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Arquivo da categoria Primavera Árabe

Curtas & Finas (Sobras Egípcias)

O candidato Amr Moussa votando- Foto EFE

Moussa vagamente lembra nome de sobremesa, mas é o sobrenome de um dos candidatos com chance de garfar a eleição presidencial egípcia. Foram dois dias de votação no primeiro turno (quarta e nesta quinta-feira) e os resultados serão anunciados na semana que vem. Quem sabe Amr Moussa esteja lá, concorrendo no segundo turno em junho. E, na metáfora gastronômica, o site da publicação Foreign Policy tem um perfil saboroso, que aqui eu cozinho, deste ex-ministro das Relações Exteriores da ditadura Mubarak concorrendo nas primeiras eleições democráticas para presidente no país.

O título do perfil escrito por David Kenner é The Good Felool. O termo pejorativo felool significa no Egito “sobras” da ditadura Mubarak. E Moussa é visto por muitos como uma sobra digerível do velho regime. Ele não integrou a ala mais podre (foi inclusive espirrado do centro do poder) e agora se apresenta como uma ponte entre o passado desacreditado o futuro incerto. Moussa é o candidato enfaticamente não-islamista, posa de estadista experiente (75 anos) e sabe circular pelo mundo (chefiou a desmoralizada Liga Árabe). Apesar de sua virulência antiIsrael, tem relações cordiais com o presidente israelense Shimon Peres.

O texto da Foreign Policy não engole Moussa com facilidade. Diz que seu potencial presidenciável mostra a leviandade de se falar de uma revolução no Egito. Na expressão do texto, “Moussa, para o melhor ou para o pior, não é a culminação de nada se aproximando de revolução”. Fica a critério do gosto político de cada, decidir o que seria o melhor ou o pior para o Egito da primavera árabe. Mas deixo bem claro aqui neste espaço que gosto se discute.

Moussa hoje se refaz como um crítico da ditadura Mubarak e se apresenta como uma alternativa ao bloco islamista, que já controla o Parlamento e tem dois candidatos presidenciais (será inacreditável se um deles não estiver no segundo turno da eleição). O fato é que o futuro presidente egípcio precisará realmente construir uma ponte entre um poderoso establishment militar (felool da ditadura) e um Parlamento dominado por islamistas. Para a tarefa se apresenta o bom felool, um mestre-cuca da receita do compromisso político. Nas devidas proporções, Moussa é um José Sarney. Cada país tem as sobras que merece, para o melhor ou para o pior.

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Colher de chá para o Felipe (dia 24, 11:38), pelas comparações, nas devidas proporções, entre a transição democrática no Egito e no Brasil.

Uma eleição egípcia caótica e incerta (tudo poderia ser pior)

Sem carisma, Morsi tem a máquina da Irmandade Muçulmana

Os egípcios estão votando nas primeiras eleições presidenciais relativamente abertas na história do país. Mal termino a primeira linha do texto e já está difícil saudar algo mais. Que doideira! Antes de tudo, as pesquisas são incrivelmente voláteis e incertas. Não dá para confiar nelas. São 13 candidatos e, nas últimas semanas, nomes improváveis despontaram na liderança.

Exemplos são o nasserista (que podemos traduzir como nacionalista, esquerdista e secular) Hamdeen Sabahi. e uma sobra da ditadura Mubarak, o ex-primeiro-ministro e ex-comandante da Força Aérea Ahmad Shafik, abertamente contrário à revolução que permitiu a realização desta eleição presidencial. Na piada de um blogueiro liberal do Cairo, é preciso ser muito pateta para votar neste Shafik, afinal ele foi incompetente para completar o serviço e massacrar a massa na rua. De qualquer forma, seu eleitorado tem saudades de lei e ordem (nos critérios de uma ditadura corrupta e ossificada como a de Mubarak). Shafik representa a continuidade (e, desde a queda da monarquia em 1952,  todos os presidentes são militares)

Já o eleitorado de Sabahi é nostálgico (e igualmente retrógado) de um regime ainda anterior, aquele da mensagem nacionalista, estatizante e populista da ditadura Nasser. Sintomaticamente, o discurso de Sabahi é bem virulento contra Israel (padrão entre os candidatos). Para quem não sabe, Nasser era aquele militar que prometia jogar os judeus no mar e ficou banhado de vergonha com a derrota na guerra contra Israel em 1967.

De volta a 2012. Em muitas pesquisas, dois nomes são considerados os mais prováveis para avançarem para o segundo turno em junho: um deles é outra sobra do regime Mubarak (apesar da vestimenta de desertor), o ex-ministro das Relações Exteriores, Amr Moussa, também virulento na sua posição contra Israel, mas que se posiciona como aceitável para o Ocidente, por seu distanciamento da virulência islâmica e por vestir roupagens de secular liberal para os padrões locais.

O segundo é o candidato mais intrigante na eleição, para não dizer bizarro: o ex-dirigente da Irmandade Muçulmana (outro desertor), o médico Abdel Moneim Aboul Fotouh. Ele congrega apoio em um espectro que vai de islamistas barra pesada (os salafistas) a liberais da geração Facebook. Para uns, Fotouh promete a sharia (a lei islâmica). Para outros, o estado civil. Para Fotouh, amigo de todos, com suas mil promessas, sobrou o trocadilho de homem de duas faces.

