho no Texas, onde morreu em 1973. Caro tem 76 anos. Promete o último volume de sua saga para dentro de dois ou três anos. Cada volume costuma levar de oito a dez anos para sair daquele “bunker” em Manhattan.

***

Colher de chá para Magno (dia 11, 11:09) e Celio (dia 11, 16:35), por comentários que captaram as contradições do Johnson. 

Primeira Impressão (Partidos Americanos)

Paridade entre partidos

O nome do analista eleitoral Sean Trende permite trocadilhos com “trend” (tendência, em inglês) e ele é bom no assunto, tema do seu primeiro livro, Lost Majority, sob medida quando esquenta a corrida eleitoral americana. Um dos negócios de Trende, analista do obrigatório site RealClearPolitics,  é descartar falsas tendências nos EUA., especialmente quando envolvem teorias partidárias de realinhamento. Na época em que George W. Bush governava o país na década passada, seu guru Karl Rove anunciava uma “maioria republicana permanente”. A “sólida” tendência foi substituída com a vitória de Barack Obama em 2008 pela narrativa da “emergente maioria democrata”. Na sequência, os republicanos triunfaram nas eleições para o Congresso em 2010. E o que vem pela frente?

No seu livro de desconstrução dos mitos de realinhamento permanente, Trende caracteriza o atual quadro político, partidário e eleitoral como o “mais difícil de ser entendido em décadas, pois são “tempos de quase paridade entre os partidos”. Um termo muito usado por analistas é de extrema volatilidade eleitoral. Os partidos não conseguem saborear uma vitória, na medida em que ela escorrega rapidamente.

Trende argumenta que não devemos vislumbrar tão cedo maiorias duradouras republicanas ou democratas. Ele não é muito camarada com triunfalismos partidários. Claro que a teoria será colocada `a prova nas eleições de novembro, embora, de novo, não se espere um triunfo avassalador de nenhum dos dois partidos.

Trende descarta estes realinhamentos duradouros, mas argumenta que um cenário plausível na política americana são os “partidos racializados” e também com componentes de guerra dos sexos, algo duplamente preocupante. Homem branco, especialmente de classe sócio-econômica mais baixa, é republicano, enquanto a coloração dos democratas é marrom (negros e latinos), com toque feminino.

As causas são históricas: ressentimento de brancos sulistas, que eram democratas contra os direitos civis, o que resultou em uma longa marcha deles para o Partido Republicano (lembram-se? O partido de Lincoln), a deserção de brancos conservadores (filhos de imigrantes ) do Partido Democrata no norte do país, especialmente quando os republicanos asssumiram posições mais conservadoras e os democratas mais liberais nas chamadas guerras culturais. Em contrapartida, muitas mulheres buscaram refúgio no ninho democrata pelos mesmos motivos. E a agenda democrata favorecendo cotas raciais e subsídios sociais reforçou os laços do partido com minorias e mulheres.

As tendências para um Partido Republicano mais macho e mais branco e um Partido Democrata mais marrom e feminino se cristalizaram ao longo de décadas devido a mudanças constitucionais, sociais e econômicas. E hoje os políticos têm incentivos para seduzir o eleitorado com base nestes traços. No entanto, mudanças sociais e econômicas podem levar, por exemplo, o eleitorado latino a afrouxar seus laços com os democratas. Isto pode acontecer se imigração deixar de ser um cavalo de batalha para os republicanos ou o partido der um “upgrade” a políticos latinos (como candidato a vice-presidente). Já do outro lado, o Partido Democrata não pode se dar ao luxo de alienar o bloco de homens brancos, cada vez mais alinhado com os republicanos.

Partidos “racializados” movidos a guerra dos sexos seriam um péssimo caso de realinhamento político duradouro nos EUA.
***
Com meu espírito bipartidário (really), colher de chá para o João Felipe e o Pablo, pelos vários comentários na sexta-feira.

13/04/2012

às 6:00 \ Günter Grass, Israel, Primeira Impressão

Curtas & Finas (Israel & Grass)

Persona non Grass - Foto/Getty

Israel errou. Não deveria ter declarado Günter Grass persona non grata. Para quem ainda não sabe, Grass é ex-soldado da Waffen SS (elite militar do nazismo) e Prêmio Nobel de Literatura. Publicou um pequeno e repelente poema, com o título O Que Deve Ser Dito, na imprensa alemã na semana passada, no qual demoniza Israel e trata o Irã como vítima inocente de agressão, eventualmente alvo de aniquilação pelos israelenses.

