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14/05/2012

às 6:00 \ Irã, Israel, Mundo Árabe, Oriente Médio, Palestinos

Em defesa de Israel (de novo) e até de Netanyahu

Netranyahu, por cima, com seu novo parceiro Mofaz

Que coisa! Governos são derrubados por crise econômica (Europa, num jogo de dominó) ou são derrubados porque o prazo de validade expirou (Oriente Médio, como no Egito) ou se aguentam no poder porque expiram a oposição com força bruta (também no Oriente Médio, como na Sïria). E lá em Israel, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu mostra que o país está sólido, em uma recado aos inimigos externos e também aos amigos de Israel que temem pela coesão interna do país.

Netanyahu, do partido de direita Likud, deu um golpe de mestre na semana passada, ao aliciar o partido de centro Kadima para a coalizão de governo. Assim, ele não antecipou as eleições gerais de outubro de 2013 para o próximo setembro como estava praticamente decidido e costurou uma supermaioria no Parlamento (3/4 das cadeiras). A jogada maquiavélica de Netanyahu atraiu muita atenção e especulações sobre as ramificações externas.

Uma leitura é a de que o país se uniu como não se unia desde a guerra de 1967. Logo, o terreno está sendo preparado para um ataque às instalações nucleares iranianas. Possível. Há uma leitura também que a incorporação do Kadima, um partido com uma posição mais aberta e sensível à questão palestina, pode movimentar as coisas naquela frente diplomática após tantos anos de paralisia. Menos possível. Basta ver que Israel e palestinos sequer conseguem retomar negociações substantivas, como mostrou a mais recente troca de correspondência entre os dois lados.

As considerações urgentes para o lance de Netanyahu foram mais domésticas e aqui manifesto um pouco de alívio. Nas considerações externas, eu persisto nas dúvidas sobre a sabedoria deste ataque ao Irã (em particular se for uma iniciativa unilateral de Israel) e no caso palestino não vislumbro avanços significativos tão cedo, o que a longo prazo é uma dano ao direito palestino a um estado, à legitimidade de Israel e à busca de um modus-vivendi entre judeus e árabes no Oriente Médio. É  um cenário inquietante e que continua se agravando.

Ao menos, porém, existe uma frente mais sólida internamente (a noção de solidez, é verdade,  deve ser encarada com ceticismo em Israel e sua classe de políticos tão oportunistas, fisiológicos e corruptos). País mais sólido internamente fica mais preparado para enfrentar desafios externos. E porque o alívio? O Likud nunca foi minha praia, mas o consolo para mim é o fato de ser um partido relativamente secular, como é o caso do Kadima (que é filhote do próprio Likud). Este casamento de conveniência entre pai e filho aumenta a margem de manobra para diminuir o espaço que já é desproporcional de pequenos partidos ultrarreligiosos, que converteram o país em refém de suas causas (ao lado de partidos ultranacionalistas de direita, outro dano para a saúde e o futuro do país).

Com esta nova coalizão, ficou mais fácil a aprovação de reformas nos próximos meses, a destacar a exigência de algum tipo de serviço nacional para os jovens religiosos (hoje isentos do serviço militar obrigatório) e também de reformas do sistema político para reduzir o poder destes partidecos. Eu considero uma maravilha uma freada na aceleração religiosa em Israel, um belo exemplo quando vemos o avanço do fundamentalismo islâmico no Oriente Médio, no lugar de infames ditaduras seculares.

O poder desproporcional destes pequenos partidos religiosos é uma distorção que ameaça a própria coesão da sociedade israelense (muitos destes cidadãos ultrarreligiosos recebem benefícios sociais ou têm isenções e sequer reconhecem o próprio estado). Curiosamente, reformas exigindo algum tipo de serviço nacional, ao invés de militar, para milhares de estudantes de escolas religiosas, tambem terão implicações para os cidadãos árabe-israelenses do país (cerca de 20% da população), hoje também isentos do serviço militar. Se estes cidadãos são parte da sociedade e querem plena igualdade também devem servir ao país, numa dinâmica de mais direitos e deveres.

Na verdade, estas dinâmicas internas e externas Israel devem ser enfrentadas simultaneamente, num desafio que garanta pontos essenciais: um estado judaico, democrático e seguro (e um dia em paz com seus vizinhos). Será um teste histórico para Netanyahu, alguém que eu considero mais hábil para estes lances táticos (como costurar esta surpreendente coalizão) do que uma visão estratégica (no caso palestino, ele foi arrastado ao longo dos anos para aceitar o mero direito palestino a um estado).

Para dar uma medida, o compromisso do Kadima com o cenário de dois estados é mais determinado. Seu líder Shaul Mofaz propôs em 2009 a criação imediata de um estado palestino em 60% da Cisjordânia e aceita, ao contrário de Netanyahu, as fronteiras anteriores à guerra de 1967 como base para um acordo de paz, com entrega de algumas terras israelenses para compensar a perda aos palestinos de blocos de assentamentos judaicos dentro da Cisjordânia. Mas hoje em dia, Netanyahu reflete o país. Ele é um político cauteloso. O seu passo é o passo nacional. Se eleições tivessem sido antecipadas para setembro, o Kadima teria levado uma rasteira do eleitorado.

Não há dúvida que Netanyahu tem agora inquestionável legitimidade política para pressionar os EUA contra arrastadas negociações com o Irã sobre suas ambições nucleares, enquanto ameaça com o ataque preventivo. Vale lembrar que as divergências dentro de Israel sobre o Irã são muito mais sobre quando seria o momento mais adequado para o ataque e se isto deve ser feito sem o apoio ou, pior, contra a vontade americana.

