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Primeira Impressão (Paquistão)

Livro profético

No feriadão de Ação de Graças, o presidente Barack Obama foi civicamente americano. Foi consumista no tiro de largada da temporada natalina. Obama, porém, é cerebral, metido a intelectual. Sua aquisição foi um livro. Boa escolha com Descent into Chaos, livro de 2008 do brilhante jornalista paquistanês Ahmed Rashid, uma descriçao profética do AfPak (Afeganistão e Paquistão) indo ladeira abaixo e caoticamente.

A trajetória se acelerou no fim-de-semana depois do incidente, em que helicópteros e aviões da Otan mataram 24 soldados paquistaneses na fornteira AfPak. Rashid é obrigatório, com seus livros, artigos de jornais e depoimentos, para quem quer entender minimamente uma região confusa e perigosa. Ele tem acesso aos vários atores, algo perigosíssimo em se tratando do Taliban, rede Al Qaeda e outros grupos radicais, que não vacilam em sequestrar, assasssinar e decepar cabeça de jornalista, como foi o caso do americano Daniel Pearl (o mesmo em relação ao serviço de inteligência paquistanês, exceto no quesito decepar cabeça). Entrevistado esta semana, Rashid diagnosticou que a política americana para a Ásia Central é disfuncional, contraditória (relação de amigo e inimigo com o Paquistão) e o tempo se esgota para evitar estragos maiores.

Rashid adverte que o fervor antiamericano é intenso no Paquistão, mas descarta a receita de alguns candidatos presidenciais republicanos de decepar ajuda ao país. Alerta que será ainda mais desastrosa. Servirá para enfraquecer os já anêmicos setores pró-ocidentais. Isolar o Paquistão é uma opção perigosa, embora seja inevitável para os EUA se aproximarem ainda mais da Índia (enquanto os paquistaneses vão se ligar mais intimamente aos chineses).

Rashid claro que gostou da publicidade em torno do seu livro, comprado pelo presidente, mas lembrou que a campanha do candidato Obama recebeu seis cópias em 2008, quando foi lançado. A tentação é dizer antes tarde do que nunca. Mas pode ser tarde mesmo.

PS: Esta, na verdade, é uma segunda impressão minha do livro de Ahmed Rashid. Publiquei resenha no Estadão em julho de 2008. Para quem estiver interessado, basta checar no Google.
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Boas discussões estratégicas logo cedo sobre um tema atroz. Destaque para a sucessão de comentários do Devildom Voyeur (dia 2, 10:21, 11:42, 12:27).

O perigoso Paquistão está cada vez mais perigoso

Os dúbios militares paquistaneses- Foto John Moore/Getty

Eu não sou grande fã do plantel de candidatos republicanos à presidência americana, muito menos da deputada Michele Bachmann, que já teve seus 15 minutos de fama como queridinha do Tea Party. No entanto, no debate da semana passada dos candidatos sobre política externa, ela deu uma resposta muito honesta e sofisticada sobre a complexa crise do Paquistão (da sua posição estratégica e bem informada como integrante do Comitê de Forças Armadas da Câmara), em meio `a gritaria de tantos candidatos para o governo americano dar uma de macho e cortar ajuda para este aliado que, de fato, merece toda desconfiança do mundo (de todo mundo) e age com duplicidade.

Michele Bachmann foi direto ao ponto, dizendo que o Paquistão é uma “nação que mente”, mas, ao mesmo tempo, compartilha dados de inteligência sobre a rede terrorista Al Qaeda com os americanos. E a candidata republicana alertou que a ajuda deve continuar pois, na sua boa frase de efeito, o “Paquistão, como nação, é muito nuclear para fracassar”. É a mesma analogia para os bancos na crise econômica. Eles agem com duplicidade, mas são muito grandes para quebrar.

O Paquistão é a esquina mais perigosa do mundo, com suas armas nucleares, conflito com a também nuclear Índia e este jogo duplo de ser aliado ocidental e, ao mesmo tempo, ajudar o Talibã e outros grupos insurgentes do Afeganistão. E tudo ficou mais perigoso no fim-de-semana com o incidente no qual ataques com helicópteros e aviões na Otan mataram 24 soldados paquistaneses na fronteira com o Afeganistão, onde insurgentes afegãos atuam.

As autoridades afegãs (com sua própria relação de duplicidade com os EUA e o Paquistão) inclusive esquentaram as coisas dizendo ser falsa a versão paquistanesa de que não houve provocação antes do ataque da Otan. Os paquistaneses, claro, que estão furiosos e denunciam violação da soberania nacional, mas parte da fúria é encenação, justamente em função do jogo duplo. Uma primeira represália foi bloquear duas rotas de tráfego terrrestre de suprimentos para a Otan no Afeganistão e exigir que os americanos fechem uma base no país para o lançamento de ataques com aviões não tripulados dentro do próprio Paquistão (a exigência já foi feita antes e não se concretizou).