Muito já foi dito sobre o poema e o próprio Grass quis desdizer, alegando que seu problema não é o povo judeu ou Israel, mas o governo israelense. Além de tudo, hipócrita e covarde. Aqui, insisto, devo dizer que Israel errou, pois alterou o eixo da discussão, que é um poema fétido, para a decisão de declará-lo persona non grata (num trocadilho abusado, persona non Grass).

O premiado, que levou décadas (só em 2006) para reconhecer que aos 17 anos se alistara na Waffen SS e no meio tempo se tornou consciência moral da nova Alemanha, falou mais bobagem. Comparou o estado judeu `a ex-Alemanha Oriental e ao regime vigente em Mianmar (que, por sinal, patrocina sua versão de primavera árabe). Os dois países citados foram os únicos que até agora tinham vedado a entrada de Grass.

Mas Israel é uma democracia, ao contrário do Irã, e não emite fatwas contra escritores. infelizmente, Israel tem setores altamente obtusos na coalizão de governo, como o partido religioso ultraortodoxo Shas, que comanda o ministério do Interior, responsável pela decisão de proibir a entrada de Grass no país.

Tecnicamente, Israel pode fazer isto, pois Grass é veterano de uma tropa de elite do nazismo (cujos integrantes deveriam entrar no país apenas para serem julgados), mas politicamente permitiu que a controvérsia se arraste e que o escritor encene o papel de mártir. Apenas para repetir o óbvio: críticas à política externa de Israel podem ser legítimas e devem ser feitas. Basta ver  que mesmo dentro do país existe um debate aflito sobre como lidar com o desafio iraniano. Grass não rompeu nenhum tabu, como imagina, mas também se equivoca quem subestima o apoio que ele está recebendo na Alemanha por sua diatribe. Críticas a Israel são corriqueiras e estridentes na imprensa europeia, onde são traçadas falsas equivalências entre Auschwitz e Gaza ou nazismo e sionismo.

Como muitos já disseram, a expiação da culpa europeia (e não só alemã) pelo holocausto é feita através da transformação da vítima em algoz. Nestas horas, Grass sabe o que está dizendo. Por esta razão, é particularmente intolerável que as acusações sejam feitas com a má fé, desinformação  e distorção de alguém como Grass, especialmente por acusar Israel de intenção genocida. Nestes assuntos de genocídio, um ex-soldado da SS deve calar a boca ou se penitenciar pelo resto da vida.

Ao invés de declará-lo persona non grata, teria sido até mais interessante convidar Grass para aparecer em Israel e participar de debates sobre as intenções do regime islâmico do Irã, cujo presidente nega o holocausto. Claro que, quem quisesse, poderia protestar com muito barulho contra a presença de Grass, talvez recrutando um bando de meninos tocando tambor em frente ao seu hotel.
***
Colher de chá para os lúcidos comentários do Felipe e os comoventes da Betty, com sua solidariedade tribal.
***

Pessoal, a liberação de comentários nesta segunda-feira deve levar um tempinho para dar o ar de sua graça, será lenta e a conversa com os leitores não terá o dinamismo habitual. Perdão, mas o espaço, como sempre, aberto.

02/03/2012

às 6:00 \ Primeira Impressão, Putin, Rússia

Primeira Impressão (O Homem Forte)

Vladimir Putin - Foto Alexei Druzhinin/AFP

Está na cara, abaixo dela e no título do livro de Angus Roxburgh que Vladimir Putin é macho, o homem forte da Rússia (The Strongman, editora I.B. Tauris, 338 páginas, US$ 28). Veterano correspondente da imprensa britânica em Moscou, Roxburgh fraquejou na vida quando trabalhou para uma empresa de relações públicas a serviço do Kremlin, mas isto também abre portas para conseguir informações. Seu livro é um esforço para entender como Putin chegou ao poder e os motivos que o levam a ter ainda tanto apoio.

Como vai terminar este poder? Putin, hoje primeiro-ministro, está voltando formalmente ao cargo de chefe de estado com as eleições presidenciais que terão o primeiro turno neste domingo e quem sabe o definitivo.  Para a resposta , eu recomendo a leitura do editorial e da reportagem da capa da edição corrente da revista The Economist com o sintomático título O Começo do Fim de Putin. Não resisto a uma frase lapidar da revista: sob Putin, a Rússia hoje é uma “cleptocracia mal governada”.