Mas na dinâmica externa, as coisas não estão, é claro, exclusivamente nas mãos de Netanyahu. No caso iraniano, ele não poderá fazer nada até que haja um desfecho das negociações nucleares entre a comunidade internacional e o Irã (a solidez da coalizão de Netanyahu aumenta a urgência destas conversacões).

O dilema para Netanyahu será um acordo com Teerã que ainda permita algum tipo de enriquecimento de urânio. Como ele poderá realizar um ataque num contexto em que existe um acordo indesejável para Israel, mas aceitável para grande parte da comunidade internacional? O primeiro-ministro de Israel também precisa medir se lança um ataque enquanto Barack Obama está no poder ou se arrisca a uma espera eleitoral (nos EUA), no qual poderá ou não assumir o seu amigão, o republicano Mitt Romney, em janeiro próximo.

No caso palestino, resta ver qual será a resposta à nova dinâmica interna em Israel pelas lideranças palestinas (O Fatah do ainda presidente Mahomud Abbas, que controla a Cisjordânia, e o Hamas, que manda em Gaza). As apostas de Abbas não funcionaram (como buscar o reconhecimento unilateral palestino na ONU e não através das tortuosas negociações com Israel).

Como Obama em Washington, Abbas também apostava (e perdeu) que Netanyahu seria em algum momento espirrado do poder em Jerusalém. Agora precisa aceitar a realidade de um adversário mais forte e decidir se irá se engajar. Quanto ao Hamas, não há muita diferença na sua postura, além de uma suavização da retórica antiIsrael por alguns setores do grupo fundamentalista islâmico. O Hamas se sente mais fortalecido com o avanço da Irmandade Muçulmana no Egito, da qual é filial, e não se dobra aos esforços de Abbas para colocar Gaza sob o seu controle. Nenhum dos três atores tem muito a oferecer para se sair do lodaçal diplomático.

Esta união em Israel é um desafio para os inimigos do país, mas ainda resta saber exatamente o que fará Netanyahu com os frutos de sua vitória, além de ter menos dor-de-cabeça com a caótica política interna israelense.

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Colher de chá para o Caio Blinder, ele merece por ser tão paciente. 

Os camelos de Mubarak e os tanques de Assad

Os métodos de combate a uma rebelião popular - Fotos Getty/AFP

Coluna tem uns rituais. Houve semanas em que toda bendita quarta-feira eu escrevia sobre o circo das primárias presidenciais republicanas (terça-feira foi o bye bye do fervoroso Rick Santorum. Hora de dizer God Bless, Mitt Romney). A maldita crise na Síria está mais para arena sangrenta da primavera árabe do que para circo republicano, mas de uns tempos para cá o assunto é ritual de coluna de quarta-feira. Vamos lá.

Incrédulo, eu vi na televisão o mediador da crise e ex-secretário geral da ONU, Kofi Annan, com aquela cara de quem não dorme há uns 300 anos, dizer que ainda é cedo para anunciar que o seu plano de paz morreu. Annan exige que o cessar-fogo seja implantado, enquanto a ditadura síria exige imediatamente novas condições para que isto aconteça. Ditadura exigente e mentirosa. Em um movimento circular, ela retira tanques de uma cidade, conforme determina o plano de Annan, e aí eles são deslocados para outra.

A suspensão total de hostilidades supostamente deve acontecer agora na quinta-feira. O editorial do Wall Street Journal define a mediação de Annan como farelo diplomático. O editorial do Washington Post diz que o plano não passa de cobertura para o regime sírio massacrar o seu próprio povo. Até os russos, benfeitores de Assad, expressam desconforto com a enrolação do afilhado, mas vão segurar a barra. O primeiro-ministro turco Recep Erdogan, que já foi irmão de Bashar, mas se cansou e deserdou o vizinho, não tem papas na língua. Acusa Bashar de ser pessoalmente responsável pela morte de civis sírios. Desde o anúncio do plano de paz de Kofi Annan, no começo do mês, morreram cerca de mil pessoas na Síria, na maioria civis. São mais de nove mil desde que a rebelião começou em março do ano passado.

Exasperado, pois tropas sírias atacaram até acampamentos de refugiados sírios dentro da Turquia, Erdogan disse que Assad “continua matando 60, 70, 80, 100 cada dia. Tropas sírias atiram sem piedade nas costas de mulheres e crianças em fuga”. No jargão do regime, quem se move integra gangues armadas de terroristas, a serviço de forças estrangeiras. Falando em gangues terroristas, até o Hamas palestino, que já foi afilhado de Assad, tirou o corpo fora e foi buscar a benção das autocracias sunitas do golfo Pérsico. Em breve, a TV estatal síria irá enfiar o Hamas neste balaio de gangue terrorista, finalmente concordando com alguma coisa dita pelas autoridades israelenses.

Em meio à confusão e à exasperação, o esfarrapado plano de paz foi adotado pelo Conselho de Segurança da ONU e a Liga Árabe diante da impossiblidade de aceitação de um plano I (intervenção). Força militar estrangeira num conflito interno é uma decisão atroz. Pode funcionar, como nos Balcãs na década de 90 ou na Líbia no ano passado, mas as condições sírias são mais espinhosas, com as ramificações sectárias regionais. Um outro caminho, igualmente atroz, envolve a determinação e sacrifício de movimentos internos por liberdade, secundados por apoio global. Mianmar da briosa Aung Sang Suu Kyi sinaliza esta via.

As ações brutais do regime sírio chocam, mas, na verdade, não devem surpreender. Este é o seu modus operandi desde os anos 80. Irrompe uma revolta popular e a resposta é esmagar a oposição e punir cidades com o intuito de que nunca mais se levantem. A política de arrasa-cidades, porém, não impede a retomada do ciclo.