E, finalmente, temos o homem da máquina islâmica (a Irmandade Muçulmana). Ele é o engenheiro Mohamed Morsi. Num perfil do jornal francês Le Monde, a definição está bem aparada: Morsi é cinzento como sua barba e quadrado como seus óculos. Ele também é conhecido como “pneu estepe”, pois só concorre devido à desqualificação de Khairat al-Shater, pelo fato de ter estado na prisão durante a ditadura Mubarak.

Algumas pesquisas mostram que Morsi não irá ao segundo turno. É uma possiblidade que devemos acolher com incredulidade e se acontecer será uma tremenda surpresa neste Egito já com tantas reviravoltas. Afinal, a falta de carisma de Morsi é compensada por disciplina e organização da Irmandade Muçulmana, que está aí há 80 anos, esperando sua vez de chegar ao poder, após sobreviver à repressão da monarquia e sucessivas ditaduras. Seria um terremoto político se Fotouh avançar para o segundo turno e não Morsi.

É verdade que a Irmandade Muçulmana (que já manda no Parlamento, secundada pelos salafistas) decepcionou muita gente com suas maquinações na caótica transição pós-ditadura Mubarak. Ora, se acomoda com os militares (que ainda dão as cartas no país), ora, parte para o confronto. A Irmandade, que prometera não concorrer à presidência, quer convencer sua base que a renascença vem aí (renascença é o nome do seu projeto de governo), enquanto garante para investidores estrangeiros que uma teocracia infernal não será implantada no país.

Rebeldes de primeira hora na praça Tahrir alertam contra o empenho manipulador da Irmandade Muçulmana, enquanto muitos dizem que o grupo subestima o que é conhecido como “estado profundo” no Egito, ou seja, o aparato militar que irá continuar a manipular as coisas, não importando quem vença a eleição presidencial ou controle o Parlamento.

Mas vamos acabar também com um toque positivo. Tudo caótico, volátil e incerto no Egito (inclusive sobre os poderes do futuro presidente), mas poderia ser pior, como nos tempos do museu de cera de Mubarak. E há suspense: pela primeira vez, não sabemos quem irá vencer eleições presidenciais no país,  em um teste crucial na turbulenta transição democrática.

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Colher de chá para Abdel e Betty (e Ricardo Platero e Carmem) pela saída dos temas habituais da crise egípcia e sinalizando o potencial econômico do país (potencial, potencial, potencial). Que celeiro de premiações hoje aos leitores!

Primeira Impressão (Islamistas)

Na semana que vem, teremos o primeiro turno das eleições presidenciais egípcias, mais uma fase de uma turbulenta transição pós-ditadura Mubarak, parte do turbulento processo que é a primavera árabe. Este processo não foi iniciado por partidos islamistas, mas agora eles tiram proveito de oportunidades democráticas ou de rachaduras na velha ordem em diversos países do Oriente Médio e norte da África para adquirir poder.
Portanto, vamos saudar a chegada do livro The Islamists Are Coming, editado por Robin Wright, uma veterana jornalista americana, muito chegada no Oriente Médio e que hoje está no Wilson Center, em Washington. São mais de 50 partidos islamistas no mundo árabe e o livro, com uma introdução de Robin Wright e ensaios de 10 especialistas, rastreia o que está acontecendo na Argélia, Egito, Jordânia, Líbano, Líbia, Marrocos, terrritórios palestinos, Síria e Tunísia.
Rótulos são complicados, mas algumas tendências são detectadas. Exceto Hezbollah, no Líbano, e Hamas (territórios palestinos), estes partidos islamistas não possuem braços armados e não pregam um conflito frontal contra Israel, embora hostilidade ao estado judeu e antissemitismo sejam componentes flagrantes. Ademais, existem condenações da rede Al-Qaeda e de jihadistas armados. que também tentam atuar no meio da encrenca. Basta ver o que está acontecendo na Sïria.
Importantes eventos históricos influenciam a atuação destes partidos, a destacar a revolução iraniana de 1979, a guerra contra os soviéticos no Afeganistão (1979-1989) e a guerra civil na Argélia (1992-1999). São eventos como triunfo de revoltas populares contra ditadores pró-ocidentais (Irã), de resistência à invasão de terras islâmicas (Afeganistão) e da possiblidade de vencer eleições parlamentares (Argélia).
Mas a experiência da Frente Islâmica de Salvação, na Argélia, que venceu o pleito mas foi derrotada por um golpe, mostrou a necesidade de um jogo político astuto e gradualista para permitir a ascendência do conservadorismo religioso. Variantes da Irmandade Muçulmana (Tunísia e Egito, por exemplo) exercem este jogo cauteloso.
A ascensão de partidos islamistas pelo voto gera uma conversa interminável sobre o que significa usar a liberdade para coibir a liberdade. Afinal, eleitos, partidos islâmicos podem reprimir liberdades individuais e perseguir minorias. Podem ser partidos democráticos (refletem a vontade da maioria), o que não é o mesmo que liberalismo.
No paradigma-alerta de Fareed Zakaria,  existem também democracias iliberais. E um corolário interminável desta conversa interminável é se islamismo é compatível com liberalismo, mesmo em países fora da esfera da primavera árabe, onde a democracia já está supostamente consolidada, como o caso da Turquia.
No livro editado por Robin Wright, as variáveis de desempenho econômico e de governança são trazidas para tentar entender vislumbrar o desfecho da primavera árabe. Os partidos islamistas que eventualmente irão adquirir e exercer o poder terão legitimidade através de bem-sucedidas políticas econômicas e governança de resultados. Não basta implementar a lei de sharia ou sonhar com um califato.
Discutir moralidade pode mobilizar a massa e desviar as atenções mas, no final das contas, os islamistas precisarão propor modelos de geração de empregos, baixar a inflação e atrair capital estrangeiro. Bastar que já existe um pouco de fadiga com a Irmandade Muçulmana no Egito, que comanda o Parlamento, e que as eleições presidenciais podem resultar na vitória de Amr Moussa, uma figura proveniente da velha ordem ditatorial.
Há um consenso no livro que desempenho econômico irá determinar o futuro político destes partidos. Mas sempre está aí o exemplo iraniano em que preservação no poder também é devida a outros fatores como repressão, fervor religioso, inimigos externos que desviam as atenções dos problemas internos e nacionalismo.
Também é importante lembrar como nesta primavera árabe, com o foco na Irmandade Muçulmana (vista como mais inclinada à cautela e ao pragmatismo), foi subestimado o avanço de grupos mais fundamentalistas, como os salafistas. São grupos que expressam posições rígidas em questões sociais e oposição ao sistema democrático de governo, embora participem de eleições.
Os ensaios no livro deixam em aberto questões como se os partidos islamistas estão realmente dedicados ao compromisso democrático e à tolerância, embora a prática será o teste (esperamos que não fatal). A linguagem ambígua, vaga e contraditória de partidos islamistas alimenta o ceticismo e o temor de seus opositores, como minorias religiosas, mulheres e liberais, além de integrantes da velha ordem ditatorial.
A história ainda está sendo rascunhada, mas os islamistas já chegaram para participar dela.
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Colher de chá para o Lexikon.

