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Os camelos de Mubarak e os tanques de Assad

Os métodos de combate a uma rebelião popular - Fotos Getty/AFP

Coluna tem uns rituais. Houve semanas em que toda bendita quarta-feira eu escrevia sobre o circo das primárias presidenciais republicanas (terça-feira foi o bye bye do fervoroso Rick Santorum. Hora de dizer God Bless, Mitt Romney). A maldita crise na Síria está mais para arena sangrenta da primavera árabe do que para circo republicano, mas de uns tempos para cá o assunto é ritual de coluna de quarta-feira. Vamos lá.

Incrédulo, eu vi na televisão o mediador da crise e ex-secretário geral da ONU, Kofi Annan, com aquela cara de quem não dorme há uns 300 anos, dizer que ainda é cedo para anunciar que o seu plano de paz morreu. Annan exige que o cessar-fogo seja implantado, enquanto a ditadura síria exige imediatamente novas condições para que isto aconteça. Ditadura exigente e mentirosa. Em um movimento circular, ela retira tanques de uma cidade, conforme determina o plano de Annan, e aí eles são deslocados para outra.

A suspensão total de hostilidades supostamente deve acontecer agora na quinta-feira. O editorial do Wall Street Journal define a mediação de Annan como farelo diplomático. O editorial do Washington Post diz que o plano não passa de cobertura para o regime sírio massacrar o seu próprio povo. Até os russos, benfeitores de Assad, expressam desconforto com a enrolação do afilhado, mas vão segurar a barra. O primeiro-ministro turco Recep Erdogan, que já foi irmão de Bashar, mas se cansou e deserdou o vizinho, não tem papas na língua. Acusa Bashar de ser pessoalmente responsável pela morte de civis sírios. Desde o anúncio do plano de paz de Kofi Annan, no começo do mês, morreram cerca de mil pessoas na Síria, na maioria civis. São mais de nove mil desde que a rebelião começou em março do ano passado.

Exasperado, pois tropas sírias atacaram até acampamentos de refugiados sírios dentro da Turquia, Erdogan disse que Assad “continua matando 60, 70, 80, 100 cada dia. Tropas sírias atiram sem piedade nas costas de mulheres e crianças em fuga”. No jargão do regime, quem se move integra gangues armadas de terroristas, a serviço de forças estrangeiras. Falando em gangues terroristas, até o Hamas palestino, que já foi afilhado de Assad, tirou o corpo fora e foi buscar a benção das autocracias sunitas do golfo Pérsico. Em breve, a TV estatal síria irá enfiar o Hamas neste balaio de gangue terrorista, finalmente concordando com alguma coisa dita pelas autoridades israelenses.

Em meio à confusão e à exasperação, o esfarrapado plano de paz foi adotado pelo Conselho de Segurança da ONU e a Liga Árabe diante da impossiblidade de aceitação de um plano I (intervenção). Força militar estrangeira num conflito interno é uma decisão atroz. Pode funcionar, como nos Balcãs na década de 90 ou na Líbia no ano passado, mas as condições sírias são mais espinhosas, com as ramificações sectárias regionais. Um outro caminho, igualmente atroz, envolve a determinação e sacrifício de movimentos internos por liberdade, secundados por apoio global. Mianmar da briosa Aung Sang Suu Kyi sinaliza esta via.

As ações brutais do regime sírio chocam, mas, na verdade, não devem surpreender. Este é o seu modus operandi desde os anos 80. Irrompe uma revolta popular e a resposta é esmagar a oposição e punir cidades com o intuito de que nunca mais se levantem. A política de arrasa-cidades, porém, não impede a retomada do ciclo.

Rami Khouri, da American University, em Beirute e que escreve coluna no jornal libanês Daily Star, lembra a diferença essencial entre a insurreição em curso na Síria e o que aconteceu no ano passado na Tunísia e no Egito. O presidente Ben Ali fugiu quando a coisa engrossou e Hosni Mubarak despachou asseclas montados a camelo contra os manifestantes na praça Tahrir. Bashar Assad solta os cachorros no sentido figurado. Espalha tanques, artilharia, franco-atiradores, gangues de assassinos e estupradores pelo país. A prioridade é a barbárie, secundada pela encenação diplomática. Há relatos de brutalidades praticadas por rebeldes e atos terroristas (sobre os quais é difícil atribuir responsabilidade), mas nem de longe é possível equivalência com os crimes contra a humanidade praticados pelo regime Assad.

