Curtas & Finas (Super Bowl)
Com atraso, colher de chá para o Ícaro (dia 7, 17:41). A Gisele merece sua ode.
Para a moçada, a praça Tahrir, no Cairo, é aqui mesmo agora em Nova York, no Zuccotti Park (perto do Marco Zero dos atentados do 11 de setembro), acampamento do movimento. O protesto é, para dizer o mínimo, maximalista e vago. Tem palavras-de-ordem contra a ganância capitalista, desigualdades sociais e o governo corrupto que resgatou Wall Street. Existem propostas mais específicas de alguns participantes como acabar o dinheiro(?). Esta proposta faz sentido a jovens entrevistados no fim-de-semana como Erin Larkins, estudante de pós-graduação da Universidade de Columbia. Ela e o namorado devem US$ 130 mil de empréstimo educacional.
Como falei (e bonito), há o zeigeist. É o espírito dos tempos. Existem jovens com alto nível educacional (e outros menos) que tinham altas expectativas. O que temos hoje é um desemprego teimosamente alto, uma economia que patina, uma frustração com as promessas de Barack Obama (mesmo entre os jovens que votaram nele) e decepção generalizada com a classe dominante dos políticos (democratas e republicanos). O deputado democrata Charlie Rangel (um símbolo do que existe de mais atrofiado e corrupto no Congresso) foi recebido friamente e até intimidado por um militante quando apareceu para emprestar solidariedade (não dinheiro) no Zuccotti Park.
Wall Street, de fato, se safou do pior da crise de 2008. Claro que não comove muito mais, quando o país resvala para a recessão, o presidente Obama lembrar que seu pacote de resgate aos bancos impediu um colapso financeiro ou uma volta da depressão (é verdade). Pouco consolo para uma moçada que hoje se sente deprimida.
A moçada se diz inspirada na primavera árabe e nos jovens “indignados” da Espanha, assim como de outras partes do mundo subemergente. Diz que o movimento sem liderança (os sindicatos estão se metendo, além da esquerda-celebridade) quer restaurar a democracia nos EUA. Ué, o que existe agora?
Em Nova York, capital da mídia mundial, não se dava muito atenção ao movimento. Agora está dando e o mundo também. A polícia ajudou com alguma brutalidade (nada, obviamente, no padrão Bashar Assad de qualidade) e a marcha no sábado pela ponte do Brooklyn, que resultou em mais de 700 presos, garantiu um cartão postal ao protesto. Casamento perfeito no espetáculo. Polícia atuou como polícia e agitadores agiram como agitadores. Policiais montaram uma armadilha para os manifestantes na ponte e havia ativista implorando para ser preso.
Difícill saber se o movimento “Ocupem Wall Street” vai decolar para valer. De fato, ocupou espaço político e na mídia, além das expectativas dos participantes. Agitações semelhantes estão tendo lugar em outras cidades (mas somente em Boston o movimento já é mais significativo, embora protestos tenham crescido também em Chicago e Los Angeles). A idéia em Nova York é persistir acampado em Zuccotti Park por meses a fio (mais fácil para quem está desempregado ou desocupado). Muito vai depender de como a polícia reagir (ou não) e a capacidade de fagulhas gerarem incêndios políticos. Nesta próxima quarta-feira, um teste importante, com a programação de outra manifestação, com apoio sindical.
O movimento bate na tecla que ele representa 99% da população contra 1% dos privilegiados. Bom slogan, mas 100% errado. De novo, “Ocupem Wall Street” captura o zeitgeist de banzo econômico, decepção com políticos, uma classe média espremida e aumento do índice de pobreza. É saudável que haja esta agitação, em contraponto ao Tea Party, o movimento conservador que no começo parecia folclórico e ridículo, com integrantes fantasiados de americanos do final do século 18, mas se mostrou consistente e em condições de fixar a agenda do país, em torno de questões como disciplina fiscal e governo mais enxuto. O azar é que o Tea Party pode devorar o próprio Partido Republicano com o seu maximalismo e testes de pureza ideológica.
Nada errado com cafeína política do outro lado da ponte (não no meio da ponte). Em comum com o Tea Party, a moçada do “Ocupem Wall Street” foi tomada por uma aversão populista a Washington e Wall Street. As classes dominantes que se mexam para reocupar o seu devido lugar, de forma mais produtiva e com mais respeito aos cidadãos, eleitores e contribuintes.