Curtas & Finas (Viva Bush)

Bush em mesquita- Foto Mandel Ngan/AFP

Simon Tisdall, o colunista de política internacional do jornal esquerdista britânico The Guardian, pega pesado. Ele diz que a postura do presidente americano Barack Obama de “dar os ombros” na Síria não tem mais sustentação política, estratégica e moral. Na mesma linha, o comentarista Fred Hiatt, no Washington Post, diz que Obama trata a primavera árabe como uma desasgradável distração e não uma oportunidade histórica, manifestando pouca paixão pelos clamores de liberdade na região.

Para Tisdall, desde os protestos contra o regime islâmico no Irã em 2009, seguidos pelas rebeliões em vários países árabes, Obama variou do “pusilânime ao pragmático, passando pela falta de princípios”. Tisdall arremata que na Síria ”é uma mistura dos três”. Uma passagem por sites neconservadores americanos, favoráveis a intervenção, também mostra desgosto com o presidente, com o argumento válido que, em campanha de reeleição, Obama se assume como o estadista que acaba as guerras, embora elas não acabem. Há ainda outro tipo de desgosto conservador, com a acusação de que o ingênuo (ou sinistro) Obama está promovendo a agenda do fundamentalismo islâmico, especialmente quando deixou de apoiar a ditadura Mubarak no Egito. Obama apanha de tudo quanto é lado.

Aqui está o gancho para falar bem de alguém que já apanhou bastante: o predecessor de Obama, George W. Bush. Este aí é tratado hoje como pária, inclusive pelos conservadores. Mitt Romney exibe o endosso do pai e do irmão, mas não do ex-presidente amaldiçoado. Tisdall, do Guardian, diz que Obama se distancia de forma deliberada da “agenda de liberdade” de Bush, diante do legado composto pelo fiasco no Iraque e atoleiro no Afeganistão.

Não vou aqui discutir o que Bush fez ou deixou de fazer em crises como Iraque e Afeganistão, mas saudar o seu diagnóstico de radicalismo islâmico e defesa de democracia no mundo árabe, embora marcados por leviandade e carência de uma sólida estratégia. Sim, sabemos que os efeitos de liberdade podem dar azia, especialmente quando vemos a ascensão de grupos como a Irmandade Muçulmana no Egito.

Mas isto não invalida o diagnóstico da administração Bush. Pelo menos logo depois dos atentados do 11 de setembro, a Casa Branca repudiou os paradigmas de que os EUA deveriam apoiar regimes autocráticos no Oriente Médio, como o de Hosni Mubarak, pois eles eram o melhor escudo para conter o avanço do radicalismo islâmico. Bush rapidamente reconheceu que estes regimes eram incubadores do radicalismo. Para complicar, estes regimes tinham e ainda têm o pendor de cooptar os islamistas, permitindo sua atuação no sistema educacional, na mídia e na legislação, em troca de não engajamento político direto.

O incentivo de Bush à democracia teve como um dos resultados a ascensão do grupo radical palestino Hamas em Gaza e sua pregação irritou profundamente os aliados israelenses e sauditas. Bush levou um chega-pra-lá da autocracia saudita e basicamente deu as costas para sua “agenda da liberdade”. Obama dá os ombros.

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Colher de chá para os leitores cafeínados que participaram do debate ao longo da manhã sobre democracia e mundo árabe. Por uns momentos, muito exaltado e personalizado, mas vá lá.  Eu fiquei no camarote, ocupado com outras tarefas profissionais.