Há muita encenação e não se espera o rompimento total, mas não há dúvidas que existe uma séria deterioração das relações dos EUA com o seu duvidoso aliado. Como era de esperar, e em função do incidente, as autoridades americanas estão tentando conter o estrago e colocar panos quentes nas coisas, apesar do círculo vicioso. São décadas de desconfiança e duplicidade de ambas as partes.

E o ano de 2011 tem sido especialmente espinhoso, com os danos colaterais causados pelos ataques com aviões não tripulados, as acusações de envolvimento da inteligência paquistanesa em operações terorristas na embaixada americana em Cabul e o assassinato de um ex-presidente afegão e obviamente a morte de Osama Bin Laden em maio, por forças especiais americanas, realizada sem aviso prévio ao governo local, com as questões levantadas sobre conivência de parte da inteligência paquistanesa para abrigar o líder da rede Al Qaeda.

A duplicidade paquistanesa sempre foi flagrante ao longo de décadas. O país se proclamava aliado americano contra o comunismo soviético e agora contra a rede Al Qaeda, mas seus militares querem, isto sim, faturar ajuda e receber armas para se reforçar contra a Índia. Da parte americana, são as proclamações de que existe a prioridade para ajudar a construção de um país estável, democrático e próspero. E Washington se comporta de forma imperial e imperativa. O resultado da cooperação são sucessivas ditaduras militares (ou militares mandando nos bastidores) e mais instabilidade regional.

Os americanos ajudam militares que, no final das contas, preferem a monstruosidade do Taliban ou outros grupos insurgentes medievais a um governo em Cabul pró-ocidental (mas também próximo da Índia). Soldados americanos morrem no Afeganistão, enquanto o líder do Taliban, o mulá Mohammed Omar, recebe santuário da inteligência paquistanesa no país. Os americanos ajudam seus amigos inimigos. Na expressão em inglês, o Paquistão é um “frenemy” (friend and enemy).

Existem setores civis no Paquistão empenhados em melhorar as relações com a índia e o Afeganistão, além de manter uma relação mais honesta com os EUA. Mas eles são simplesmente fulminados pelos militares. Um governo democrático, embora corrupto e ineficiente, foi eleito em 2008, tendo a frente Asif Zardari (viúvo da ex-primeira-ministra Benazir Bhutto, assassinada há quatro anos, num atentado reinvindicado pela Al- Qaeda), tentou cooperar com a Índia, depois dos atentados terroristas em Mumbai em 2008, mas foi neutralizado pelos militares. Agora ocorreu a queda do embaixador paquistanês em Washington, aliado de Zardari, depois que vazou um memorando no qual ele tentava costurar um acordo secreto com os americanos para que eles ajudassem a liderança civil a imporem sua autoridade sobre o establishment militar paquistanês.

Obviamente, existem motivos de suspeitas e ressentimento dos dois lados. O Paquistão, por exemplo, denuncia o envolvimento americano no Afeganistão como responsável pelo crescimento do Taliban e outros grupos insurgentes no próprio país, algo que não poderia acontecer sem a cumplicidade dos militares paquistaneses, que são seletivos na repressão.

A deterioração das relações entre EUA e Paquistão ocorre em meio ao desengajamento americano no Afeganistão, depois de 10 anos de uma guerra que pode ser definida como empacada. Há os esforços infrutíferos de Washington para algum tipo de compromisso político com o Taliban e qualquer remendo de solução negociada vai exigir costura paquistanesa, ou seja, roupa de péssimo acabamento.

Os americanos, infelizmente, precisam deste escandaloso relacionamento com o Paquistão. O país, como reconheceu Michele Bachmann, é muito importante para que não haja promiscuidade geopolítica. Afinal, o Paquistão caminha para possuir o terceiro maior arsenal nuclear do mundo. Evidentemente é vital vitaminar a anêmica democracia paquistanesa e conter seus generais. Mas a missão se mostra frustrante na esquina mais perigosa do mundo e não existe uma política alternativa decente.

O que temos é um país fraco, pobre e dividido, com o potencial de uma implosão. Há um sentimento antiamericano institucional e popular. E incidentes como o do fim-de-semana apenas agravam as feridas. O espetáculo de um desastre geopolítico no Paquistão fará do vizinho Afeganistão um sideshow.
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Colher de chá para dois comentários abrangentes do Lunardeli (dia 28, 12:32 e 13:31) e históricos do Alberto (dia 28, 13:37).

04/05/2011

às 6:00 \ Paquistão, Terror

A esquina paquistanesa ficou ainda mais perigosa

Luto por Osama no Paquistão - Asif Hassam/AFP

E estamos de volta ao Paquistão, a esquina mais perigosa do mundo. Perspicácia de almanaque: país com 187 mihões de habitantes -95% são muçulmanos e 35% têm menos de 15 anos-, que faz fronteiras com a China, Índia, Irã e Afeganistão. Há setores que são virulentamente antiocidentais na população e fora do controle do governo. Mais um detalhe: o Paquistão tem um arsenal nuclear (como a vizinha e rival Índia), com um prontuário de exportar a tecnologia.