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Pessoal, nestes tempos bicudos, serei generoso. Duas colheres de chá. A de ouro vai para o Fernando (dia 2, 21:22), com seu comentário afinado e que captou o zeitgeist. A de prata vai para o infatigável Maisvalia (dia 2, 21:33) com sua tirada de humor. Leiam ambos comentários para entenderem do que estou falando.
Mas, nós sabemos que o dono da assembléia-geral 2011 é Mahmoud Abbas, com sua jogada de pedir este reconhecimento pleno da Palestina como estado na ONU. O lance é mais um golpe diplomático contra Israel. E dentro das Nações Unidas, Israel é sinônimo de isolamento. Os palestinos se sentem marginalizados (não parece, com tanto apoio internacional), mas Israel é um estado-pária, em especial dentro do principal organismo mundial.
Mahmoud Abbas, pelo menos, é um dirigente mais discreto do que seu antecessor e mentor Yasser Arafat. Que espetáculo infame a primeira aparição de Arafat na assembléia-geral em 1974. Com o coldre na cintura, ele falou que viera com um “ramo de oliveira e a arma de um lutador pela liberdade” (o bandoleiro deixou a pistola do lado de fora do saloon ). No discurso, Arafat vociferou que o sionismo era a forma suprema de racismo. Ovacionado, ele inspirou a assembléia-geral.
Em 1975, por instigação dos países árabes e do bloco soviético, foi aprovada, com voto brasileiro, a resolução 3379, que caluniou o sionismo como forma de racismo. E, imagine, eram tempos em que o estado de Israel era governado pelos trabalhistas, integrantes da Internacional Socialista. Amplos setores da esquerda já tinham embarcado na sua canoa de demagogia antiIsrael, país visto como títere do neocolonialismo, blá, blá, blá. A infâmia sionismo = racismo só foi rescindida em 1991, sem o apoio de nenhum país árabe.
Esta marcação cerrada de Israel é praxe nas Nações Unidas. Israel não é apenas o país mais condenado pelo organismo, mas com mais frequência do que todas as outras nações combinadas. De acordo com o grupo U.N. Watch, em Genebra, o Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas adotou desde sua fundação em 2006 cerca de 70 resoluções condenado países específicos, 40 delas contra Israel.
Na assembléia-geral, são cerca de 20 resoluções contra Israel por ano, em contraste a cinco ou seis contra outros países. O estado judeu é o membro solitário do organismo mundial que teve negada entrada em um grupo regional, o que impossibilita, por exemplo, participação no Conselho de Seguranca. Isto que é estado pleno nas Nações Unidas?
E este espetáculo antiIsrael será reforçado nesta quinta-feira com a conferência da ONU sobre racismo e discriminação, conhecida como Durban 3. A primeira aconteceu há dez anos justamente na cidade sul-africana de Durban e a declaração final acusou Israel – o único país entre todos os integrantes das Nações Unidas – de racismo. Israel, EUA, Canadá, Austrália, Nova Zelândia e alguns países europeus felizmente boicotam este forró antiIsrael, onde não pode faltar uma diatribe antissemita de Mahamoud Ahmadinejad.
Nas palavras de Yossi Klein Halevi, não existe uma mera hostilidade contra Israel nas Nações Unidas. É uma obsessão patológica. Nada contra um futuro estado palestino, forjado através de negociações bilaterais e não pantomina diplomática em Nova York. Tudo a favor, mas por que tanto contra Israel? Minha pergunta é mais um exercício de retórica.
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A colher de chá vai para os comentários de Vera, Carmem e Andrea em razão do comentário do leitor Fernando (dia 21, 11:59):
“Dois clubes:
1- Clube dos invasores, EUA, Israel,Veja, Caio e alguns de seus leitores, tipo Vera, Carmem e Andrea.
2- Clube dos invadidos, Árabes, Palestina, ONU e a grande maioria dos países do planeta Terra.
Sem dúvida já escolhi o meu clube”.
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Não resisto e dou uma colherzinha de chá ao leitor Paulo Hora (dia 22, 1:07) que reclama da minha falta de espírito democrático por apagar (sic) o comentário do Fernando:
“tá todo mundo falando do comentário do tal do Fernando e você apaga?
Cadê a seu espírito democrático?
Eu ainda não sei o que foi que ele falou que gerou toda essa briga aí”.
Como eu, eram eles novaiorquinos em tempo parcial, um pé em Glen Rock, um pé em Nova York. Naquele dia, entre as quase três mil vítimas, morreram 679 residentes destas cidades e subúrbios de Nova Jersey. Não sei se eram boas ou más pessoas. Sei que que foram vítimas indefesas.