Os camelos de Mubarak e os tanques de Assad

Os métodos de combate a uma rebelião popular - Fotos Getty/AFP

Coluna tem uns rituais. Houve semanas em que toda bendita quarta-feira eu escrevia sobre o circo das primárias presidenciais republicanas (terça-feira foi o bye bye do fervoroso Rick Santorum. Hora de dizer God Bless, Mitt Romney). A maldita crise na Síria está mais para arena sangrenta da primavera árabe do que para circo republicano, mas de uns tempos para cá o assunto é ritual de coluna de quarta-feira. Vamos lá.

Incrédulo, eu vi na televisão o mediador da crise e ex-secretário geral da ONU, Kofi Annan, com aquela cara de quem não dorme há uns 300 anos, dizer que ainda é cedo para anunciar que o seu plano de paz morreu. Annan exige que o cessar-fogo seja implantado, enquanto a ditadura síria exige imediatamente novas condições para que isto aconteça. Ditadura exigente e mentirosa. Em um movimento circular, ela retira tanques de uma cidade, conforme determina o plano de Annan, e aí eles são deslocados para outra.

A suspensão total de hostilidades supostamente deve acontecer agora na quinta-feira. O editorial do Wall Street Journal define a mediação de Annan como farelo diplomático. O editorial do Washington Post diz que o plano não passa de cobertura para o regime sírio massacrar o seu próprio povo. Até os russos, benfeitores de Assad, expressam desconforto com a enrolação do afilhado, mas vão segurar a barra. O primeiro-ministro turco Recep Erdogan, que já foi irmão de Bashar, mas se cansou e deserdou o vizinho, não tem papas na língua. Acusa Bashar de ser pessoalmente responsável pela morte de civis sírios. Desde o anúncio do plano de paz de Kofi Annan, no começo do mês, morreram cerca de mil pessoas na Síria, na maioria civis. São mais de nove mil desde que a rebelião começou em março do ano passado.

Exasperado, pois tropas sírias atacaram até acampamentos de refugiados sírios dentro da Turquia, Erdogan disse que Assad “continua matando 60, 70, 80, 100 cada dia. Tropas sírias atiram sem piedade nas costas de mulheres e crianças em fuga”. No jargão do regime, quem se move integra gangues armadas de terroristas, a serviço de forças estrangeiras. Falando em gangues terroristas, até o Hamas palestino, que já foi afilhado de Assad, tirou o corpo fora e foi buscar a benção das autocracias sunitas do golfo Pérsico. Em breve, a TV estatal síria irá enfiar o Hamas neste balaio de gangue terrorista, finalmente concordando com alguma coisa dita pelas autoridades israelenses.

Em meio à confusão e à exasperação, o esfarrapado plano de paz foi adotado pelo Conselho de Segurança da ONU e a Liga Árabe diante da impossiblidade de aceitação de um plano I (intervenção). Força militar estrangeira num conflito interno é uma decisão atroz. Pode funcionar, como nos Balcãs na década de 90 ou na Líbia no ano passado, mas as condições sírias são mais espinhosas, com as ramificações sectárias regionais. Um outro caminho, igualmente atroz, envolve a determinação e sacrifício de movimentos internos por liberdade, secundados por apoio global. Mianmar da briosa Aung Sang Suu Kyi sinaliza esta via.

As ações brutais do regime sírio chocam, mas, na verdade, não devem surpreender. Este é o seu modus operandi desde os anos 80. Irrompe uma revolta popular e a resposta é esmagar a oposição e punir cidades com o intuito de que nunca mais se levantem. A política de arrasa-cidades, porém, não impede a retomada do ciclo.

Rami Khouri, da American University, em Beirute e que escreve coluna no jornal libanês Daily Star, lembra a diferença essencial entre a insurreição em curso na Síria e o que aconteceu no ano passado na Tunísia e no Egito. O presidente Ben Ali fugiu quando a coisa engrossou e Hosni Mubarak despachou asseclas montados a camelo contra os manifestantes na praça Tahrir. Bashar Assad solta os cachorros no sentido figurado. Espalha tanques, artilharia, franco-atiradores, gangues de assassinos e estupradores pelo país. A prioridade é a barbárie, secundada pela encenação diplomática. Há relatos de brutalidades praticadas por rebeldes e atos terroristas (sobre os quais é difícil atribuir responsabilidade), mas nem de longe é possível equivalência com os crimes contra a humanidade praticados pelo regime Assad.

A ditadura síria dizima civis e as esperanças de reconciliação. Sem repressão, esta ditadura simplesmente não sobrevive. No processo, o regime Assad militariza a oposição. Rami Khouri ainda acredita que uma insurreição não militar em larga escala possa dar conta do serviço, mas depende de apoio unânime do Conselho de Segurança da ONU (algo ilusório diante da cumplicidade russa e chinesa com a ditadura em Damasco).

Os camelos de Mubarak não foram páreo para o levante popular (especialmente quando os militares egípcios decidiram não atirar na massa). Na Síria, os tanques de Assad não resolvem a parada, mas a questão é se o regime poderá ser apeado do poder sem tanques do outro lado ou intervenção estrangeira.

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Colher de chá para Felipe e Pablo, com os quais tive troca de idéias sobre a situação síria.