A ditadura síria dizima civis e as esperanças de reconciliação. Sem repressão, esta ditadura simplesmente não sobrevive. No processo, o regime Assad militariza a oposição. Rami Khouri ainda acredita que uma insurreição não militar em larga escala possa dar conta do serviço, mas depende de apoio unânime do Conselho de Segurança da ONU (algo ilusório diante da cumplicidade russa e chinesa com a ditadura em Damasco).

Os camelos de Mubarak não foram páreo para o levante popular (especialmente quando os militares egípcios decidiram não atirar na massa). Na Síria, os tanques de Assad não resolvem a parada, mas a questão é se o regime poderá ser apeado do poder sem tanques do outro lado ou intervenção estrangeira.

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Colher de chá para Felipe e Pablo, com os quais tive troca de idéias sobre a situação síria.

O regime podre de Assad e a doutrina da cebola

Kofi Annan e Bashar Assad em Damasco - Foto Reuters

Alarmes falsos (e eu já soei tantos) sobre a iminência do fim da ditadura de Bashar Assad e também sobre planos de paz quando a rebelião supera um ano (e a marca de nove mil mortos). Agora, é o anúncio do enviado especial das Nações Unidas, o seu ex-secretário-geral, Kofi Annan, de que Assad aceitou seu plano baseado em cessar-fogo, retiradas das falanges governistas dos centros urbanos, agilidade para ajuda humanitária, libertação de presos, diálogo e direito ao protesto pacífico (na visão do regime, este último ponto deve ser o direito de protestar contra a oposição).

Como sempre duro é duro acreditar na implementação de um plano de paz na Sïria de Assad (pai ou filho). O novo plano sequer estipula um prazo. Natural que as tropas de Assad prossigam na sua política de arrasa-cidade (com uma escalada que chegou à zona fronteiriça com o Líbano). Natural que o anúncio de Annan tenha sido recebido com ceticismo pela oposição e diplomatas ocidentais, pois a prática de Assad é ganhar tempo, discutindo modalidades de um plano de paz, enquanto tenta esmagar a rebelião. No roteiro habitual, depois basta repudiar o plano diante de falta de cooperação da oposição, que, de fato, é confusa e desarticulada, unindo-se para desconfiar da sinceridade do ditador.

Neste impasse em que a repressão não acaba com a rebelião e a rebelião não acaba com o regime, as coisas melhoraram para Assad de algumas semanas para cá (faz semanas que eu não falo de sua queda iminente).  Como diz Marc Lynch, professor da George Washington University, em Washington, “Assad está claramente ganhando em termos militares, mas estes ganhos são vitórias táticas vazias. Em termos mais amplos, ele está perdendo controle, perdendo legitimidade”. Em entrevista à BBC, a comissária de direitos  humanos da ONU, Navi Pillay, disse que o dirigente pode ser indiciado por crimes contra a humanidade, por responsabilidade em atos como tortura de crianças. Claro que Assad está isolado (por exemplo, a Síria está suspensa da Liga Árabe, reunida nesta quarta-feira em Bagdá) e sofre crescentes sanções, embora conte com o respaldo de Rússia, China e Irã. Existem também os vexames com o vazamento de e-mails privados do casal Assad, confirmando venalidade e futilidade no despotismo moderno da era de iTunes.

Mas o tom essencial é que Bashar sobrevive e, para expressar desafio, na terça-feira ele visitou Homs, cidade que por algumas semanas foi um símbolo da resistência ao regime. Ademais, existe esta amarga constatação de que sua remoção do poder (como exigem países ocidentais e árabes) foi removida deste plano de paz. Ficou mais fácil para russos e chineses abençoarem o plano de Kofi Annan, pois ele carece do conceito maldito de “mudança de regime”. É inimaginável, porém, uma solução a longo prazo na Síria que permita a permanência de Assad (ou de algum fantoche) no poder. O regime precisa mudar.