Rami Khouri, da American University, em Beirute e que escreve coluna no jornal libanês Daily Star, lembra a diferença essencial entre a insurreição em curso na Síria e o que aconteceu no ano passado na Tunísia e no Egito. O presidente Ben Ali fugiu quando a coisa engrossou e Hosni Mubarak despachou asseclas montados a camelo contra os manifestantes na praça Tahrir. Bashar Assad solta os cachorros no sentido figurado. Espalha tanques, artilharia, franco-atiradores, gangues de assassinos e estupradores pelo país. A prioridade é a barbárie, secundada pela encenação diplomática. Há relatos de brutalidades praticadas por rebeldes e atos terroristas (sobre os quais é difícil atribuir responsabilidade), mas nem de longe é possível equivalência com os crimes contra a humanidade praticados pelo regime Assad.

A ditadura síria dizima civis e as esperanças de reconciliação. Sem repressão, esta ditadura simplesmente não sobrevive. No processo, o regime Assad militariza a oposição. Rami Khouri ainda acredita que uma insurreição não militar em larga escala possa dar conta do serviço, mas depende de apoio unânime do Conselho de Segurança da ONU (algo ilusório diante da cumplicidade russa e chinesa com a ditadura em Damasco).

Os camelos de Mubarak não foram páreo para o levante popular (especialmente quando os militares egípcios decidiram não atirar na massa). Na Síria, os tanques de Assad não resolvem a parada, mas a questão é se o regime poderá ser apeado do poder sem tanques do outro lado ou intervenção estrangeira.

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Colher de chá para Felipe e Pablo, com os quais tive troca de idéias sobre a situação síria.

As mentiras de Assad e as meias verdades da Al Jazeera

Al Jazeera nem sempre é liberdade - Foto Getty

Nenhuma colher de chá para o brutal regime sírio, que diz ter concordado com um cessar-fogo da ONU, em mais uma encenação para ganhar tempo na sua repressão a uma rebelião cada vez mais militarizada. Ativistas sírios e televisões por assinatura no mundo árabe prestam um serviço de utilidade pública, exibindo as vítimas e as engrenagens da máquina de repressão do regime sírio (como crianças torturadas e mortas). Mas precisamos conter nosso entusiasmo e levar em conta os alertas de alguém como Ali Hashem, o jornalista que pediu demissão da rede Al Jazeera no começo de março, reclamando da “cobertura parcial e não profissional” da insurreição síria.

Em um comentário no jornal britânico The Guardian, Hashem, que era correspondente baseado em Beirute, elabora críticas, não apenas de sua ex-empresa, mas de meios de comunicação em geral do mundo árabe. Ele diz que se estes veículos se tornaram partidos, transmitindo a parte da história que serve à agenda política dos proprietários ou dos interesses dos países onde estão estacionados. No caso da Al Jazeera, o emirato do Catar. Nem se trata de contar mentiras. Para Hashem, o modus operandi é contar apenas parte da verdade e enterrar o resto.

Claro que é verdade a brutalidade do regime sírio e que sua narrativa dos acontecimentos é mentirosa, fantasiosa e mera peça de propaganda, num atentado de maniqueísmos. Mas a narrativa do outro lado tem tons cinzentos. A bem da verdade, apesar de tudo, a Al Jazeera  é um avanço jornalístico no mundo árabe. Dando uma desgalhada, dou o exemplo aqui de uma análise no seu site em inglês sobre a encrenca política no Egito (tema de minha coluna de terça-feira). Análise razoável (a versão em inglês costuma ser mais razoável), sinalizando o descrédito da Irmandade Muçulmana.

Mas voltando à Síria, num exemplo específico, Hashem diz que a Al Jazeera se recusou a transmitir imagens de rebeldes armados lutando na fronteira entre Síria e Líbano, no empenho para manter a narrativa de que se trata de uma rebelião “pacífica e limpa”. É uma narrativa formulada pelos governantes do Catar, os mesmos goverrnantes que censuraram a cobertura da rebelião e de massacres no Bahrein. E por quê? Países sunitas como Catar e Arábia Saudita estão na linha de frente da campanha para derrubar regimes como o da Síria (aliado do xiita Irã), mas não querem saber do clamor por liberdade na sua vizinhança, especialmente se há rebeldes xiitas, como é o caso do Bahrein, governado por uma minoria sunita.

Para Hashem, a busca de credibilidade pela Al Jazeera e outros canais da região se tornou um exercício de futilidade. Os grupos que controlam estas emissoras estão se comportando como ditadores da escola Assad, que obviamente manipulam a cobertura da midia estatal (aqui achei a comparação hiperbólica). Hashem conclui que muita gente na região recorre cada vez mais à imprensa ocidental para saber o que está acontecendo. Isto é refletido nos ganhos de audiência do serviço árabe da BBC de Londres. Hashem arremata que quando governos que possuem organizações de mídia no Oriente Médio impõem suas agendas, canais como Al Jazeera estão caminhando para o “suicídio jornalístico”.

E tudo isto, enquanto os Assads matam (e alguns rebeldes também).

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Pessoal, a colher de chá vai mesmo para o Ali Hashem. 

O regime podre de Assad e a doutrina da cebola

Kofi Annan e Bashar Assad em Damasco - Foto Reuters

Alarmes falsos (e eu já soei tantos) sobre a iminência do fim da ditadura de Bashar Assad e também sobre planos de paz quando a rebelião supera um ano (e a marca de nove mil mortos). Agora, é o anúncio do enviado especial das Nações Unidas, o seu ex-secretário-geral, Kofi Annan, de que Assad aceitou seu plano baseado em cessar-fogo, retiradas das falanges governistas dos centros urbanos, agilidade para ajuda humanitária, libertação de presos, diálogo e direito ao protesto pacífico (na visão do regime, este último ponto deve ser o direito de protestar contra a oposição).