As mentiras de Assad e as meias verdades da Al Jazeera

Al Jazeera nem sempre é liberdade - Foto Getty

Nenhuma colher de chá para o brutal regime sírio, que diz ter concordado com um cessar-fogo da ONU, em mais uma encenação para ganhar tempo na sua repressão a uma rebelião cada vez mais militarizada. Ativistas sírios e televisões por assinatura no mundo árabe prestam um serviço de utilidade pública, exibindo as vítimas e as engrenagens da máquina de repressão do regime sírio (como crianças torturadas e mortas). Mas precisamos conter nosso entusiasmo e levar em conta os alertas de alguém como Ali Hashem, o jornalista que pediu demissão da rede Al Jazeera no começo de março, reclamando da “cobertura parcial e não profissional” da insurreição síria.

Em um comentário no jornal britânico The Guardian, Hashem, que era correspondente baseado em Beirute, elabora críticas, não apenas de sua ex-empresa, mas de meios de comunicação em geral do mundo árabe. Ele diz que se estes veículos se tornaram partidos, transmitindo a parte da história que serve à agenda política dos proprietários ou dos interesses dos países onde estão estacionados. No caso da Al Jazeera, o emirato do Catar. Nem se trata de contar mentiras. Para Hashem, o modus operandi é contar apenas parte da verdade e enterrar o resto.

Claro que é verdade a brutalidade do regime sírio e que sua narrativa dos acontecimentos é mentirosa, fantasiosa e mera peça de propaganda, num atentado de maniqueísmos. Mas a narrativa do outro lado tem tons cinzentos. A bem da verdade, apesar de tudo, a Al Jazeera  é um avanço jornalístico no mundo árabe. Dando uma desgalhada, dou o exemplo aqui de uma análise no seu site em inglês sobre a encrenca política no Egito (tema de minha coluna de terça-feira). Análise razoável (a versão em inglês costuma ser mais razoável), sinalizando o descrédito da Irmandade Muçulmana.

Mas voltando à Síria, num exemplo específico, Hashem diz que a Al Jazeera se recusou a transmitir imagens de rebeldes armados lutando na fronteira entre Síria e Líbano, no empenho para manter a narrativa de que se trata de uma rebelião “pacífica e limpa”. É uma narrativa formulada pelos governantes do Catar, os mesmos goverrnantes que censuraram a cobertura da rebelião e de massacres no Bahrein. E por quê? Países sunitas como Catar e Arábia Saudita estão na linha de frente da campanha para derrubar regimes como o da Síria (aliado do xiita Irã), mas não querem saber do clamor por liberdade na sua vizinhança, especialmente se há rebeldes xiitas, como é o caso do Bahrein, governado por uma minoria sunita.

Para Hashem, a busca de credibilidade pela Al Jazeera e outros canais da região se tornou um exercício de futilidade. Os grupos que controlam estas emissoras estão se comportando como ditadores da escola Assad, que obviamente manipulam a cobertura da midia estatal (aqui achei a comparação hiperbólica). Hashem conclui que muita gente na região recorre cada vez mais à imprensa ocidental para saber o que está acontecendo. Isto é refletido nos ganhos de audiência do serviço árabe da BBC de Londres. Hashem arremata que quando governos que possuem organizações de mídia no Oriente Médio impõem suas agendas, canais como Al Jazeera estão caminhando para o “suicídio jornalístico”.

E tudo isto, enquanto os Assads matam (e alguns rebeldes também).

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Pessoal, a colher de chá vai mesmo para o Ali Hashem. 

Curtas & Finas (Irmandade Muçulmana)

Os acenos presidenciais de Khairat el-Shater

A parte fácil é constatar o óbvio: a Irmandade Muçulmana mentiu. Prometera que não teria um candidato nas eleições presidenciais egípcias (primeiro turno no final de maio e o segundo em junho), para não assustar a gente mais secular, cristãos, liberais e os países ocidentais com o seu avanço avassalador. Sabemos a verdade agora. O cheiro do poder é mais forte do que o lance tático. No fim-de-semana, foi anunciado o nome dele. Khairat el-Shater, um empresário milionário, normalmente definido como muito conservador, mas pragmático. Shater é o número 2 da Irmandade Muçulmana e seu estrategista-chefe. Nos tempos da ditadura de Hosni Mubarak, dentro ou fora da prisão, Shater negociava com os serviços de segurança. E hoje ele está em contato regular também com diplomatas americanos.

O New York Times reflete a visão oficialesca (de Washington) de que poderia ser pior (e pode ser pior). O raciocínio envolve o fortalecimento político e eleitoral de Hazem Sallah Abu Ismail, o candidato dos islamistas ultraconservadores, gente ainda mais barra pesada do que a Irmandade Muçulmana. Um possível cenário é que no segundo turno das eleições seja Shater x Ismail.

O fortalecimento de Ismail é uma das explicações para a entrada em cena eleitoral de Shater e a justificativa para o rompimento da promessa. A outra é o estremecimento das relações da Irmandade Muculmana com a junta militar que governa o Egito nesta fase de transição (a Irmandade e islamistas da pesada controlam 70% das cadeiras do novo Parlamento).

Com estes dados básicos, é interessante acompanhar o raciocínio de Marc Lynch, professor da Universidade George Washington, em Washington. Ele observa que Shater não é uma figura carismática, capaz de galvanizar as massas nestes tempos turbulentos (seu trunfo é a fenomenal máquina da Irmandade Muçulmana). Para Lynch, esta decisão de lançar um candidato presidencial pode ser um erro estratégico. Alguns setores da organização estão irritados com a quebra de promessa e podem se alinhar com islamistas mais liberais, como os candidatos Abel Fotouh e Mohammad al-Awa. Outro pessoal pode abraçar Ismail, populista hábil e que cativa a massa mais pobre e fervorosa.