Para constatar o óbvio, cada caso é um caso na primavera árabe (e a estação está de volta na região). Demonstrações em massa no Egito, em particular na praça Tahrir, no Cairo, e o abandono do apoio militar a Hosni Mubarak levaram ao colapso o regime. Na Líbia, a brutal repressão do regime Kadafi radicalizou a oposição, que conseguiu se unir na guerra civil e só ganhou graças à intervenção militar estrangeira. No Iêmen, o ditador Ali Abdullah Saleh participou da transição, mas este país lá nos confins das Arábias não serve de modelo para nada.

Na Síria, existem manifestações populares contra o regime, mas não na escala egípcia. Além disso, Assad tem blocos de sustentação popular (entre alauítas, cristãos e também sunitas). O núcleo duro no aparato militar e de segurança não desintegrou e Assad não é um completo pária internacional, como Kadafi. Seus aliados internacionais estão aí para manter o status quo enquanto der. A oposição que mistura desolação com triunfalismo ainda acredita que o apoio ao regime irá descascar (na doutrina da cebola), com o abandono, camada após camada, de oficiais militares, empresários, funcionários do governo, do partido Baath e já ocorreu uma “deserção mental” da população mesmo nas duas grandes cidades, Damasco e Aleppo, onde nunca ocorreram protestos de grande magnitude.

Infelizmente, eu preciso concordar com o presidente russo Dmitry Medvedev de que a alternativa a este plano de paz de Annan é uma guerra civil sangrenta e prolongada, de ramificações sectárias e na qual haverá um incremento do jogo competitivo envolvendo atores regionais (e não só regionais, é claro). Mas a plena aceitação do plano de paz por Assad é conversa mole. Sua premissa é a de que os grupos de oposição deponham as armas (e não o regime) e como Assad irá aceitar manifestações pacíficas, ao estilo da praça Tahrir? Annan, por outro lado, foi costurando seu plano de paz, enquanto EUA e Turquia confirmavam o fornecimento de ajuda “não letal” à oposição síria.

O mais provável adiante é mesmo uma guerra civil. Eu espero que não seja prolongada, de alta intensidade e com crescente envolvimento de extremistas islâmicos (algo que alimentaria a narrativa de Assad). Bom mesmo seria o sucesso da doutrina da cebola, com as camadas de sustentação do regime sendo descascadas, até que ele caia de podre. Mas basta de alarmes falsos.

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Colher de chá para o Henrique por seus comentários (dia 28, 11:13 e 13:39) por lembrar a coisa boa que seria o regime Assad cair, apesar das ramificações incertas. E outra para a Vania (dia 28, 14:45), pelo depoimento pessoal e político.

Na Síria de Assad (pai ou filho), tudo igual, tudo pior

Com Bashar Assad, "horror hereditário"

Para parafrasear o jogador pensante de beisebol Yogi Berra e suas frases folclóricas, na Síria, é déjà vu novamente. Vamos começar com o ministro das Relações Exteriores da Turquia (e está tudo tão desolador na Síria, que dou até colher de chá para a diplomacia turca). Ahmed Davutoglu disse que quando russos e chineses vetaram uma resolução no Conselho de Segurança das Nações Unidas, no sábado, condenando a brutalidade na Síria e pedindo a saída do poder do ditador Bashar Assad, estavam agindo com uma mentalidade de Guerra Fria, “baseando os votos, não em realidades existentes, mas em uma atitude mais automática contra o Ocidente”. E, de fato, na Guerra Fria, russos e chineses já apoiavam os massacres praticados por um ditador sírio, mas era Hafez Assad, o pai de Bashar.