Mas, voltando a Angus Roxburgh, o homem forte também é um homem de sorte. E isto ajuda a explicar os 12 anos ininterruptos de poder, pois Roxburgh deixa claro que mesmo na presidência de Dmitry Medvedev, que está terminando de forma melancólica, Putin continuou sendo o manda-chuva. Sorte é uma commodity essencial para um político. Não depende de seu mérito. E a sorte jorrou para Putin com as ainda vastas reservas de petróleo e gás sob o vasto solo russo. O valor nos mercados mundiais aumentou em cinco vezes desde que ele assumiu a presidência pela primeira vez no ano 2000 (teve uma reeleição e pela Constituição, não pôde pegar o terceiro mandato consecutivo).

Outra explicação para o sucesso de Putin é sua capacidade para manipular a nostalgia, convencendo os russos que só ele poderia trazer de volta as glórias do período soviético, sem a carga mais pesada do totalitarismo. De novo, que homem de sorte. Ele comandou depois dos anos tumultuados de Bóris Yeltsin, que se seguiram ao colapso soviético e quando os preços do petróleo caíram. Depois do caos, os russos queriam um durão como Putin para conduzir as coisas, ao estilo minha-turma-rouba-mas-faz.

Putin deu o que os russos queriam. Mas a mão que protege (e rouba), também intimida. O comportamento truculento de Putin se estende ao seu relacionamento internacional. Roxburgh penetra nas complexidades deste relacionamento. Putin é possuído por um exagerado senso de insegurança, aliado a um clássico medo russo de cerco internacional. O Ocidente, especialmente os EUA, feriu as suscetibilidadees russas com decisões como estender a Otan às antigas repúblicas bálticas e até prometer o mesmo a países como Ucrânia e Geórgia. Ferido pelas atitudes ocidentais, Putin passou a se comportar de forma ainda mais rude e nacionalista, fora e dentro de casa.

Roxburgh conta uma história sintomática sobre a natureza truculenta de Putin. Ele soube que a primeira-ministra Angela Merkel morria de medo de cachorros e mesmo assim trouxe Koni para um encontro permitindo que a cadela farejasse as pernas da dirigente alemã. Como diz The Economist, é o começo do fim para Putin. Os russos estão perdendo o medo do homem forte, dono de Koni. Ele poderá reforçar ainda mais sua natureza e sem reformas nesta sua volta à presidência haverá protestos, repressão e estagnação econômica. O ideal seria Putin, pelo menos, prometer não concorrer novamente em 2018, para um segundo mandato. Atitude de homem sábio, de homem realmente forte.

***
Pessoal, que tal colher de chá para a Koni. Alguém vota contra? 

13/12/2011

às 6:00 \ Primeira Impressão

Primeira Impressão (FHC)

O que fazer num vôo de classe econômica SP-NY com avião lotado? São torcedores do Santos encervejados rumo a Tóquio, bebês chorando (devem ser de qualquer time menos o meu Santos) e turistas de primeira viagem, de uma classe média emergente, em alta ansiedade. Uma opção é tentar um sono desconfortável. Outra é devorar ao longo da viagem, entre cochilos, o novo livro de Fernando Henrique Cardoso, A Soma e o Resto: Um Olhar sobre a Vida aos 80 anos. Com FHC, entramos numa zona de conforto.

O livro foi bastante resenhado nos últimos dias e o ex-presidente marca ponto em entrevistas. Não quero chover muito no molhado. Sobre o Brasil, gostei muito da observação de FHC sobre a “banalização da corrupção”. Mas “chega um momento em que a sociedade vai dizer que não dá mais”. Afinal, até os russos estão dizendo, mas isto não quer dizer que o “inverno em Moscou” trará uma nova estação política e ética. E não vamos esquecer que a Rússia é até mais corrupta do que o Brasil (e vivendo em regime de semitaditadura Putin).

Eu fiz algumas anotações com base em reflexões do sociólogo FHC que me parecem pertinentes aos temas que perpassam esta coluna. Estamos em uma temporada de explosões de descontentamento em todas as partes do mundo. Protestos que começaram na Tunísia em menos de um ano já transbordaram para as bandas de Moscou. Testemunha das “primaveras” dos anos 60, FHC escreve que “maio de 68 me fez perceber que havia mudanças que não se davam por uma ruptura revolucionária, e sim pelo acúmulo de insatisfações, até que um fio desencapado dá um choque que, por contágio, pode provocar um curto-circuito geral. Percebe-se também a força do inesperado, Maio de 1968 não foi uma uma ‘revolução’ no sentido de quebrar as estruturas sociais e econômicas. Foi outra coisa. Uma revolução existencial, uma revolução no plano dos valores e dos costumes”. Perdão pela longa citação.