No raciocínio discutível de Marc Lynch, as divisões no espectro islamista podem favorecer o candidato não islamista, o ex-ministro das Relações Exteriores da ditadura Mubarak, Amr Moussa (que consolo!). Lynch argumenta que o cenário ficou mais volátil, mas como não prever um desfecho em que o próximo presidente egípcio não seja um islamista? No consolo do New York Times, a Irmandade Muçulmana se converteu em um “‘aliado indispensável” dos interesses americanos contra os ultraconservadores da escola Abu Ismail. Desconsolador.

Talvez o único consolo, caso realmente acumule tanto poder em um país com tantos problemas, será ver a Irmandade Muçulmana se vergar ao longo do caminho e os egípcios buscarem outras alternativas de liderança, um dia, um dia.

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Colher de chá para a Carmem (dia 3, 13:35),  por seu esforço para acalmar os alarmados. 

O regime podre de Assad e a doutrina da cebola

Kofi Annan e Bashar Assad em Damasco - Foto Reuters

Alarmes falsos (e eu já soei tantos) sobre a iminência do fim da ditadura de Bashar Assad e também sobre planos de paz quando a rebelião supera um ano (e a marca de nove mil mortos). Agora, é o anúncio do enviado especial das Nações Unidas, o seu ex-secretário-geral, Kofi Annan, de que Assad aceitou seu plano baseado em cessar-fogo, retiradas das falanges governistas dos centros urbanos, agilidade para ajuda humanitária, libertação de presos, diálogo e direito ao protesto pacífico (na visão do regime, este último ponto deve ser o direito de protestar contra a oposição).

Como sempre duro é duro acreditar na implementação de um plano de paz na Sïria de Assad (pai ou filho). O novo plano sequer estipula um prazo. Natural que as tropas de Assad prossigam na sua política de arrasa-cidade (com uma escalada que chegou à zona fronteiriça com o Líbano). Natural que o anúncio de Annan tenha sido recebido com ceticismo pela oposição e diplomatas ocidentais, pois a prática de Assad é ganhar tempo, discutindo modalidades de um plano de paz, enquanto tenta esmagar a rebelião. No roteiro habitual, depois basta repudiar o plano diante de falta de cooperação da oposição, que, de fato, é confusa e desarticulada, unindo-se para desconfiar da sinceridade do ditador.

Neste impasse em que a repressão não acaba com a rebelião e a rebelião não acaba com o regime, as coisas melhoraram para Assad de algumas semanas para cá (faz semanas que eu não falo de sua queda iminente).  Como diz Marc Lynch, professor da George Washington University, em Washington, “Assad está claramente ganhando em termos militares, mas estes ganhos são vitórias táticas vazias. Em termos mais amplos, ele está perdendo controle, perdendo legitimidade”. Em entrevista à BBC, a comissária de direitos  humanos da ONU, Navi Pillay, disse que o dirigente pode ser indiciado por crimes contra a humanidade, por responsabilidade em atos como tortura de crianças. Claro que Assad está isolado (por exemplo, a Síria está suspensa da Liga Árabe, reunida nesta quarta-feira em Bagdá) e sofre crescentes sanções, embora conte com o respaldo de Rússia, China e Irã. Existem também os vexames com o vazamento de e-mails privados do casal Assad, confirmando venalidade e futilidade no despotismo moderno da era de iTunes.

Mas o tom essencial é que Bashar sobrevive e, para expressar desafio, na terça-feira ele visitou Homs, cidade que por algumas semanas foi um símbolo da resistência ao regime. Ademais, existe esta amarga constatação de que sua remoção do poder (como exigem países ocidentais e árabes) foi removida deste plano de paz. Ficou mais fácil para russos e chineses abençoarem o plano de Kofi Annan, pois ele carece do conceito maldito de “mudança de regime”. É inimaginável, porém, uma solução a longo prazo na Síria que permita a permanência de Assad (ou de algum fantoche) no poder. O regime precisa mudar.

Para constatar o óbvio, cada caso é um caso na primavera árabe (e a estação está de volta na região). Demonstrações em massa no Egito, em particular na praça Tahrir, no Cairo, e o abandono do apoio militar a Hosni Mubarak levaram ao colapso o regime. Na Líbia, a brutal repressão do regime Kadafi radicalizou a oposição, que conseguiu se unir na guerra civil e só ganhou graças à intervenção militar estrangeira. No Iêmen, o ditador Ali Abdullah Saleh participou da transição, mas este país lá nos confins das Arábias não serve de modelo para nada.

Na Síria, existem manifestações populares contra o regime, mas não na escala egípcia. Além disso, Assad tem blocos de sustentação popular (entre alauítas, cristãos e também sunitas). O núcleo duro no aparato militar e de segurança não desintegrou e Assad não é um completo pária internacional, como Kadafi. Seus aliados internacionais estão aí para manter o status quo enquanto der. A oposição que mistura desolação com triunfalismo ainda acredita que o apoio ao regime irá descascar (na doutrina da cebola), com o abandono, camada após camada, de oficiais militares, empresários, funcionários do governo, do partido Baath e já ocorreu uma “deserção mental” da população mesmo nas duas grandes cidades, Damasco e Aleppo, onde nunca ocorreram protestos de grande magnitude.