Como sempre duro é duro acreditar na implementação de um plano de paz na Sïria de Assad (pai ou filho). O novo plano sequer estipula um prazo. Natural que as tropas de Assad prossigam na sua política de arrasa-cidade (com uma escalada que chegou à zona fronteiriça com o Líbano). Natural que o anúncio de Annan tenha sido recebido com ceticismo pela oposição e diplomatas ocidentais, pois a prática de Assad é ganhar tempo, discutindo modalidades de um plano de paz, enquanto tenta esmagar a rebelião. No roteiro habitual, depois basta repudiar o plano diante de falta de cooperação da oposição, que, de fato, é confusa e desarticulada, unindo-se para desconfiar da sinceridade do ditador.

Neste impasse em que a repressão não acaba com a rebelião e a rebelião não acaba com o regime, as coisas melhoraram para Assad de algumas semanas para cá (faz semanas que eu não falo de sua queda iminente).  Como diz Marc Lynch, professor da George Washington University, em Washington, “Assad está claramente ganhando em termos militares, mas estes ganhos são vitórias táticas vazias. Em termos mais amplos, ele está perdendo controle, perdendo legitimidade”. Em entrevista à BBC, a comissária de direitos  humanos da ONU, Navi Pillay, disse que o dirigente pode ser indiciado por crimes contra a humanidade, por responsabilidade em atos como tortura de crianças. Claro que Assad está isolado (por exemplo, a Síria está suspensa da Liga Árabe, reunida nesta quarta-feira em Bagdá) e sofre crescentes sanções, embora conte com o respaldo de Rússia, China e Irã. Existem também os vexames com o vazamento de e-mails privados do casal Assad, confirmando venalidade e futilidade no despotismo moderno da era de iTunes.

Mas o tom essencial é que Bashar sobrevive e, para expressar desafio, na terça-feira ele visitou Homs, cidade que por algumas semanas foi um símbolo da resistência ao regime. Ademais, existe esta amarga constatação de que sua remoção do poder (como exigem países ocidentais e árabes) foi removida deste plano de paz. Ficou mais fácil para russos e chineses abençoarem o plano de Kofi Annan, pois ele carece do conceito maldito de “mudança de regime”. É inimaginável, porém, uma solução a longo prazo na Síria que permita a permanência de Assad (ou de algum fantoche) no poder. O regime precisa mudar.

Para constatar o óbvio, cada caso é um caso na primavera árabe (e a estação está de volta na região). Demonstrações em massa no Egito, em particular na praça Tahrir, no Cairo, e o abandono do apoio militar a Hosni Mubarak levaram ao colapso o regime. Na Líbia, a brutal repressão do regime Kadafi radicalizou a oposição, que conseguiu se unir na guerra civil e só ganhou graças à intervenção militar estrangeira. No Iêmen, o ditador Ali Abdullah Saleh participou da transição, mas este país lá nos confins das Arábias não serve de modelo para nada.

Na Síria, existem manifestações populares contra o regime, mas não na escala egípcia. Além disso, Assad tem blocos de sustentação popular (entre alauítas, cristãos e também sunitas). O núcleo duro no aparato militar e de segurança não desintegrou e Assad não é um completo pária internacional, como Kadafi. Seus aliados internacionais estão aí para manter o status quo enquanto der. A oposição que mistura desolação com triunfalismo ainda acredita que o apoio ao regime irá descascar (na doutrina da cebola), com o abandono, camada após camada, de oficiais militares, empresários, funcionários do governo, do partido Baath e já ocorreu uma “deserção mental” da população mesmo nas duas grandes cidades, Damasco e Aleppo, onde nunca ocorreram protestos de grande magnitude.

Infelizmente, eu preciso concordar com o presidente russo Dmitry Medvedev de que a alternativa a este plano de paz de Annan é uma guerra civil sangrenta e prolongada, de ramificações sectárias e na qual haverá um incremento do jogo competitivo envolvendo atores regionais (e não só regionais, é claro). Mas a plena aceitação do plano de paz por Assad é conversa mole. Sua premissa é a de que os grupos de oposição deponham as armas (e não o regime) e como Assad irá aceitar manifestações pacíficas, ao estilo da praça Tahrir? Annan, por outro lado, foi costurando seu plano de paz, enquanto EUA e Turquia confirmavam o fornecimento de ajuda “não letal” à oposição síria.

O mais provável adiante é mesmo uma guerra civil. Eu espero que não seja prolongada, de alta intensidade e com crescente envolvimento de extremistas islâmicos (algo que alimentaria a narrativa de Assad). Bom mesmo seria o sucesso da doutrina da cebola, com as camadas de sustentação do regime sendo descascadas, até que ele caia de podre. Mas basta de alarmes falsos.

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Colher de chá para o Henrique por seus comentários (dia 28, 11:13 e 13:39) por lembrar a coisa boa que seria o regime Assad cair, apesar das ramificações incertas. E outra para a Vania (dia 28, 14:45), pelo depoimento pessoal e político.

Entre Israel e Gaza, um jogo de tensão e acomodação tática

Escalada de ataques em Gaza e sul de Israel - Fotos Reuters/Getty

De uns dias para cá, ocorreu uma escalada de violência nas bandas de Gaza/Israel, com os ataques aéreos/assassinados seletivos praticados por israelenses contra terroristas palestinos (e nas ações morreram também civis) e lançamento de foguetes contra cidades israelenses por radicais islâmicos mais radicais do que o Hamas. Existe um interesse tanto de Israel como do Hamas de impedir que a coisa se degringole. A disposição mútua é tática, manifestada em negociações indiretas mediadas pelo Egito. Naquelas bandas, tréguas são frágeis. Vamos ver.