Claro que também soa déjà vu novamente, como naquelas cruzadas do mundo livre contra o comunismo na Guerra Fria, integradas por Somoza e Pinochet, quando a secretária de Estado, Hillary Clinton, reage ao anacronismo sino-soviético (oops, russo), dizendo que agora será preciso articular uma coalizão dos “amigos da Síria democrática” a favor da oposição e contra a brutalidade do regime Assad. O que fazer? A coalizão vai incluir a Arábia Saudita.
Diplomacia tem estas ambiquidades e paradoxos, mas alguns casos são bem piores do que outros. Melhor ter a Arábia Saudita contra Assad do que a favor. A Rússia tem o despudor de argumentar que não podia apoiar uma resolução sobre a Síria, pois significava tomar partido de um dos lados. Vladimir, Vladimir, seu veto significa mais do que tomar partido de um dos lados, como você está fazendo na condição de grande sustentáculo internacional de Bashar Assad. Significa dar sinal verde para o ditador avançar na matança, tentar se entrincheirar no poder e dificultar ainda mais uma solução política para a crise, que ganha feições de guerra civil em larga escala.
Só há um argumento plausível a favor de Assad: o day after à sua queda pode ser pior do que o dia de hoje. com guerra de mílícias ou a ascensão ao poder de fundamentalistas sunitas. Talvez. Existe a idéia, portanto, de que seja melhor ficar com o demônio conhecido. Como assim? Sabemos que ele é horrível. Este é consolo? Com uma ditadura como a de Assad vamos justificar o status quo, na lógica russa de venalidade? E, de qualquer forma, o debate é acadêmico. A dúvida é quando Assad irá cair. Ele se tornou carga pesada até para as demais ditaduras da região.

Existem interesses geopolíticos contra o regime Assad (como o empenho de autocracias sunitas do Oriente Médio para enfraquecer o único aliado regional do Irã xiita), mas também os gestos humanitários. E pouca coisa deixa russos e chineses tão horrorizados como gestos humanitários. Afinal, tais gestos podem ser usados para condenar as condutas da semiditadura Putin e da ditadura do politburo chinês contra seus próprios povos e suas minorias. Mas já estamos refletindo com mais profundidade do que Yogi Berra. Há algo mais superficial, imediato e cínico para comentar. Neste episódio do Conselho de Segurança, o Ocidente (e seus aliados suspeitos do Oriente Médio) tiveram uma grande vitória em termos de realpolitik.

Os países ocidentais têm a vantagem moral na crise síria. Russos e chineses agora são cúmplices escancarados da carnificina praticada pelo regime Assad. São co-responsáveis acintosos pela escalada de violência, pois a oposição, que já está militarizada, tem pouco a fazer além de incrementar a luta armada. O que aconteceu no sábado nas Nações Unidas foi um vexame histórico para russos e chineses. Na frase dita à exaustão nos últimos dias, eles deram a Assad permissão para matar (para matar mais ainda).

Moscou e Pequim vetaram uma resolução, que já fora diluída para satisfazê-los, no momento em que as forças de Bashar Assad massacravam inocentes na cidade de Homs (os números de baixas são incertos, variam de dezenas a centenas). Existe ojeriza quase que universal ao regime de Assad. Do lado dos sírios estão os russos (chineses menos ativamente), a desgraça que é o regime iraniano, os asseclas do Hezbollah (até o Hamas se livra da saia justa), as tralhas bolivarianas e relíquias do ativismo terceiro-mundista. Em termos táticos, teria sido mais conveniente para russos e chineses engolirem o sapo. Para que queimar bala diplomática (no caso russo, bala mesmo) por um ditador que dia menos dia será carta fora do baralho? E qual  é o cenário mais provável? Uma intervenção militar americana parece improvável (talvez , assim como um sucesso diplomático. Hillary Clinton alerta sobre uma “brutal guerra civil”. Podemos acrescentar que terá violentas tonalidades sectárias, com apoio de monaquias sunitas à oposição.

Esta coluna está recheada de citações diplomáticas. Vamos terminar com mais uma. O embaixador francês nas Nações Unidas, Gerard Araud, lembrou como tudo é parecido na Síria,. Este massacre em Homs em 2012 teve lugar quando eram lembrados os 30 anos da mortandade em Hama (entre 10 mil e 40 mil mortos),. Em 1982, o responsável foi o ditador Hafez Assad. Agora, é o seu filho. Como disse o embaixador Araud, na Síria o “horror é hereditário”. Déjà vu novamente.

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Colher de chá para o comentário do Pablo (dia 6, 13:50)  sobre as posturas da Rússia e China. E uma colher de café para a Carmem (dia 6, 15:40),  por sua saborosa advertência contra as estapafúrdias analogias, especialmente as hitleristas.