E é uma esquina, portanto, também de atividades muito nebulosas. Claro que era “inconcebível” (na expresão de John Brennan, assessor de contraterrorismo da Casa Branca) que Osama bin Laden não tivesse uma rede de apoio no país. Afinal, sua “caverna” era uma casa fortificada no coração do país, a uma curta caminhada do equivalente da academia militar de West Point. Mas quem apoiava e como explicar a impunidade? Todas as respostas são perturbadoras, indo de proteção à incompetência.

O Paquistão é o país da duplicidade institucional. O governo do presidente Asif Ali Zardari alega que não sabia que a pessoa mais procurada no mundo estava em Abbottabad. Mais: ele diz que o Paquistão faz sua parte na luta contra a rede Al Qaeda. Qual a percentagem? Fácil fazer piada. Zardari é conhecido como Mr. Ten Percent, pelas alegações de corrupção envolvendo as comissões que costumava receber quando sua mulher, Benazir Bhutto, governava o pais. Mas ele é viúvo. Benazir Bhutto foi assassinada pelo terror em dezembro de 2007.

É concebível que o fraco governo civil não soubesse da confortável caverna em Abbottabad. É um governo mais simpático ao Ocidente. No entanto, precisa fazer o jogo de cena para a platéia com muitos componentes antiamericanos e agora chia contra a violação da soberania ocorrida com a operação para pegar e matar Osama Bin Laden.

Já o aparato militar e de inteligência fingia não saber ou simplesmente era cúmplice do terrorista. A relação deste aparato com os americanos é promíscua. Joga a favor e contra e, por falta de melhores opções, os americanos participam deste jogo. Vale lembrar que a ajuda dos EUA para gente como Osama Bin Laden nos tempos da luta contra a ocupação soviética no Afeganistão há 30 anos era conduzida através do então regime militar paquistanês.

De volta à promiscuidade do presente. Há setores deste aparato militar paquistanês que patrocinam grupos extremistas no país e também o Taliban no Afeganistão. Há setores que são de forma ativa ou passiva pró-Al Qaeda. Por outro lado, lideranças terroristas são presas e mortas e milhares de soldados paquistaneses já morreram nos combates. É perfeitamente concebível que setores do aparato militar paquistanês tenham facilitado a operação americana contra Osama bin Laden, embora não soubessem dos detalhes ou quem fosse o alvo. Os paquistaneses são sempre cúmplices de alguém. Fazem um discurso público e agem ao contrário na surdina.

Esquina perigosa e nebulosa. Guy Sorman, o acadêmico francês, tem uma sacada interessante. Ele diz que é possível fazer uma localização geográfica do Paquistão, mas o país é uma ilusão. É uma frouxa associação de nações e etnias, sem língua comum e poucos interesses comuns. A exceção nesta fragmentação é este aparato militar, na maioria de descendência punjabi. O seu propósito é combater a Índia. Desde a partilha do subcontinente indiano, em 1947, tudo é feito por este combate: construção do arsenal nuclelar, patrocínio de variantes do terrorismo islâmico (basta lembrar o ataque em Mumbai em 2008) e apoio ao Taliban para impedir qualquer governo a favor dos indianos em Cabul.

Osama bin Laden era conveniente para este propósito, gerando terror e instabilidade, além de impedir que os EUA se aproximassem demais da Índia, na medida em que Washington precisa do Paquistão para combater o extremismo islâmico. O país é vital em termos estratégicos e não tem credibilidade.

O que fazer, portanto, com esta duplicidade institucional do Paquistão? O escritor Salman Rushdie (muçulmano e indiano) escreveu esta semana que o Paquistão deve ser declarado um estado terrorista. O Paquistão tem este componente de república de banana, mas também é uma república nuclear. O Paquistão não é um inimigo frontal dos interesses americanos ou ocidentais, mas deve ser tratado com toda suspeita.

E se o Paquistão fosse realmente inimigo declarado, como lidar com ele? Confrontar é perigoso, abandonar também é. Seria talvez ideal fornecer menos bilhões de dólares para seus militares e dar mais ajuda para seu sistema educacional (o seu colapso contribuiu para o fortalecimento de madrassas, as escolas religiosas que são foco de recrutamento para jihadistas). No Congresso em Washington, aliás, existe uma crescente chiadeira contra esta ajuda generosa.

E melhor manter alguns inimigos ou elementos suspeitos mais perto da gente. Não há dúvida que o episódio da operação que culminou na morte de Osama bin Laden é um sério desafio à preservação da duplicidade institucional do Paquistão. Mas a implosão definitiva na esquina mais perigosa do mundo seria uma herança maldita do astro global do terrorismo.


 

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