No Peru de Humala, lulismo é o mal menor
Agora é a pobre vitória de Vargas Llosa e dos peruanos, Mas as metáforas médicas estão consagradas. Humala jura que abandonou o chavismo. Seu novo modelo é o lulismo. Portanto, a escolha entre duas doenças. De novo, a necessidade de escolhas amargas. E não estamos diante da escolha de Sofia (quando é preciso optar entre dois entes queridos). E, como Vargas Llosa, é preciso assumir o mal menor.
Claro que o chavismo é pior que o lulismo. O chavismo é bonapartista, histriônico, beirando o ditatorial e de uma escandalosa incompetência econômica, abusando de um distributivismo primário. O lulismo é mais sofisticado, pragmático, mais maleável á necessidade de modernização nacional e de aceitação de algumas realidades da economia capitalista, sabendo agir com habilidade para combater mazelas sociais, o que obviamente rende frutos eleitorais. É um projeto mais maduro para aceitar (ou se resignar) às regras institucionais democráticas. Também é de uma olímpica elasticidade ética, também conhecida como paloccismo. De novo, optar entre chavismo e lulismo não é exatamente uma escolha de Sofia.
Vargas Llosa garante que Humala não foi tomado de um repentino espirito camaleônico, Teve uma transformação mais lenta, iniciada quando perdeu as eleições há cinco anos para Alan Garcia. Seu erro atroz foi vincular seu projeto político e ideológico ao chavismo. Ele também suavizou sua mensagem de identidade inca (um racismo disfarçado de luta contra a herança colonial).
A transformação do ex-golpista Humala é confiável? Só a história irá dizer. O fato é que ao aderir ao lulismo, ele tem mais legitimidade e também é mais perigoso pelo potencial de sobrevida. O chavismo está falido como projeto latino-americano. O último imitador de Hugo Chávez a ganhar eleições foi o nicaraguense Daniel Ortega.
Esta eleição no Peru polarizou o país, onde existe um crescimento econômico vigoroso (movido em parte pelo boom de commodities), mas de instituições frágeis. Aventureiros como Ollanta Humala talvez possam ser submetidos a uma camisa-de-força. Haverá vigilância dos mercados internacionais (para que o presidente-eleito não desgalhe demais das promessas de bom comportamento econômico). Aqui caberá ao suposto ex-chavista seguir a lição do lulismo. E vamos esperar que as forças políticas sensatas peruanas (de centro) aprendam a lição e não se canibalizem nas próximas eleições, forçando o país a optar entre caminhos atrozes.
PS: em um leve toque de humor, cuidado com as análises peruanas deste escriba. Ele chutou no ar (programa Manhattan Connection) que Keiko Fujimori venceria a eleição.



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