Alguns destes moradores de Nova Jersey morreram heroicamente, como Todd Beamer, de Cranbury, um dos passageiros do vôo United 93, que decolara do aeroporto de Newark, em Nova Jersey, com destino a San Francisco, numa viagem que terminou no solo de Shanksville, Pensilvânia. Heróis como Todd Beamer impediram que o avião colidisse contra a Casa Branca ou o Capitólio, em Washington, como era o plano dos terroristas.
Os onze moradores de Glen Rock, Todd Beamer e os demais morreram porque a rede Al Qaeda decidiu matá-los, embora eles não tivessem feito nada para merecer este destino. Como escreveu Jeffrey Goldberg, na revista The Atlantic, o terror não é uma arma do fraco, é uma arma empregada contra o fraco. O resto são ilusões e falácias. Não culpe a política externa americana. Não culpe a arrogância ocidental. Não faça jamais a apologia do terror. Naquela terça feira ensolarada dez anos atrás, 19 homens decidiram praticar o mal. Simples.
Como eu, as onze vítimas de Glen Rock cruzavam pontes e túneis de carro, trem e ônibus para trabalhar, para passear, para estar em Nova York. Ao longo dos séculos, pessoas cruzaram oceanos e a imensidão do continente americano para chegar a Nova York. Fala-se que Osama Bin Laden queria destruir as torres gêmeas do World Trade Center por serem símbolos da prosperidade e poder dos EUA. Foi um ataque também contra a torre de Babel que é Nova York, com sua diversidade, sua vibração, sua balbúrdia, seus imigrantes e seus sonhos. Entre as vítimas no World Trade Center, estavam pessoas de 115 países.
Eu estou entre estes cidadãos do mundo que circulam em Nova York. Com nossos diferentes sotaques e a balbúrdia da Babel, é possível não se sentir estrangeiro na capital do mundo. É verdade que muitos americanos se sentem estrangeiros nesta Babel, que para eles também é Sodoma e Gomorra, coisa do demônio. Que nada. Capital do mundo, isto sim, e nenhuma outra cidade vai tirar tão cedo este título desta metrópole metida a besta.
Os demônios vieram naquela manhã daquela terça-feira ensolarada. Eu estava na torre da Reuters, em Times Square, onde na época tinham lugar a produção e a gravação do programa Manhattan Connection, da Globonews. Estava na cantina da Reuters, no décimo-sexto andar, matutando a pauta do programa seguinte com Lucas Mendes, amigo e colega de sempre do Manhattan Connection. O ataque terrorista resolveu nossos dilemas criativos. Aquele 11 de setembro aprofundou minhas conexões com o Lucas e Nova York.
Meu heroísmo é banal, não do estilo Todd Beamer. A ameaça de mais terror não me intimida e mantenho minha rotina em Nova York. Estaciono o carro em partes da cidade que levam jeito de serem alvos preferenciais de um atentado. Na sexta feira passada, minha maleta foi vistoriada na estação de metrô de Union Square com a “neura” de um plano da Al Qaeda para investir durante as celebrações do décimo aniversário do 11 de setembro. Pode vistoriar. Sacrifico nesta hora minhas liberdades civis. No sábado à noite, empaquei no trânsito em Tribeca devido a barreiras policiais. Paciência. Meus desafios e meu espírito estóico, como disse, são banais, mas é o mínimo que posso oferecer contra meus inimigos, nossos inimigos.
A gravação do Manhattan Connection agora acontece nos escritórios da Globo, em Tribeca, a algumas quadras daquele local de destruição dez anos atrás e agora local de frenética construção. Do nosso estúdio, no décimo-sétimo andar, vejo a a torre subindo no novo World Trade Center. Sobe para desafiar o terror, sobe como prova de reerguimento de Nova York, sobe porque nossa civilização avança, embora sejam dias de desmoralização e dúvidas geradas por problemas econômicos e falta de firme liderança ocidental, muitas das quais não vinculadas às sequelas do 11 de setembro.
Mas vamos nos concentrar no 11 de setembro no dia 11 de setembro. Ali, do estúdio da Globo, além da nova torre, vejo o rio Hudson e Nova Jersey. Lá ainda somos todos novaiorquinos. E eu espero que você também.