Na visão histórica do sociólogo FHC, esta é a grande diferença entre maio de 1968 e a queda do muro de Berlim em 1989 ou a tomada do Palácio de Inverno em 1917. Eu, o mero colunista, ressalto estas observações para perguntar em qual paradigma (ruptura ou revolução existencial) estes movimentos atuais vão se inserir? Aliás, em meio a tantas divagações, FHC assume tantas vezes não saber como alguns processos históricos, sociais e políticos vão terminar. Assume até ignorância sobre países importantes, como a Índia.

Sobre as encrencas no mundo árabe, o sociólogo FHC faz as advertências corretas. Ele alerta que o ‘”motor da revolta parece não ser um anseio de democracia no sentido ocidental…Se o Ocidente pensa que os regimes autoritários do Norte da Africa e Oriente Médio vão se transformar, do dia para a noite, em democracias representativas com base nas teorias de Montesquieu sobre a separação de poderes, o risco de decepção é forte”.

Existem boas advertências para os incautos, como a que “é preciso olhar com cuidado para o tão decantado declínio dos Estados Unidos” e a advertência chata de que talvez a China nunca faça a transição de capitalismo autoritário para capitalismo democrático. Mas os espaços da liberdade, tolerância e democracia precisam sempre ser conquistados e valorizados. FHC disse que fez isto quando resolveu ficar no Brasil depois do AI-5, em 1968, e criar o Cebrap. Nas palavras dele: “Nossa situação naquela época era a dos mosteiros no piores momentos da Idade Média: a barbárie se espalha, é preciso preservar pequenos espaços de liberdade”.

Correto, presidente. Como o senhor diz, vamos adiante com o viés pela esperança, a paixão pelo possível. A gente soma isto e o resto é o resto
***
Colher de chá para o Devildom (dia 13, 12:15), embora discorde de sua postura, e para o Felipe (dia 13, 12:29), por enfatizar o componente litúrgico do cargo presidencial.

Primeira Impressão (Paquistão)

Livro profético

No feriadão de Ação de Graças, o presidente Barack Obama foi civicamente americano. Foi consumista no tiro de largada da temporada natalina. Obama, porém, é cerebral, metido a intelectual. Sua aquisição foi um livro. Boa escolha com Descent into Chaos, livro de 2008 do brilhante jornalista paquistanês Ahmed Rashid, uma descriçao profética do AfPak (Afeganistão e Paquistão) indo ladeira abaixo e caoticamente.

A trajetória se acelerou no fim-de-semana depois do incidente, em que helicópteros e aviões da Otan mataram 24 soldados paquistaneses na fornteira AfPak. Rashid é obrigatório, com seus livros, artigos de jornais e depoimentos, para quem quer entender minimamente uma região confusa e perigosa. Ele tem acesso aos vários atores, algo perigosíssimo em se tratando do Taliban, rede Al Qaeda e outros grupos radicais, que não vacilam em sequestrar, assasssinar e decepar cabeça de jornalista, como foi o caso do americano Daniel Pearl (o mesmo em relação ao serviço de inteligência paquistanês, exceto no quesito decepar cabeça). Entrevistado esta semana, Rashid diagnosticou que a política americana para a Ásia Central é disfuncional, contraditória (relação de amigo e inimigo com o Paquistão) e o tempo se esgota para evitar estragos maiores.

Rashid adverte que o fervor antiamericano é intenso no Paquistão, mas descarta a receita de alguns candidatos presidenciais republicanos de decepar ajuda ao país. Alerta que será ainda mais desastrosa. Servirá para enfraquecer os já anêmicos setores pró-ocidentais. Isolar o Paquistão é uma opção perigosa, embora seja inevitável para os EUA se aproximarem ainda mais da Índia (enquanto os paquistaneses vão se ligar mais intimamente aos chineses).

Rashid claro que gostou da publicidade em torno do seu livro, comprado pelo presidente, mas lembrou que a campanha do candidato Obama recebeu seis cópias em 2008, quando foi lançado. A tentação é dizer antes tarde do que nunca. Mas pode ser tarde mesmo.