O foco de Israel no momento é a questão nuclear iraniana, enquanto o Hamas tenta se ajustar a uma nova realidade regional (em função da primavera árabe). O grupo, ao que tudo indica, se distancia dos seus patronos sírios e iranianos (isolados no mundo árabe-sunita) e obviamente fortalece os laços com a Irmandade Muçulmana, na qual tem suas raízes, e que está a um passo do poder no Egito. No cálculo do Hamas, luta política e o mero reconhecimento tático que Israel existe talvez tragam mais ganhos do que a via armada/terrorista. Entre outras coisas, enfraquece a narrativa israelense de que não dá para negociar com um bando de terroristas que prega a destruição do estado de Israel.

Para o Hamas, e por extensão os palestinos, até que convém a eliminação da ameaça nuclear iraniana e a queda do regime Assad na Síria. Entre as ramificações, estaria a recolocação da questão palestina no centro dos acontecimentos no Oriente Médio. Claro que não podemos prever com precisão os desdobramentos em Gaza e na Cisjordânia caso ocorra um ataque israelense às instalações militares iranianas.

O que aconteceria, por exemplo, se o Hezbollah libanês lançar foguetes contra Israel como parte de uma retaliação iraniana? O Hamas ficaria de braços cruzados, apesar de garantias dadas recentemente por alguns dos seus dirigentes? Um dado importante aqui: nesta última escalada de violência, o estrago apenas não foi maior em Israel  devido à taxa de sucesso (70%)  do sistema de interceptação de foguetes disparados contra áreas povoadas. Maiores estragos talvez resultassem em retaliações mais severas. E vale lembrar que existe um racha no Hamas sobre mais resistência ou algum tipo de acomodação tática com Israel. Em contrapartida, interessa a iranianos e sírios botar lenha na fogueira palestina para desviar as atenções dos desafios que enfrentam.

Na questão palestina em si, um desafio é que o processo de paz, estabelecido com os acordos de Oslo em 1993, está essencialmente morto há três anos com o fracasso de negociações entre o então primeiro-ministro israelense Ehud Olmert e o presidente palestino Mahamoud Abbas sobre um status final em questões como fronteiras, refugiados, segurança e Jerusalém.  Com Olmert e seu antecessor Ehud Barak, Israel fez propostas que os palestinos não deveriam ter recusado. Foram maximalistas e perderam uma chance histórica. O de sempre, os palestinos não perderam nenhuma oportunidade de perder oportunidade. Já o atual primeiro-ministro Benjamin Netanyahu é minimalista e quer apenas manter um processo diplomático em curso com os palestinos, mas sem avanços substantivos. É o processo pelo processo.

Do lado palestino, tampouco existe algo substancial. Abbas sabe que suas posições em questões como o direito de retorno de refugiados palestinos a Israel são irreconciliáveis com a realidade (este retorno é inaceitável para Israel,  seria um suicídio demográfico) e que a expansão dos assentamentos judaicos na Cisjordânia (que deve ser contida por si) não é o único obstáculo em conversações. Abbas tem uma posição fraca, pois não controla Gaza e a perspectiva de reconciliação do seu grupo, o Fatah, com o Hamas é duvidosa, apesar de infindáveis negociações. Ironicamente, se isto acontecesse seria até uma desculpa para mais imobilismo diplomático israelense.

Temos, portanto, acomodação tática, negligência, falta de foco, farsa diplomática e ausência de paradigmas que substituam a fórmula dos acordos de Oslo. Este status quo provisório não pode se tornar crônico. É insustentável

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Estou surpreso, assim como alguns leitores, como o tom calmo dos comentários sobre esta coluna. Debates civilizados. Parabéns aos leitores. Portanto uma colher de chá (de cactus do deserto?) para todos.

09/02/2012

às 6:00 \ Crise nuclear, Irã, Israel, Oriente Médio, Síria

Curtas & Finas (Síria & Irã)

Amigão e amiguinho - Foto Atta Kenare/AFP

Israel vai atacar ou não o Irã? Deve ou não atacar? São dilemas estratégicos com ramificações globais. Há momentos em que uma decisão parece iminente. Em outros, parece cortina de fumaça ou realmente o dilema está sendo negociado em público por vários atores, dentro e fora de Israel. Uma medida didática dos prós e contras está neste texto da National Public Radio, nos EUA, da qual sou um viciado ouvinte e leitor.

Outro texto importante foi publicado na quarta-feira no New York Times. O autor é Efraim Halevy, ex-diretor do Mossad. uma das vozes, como outras na comunidade de inteligência e nos meios militares, advertindo contra um ataque às instalações nucleares iranianas, que parece ter como advogados mais estridentes o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e o ministro da Defesa Ehud Barak. Há a impressão também que o presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad está pedindo este ataque, além do infame aiatolá Khamenei, aquele que considera Israel um tumor cancerígeno.
Halevy pega uma terceira via interessante (as outras são pressões/sanções e ataque militar) neste texto com o título “O Calcanhar de Aquiles do Irã”. É a Síria. O ex-chefe do Mossad escreve que o debate público nos EUA e Israel parece estar “focado obssessivamente” se deve haver um ataque contra o Irã para deter suas ambições nuclelares. Ele lamenta que não haja a devida atenção para os eventos na Siria (discordo, existe a devida atenção), na medida em que a queda de Bashar Assad pode significar um desastre estratégico para o Irã.
No tabuleiro regional, a queda do peão Assad (o único país aliado do Irã nas vizinhanças) privaria o regime de Teerã de acesso a seus asseclas do Hezbollah (Líbano) e Hamas (Gaza), além de abalar ainda mais o poder e prestígio dos aiatolás dentro e fora de casa. Halevy não tem dúvidas que a queda de Assad “seria uma opção mais segura e compensadora do que a opção militar”.
Obviamente existem as ressalvas: não adianta Assad cair, mas a presença iraniana no Síria sobreviver a esta queda. E Halevy lembra que seria preciso convencer russos e chineses a puxarem o tapete de Assad. Seriam necessários também desdobramentos domésticos (no Irã). Como diz Halevy, “o povo precisa se levantar novamente contra o regime que inflinge tanta dor e sofrimento”.
No cenário mais otimista de Halevy, uma hemorragia na Teerã pós-Assad poderia levar  os iranianos a suspenderem suas ambições nucleares. Muitos verbos no tempo condicional. Mas se estivessem lendos juntos este artigo, está aí um dia em que Netanyahu, Ahmadinejad e Assad concordariam em discordar de alguma coisa.
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Colher de chá (erva doce) para a fiel e vigilante leitora Betty (dia 9, 10:59), azeda comigo, pois eu disse que Netanyahu, Ahmadinejad e Assad concordariam com alguma coisa. Obviamente, eu jamais trataria a trinca de forma equivalente. Creio que a Betty extrapolou, mas estou aqui para ser cobrado.