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Colher de chá vai para a Vânia (dia 11, 13:50), comentário muito a meu favor, mas hoje, primeiro aniversário da coluna, mereço.
A descrença no convencional sobre o 11 de setembro nestes dez anos não foi lugar-comum apenas no mundo muçulmano. Logo após os ataques, ganharam vida em todas as partes as bizarrices sobre um complô do governo americano e dos judeus (sempre eles). Havia a história que quatro mil judeus tinham sido alertados sobre os atentados e não apareceram para trabalhar naquele dia no World Trade Center, inicialmente publicadas no jornal sírio Al Thawra. Existem as fantasias detalhadas sobre o míssil que o próprio Pentágono disparou contra o Pentágono. Na França, o livro de Thierry Meyssan sobre a “mentira assustadora” do 11 de setembro foi best-seller, disparando esta fantasia sobre o míssil ou um pequeno avião investindo contra o Pentágono.
Arautos profissionais da paranóia na imprensa alternativa americana, de direita e de esquerda, se uniram para denunciar as tramas. Personagens folclóricos como o apresentador de rádio Alex Jones e o repórter conspiratório Michael Ruppert tinham certeza sobre os planos diabólicos do governo Bush para manufaturar os atentados. Tudo elementar: era preciso um pretexto para invadir o Afeganistão e o Oriente Médio, beneficiar a indústria petrolífera e de armamentos, forjar um estado fascista que suprimisse as liberdades civis e consolidar uma nova ordem mundial. Sacou? World Trade Center? Centro do Comércio Mundial.
Logo depois dos atentados, a maluquice popular nos EUA até que estava sob controle. Numa pesquisa no começo de 2002, apenas 8% acreditavam que o governo Bush, então muito popular, mentia sobre o que acontecera. Os números cresceram depois da guerra do Iraque diante do fato real de que o governo Bush, de fato, enganara sobre as armas de destruição em massa de Saddam Hussein. O número de céticos sobre a narrativa convencional dos atentados do 11 de setembro saltou para 16% em 2004. Escaramuças burocráticas em Washington e esforços do governo (como acontecem em qualquer governo) para acobertar ou minimizar suas falhas na prevenção dos atentados também alimentaram as teorias conspiratórias.
Políticos da ala mais esquerdista do Partido Democrata deram munição para os conspiradores e Michael Moore com o seu documentário Fahrenheit 11 de Setembro foi uma festa para os paranóicos ao martelar nas conexões da família Bush com a Arábia Saudita e o clã Bin Laden. Por volta de 2007, pesquisas revelararam que até 1/3 dos americanos duvidavam da narrativa convencional sobre o 11 de setembro.
O tempo passou, Bush esvaneceu e Barack Obama assumiu a presidência. O ódio a um presidente foi transferido a outro. Um parte dos conspiradores sobre a verdade do 11 de setembro (os “truthers”) inclusive migrou para a nova conspiração sobre as falsidades na vida daquele “queniano” que mentira sobre ter nascido no Havaí. Hoje “só” uns 10% dos americanos não acreditam que a rede Al Qaeda tenha sido responsável pelos atentados. Um alerta deve ser feito: o campo continua fértil para teorias conspiratórias, de qualquer gênero, em tempos de incerteza econômica nos EUA, falta de confiança nas lideranças políticas e um descrédito sem precedentes das instituições, a destacar o governo federal.
E já que não dá para ter um final feliz para esta história, vamos para o mundo islâmico. Uma pesquisa de julho do Centro Pew confirma que, uma década depois, existe ceticismo no mundo islâmico sobre os eventos de 11 de setembro de 2001. A maioria dos muçulmanos acha inconcebível que árabes tenham sido responsáveis pelos ataques (numa descrença que inclui vergonha para assumir a verdade, crença no pacifismo da religião, desconfiança na capacidade técnica de árabes realizarem os atentados, preconceitos, antiamericanismo e antissemitismo). Dos 19 terroristas suicidas, 15 eram sauditas, dois dos Emirados Árabes Unidos, um libanês e um egípcio. A pesquisa englobou sete países e os territórios palestinos. Em nenhum deles, sequer 30% aceitam que árabes realizaram os ataques. Pior, muçulmanos na Jordânia, Egito e Turquia estão mais céticos hoje do que há cinco anos.
Um dos dados mais preocupantes, aliás, é que esta pesquisa foi feita com a primavera árabe em curso. E no mesmo revolucionário Egito que derrubou Hosni Mubarak existe o nivel mais alto de negação da realidade, com 75% dos egípcios registrando sua descrença que árabes tenham sido responsáveis pela obra de destruição.