 

Semicurtas & Finas (Rússia & Síria)

Vitaly Churkin, embaixador russo na ONU - Foto Mike Segar/Reuters

A insurreição na Síria se transforma em uma guerra civil em larga escala. O regime de Bashar Assad resiste a ferro e fogo a uma oposição que se militariza. A batalha diplomática se intensifica. Nas vizinhanças, Damasco pode contar com o regime xiita de Teerã e seu isolamento internacional é suavizado pelo ativismo do seu aliado tradicional, a Rússia, que emperra qualquer resolução mais vigorosa no Conselho de Segurança das Nações Unidas.

Para não vetarem uma resolução, os russos querem uma iniciativa diluída que descarte uma mudança de regime (uma transição para a saída de Assad do poder) ou intervenção estrangeira. Moscou não quer repetir o erro líbio. Não vai dar a mesma margem de manobra que deu aos paises ocidentais e árabes na sua campanha para derrubar Muamar Kadafi. Mais inconveniente para Moscou se descartar de Bashar Assad. Muito mais está em jogo na Síria, país no epicentro de várias questões no Oriente Médio (Iraque, Israel, Líbano e primavera árabe). Na paisagem de ditaduras pró-EUA e da ascensão da Irmandade Muçulmana, Moscou tem poucos pontos de referência.
Com os aiatolás iranianos, o ditador secular Assad, da minoria alauíta, tem uma aliança de conveniência e até de desespero no Oriente Médio de ampla maioria sunita. Em termos regionais, a Síria é  primeiro estágio de uma guerra contra o Irã. No ano passado, o rei saudita Abdullah teria dito que nada enfraqueceria mais o Irã do que perder a Síria.
Acuado, o brutal regime sírio não poder perder a proteção russa. Com os russos do autocrata Vladimir Putin, existem afinidades ideológicas, históricas e estratégicas. Hafez Assad, o pai de Bashar, construiu seu regime tirânico `a imagem da ex-URSS, onde treinou como piloto da Força Aérea. No Conselho de Segurança, os russos ainda podem exercer seus sonhos de grandeza, travando uma batalha diplomática contra os paises ocidentais, digna da Guerra Fria, e recorrendo ao jargão de defesa de soberania de aliados como o sírios.  Lembram-se? Os russos que nunca tiveram pudor para despachar tanques para países da Europa Oriental naqueles bons tempos da União Soviética.
Na Síria, o ex-império soviético mantém resquícios do seu velho poder com a base naval de Tartus,  a única fora da ex-URSS. São também grandes contratos de venda de armas, energéticos e de construção. Moscou compartilha a narrativa de Damasco de está combatendo terroristas islâmicos a serviço de forças estrangeiras. Nada mais irônico que Assad seja aliado de um regime islâmico (Teerã) que apóia grupos terroristas como o libanês Hezbollah e o palestino Hamas.
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Colheres de café para a turma que pegou no meu pé. A destacar, Anouk, Gustavo C, Felipe e Pedro. Pela panorâmica, uma colher de chá para o Queiroz (dia 2, 18:05).

11/11/2011

às 6:00 \ Israel, ONU, Palestinos

Semicurtas & Finas (Palestinos)

A cena de Mahmoud Abbas na ONU - Foto Stan Honda/AFP

Que papelão! O presidente palestino Mahmoud Abbas fez o jogo de cena em setembro na abertura da assembleia-geral para conseguir apoio no Conselho de Segurança para o pleno reconhecimento palestino como estado nas Nações Unidas. A pressão americana surtiu efeito e aparentemente não existem os necessários 2/3 entre os 15 membros do Conselho de Segurança para a aprovação do pedido. A comissão de admissão deverá reportar nesta sexta-feira aos membros do órgão a impossibilidade de costurar um consenso em torno do pedido palestino.

Não havia como decolar, pois o governo Obama antecipara que vetaria o pedido (os EUA são um dos cinco países com poder de veto no Conselho de Segurança). Era jogo de cena, teatro diplomático. Os palestinos ainda têm a opção de exigir o voto, mesmo sabendo da derrota, para constranger os adversários e ter o que consideram uma vitória moral. Moral da história é outro: foi o caminho errado. Melhor dizendo, foi o atalho fácil sinalizado por demagogia e desespero, ao invés do caminho penoso de negociações com Israel.

