15/06/2012
às 6:00 \ Crise econômica, Egito, Eleições 2012, Europa, Grécia, Mundo Árabe, Mundo islâmico, Primavera Árabe, SíriaSe eu fosse grego, se eu fosse egípcio (eu, hein!)
Na eleição grega do próximo domingo, é fácil. Eu tapava o nariz e votava na Nova Democracia, o partido de direita que junto com os socialistas levou o país para o buraco. Votava neste partido conservador, à frente de uma coalizão, para roubar a vitória de algo pior. O establishment podre de direita e esquerda, pró-euro e que se resigna à austeridade com ajustes, impedirá uma fedentina ainda maior, que seria provocada pela ascensão ao poder da banda da esquerda radical de Alexis Tsipras. Esta turma quer dinheiro da tia Angela Merkel sem suar muito, promete o impossível: ficar na zona do euro sem acatar medidas draconianas de saneamento econômico. Assim, eu também quero. Não quero a implosão da zona do euro.
Tsipras rasga tudo e o líder da Nova Democracia, Antonin Samaras, é um remendo num tecido europeu muito frágil. Sua vitória ajuda a empurrar as coisas por semanas ou meses (será apenas por dias?), contendo um pouco a pressão dos mercados que se alastra por economias mais importantes da zona do euro como Espanha e Itália. É o melhor que podemos esperar no momento. Existe esta defasagem: líderes europeus quere forjar uma união política e fiscal mais coesa em um processo ao longo de anos e das décadas. Os mercados calculam as coisas em horas.
E se eu fosse egípcio? Ali, a coisa descaminha hora a hora. É como diz o editorial da revista The Economist: escolhas atrozes na eleição presidencial deste fim-de-semana, isto se ainda rolar. Escolher entre um resquício da ditadura Mubarak, Ahmed Shafik, e o funcionário da Irmandade Muculmana, Mohammed Morsi. A revista, bíblia do liberalismo clássico, tão desolada com a sem-vergonhice dos militares, vota nos antiliberais da Irmandade Muçulmana, como a menos ruim de duas escolhas horríveis. Eu não consigo ir tão longe, quase vou.
Eu considero forte o argumento da revista de que é melhor dar um passo adiante na incerteza do que cair para trás. A discussão, na verdade, já é um pouco acadêmica. Está em marcha uma contra-revolução, o que ficou patente com o lance de quinta-feira de dissolução do Parlamento, eleito democraticamente e controlado pelos islamistas. Tivemos também a ratificação, em uma hipocrisia judicial, da candidatura presidencial de Ahmed Shafik. E num cenário que parecia inimaginável semanas atrás, ele vence as eleições no domingo. Assim, a Irmandade Muçulmana fica sem Parlamento e sem o Executivo.
Mas, cuidado com a nostalgia da restauração da velha ordem. Ela, de fato, pode ser pior do que o controle do poder pelos islamistas. Os militares não têm projeto, além de manterem o poder e seus privilégios. Obviamente o sonho de muita gente é o modelo turco: islamistas no exercício do poder ficam mais moderados e toleráveis, apesar de colocarem um véu nas instituições democráticas. Mas a conversa agora é sobre o modelo argelino.
Em 1991, na Argélia, os militares cancelaram o segundo turno de eleições para impedir a vitória islamista. O resultado foi uma década de guerra civil que deixou mais de 200 mil mortos. No começo de 2011, tivemos mais um golpe palaciano do que uma revolução popular no Egito, quando os militares se livraram de Hosni Mubarak. Mas a mudança abriu espaço para uma sociedade civil mais vibrante e desordenada. Até onde os militares estariam dispostos a ir para restaurar a ordem agora? No ano passado, eles se recusaram a massacrar as massas em larga escala como os brucutus de Bashar Assad estão fazendo na Síria. Uma saída argelina no Egito fará dos massacres sírios, em comparação, um piquenique.
Talvez, para evitar o caos ou o banho de sangue, ainda se costure um arranjo entre militares e Irmandade Muçulmana, que já se mostrou de uma flexibilidade e uma venalidade fenomenais nesta transição egípcia. Isto se os militares e a Irmandade conseguirem controlar as massas nos próximos dias. Como falei, no Egito é hora a hora e sexta-feira é um dia tradicional de protestos. Há quem aposte também em fadiga revolucionária, decepção com partidos islamistas e desorientação dos setores liberais, que agora constatam que foram esmagados pelos dois pilares egípcios: os militares e a Irmandade Muçulmana. Com isto, a população se resignaria a este golpe militar. Vários cenários são possíveis, até um acordo com Shafik de presidente e Morsi de primeiro-ministro. Prefiro não apostar nas próximas horas.
Para valer, se eu fosse grego ou egípcio,estaria mais amargurado do que estou com a situação nos dois países.
***
Colher de chá para o Marcio Silva (dia 15, 14:48), por sua observações sobre os militares egípcios e a Irmandade Muçulmana. E uma colher de café para o Alexandre (dia 16, 3:35), que corrigiu meu português.













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