China quer um mundo cheio de harmonia, mas e a Síria?

Os presidentes Bashar Assad e Hu Jintao - Foto AFP

A China quer negócios, não quer confusão. Qualquer encrenca geopolítica em algum buraco do planeta e lá vem o porta-voz do ministério das Relações Exteriores de Pequim com a declaração anódina de que os chineses esperam que tudo seja resolvido de forma harmoniosa, sem interferência externa nos assuntos internos de qualquer país, qualquer ditadura, qualquer regime genocida.

A exemplo da Rússia, a China tem uma uma visão tradicional de soberania nacional, enraizada em princípios diplomáticos do século 19, mas esta postura pode ser um tiro pela culatra, especialmente quando a não-interferência colide com seus interesses econômicos. Estamos falando da Síria, mas nem vamos falar da incoerência que é apregoar não-interferência, enquanto russos e chineses seguram a barra de um governo terrível.
A China secundou a Rússia ao vetar no fim-de-semana a resolução no Conselho de Segurança das Nações Unidas, pedindo uma transição política na Síria, com a saída do poder de Bashar Assad. Pequim também secundou Moscou e anunciou que vai despachar emissários para conversar sobre a tal harmonia com o truculento regime de Assad. Em parte, com o veto na ONU, Pequim não quer endossar o repúdio à brutal repressão de um governo contra o seu próprio povo, pois o feitiço pode se virar contra o feiticeiro em função do tratamento que a ditadura comunista dispensa à sua população e minorias étnicas e religiosas.
Esta crescente preocupação que instabilidade ao estilo da primavera árabe bata nas portas de Pequim fez com as autoridades comunistas batessem prontamente ao menor sinal de protesto político no ano passado. E explica também a disposição chinesa de segurar a barra do regime de Bashar Assad. E aqui precisamos levar em conta que a Síria é um produtor de petróleo de terceira categoria, de pouca importância econômica para a voraz China. Situação bem diferente de um arco de países que vão da costa atlântica da Africa à Ásia Central, com os quais os negócios chineses estão a plena vapor.
 O problema é que muitos países neste arco estão em polvorosa política, alguns ritmo de insurreição, a destacar no mundo árabe. Com sábio oportunismo ou por interesses geopolíticos ou sectários, muitas ditaduras do mundo árabe se afastam da Síria, entre elas monarquias do golfo Pérsico. E aqui a China tem parceiros petrolíferos essenciais. Saia justa para uma China, que não gosta de encrenca com parceiros comerciais.
Na crise líbia, foi relativamente fácil para os chineses se livrarem do dilema. Pequim se absteve na votação no Conselho de Segurança que efetivamente autorizou a intervenção militar internacional. Na verdade, a diplomacia chinesa foi adiante e apoiou sanções contra o regime Kadafi. Mesmo na crise nuclear iraniana, os chineses endossam as resoluções mais diluídas contra o regime de Teerã. Mais do que isto, em situações extremas, a China viola sua política de não-interferência, como no deslocamento de navios para a costa da Somália para combate pirataria.
São passos, porém, tímidos e incompatíveis com as ambições de uma superpotência emergente. As movimentações no seu quintal (especialmente marítimo) já são mais assanhadas, o que assusta a vizinhança. A China abomina o que considera o imperialismo moral do Ocidente e com razão. Sabe que pregação sobre direitos humanos (mesmo quando acompanhada de uma agenda econômica) expõe, em última instância, a falência moral do seu sistema, cujo pilar é o comunocapitalismo autoritário, no qual vale tudo na arena internacional desde que haja um bom negócio.
Mas a ascensão da China irá exigir uma atuação global mais muscular. Isto significará tomar partido em conflitos domésticos. Será uma China mais ativa, para o bem ou para o mal, uma China mais contraditória, a exemplo dos países ocidentais, e não apenas consistente no seu mercantilismo.
PS- Sobre os desafios diplomáticos de uma potência emergente, eu recomendo o artigo sobre o Brasil na edição desta quarta-feira no Financial Times.
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Colher de chá matinal para o Maisvalia (dia 8, 11:17). Cobrou logo cedo dos amantes da nobre causa de Pequim um ataque contra os defensores dos direitos humanos. Mas este pessoal parece que acorda tarde. Colher de chá noturna para a Karen (dia 8, 23:50), pela panorâmica. É um prazer para mim desenhar este arco.  Maisvalia e Karen, leitores com visões de mundo opostas, me acompanham desde o começo da coluna e “aprenderam” a se respeitar.