Eric Trager, um especialista em Oriente Médio da Universidade da Pensilvânia, passou alguns meses no Egito, fazendo pesquisas e seu relato sobre a percepção do 11 de setembro é desolador. Islamistas encampam este revisionismo sobre o terror, pois reescrever a história é fundamental para desviar a acusação de que sua ideologia motiva o assassinato em massa. O ex-guia supremo da Irmandade Muçulmana, Mehdi Akef, disse para o incrédulo Trager “que não existe o terror da Al Qaeda, é uma expressão americana”. Na narrativa de Akef, os atentados do 11 de setembro representaram um ataque americano contra o Oriente Médio e existe uma política islamista de autodefesa.
Líderes mais jovens da Irmandade Muçulmana gostam da tese que os atentados do 11 de setembro, por sua sofisticação, só podem ter sido obra da CIA ou do Mossad. Mesmo líderes seculares, socialistas ou liberais no “novo Egito” também negam a responsabilidade da Al Qaeda. Mustafa Shawqui, da Coalizão da Juventude Revolucionária, disse a Trager que se tratou de maquinação para dominação global por interesses imperiais. Até o vice-primeiro-ministro do governo provisório, Ali ElSalmy, pisou na bola. Homem educado nos EUA, integrante do governo Sadat nos anos 70 e ex-vice-diretor da Universidade do Cairo, ele disse “não ter certeza sobre quem foi responsável pelos atentados”.
Dez anos depois dos atentados do 11 de setembro, é preciso impedir novos ataques e ainda por cima estes atentados à verdade em países com ou sem primavera árabe.
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A colher-de-chá madrugou. Vai para Ivanildo Terceiro (dia 7, 8:27), por trazer o material didático e visual da construção e desconstrução das teorias conspiratórias no 11 de setembro.
Ironicamente, uma tese que esvazia um pouco o triste furor comemorativo é que a crise econômica terá mais impacto histórico do que os ataques terroristas do 11 de setembro. Basta ver um artigo na edição corrente de VEJA (um especial de 31 páginas sobre os 10 anos dos atentados, leitura obrigatória!), de Bill Emmott, jornalista e escritor (ex-diretor da revista The Economist). O título é O 15 de setembro de 2008, em referência à quebra do Banco Lehman Brothers, um estopim da crise econômica.
Mas, deixemos este debate detalhado sobre o impacto da crise econômica para 15 de setembro de 2018. No aqui e agora, estamos prestes a ultrapassar os dez anos dos atentados. A data é sóbria e existem questões sobre a validade de vários aspectos da obra no Marco Zero, em particular a construção da nova torre com o nome 1 World Trade Center e o risco de uma localizada bolha imobiliária. Porém, vale muito mais destacar esta mescla de comemoração e renascimento.
Não existem apenas destroços físicos e emocionais. A torre sobe em Manhattan, num desafio ao terror. Claro que esta é uma nação fragilizada, polarizada, frustrada e incerta sobre o seu futuro. Na narrativa do historiador Paul Kennedy, não vai dar outra: os excessos imperiais (e aqui contam custos de guerras americanas sem a devida tributação, sem falar, é claro, das perdas humanas) deverão levar a um declínio inevitável. Sim, o declinio acontece em meio ao que o guru Fareed Zakaria chama de “ascensão do resto”, inclusive o Brasil. No entanto, por favor, não vamos assinar o atestado de óbito dos United States of America ou desmerecer a capacidade de recuperação.
Nesta semana de tanto enfoque sombrio no décimo aniversário de uma data nada querida, vamos ressaltar alguns aspectos positivos: Osama bin Laden está morto, o perigo do terror Al Qaeda sobrevive, mas a rede está enfraquecida e desde aquele 11 de setembro nenhum grande atentado aconteceu nos EUA. Infelizmente, tantas outras sociedades foram vítimas. A infame agenda ideológica de uma jihad global não tem vez contra o Ocidente. Pode causar estragos, mas até no mundo islâmico está desacreditada, embora a mensagem mais moderadamente islamista (como a da Irmandade Muçulmana) tenha appeal e ganhe espaço na primavera árabe.