Os palestinos podem buscar o prêmio de consolação de um upgrade na assembleia-geral de status de missão observadora permanente para estado observador permanente, mas não-membro. Ali é mole, basta maioria simples para conseguir o upgrade. Já houve um prêmio de consolação. Em outubro, aconteceu a aceitação, por voto, da Palestina como estado pleno na Unesco. O preço foi o fim dos fundos dos EUA à entidade, de acordo com a lei americana.

Já no Conselho de Segurança, a favor do atalho palestino, estão Rússia, China, África do Sul, Índia, Líbano, Nigéria, Gabão e aquele país governado por Dilma Rousseff. Curioso: são países bem mais à vontade para impedir duras sanções contra o Irã, indiciado pela Agência Internacional de Energia Atômica, órgão da própria ONU, por ter um programa nuclear que em última instância tem o objetivo de fabricar a bomba e ameaçar Israel. Contra o pedido palestino, através de voto contrário ou abstenção estão os EUA, Grã-Bretanha, França, Alemanha, Portugal, Bósnia e Colômbia.

Esta semana, houve um certo frisson com a divulgação da conversa indiscreta (microfone aberto em Cannes) dos presidentes Barack Obama e Nicolas Sarkozy, com palavras pouco abonadoras sobre o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu (mentiroso e insuportável, disse Sarkozy; carga pesada, replicou Obama). Constrangedor para todos. Agora imagine o que Obama e Sarkozy falam nos bastidores sobre Abbas?

O entusiasmo com o lance histórico de Abbas se disssipou junto à opinião pública na Cisjordânia (afinal, dá pretextos para mais paralisia diplomática e não muda a situação no solo). E nunca contou com a benção do Hamas, o grupo terrorista que controla Gaza. Sim, tudo pelo reconhecimento de um estado palestino, mas reconhecendo que isto apenas será possível através de negociações com Israel e não com espetáculo no palco das Nações Unidas.
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Colher de chá bem amargo para o Brenno (dia 11, 8:05), inclusive por banalizar e relativizar o terrorismo. Quero acrescentar o comentário do Rony (dia 11, 11:34). Fiquei sensibilizado. Leitores, leiam.

29/09/2011

às 6:00 \ Israel, Mundo Árabe, ONU, Palestinos

Curtas & Finas (A Obsessão)

O Conselho de Segurança da ONU já concordou de forma unânime que nesta sexta-feira um comitê comece a avaliar o pedido palestino para integrar o organismo de forma plena. Faz parte do lance do líder palestino Mahmoud Abbas para conseguir um estado sem estabelecer um acordo de paz com Israel. E nenhum lugar é pior do que a ONU para cicatrizar as feridas do conflito árabe-israelense. Cá estou na minha obsessão para relatar a obsessão da ONU para tratar da questão palestina em detrimento de outras crises. Somente agora, eu tive acesso a uma narrativa do jornal Jerusalem Post sobre como o primeiro-ministro japonês, Yoshihoko Noda, foi recebido na assembléia-geral, na semana passada, depois do discurso ovacionado de Abbas: “A energia e a concentração dos diplomatas congregados caíram de maneira súbita. Grupos de diplomatas partiram, sem escutar Noda falar do trágico terremoto que assolara o seu país e os esforços do seu povo para se reerguer do horror e do desastre”.

19/09/2011

às 6:00 \ Brasil, Geopolítica, ONU, Oriente Médio

Dilma circula na ONU com o fantasma de Oswaldo Aranha

Foto do diplomata brasileiro Oswaldo Aranha

Foto do diplomata brasileiro Oswaldo Aranha

Nesta quarta-feira, a presidente Dilma Rousseff será a primeira mulher a abrir a assembléia-geral das Nações Unidas, em Nova York. Bacana! Ela deve o privilégio não por ser mulher, mas por ser brasileira. Deve ao então chefe da delegação brasileira, Oswaldo Aranha, que foi o primeiro orador na assembléia especial de 1947. A tradição de outorgar a primeira palavra ao Brasil foi mantida. Dilma dará o apoio explícito ao lance do presidente palestino Mahmoud Abbas de pedir o reconhecimento do estado palestino nas Nações Unidas. A questão palestina dará o tom explosivo desta assembléia-geral.