Curtas & Finas (Maikel Nabil)

Uma voz corajosa no Egito - Foto Efe

Com tantas notícias desoladoras no Oriente Médio, o império jornalístico CB tem o prazer de anunciar, com duas semanas de atraso,  uma pequema boa notícia. Antes o pano de fundo sombrio: o mundo árabe-muçulmano é quase que totalmente antiIsrael, em parte resultado de tosca propaganda antissemita. É muito difícil na região assumir uma opinião diferente. Mas vozes corajosas surgiram com a primavera árabe e aqui temos a pequena boa notícia. Trata-se do bloqueiro egípcio Maikel Nabil,  libertado em janeiro, após 10 meses de prisão, por criticar as Forças Armadas, que se penduram no poder um ano depois da queda do ditador Hosni Mubarak. Nunca vamos esquecer que na ditadura Mubarak sempre floresceu esta tosca propaganda.

Raras vozes “liberais” no Egito expressaram solidariedade ao perseguido Nabil. Afinal, ele se define como pacifista, liberal, feminista, pró-Ocidente e pró-Israel. Seu blog é trilíngue (árabe, inglês e hebraico). Nas palavras de Nabil, que eu considero parte de uma língua universal: “Eu não quero ser parte de operações antissemitas ou daquelas que negam o direito de existência de Israel. Eu vejo Israel como um estado moderno, liberal, com um caráter religioso. Israel tem o direito à autodefesa”. Quando Nabil deixou a prisão, um comentarista no jornal Al Ahram o tratou como um alienígena, por ser alguém que chegou ”ao ponto de defender o direito de existência de Israel”.

Não precisamos, obviamente, concordar com todas as opiniões e bandeiras de luta de um blogueiro ou de um comentarista, mas devemos saudar vozes corajosas no mundo árabe-muçulmano, vozes como as de Maikel Nabil, Brigitte Gabriel (Líbano), Ayaan Hirsi Ali (hoje nos EUA) e Irshad Manji (Canadá).

PS- E em outra boa notícia na região, vamos saudar Manal al-Sharif, a mulher que fundou o movimento Women2Drive e que finalmente conseguiu que um tribunal ao menos acolha as primeiras ações judiciais de mulheres sauditas desafiando a proibição de facto para que possam dirigir veículos. Mulheres árabes, pé no acelerador por seus direitos básicos.

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O Daniel (dia 7, 12:51) recebe (mas divide) a colher de chá em nome de todos os leitores que expressaram solidariedade a vozes corajosas como a de Maikel Nabil. Havia prometido não dar mais colheres hoje, mas uma de café para o Pedro (dia 7, 15:00) pela boa piada (com tantas notícias desoladoras, precisamos).

Na Síria de Assad (pai ou filho), tudo igual, tudo pior

Com Bashar Assad, "horror hereditário"

Para parafrasear o jogador pensante de beisebol Yogi Berra e suas frases folclóricas, na Síria, é déjà vu novamente. Vamos começar com o ministro das Relações Exteriores da Turquia (e está tudo tão desolador na Síria, que dou até colher de chá para a diplomacia turca). Ahmed Davutoglu disse que quando russos e chineses vetaram uma resolução no Conselho de Segurança das Nações Unidas, no sábado, condenando a brutalidade na Síria e pedindo a saída do poder do ditador Bashar Assad, estavam agindo com uma mentalidade de Guerra Fria, “baseando os votos, não em realidades existentes, mas em uma atitude mais automática contra o Ocidente”. E, de fato, na Guerra Fria, russos e chineses já apoiavam os massacres praticados por um ditador sírio, mas era Hafez Assad, o pai de Bashar.

Claro que também soa déjà vu novamente, como naquelas cruzadas do mundo livre contra o comunismo na Guerra Fria, integradas por Somoza e Pinochet, quando a secretária de Estado, Hillary Clinton, reage ao anacronismo sino-soviético (oops, russo), dizendo que agora será preciso articular uma coalizão dos “amigos da Síria democrática” a favor da oposição e contra a brutalidade do regime Assad. O que fazer? A coalizão vai incluir a Arábia Saudita.
Diplomacia tem estas ambiquidades e paradoxos, mas alguns casos são bem piores do que outros. Melhor ter a Arábia Saudita contra Assad do que a favor. A Rússia tem o despudor de argumentar que não podia apoiar uma resolução sobre a Síria, pois significava tomar partido de um dos lados. Vladimir, Vladimir, seu veto significa mais do que tomar partido de um dos lados, como você está fazendo na condição de grande sustentáculo internacional de Bashar Assad. Significa dar sinal verde para o ditador avançar na matança, tentar se entrincheirar no poder e dificultar ainda mais uma solução política para a crise, que ganha feições de guerra civil em larga escala.
Só há um argumento plausível a favor de Assad: o day after à sua queda pode ser pior do que o dia de hoje. com guerra de mílícias ou a ascensão ao poder de fundamentalistas sunitas. Talvez. Existe a idéia, portanto, de que seja melhor ficar com o demônio conhecido. Como assim? Sabemos que ele é horrível. Este é consolo? Com uma ditadura como a de Assad vamos justificar o status quo, na lógica russa de venalidade? E, de qualquer forma, o debate é acadêmico. A dúvida é quando Assad irá cair. Ele se tornou carga pesada até para as demais ditaduras da região.

Existem interesses geopolíticos contra o regime Assad (como o empenho de autocracias sunitas do Oriente Médio para enfraquecer o único aliado regional do Irã xiita), mas também os gestos humanitários. E pouca coisa deixa russos e chineses tão horrorizados como gestos humanitários. Afinal, tais gestos podem ser usados para condenar as condutas da semiditadura Putin e da ditadura do politburo chinês contra seus próprios povos e suas minorias. Mas já estamos refletindo com mais profundidade do que Yogi Berra. Há algo mais superficial, imediato e cínico para comentar. Neste episódio do Conselho de Segurança, o Ocidente (e seus aliados suspeitos do Oriente Médio) tiveram uma grande vitória em termos de realpolitik.