PS: Esta, na verdade, é uma segunda impressão minha do livro de Ahmed Rashid. Publiquei resenha no Estadão em julho de 2008. Para quem estiver interessado, basta checar no Google.
***
Boas discussões estratégicas logo cedo sobre um tema atroz. Destaque para a sucessão de comentários do Devildom Voyeur (dia 2, 10:21, 11:42, 12:27).

17/11/2011

às 6:00 \ Primeira Impressão

Primeira Impressão (George Kennan)

George Kennan

Um dos mais ilustres historiadores americanos, John Lewis Gaddis, acaba de publicar a biografia de um dos mais ilustres e influentes diplomatas (e formuladores da política externa) da história americana. O nome do livro é: George F. Kennan: An American Life (e que longa vida, pois Kennan morreu aos 101 anos em 2005). Sua grande influência foi entre 1945 e 1949, quando ele contribuiu de forma crucial para forjar a política americana na Guerra Fria.

Em dois documentos lendários -um deles ficou conhecido como O Longo Telegrama e o segundo foi um ensaio com o pseudônimo X na revista Foreign Affairs, Kennan mostrou seu estilo clínico e capacidade de vislumbrar tendências históricas. Nada sentimental e sem ilusões, ele ficou famoso pela seguinte frase: “É claro que o principal elemento de qualquer política dos EUA em relação à União Soviética deve ser de uma contenção a longo prazo e paciente, mas firme e vigilante, das tendências expansionistas russas”.

Kennan deu a racionalidade para Washington tomar um caminho inequívoco para enfrentar o comunismo soviético, mas sem ir à guerra aberta. Foram décadas marcadas por um confronto seletivo, que ele lamentou tenha carregado tanto na militarização. A preferência de Kennan (que tinha repulsa pela perspectiva de um conflito nuclear) era por um enfrentamento mais econômico, diplomático e ideológico.

Kennan inclusive se posicionou contra a guerra do Vietnã, com o argumento de que os problemas no sudeste asiático não representavam um grande risco estratégico aos interesses americanos. E o bruxo diplomático Henry Kissinger, uma figura-chave na guerra do Vietnã e das tratativas com Moscou, escreveu uma encorpada resenha no New York Times, sobre o livro de Gaddis. Kissinger salienta que na grande questão soviética, Gaddis estava correto.

Quatro décadas antes de Mikhail Gorbachev, Kennan anteviu que a vitória definitiva não viria no campo de batalha, nem mesmo pela diplomacia (embora tivessem influência), mas pela implosão do sistema soviético. Paciência histórica deixou o dissidente soviético Alexander Solzhenitsyn exasperado, que acusou Kennan de não aplicar valores morais à política. Mais complicado.

Ao dar uma aula sobre o modo de pensar de Kennan, Kissinger, que, como não poderia deixar de ser, é autocentrado, enfatiza o “debate perene entre realismo e idealismo” e que o desafio para os governantes e seus diplomatas é definir os componentes tanto de poder como de moralidade, estabelecer um equilíbrio entre eles e saber fazer os compromissos sem ceder no essencial, num esforço que exige constante recalibração.

Desafios espinhosos, mas quando hoje em dia numa conversa sobre a formulação de política externa americana está engajado alguém como o candidato presidencial republicano Herman Cain a tarefa imediata é a contenção de bobagens e da ignorância. Imagine o que o erudito e elitista George Kennan acharia de tudo isto, aqui embaixo.
***
Colher de chá para o Carlos Cezar (dia 17, 11:21), por boas observações sobre Kennan.

11/10/2011

às 6:00 \ Europa, Primeira Impressão

Pequenos europeus de hoje e o grande Bismarck de ontem

O "chanceler de ferro" - Foto London Stereocopic/Getty

Aproveito o embalo da resenha inicial neste espaço, na seção Primeira Impressão, sobre o livro de Steven Pinker (The Better Angels of Our Nature), para publicar mais uma. Na verdade, republicar. Espero que os leitores não fiquem com má impressão da minha preguiça. Estou apenas fazendo autopromoção de minha resenha do livro Bismarck: A Life, na edição corrente de VEJA, está com Steve Jobs na capa. A edição é um tremendo sucesso, não devido ao meu job, mas ao do Steve.
***
Aí estão a primeira-ministra alemã Angela Merkel e o presidente francês Nicolas Sarkozy. São líderes pequenos para a gigantesca crise europeia. Nem vamos cruzar o Atlântico para as terras de Barack Obama. Basta ficar no núcleo duro da Europa (melhor esquecer a desolação na sua periferia) para sentir o drama de liderança. Se a política é a arte do possível, como disse um antecessor de Merkel no cargo, o possível hoje é sofrível.

