11/04/2012
às 6:00 \ Egito, Mundo Árabe, ONU, Oriente Médio, Primavera Árabe, Romney, Santorum, Síria, TunísiaOs camelos de Mubarak e os tanques de Assad
Coluna tem uns rituais. Houve semanas em que toda bendita quarta-feira eu escrevia sobre o circo das primárias presidenciais republicanas (terça-feira foi o bye bye do fervoroso Rick Santorum. Hora de dizer God Bless, Mitt Romney). A maldita crise na Síria está mais para arena sangrenta da primavera árabe do que para circo republicano, mas de uns tempos para cá o assunto é ritual de coluna de quarta-feira. Vamos lá.
Incrédulo, eu vi na televisão o mediador da crise e ex-secretário geral da ONU, Kofi Annan, com aquela cara de quem não dorme há uns 300 anos, dizer que ainda é cedo para anunciar que o seu plano de paz morreu. Annan exige que o cessar-fogo seja implantado, enquanto a ditadura síria exige imediatamente novas condições para que isto aconteça. Ditadura exigente e mentirosa. Em um movimento circular, ela retira tanques de uma cidade, conforme determina o plano de Annan, e aí eles são deslocados para outra.
A suspensão total de hostilidades supostamente deve acontecer agora na quinta-feira. O editorial do Wall Street Journal define a mediação de Annan como farelo diplomático. O editorial do Washington Post diz que o plano não passa de cobertura para o regime sírio massacrar o seu próprio povo. Até os russos, benfeitores de Assad, expressam desconforto com a enrolação do afilhado, mas vão segurar a barra. O primeiro-ministro turco Recep Erdogan, que já foi irmão de Bashar, mas se cansou e deserdou o vizinho, não tem papas na língua. Acusa Bashar de ser pessoalmente responsável pela morte de civis sírios. Desde o anúncio do plano de paz de Kofi Annan, no começo do mês, morreram cerca de mil pessoas na Síria, na maioria civis. São mais de nove mil desde que a rebelião começou em março do ano passado.
Exasperado, pois tropas sírias atacaram até acampamentos de refugiados sírios dentro da Turquia, Erdogan disse que Assad “continua matando 60, 70, 80, 100 cada dia. Tropas sírias atiram sem piedade nas costas de mulheres e crianças em fuga”. No jargão do regime, quem se move integra gangues armadas de terroristas, a serviço de forças estrangeiras. Falando em gangues terroristas, até o Hamas palestino, que já foi afilhado de Assad, tirou o corpo fora e foi buscar a benção das autocracias sunitas do golfo Pérsico. Em breve, a TV estatal síria irá enfiar o Hamas neste balaio de gangue terrorista, finalmente concordando com alguma coisa dita pelas autoridades israelenses.
Em meio à confusão e à exasperação, o esfarrapado plano de paz foi adotado pelo Conselho de Segurança da ONU e a Liga Árabe diante da impossiblidade de aceitação de um plano I (intervenção). Força militar estrangeira num conflito interno é uma decisão atroz. Pode funcionar, como nos Balcãs na década de 90 ou na Líbia no ano passado, mas as condições sírias são mais espinhosas, com as ramificações sectárias regionais. Um outro caminho, igualmente atroz, envolve a determinação e sacrifício de movimentos internos por liberdade, secundados por apoio global. Mianmar da briosa Aung Sang Suu Kyi sinaliza esta via.
As ações brutais do regime sírio chocam, mas, na verdade, não devem surpreender. Este é o seu modus operandi desde os anos 80. Irrompe uma revolta popular e a resposta é esmagar a oposição e punir cidades com o intuito de que nunca mais se levantem. A política de arrasa-cidades, porém, não impede a retomada do ciclo.
Rami Khouri, da American University, em Beirute e que escreve coluna no jornal libanês Daily Star, lembra a diferença essencial entre a insurreição em curso na Síria e o que aconteceu no ano passado na Tunísia e no Egito. O presidente Ben Ali fugiu quando a coisa engrossou e Hosni Mubarak despachou asseclas montados a camelo contra os manifestantes na praça Tahrir. Bashar Assad solta os cachorros no sentido figurado. Espalha tanques, artilharia, franco-atiradores, gangues de assassinos e estupradores pelo país. A prioridade é a barbárie, secundada pela encenação diplomática. Há relatos de brutalidades praticadas por rebeldes e atos terroristas (sobre os quais é difícil atribuir responsabilidade), mas nem de longe é possível equivalência com os crimes contra a humanidade praticados pelo regime Assad.
A ditadura síria dizima civis e as esperanças de reconciliação. Sem repressão, esta ditadura simplesmente não sobrevive. No processo, o regime Assad militariza a oposição. Rami Khouri ainda acredita que uma insurreição não militar em larga escala possa dar conta do serviço, mas depende de apoio unânime do Conselho de Segurança da ONU (algo ilusório diante da cumplicidade russa e chinesa com a ditadura em Damasco).
Os camelos de Mubarak não foram páreo para o levante popular (especialmente quando os militares egípcios decidiram não atirar na massa). Na Síria, os tanques de Assad não resolvem a parada, mas a questão é se o regime poderá ser apeado do poder sem tanques do outro lado ou intervenção estrangeira.
Colher de chá para Felipe e Pablo, com os quais tive troca de idéias sobre a situação síria.








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