O Ocidente e sua capital Nova York aguentaram o tranco há dez anos (podemos reconversar sobre aspectos mais complexos do rombo em 15 de setembro de 2018, ao estilo Bill Emmott) e os ataques deixaram destroços, mas, apesar de alguns excessos na guerra contra o terror, prevalecem sólidas instituições democráticas. A rede Al Qaeda não destruiu o nosos modo de vida (inclusive coisas patéticas como o atual nível do confronto político-partidário nos EUA).
Houve o ataque direto em 11 de setembro e existe aquela conversa que o grande plano de Osama bin Laden era fazer a gente sofrer com a hemorragia (inclusive econômica) e morrer. Ele morreu. Viveremos na banda ocidental. É verdade que num clima de mais tempestades econômicas, medo de novos ataques terroristas e competição de modelos que contestam a democracia e o capitalismo liberal, seja nas bandas chinesas, seja em bandas islamistas.
A crise econômica poderá ser longa e brava e o perigo mora em qualquer esquina, em qualquer torre, mas é vital que o valor da democracia liberal permaneça intacto, por todos os setembros adiante.
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A colher-de-chá nos comentários vai para o Maurício (dia 5, 13:05) pelas pinceladas do anti-americanismo crônico, solidariedade em larga escala no mundo aos americanos no 11 de setembro e o debate sobre oportunidades perdidas na era Bush. A colher-de-chá está generosa. Outra para a Carmem (13:16), pela declaração de amor a Nova York (que, de colher, ela estendeu ao Rio de Janeiro)
O mundo está cheio de problemas e eu estou meio obcecado com o futuro da Líbia e o destino do Muamar K/Q/G Adafi, mas não vivo no deserto do Saara e com todas as letras nos últimos dias meu foco era outro monstro, a Irene. Moro no subúrbio de Glen Rock, New Jersey, a 40 quilômetros de Times Square, e em alguns dias da semana trabalho em Tribeca, lá em Lower Manhattan, a algumas quadras daquele local atacado há dez anos por aquele outro monstro, o Osama bin Laden. Bem, Irene passou e escapamos do pior, mas não vou trivializar.
Gente morreu, danos de grande monta aconteceram e a conta do estrago será de bilhões de dólares. Para milhões de pessoas, são transtornos mais graves do que uma mera tempestade de verão que oferece um grande espetáculo na televisão. Perto de minha casa há muita inundação e blecaute. Bobagem ficar comparando com tragédias naturais em outras partes. Nestas horas somos locais. Tivemos também a cara de decepção de muitos repórteres e âncoras de televisão que se prepararam e se trajaram para cobrir o dilúvio final. Afinal, era a tempestade perfeita: um furacão na capital do mundo e centro global da mídia.
As expectativas baixaram, como tanta coisa nos últimos tempos neste país, e acho positiva a avalanche de críticas a uma imprensa que fez muita onda e mais uma vez mostra a incapacidade para traçar limites entre o alerta e o alarme.
Das autoridades locais, não tenho queixas, desde o governador republicano do meu estado, Chris Christie, ao prefeito independente de Nova York, Michael Bloomberg. Podem pecar pelo excesso de zelo. Tiveram o meu voto, pelo menos nesta encrenca. E isto é Nova York. Prefeito faz muito, a turma reclama. Faz pouco, mais reclamação. O fato é que não queríamos repetição do desastre Katrina aqui no nordeste dos EUA. As autoridades fizeram o que precisavam fazer com as medidas de precaução. Mas também rendo um tributo para alguns sem nenhuma cautela, como donos de algumas délis e pizzarias em Manhattan que resistiram bravamente ao monstro Irene.
Não me interessa a filiação partidária do servidor público que cumpre o seu serviço. De resto, não acho graça nas piadinhas que o presidente Obama está irritado porque Irene atrapalhou seu jogo de golfe e o forçou a antecipar a volta das férias. Nestas horas fica claro como é vital não cortar verbas de algumas agências federais. Nada da alucinação contra a própria noção de governo. Precisamos do governo, um bom governo.
Bem, não quero falar muito mais sobre Irene. Estou feliz que não tenha causado a destruição que se temia, embora os estragos estejam aí. Nova York não precisava de uma grande tragédia -e aqui falo de uma tragédia descomunal- quando se prepara para lembrar os dez anos daquela outra monstruosidade. Mas já estou chovendo no molhado. Em breve, volto a falar das coisas no deserto do Saara. Lá a crise não vai secar tão cedo.
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A colher-de-chá nos comentários vai para a fiel leitora Carmem (20:18, dia 28), com seu relato de repórter em Manhattan. Downgrade para Irene, upgrade para Carmem.