Diplomata, “chanceler de ferro” e estadista, o prussiano Otto von Bismarck (1815-1898), foi um exímio, ambicioso e implacável executor desta arte do possível. Em junho de 1862, numa recepção na embaixada russa em Londres, na qual estava presente outro gigante, o futuro primeiro-ministro britânico Benjamin Disraeli, Bismarck disse: “Em breve, eu vou assumir a condução do governo prussiano. Minha primeira tarefa sera reorganizar o Exército. Assim que o Exército inspirar respeito, eu vou aproveitar o primeiro melhor pretexto para declarar guerra contra a Áustria, dissolver o Parlamento alemão, subjugar os estados menores e unificar a Alemanha sob liderança prussiana”. Disraeli anotou a bravata. Dito, possível e feito (em nove anos).

Na sua exaustiva biografia, Bismarck: A Life, publicada nos Estados Unidos pela Oxford University Press, o historiador americano Jonathan Steinberg, professor da Universidade da Pensilvânia, vende muito bem o seu peixe (o tubarão Bismarck). Afinal, arremata Steinberg, Bismarck e Napoleão Bonaparte (aquele do país do petit Sarkozy) foram os líderes de maior impacto na Europa do século 19. O alemão, a rigor o prussiano, criou o país no centro de duas guerras mundiais no século 20.

Apesar de imagens icônicas, Bismarck era um civil fantasiado de soldado. A proeza (a arte do possível) foi conseguir tudo, nas palavras de Steinberg, “sem comandar nenhum soldado, sem dominar uma vasta maioria parlamentar, sem o apoio de um movimento de massa, sem uma prévia experiência de governo, sem o carisma de um grande orador e diante de revulsão nacional a seu nome e reputação”.

Havia uma exceção crucial: o beneplácito de Guilherme I, rei da Prússia, uma figura decente, suave e fraca. Ele dizia que “era difícil ser rei com Bismarck”. Mas graças ao seu “chanceler de ferro”, Guillerme I se tornou o kaiser, o imperador da Alemanha com a unificação de uma coleção de 39 estados. E como o imperador morreu aos 91 anos, o poder de Bismarck teve vida longa. (28 anos). Só acabou quando ele foi despachado pelo imperador Guilherme II em 1890.

De uma família de modesta nobreza rural, Bismarck nasceu em 1815, ao final da era da revolução francesa e das guerras napoleônicas e o começo do “longo século 19″, do crescimento da democracia, do estado moderno e do capitalismo industrial. Bismarck herdou o cérebro e a impiedade da mãe. Ele escreveu que, “criança, a detestava e mais tarde com sucesso a enganou com falsidades”.

Bismarck enganava a torto e a direito para conseguir seus objetivos. Era detestado por conservadores que denunciavam sua falta de princípios e visto como um reacionário por socialistas. Mas Bismarck sabia jogar uns contra os outros. Para enfraquecer os príncipes alemães e aliciar as massas para a causa nacionalista, ele implantou o sufrágio universal masculino e uma pioneira legislação social. Antissemita visceral, fez acordos e respeitava o líder socialista judeu Ferdinand Lassalle. Era brutal, mas também charmoso. E, se necessário, subornava, como fez com o rei da Bavária para que aderisse à unificação.

Steinberg escreve que Bismarck praticava todos os pecados capitais (mas aparentemente era fiel à sua insossa mulher Johanna). Era hipocondríaco, paranoico (notava conspiração de estenógrafas) e tinha insônia (trabalhava até às sete da manhã e depois dormia até o meio-dia). De temperamente vulcânico, foi cruel com o filho Herbert quando ele se apaixonou por uma linda mulher de uma família inimiga de Bismarck, mas também foi sentimental com a morte do seu cachorro.

No xadrez geopolítico, claro, Bismarck também foi um jogador exímio do realismo cínico, definido, aliás, pela palavra alemã realpolitik. Mas este homem voraz era um gênio, pois conhecia as limitações do poder. Bismarck provocou as guerras contrra a Dinamarca, Áustria e França. Com as vitórias, ele destruiu a delicada balança de poder na Europa, construída após a derrota napoleônica por outro diplomata genial, Klemens von Metternich.