Os países ocidentais têm a vantagem moral na crise síria. Russos e chineses agora são cúmplices escancarados da carnificina praticada pelo regime Assad. São co-responsáveis acintosos pela escalada de violência, pois a oposição, que já está militarizada, tem pouco a fazer além de incrementar a luta armada. O que aconteceu no sábado nas Nações Unidas foi um vexame histórico para russos e chineses. Na frase dita à exaustão nos últimos dias, eles deram a Assad permissão para matar (para matar mais ainda).

Moscou e Pequim vetaram uma resolução, que já fora diluída para satisfazê-los, no momento em que as forças de Bashar Assad massacravam inocentes na cidade de Homs (os números de baixas são incertos, variam de dezenas a centenas). Existe ojeriza quase que universal ao regime de Assad. Do lado dos sírios estão os russos (chineses menos ativamente), a desgraça que é o regime iraniano, os asseclas do Hezbollah (até o Hamas se livra da saia justa), as tralhas bolivarianas e relíquias do ativismo terceiro-mundista. Em termos táticos, teria sido mais conveniente para russos e chineses engolirem o sapo. Para que queimar bala diplomática (no caso russo, bala mesmo) por um ditador que dia menos dia será carta fora do baralho? E qual  é o cenário mais provável? Uma intervenção militar americana parece improvável (talvez , assim como um sucesso diplomático. Hillary Clinton alerta sobre uma “brutal guerra civil”. Podemos acrescentar que terá violentas tonalidades sectárias, com apoio de monaquias sunitas à oposição.

Esta coluna está recheada de citações diplomáticas. Vamos terminar com mais uma. O embaixador francês nas Nações Unidas, Gerard Araud, lembrou como tudo é parecido na Síria,. Este massacre em Homs em 2012 teve lugar quando eram lembrados os 30 anos da mortandade em Hama (entre 10 mil e 40 mil mortos),. Em 1982, o responsável foi o ditador Hafez Assad. Agora, é o seu filho. Como disse o embaixador Araud, na Síria o “horror é hereditário”. Déjà vu novamente.

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Colher de chá para o comentário do Pablo (dia 6, 13:50)  sobre as posturas da Rússia e China. E uma colher de café para a Carmem (dia 6, 15:40),  por sua saborosa advertência contra as estapafúrdias analogias, especialmente as hitleristas.

 

Semicurtas & Finas (Rússia & Síria)

Vitaly Churkin, embaixador russo na ONU - Foto Mike Segar/Reuters

A insurreição na Síria se transforma em uma guerra civil em larga escala. O regime de Bashar Assad resiste a ferro e fogo a uma oposição que se militariza. A batalha diplomática se intensifica. Nas vizinhanças, Damasco pode contar com o regime xiita de Teerã e seu isolamento internacional é suavizado pelo ativismo do seu aliado tradicional, a Rússia, que emperra qualquer resolução mais vigorosa no Conselho de Segurança das Nações Unidas.

Para não vetarem uma resolução, os russos querem uma iniciativa diluída que descarte uma mudança de regime (uma transição para a saída de Assad do poder) ou intervenção estrangeira. Moscou não quer repetir o erro líbio. Não vai dar a mesma margem de manobra que deu aos paises ocidentais e árabes na sua campanha para derrubar Muamar Kadafi. Mais inconveniente para Moscou se descartar de Bashar Assad. Muito mais está em jogo na Síria, país no epicentro de várias questões no Oriente Médio (Iraque, Israel, Líbano e primavera árabe). Na paisagem de ditaduras pró-EUA e da ascensão da Irmandade Muçulmana, Moscou tem poucos pontos de referência.
Com os aiatolás iranianos, o ditador secular Assad, da minoria alauíta, tem uma aliança de conveniência e até de desespero no Oriente Médio de ampla maioria sunita. Em termos regionais, a Síria é  primeiro estágio de uma guerra contra o Irã. No ano passado, o rei saudita Abdullah teria dito que nada enfraqueceria mais o Irã do que perder a Síria.
Acuado, o brutal regime sírio não poder perder a proteção russa. Com os russos do autocrata Vladimir Putin, existem afinidades ideológicas, históricas e estratégicas. Hafez Assad, o pai de Bashar, construiu seu regime tirânico `a imagem da ex-URSS, onde treinou como piloto da Força Aérea. No Conselho de Segurança, os russos ainda podem exercer seus sonhos de grandeza, travando uma batalha diplomática contra os paises ocidentais, digna da Guerra Fria, e recorrendo ao jargão de defesa de soberania de aliados como o sírios.  Lembram-se? Os russos que nunca tiveram pudor para despachar tanques para países da Europa Oriental naqueles bons tempos da União Soviética.
Na Síria, o ex-império soviético mantém resquícios do seu velho poder com a base naval de Tartus,  a única fora da ex-URSS. São também grandes contratos de venda de armas, energéticos e de construção. Moscou compartilha a narrativa de Damasco de está combatendo terroristas islâmicos a serviço de forças estrangeiras. Nada mais irônico que Assad seja aliado de um regime islâmico (Teerã) que apóia grupos terroristas como o libanês Hezbollah e o palestino Hamas.
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Colheres de café para a turma que pegou no meu pé. A destacar, Anouk, Gustavo C, Felipe e Pedro. Pela panorâmica, uma colher de chá para o Queiroz (dia 2, 18:05).

 

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