Infelizmente, eu preciso concordar com o presidente russo Dmitry Medvedev de que a alternativa a este plano de paz de Annan é uma guerra civil sangrenta e prolongada, de ramificações sectárias e na qual haverá um incremento do jogo competitivo envolvendo atores regionais (e não só regionais, é claro). Mas a plena aceitação do plano de paz por Assad é conversa mole. Sua premissa é a de que os grupos de oposição deponham as armas (e não o regime) e como Assad irá aceitar manifestações pacíficas, ao estilo da praça Tahrir? Annan, por outro lado, foi costurando seu plano de paz, enquanto EUA e Turquia confirmavam o fornecimento de ajuda “não letal” à oposição síria.

O mais provável adiante é mesmo uma guerra civil. Eu espero que não seja prolongada, de alta intensidade e com crescente envolvimento de extremistas islâmicos (algo que alimentaria a narrativa de Assad). Bom mesmo seria o sucesso da doutrina da cebola, com as camadas de sustentação do regime sendo descascadas, até que ele caia de podre. Mas basta de alarmes falsos.

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Colher de chá para o Henrique por seus comentários (dia 28, 11:13 e 13:39) por lembrar a coisa boa que seria o regime Assad cair, apesar das ramificações incertas. E outra para a Vania (dia 28, 14:45), pelo depoimento pessoal e político.

Entre Israel e Gaza, um jogo de tensão e acomodação tática

Escalada de ataques em Gaza e sul de Israel - Fotos Reuters/Getty

De uns dias para cá, ocorreu uma escalada de violência nas bandas de Gaza/Israel, com os ataques aéreos/assassinados seletivos praticados por israelenses contra terroristas palestinos (e nas ações morreram também civis) e lançamento de foguetes contra cidades israelenses por radicais islâmicos mais radicais do que o Hamas. Existe um interesse tanto de Israel como do Hamas de impedir que a coisa se degringole. A disposição mútua é tática, manifestada em negociações indiretas mediadas pelo Egito. Naquelas bandas, tréguas são frágeis. Vamos ver.

O foco de Israel no momento é a questão nuclear iraniana, enquanto o Hamas tenta se ajustar a uma nova realidade regional (em função da primavera árabe). O grupo, ao que tudo indica, se distancia dos seus patronos sírios e iranianos (isolados no mundo árabe-sunita) e obviamente fortalece os laços com a Irmandade Muçulmana, na qual tem suas raízes, e que está a um passo do poder no Egito. No cálculo do Hamas, luta política e o mero reconhecimento tático que Israel existe talvez tragam mais ganhos do que a via armada/terrorista. Entre outras coisas, enfraquece a narrativa israelense de que não dá para negociar com um bando de terroristas que prega a destruição do estado de Israel.

Para o Hamas, e por extensão os palestinos, até que convém a eliminação da ameaça nuclear iraniana e a queda do regime Assad na Síria. Entre as ramificações, estaria a recolocação da questão palestina no centro dos acontecimentos no Oriente Médio. Claro que não podemos prever com precisão os desdobramentos em Gaza e na Cisjordânia caso ocorra um ataque israelense às instalações militares iranianas.

O que aconteceria, por exemplo, se o Hezbollah libanês lançar foguetes contra Israel como parte de uma retaliação iraniana? O Hamas ficaria de braços cruzados, apesar de garantias dadas recentemente por alguns dos seus dirigentes? Um dado importante aqui: nesta última escalada de violência, o estrago apenas não foi maior em Israel  devido à taxa de sucesso (70%)  do sistema de interceptação de foguetes disparados contra áreas povoadas. Maiores estragos talvez resultassem em retaliações mais severas. E vale lembrar que existe um racha no Hamas sobre mais resistência ou algum tipo de acomodação tática com Israel. Em contrapartida, interessa a iranianos e sírios botar lenha na fogueira palestina para desviar as atenções dos desafios que enfrentam.

Na questão palestina em si, um desafio é que o processo de paz, estabelecido com os acordos de Oslo em 1993, está essencialmente morto há três anos com o fracasso de negociações entre o então primeiro-ministro israelense Ehud Olmert e o presidente palestino Mahamoud Abbas sobre um status final em questões como fronteiras, refugiados, segurança e Jerusalém.  Com Olmert e seu antecessor Ehud Barak, Israel fez propostas que os palestinos não deveriam ter recusado. Foram maximalistas e perderam uma chance histórica. O de sempre, os palestinos não perderam nenhuma oportunidade de perder oportunidade. Já o atual primeiro-ministro Benjamin Netanyahu é minimalista e quer apenas manter um processo diplomático em curso com os palestinos, mas sem avanços substantivos. É o processo pelo processo.

Do lado palestino, tampouco existe algo substancial. Abbas sabe que suas posições em questões como o direito de retorno de refugiados palestinos a Israel são irreconciliáveis com a realidade (este retorno é inaceitável para Israel,  seria um suicídio demográfico) e que a expansão dos assentamentos judaicos na Cisjordânia (que deve ser contida por si) não é o único obstáculo em conversações. Abbas tem uma posição fraca, pois não controla Gaza e a perspectiva de reconciliação do seu grupo, o Fatah, com o Hamas é duvidosa, apesar de infindáveis negociações. Ironicamente, se isto acontecesse seria até uma desculpa para mais imobilismo diplomático israelense.