A Alemanha de Bismarck ficou muito poderosa. Ele tentou manter e não expandir o império alemão (não tinha o mesmo entusiasmo por colônias de outros impérios europeus), criando um novo equilíbrio de poder na Europa através de um intrincado sistema de alianças para manter a paz por uma geração. Quem sabe, se fosse chanceler em 1914, Bismarck teria evitado a Primeira Guerra Mundial (que ele previu). O imperador Guilherme II evidentemente não tinha a mesma genialidade e um futuro ocupante do cargo de Bismarck era um gênio do mal.

Henry Kissinger, um adepto da realpolitik com puro sotaque alemão, estima que Steinberg exagera ao estabelecer uma linha direta entre o que Bismarck construiu e Hitler acabou destruindo (o aristocrata prussiano era racional; o cabo austríaco, um romântico niilista). O argumento de Steinberg sobre o culto da reverência bebe na fonte do grande sociólogo alemão Marx Weber, para o qual Bismarck “deixou uma nação totalmente sem educação política, acostumada a esperar que o grande homem no topo proporcionasse a política para ela”.

Um livro exaustivo tem uma falha. O autoritário e paternalista Bismarck foi um pioneiro do Welfare State, o estado-babá, da rede de proteção social. No entanto, Steinberg devota apenas duas páginas para estes programas inovadores. Uma pena. O tema é presente, diante do desafio dos pequenos dirigentes da Europa para justamente começar a desfazer o que o “chanceler de ferro” forjou.

09/10/2011

às 18:56 \ Primeira Impressão

A vitória dos melhores anjos sobre os demônios internos

O novo livro de Steven Pinker cai do céu. Com sua pilha de estatísticas é uma cacetada na cabeça dos pessimistas, dos profetas do apocalipse e do José Luiz Datena. Por estes dias, pipocam as resenhas sobre The Better Angels of Our Nature: Why Violence Has Declined (editora Viking, 802 páginas). O título maravilhoso é a frase cunhada por Abraham Lincoln, no seu primeiro discurso de posse como presidente dos EUA, em 1861, com um chamado aos “melhores anjos de nossa natureza” para impedir a guerra civil (não atendido). A chave está no subtítulo. É a explicação sobre o declínio da violência na marcha da humanidade.

O argumento essencial de Pinker, professor de psicologia evolucionista na Universidade de Harvard, é que vivemos em uma era menos violenta, menos cruel e mais pacífica como nunca ocorreu na existência humana. As más notícias sobre a nossa civilização são exageradas. E estamos falando desde guerras a homicídios na esquina de sua casa. E também são exageradas as boas notícias sobre o passado idílico. Os selvagens, de fato, eram selvagens. A idade medieval era medieval mesmo. Nada de nostalgia do bom selvagem. Parece um absurdo, dá até para achar que Pinker tem uma visão angelical sobre a vida, sobre a história, sobre a humanidade. Mas o contraataque de Pinker é justamente contra as percepções equivocadas transmitidas pelo noticiário ou pelos falsos profetas.

As imagens constantes estão aí: o psicopata que mata dezenas de inocentes até na plácida Noruega, cabeças decepadas na guerra das drogas no México, os tiroteios nas favelas brasileiras, os massacres em escolas, os conflitos no Oriente Médio, os atentados suicidas dos jihadistas e o morticínio tribal na África. Nada disso é ilusório, Mas, prezados habitantes do planeta, a possiblidade de uma morte violenta pelas mãos de outro ser humano nunca foi menor do que agora.

Pinker usa 2/3 do livro para provar que nós estamos ficando cada vez mais pacíficos desde os tempos neolíticos E para tal, ele recorre a todo tipo de análise estatística e histórica da violência. Estudos de fósseis humanos na pré-história indicam que a chance de morte violenta pela mão de outro era em média de 15%, podendo chegar a 60%. Na Europa, mesmo nos períodos mais sangrentos, como o século 17 ou a primeira metade do século 20 (com duas guerras mundiais), as mortes em guerra representaram 3% da população. Progresso, ou “processo civilizatório”, na expressão de Pinker.

Tudo é relativo, em proporção ao tamanho da população. Com 55 milhões de mortos e ajustes feitos à população, a Segunda Guerra Mundial é apenas o nono evento mais mortal dos últimos 1.200 anos. Na cabeça da lista, estão as revoltas e guerras civis na China no século 8 que deixaram 36 milhões de mortos (o equivalente a 429 milhões em meados do século 20), nas estimativas do especialista em atrocidades Matthew White, citadas por Pinker.