Quem sabe toda esta confusão palestina (e toda esta discurseira) poderia ter sido evitado. Mais bacana foi o que fez Oswaldo Aranha na presidência da assembléia especial de 1947. Aranha conduziu a assembléia com maestria para que fosse aprovada a resolução 181, em 29 de novembro, por 33 votos a favor (inclusive o do Brasil,), 13 contra (com todos os países islâmicos e árabes que votavam na ocasião) e 10 abstenções. A expressão-chave da resolução 181 é PARTILHA do território que estava sob mandato britânico em um estado judeu e um estado árabe. Os sionistas aceitaram. E os árabes, num erro estratégico (mais um), rechaçaram.

Os judeus tinham representatividade através da Agência Judaica que já forjara as instituições de um estado. Os árabes sintomaticamente optaram por não criar um órgão governamental palestino de caráter autônomo. Os palestinos eram representados pelo Alto Comitê Árabe que rejeitou a partilha junto com os países árabes com a promessa de afogar o estado judeu “nos rios de sangue”. Nada de partilha, nada de judeus naquelas terras. Os árabes, por outro lado, no mesmo 1947, não tiveram problemas para aceitar a partilha do subcontinente indiano entre a Índia e o Paquistão muçulmano.

Em 14 de maio de 1948, David Ben-Gurion proclamou a independência de Israel e os árabes foram à guerra. Guerra é guerra e os palestinos perderam parte do território original do estado alocado pelo plano de partilha das Nações Unidas. Qualquer acordo diplomático terá por base as linhas pós-armistício de 1949 ou pré-guerra de 1967. Aliás, cuidado, se o presidente palestino Mahmoud Abbas, como fez dias atrás, denunciar no seu discurso na ONU nesta sexta-feira os 63 anos de ocupação israelense. Neste caso, o pecado original é a própria criação de Israel em 1948.

Alguns podem perguntar o motivo de toda esta lenga-lenga histórica. Mais importante, afinal, é discutir o presente e o futuro. Mas é vital ver de onde os palestinos (e os árabes, por extensão) vieram e sua história de fracassos. Eles não derrotaram Israel pela guerra ou pelo terror. Na diplomacia, foram os erros estratégicos. Além da recusa da partilha em 1947, houve a perda de mais territórios, em 1967. São décadas de recusa de aceitação da fórmula de troca de paz por terra.

Sim, o estado de Israel é mal servido pela atual coalizão de governo, chefiada por Benjamin Netanyahu. Dá para aceitar em certa medida a exasperação palestina e árabe com o obstrucionismo israelense. Mas a enrolação de Netanyhau (que no processo de paz prefere o processo à paz), no final das contas, é a desculpa para árabes e palestinos não aceitaram o que é possível fazer em termos de partilha territorial.

Vamos além: ainda não aceitaram que Israel e os judeus pertencem ao Oriente Médio, apesar de acordos como os firmados pelo Egito e Jordânia. Antecessores de Netanyahu, como Ehud Barak e Ehud Olmert, um trabalhista e o outro de direita, foram até onde era possível nas concessões israelenses. Yasser Arafat e Mahmoud Abbas rejeitaram os planos. Aliás, nem se quisesse, Abbas, acantonado na Cisjordânia, poderia cumprir qualquer acordo enquanto os terroristas do Hamas controlarem Gaza.

Agora é esta jogada desesperada de Abbas nas Nações Unidas. Ela altera a dinâmica diplomática. Para quem é muito otimista, o solavanco poderá romper o imobilismo nas negociações. Mas nunca subestime o potencial de desastres no Oriente Médio. Ideal seria alguma costura ao longo da semana envolvendo europeus e americanos para impedir um estrago incalculável do tecido diplomático. Saudades da habilidade de Oswaldo Aranha. Difícil partilhar hoje o sentimento dos otimistas.
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A colher-de-chá (bem amargo) vai para o Hercilio (dia 19, 13:51), por sua distorcida narrativa histórica. Leitores estão convidados a refletir e debater.


 

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