Temos, portanto, acomodação tática, negligência, falta de foco, farsa diplomática e ausência de paradigmas que substituam a fórmula dos acordos de Oslo. Este status quo provisório não pode se tornar crônico. É insustentável

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Estou surpreso, assim como alguns leitores, como o tom calmo dos comentários sobre esta coluna. Debates civilizados. Parabéns aos leitores. Portanto uma colher de chá (de cactus do deserto?) para todos.

As folias (não carnavalescas) de israelenses e iranianos

Os porta-bandeiras Netanyahu e Khamenei - Fotos AFP

Existe uma guerra suja entre Israel e Irã. Existe também uma confusa guerra verbal, que parece apenas em parte deliberadamente confusa. Em parte, as duas partes parecem genuinamente confusas sobre como proceder na crise nuclear. Está muito confuso o que escrevi até agora?

Sobre a guerra suja, ela acontece cada vez menos nas sombras. Em comum, cientistas nucleares iranianos, diplomatas israelenses e “locais” em paragens tão díspares como Teerã, Nova Délhi, Bangcoc e Tblisi podem morrer ou serem feridos por bombas magnéticas colocadas em carros. Autoridades israelenses e iranianos não assumem o envolvimento e acusam o outro lado de ter praticado os atentados. E neste mundo furtivo, não sabemos, de fato, quem é o responsável direto. Podem ser dissidentes iranianos a serviço de Israel ou o Hezbollah libanês trabalhando para Teerã.

Sobre a questão que mais agonia (atacar ou não atacar as instalações nucleares iranianas), as mensagens de Israel são confusas e cifradas. Há dias em que parece que o ataque vai acontecer ontem. Em outros momentos, o recado parece ser dar mais tempo para as sanções. Há dias em Israel e os EUA parecem afinados na questão. Em outros, parece crescer a desconfiança entre dois aliados. Quem sabe, a divisão exista dentro da própria cabeça do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, que, em última instância, tomará a decisão histórica. O que é inegável é a dúvida entre setores militares e da inteligência de Israel sobre a validade deste ataque (inegável? Será que em parte é cortina de fumaça ou guerra psicológica para confundir o inimigo?)

Nas bandas iranianas, existem muitas bandas. E não escondo aqui o meu favoritismo. Não gosto de nenhuma delas. O poder no país parece opaco. Quem sabe alguns “frilas” estejam aprontando estes atentados pelo mundo afora, com um modus operandi amador, como no alegado complô para assasssinar o embaixador saudita em Washington. Temos as bravatas do presidente Mahmoud Ahmadinejad de que o país vai resistir às agressões do Ocidente e da “entidade sionista” ou anunciando avanços no programa nuclear. O Irã está acuado e Ahmadinejad está acuado dentro de casa.

Os malignos estiveram unidos para esmagar o movimento reformista e agora brigam entre eles. Falando em maligno, sempre melhor prestar mais atenção no aiatolá Ali Khamenei do que em Ahmadinejad. Khamenei é aquele líder espiritual que fala que Israel é um tumor cancerígeno. Estas coisas devem ser extirpadas, né? Khamenei parece também interessado em extirpar Ahmadinejad. Que consolo.

Em meio às bravatas e a estas declarações infames, existem também novas mensagens ambíguas do Irã de que estaria disposto a negociar com os ocidentais. Fala-se da existência de canais secretos de comunicação entre Teerã e Washington. O Irã muitas vezes acena vagamente com negociações nucleares para dividir os paises ocidentais, enquanto avança com seu programa no setor. Um analista em Irã que eu respeito muito Karim Sadjadpour, especula que a beligerância acompanhada de acenos conciliatórios podem, no final das contas, mostrar como o Irã está enfraquecido devido às sanções, às brigas internas, ao novo cenário no Oriente Médio pós-primavera árabe e à mera exaustão do regime. Animais feridos e acuados podem ser muito perigosos.

Um sujeito metido a analista de relações internacionais, como eu, deveria ao menos fingir que tem respostas, mas nesta crise entre Israel e Irã estou particularmente acometido de dúvidas sobre quem é quem e o que deve ser feito (a destacar, no dilema nuclear). O ideal seria que Israel não lançasse um ataque e que o regime iraniano fosse alvo de uma implosão.

Claro que a situação é explosiva. Erros de cálculo e de comunicação podem levar a consequências não planejadas ou simplesmente catastróficas. Graham Allison, professor na Universidade de Harvard e um guru nos estudos sobre a crise dos mísseis em Cuba, em 1962, que poderia ter levado o mundo a um confronto nuclear quando americanos e russos jogavam um pôquer geopolítico, define o que está acontecendo hoje da seguinte forma: o confronto sobre o programa nuclear iraniano é uma crise dos mísseis em Cuba em câmara lenta. Atentados em várias partes do mundo, mensagens mal interpretadas, ânimos acalorados e reações exageradas têm o potencial de gerar um perigoso efeito-cascata.

Folias (não carnavalescas) podem resultar em uma guerra acidental. Quem não quiser pensar nestas coisas, que literalmente caia na folia neste feriadão. Depois, sempre tem uma quarta-feira de cinzas, até em Bangcoc, Teerã ou Tel Aviv.

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Vou ser parcial e inclusive me servir. Colher de chá para todos que não gostam de folia (inclusive carnavalesca).  E uma exclusiva para o Ícaro (dia 17, 17:27), pela folia retórica.


 

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