Na Europa Ocidental, entre os séculos 13 e 20, as taxas de homicídio caíram entre 10 e 100 vezes. Na cidade de Oxford, no século 14, a taxa era de 100 por 100 mil habitantes. Em Londres, no século 20, menos de 1 por 100 mil. Piinker é o mensageiro ideal para estas boas notícias, justamente por não ser do gênero Pollyanna. Em 2002, ele publicou seu best-seller The Blank State (Tábula Rasa, no Brasil), no qual pintou um quadro trágico da humanidade. Entre outras coisas, por argumentar que os seres humanos nunca são mais perigosos como quando abraçam ideologias utópicas, sejam religiosas, sejam seculares. Mas podemos superar nossos piores impulsos e somos capazes de controlar os “demônios internos”, dando vazão aos “melhores anjos”.

Pinker expande os argumentos no novo livro. E quais são as explicações para estes emergentes melhores anjos ao longo do processo civilizatório? Ele bebe na fonte do filósofo político inglês Thomas Hobbes, no sentido de que sem o estado a vida é “desagradável, brutal e curta”. Portanto, no topo da lista de explicações para o declínio da violência está justamente a ascensão do estado moderno. Melhor que ele tenha o monopólio da violência. Antes do estado, guerras causavam em média a morte de 20% da populacão, tanto no Velho como no Novo Mundo. No cotidiano, este monopólio da violência, apesar de corrupção e arbítrio, ainda é a melhor solução. O fortalecimento da democracia também ajuda. Democracias raramente fazem guerra entre elas. O crescente poder das mulheres e a feminização da sociedade diminuem a violência. Outros fatores são a ascensão do comércio, pois não queremos matar com quem podemos fazer transações, e o ambiente mais cosmopolita e tolerante da sociedade moderna.

Pinker não se impressiona com o argumento de que a era nuclear é um dissuasivo contra a guerra. Para ele, conta mesmo é a constatação sobre a futilidade da guerra. Mais do que isto, Pinker argumenta que a crescente aplicação de conhecimento e racionalidade no relacionamento humano supera os “demônios internos” e estimula “nossos melhores anjos”. É a constatação sobre a futilidade da violência para resolver problemas sociais e domésticos.

Em resenhas, uma crítica pertinente ao trabalho de Pinker é seu eurocentrismo. A Europa Ocidental não é apenas o lugar mais seguro para se viver hoje no mundo, mas provavelmente é o mais pacífico na história da humanidade. Destoa do resto do mundo. Existe menos atenção de Pinker a outras regiões do planeta (de qualquer forma, existem mais estatísticas sobre a Europa). Quando temos estatísticas recentes, como sobre guetos urbanos norte-americanos ou baixas civis na guerra do Iraque, há motivos para menos otimismo sobre o processo de pacificação da humanidade, mas ainda assim sem motivos para sensações apocalípticas.

Sempre resta uma ponta de incredulidade sobre este processo civilizatório quando a gente se lembra da trinca diabólica do século 20 ( Hitler, Stálin e Mao) sem falar dos diabinhos do segunto time, como Pol Pot e Saddam Hussein em anos mais recentes. As maiores ressalvas ao trabalho de Pinker estão à esquerda (acusado de endeusar a Europa hoje tão civilizada e de memória seletiva sobre os danos do colonialismo) e nas bandas ecológicas. Este último caso está na resenha de Peter Singer (professor de bioética na Universidade de Princeton). No caderno de livros do New York Times, Singer adverte que o aquecimento do planeta pode significar “‘o fim da era relativamente pacífica em que nós estamos vivendo”.

Pinker é um pensador contido sobre o futuro. Ele escreve que “otimismo exige um toque de arrogância”, mas suas estatísticas e argumentos são uma necessária cacetada contra o excesso de pessimismo sobre o destino humano. É este pessimismo que pode prejudicar os esforços para a criação de um mundo mais civilizado. Também, é claro, não podemos abrir mão dos melhores anjos da guarda contra nossos demônios internos e os demais.
***
A colher de chá vai para o J.R. Monteiro (dia 10, 0:40) por comprovar a força de percepções sobre violência, apesar dos argumentos e estatísticas brutais do Steven Pinker no sentido contrário.


 

Serviços

 

Assinaturas



Editora Abril Copyright © Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados