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Se eu fosse grego, se eu fosse egípcio (eu, hein!)

Comício eleitoral conservador na Grécia

Na eleição grega do próximo domingo, é fácil. Eu tapava o nariz e votava na Nova Democracia, o partido de direita que junto com os socialistas levou o país para o buraco. Votava neste partido conservador, à frente de uma coalizão, para roubar a vitória de algo pior. O establishment podre de direita e esquerda, pró-euro e que se resigna à austeridade com ajustes, impedirá uma fedentina ainda maior, que seria provocada pela ascensão ao poder da banda da esquerda radical de Alexis Tsipras. Esta turma quer dinheiro da tia Angela Merkel sem suar muito, promete o impossível: ficar na zona do euro sem acatar medidas draconianas de saneamento econômico. Assim, eu também quero. Não quero a implosão da zona do euro.

Tsipras rasga tudo e o líder da Nova Democracia, Antonin Samaras, é um remendo num tecido europeu muito frágil. Sua vitória ajuda a empurrar as coisas por semanas ou meses (será apenas por dias?), contendo um pouco a pressão dos mercados que se alastra por economias mais importantes da zona do euro como Espanha e Itália. É o melhor que podemos esperar no momento. Existe esta defasagem: líderes europeus quere forjar uma união política e fiscal mais coesa em um processo ao longo de anos e das décadas. Os mercados calculam as coisas em horas.

Comício eleitoral da Irmandade Muçulmana no Egito

E se eu fosse egípcio? Ali, a coisa descaminha hora a hora. É como diz o editorial da revista The Economist: escolhas atrozes na eleição presidencial deste fim-de-semana, isto se ainda rolar. Escolher entre um resquício da ditadura Mubarak, Ahmed Shafik, e o funcionário da Irmandade Muculmana, Mohammed Morsi. A revista, bíblia do liberalismo clássico, tão desolada com a sem-vergonhice dos militares, vota nos antiliberais da Irmandade Muçulmana, como a menos ruim de duas escolhas horríveis. Eu não consigo ir tão longe, quase vou.

Eu considero forte o argumento da revista de que é melhor dar um passo adiante na incerteza do que cair para trás. A discussão, na verdade, já é um pouco acadêmica. Está em marcha uma contra-revolução, o que ficou patente com o lance de quinta-feira de dissolução do Parlamento, eleito democraticamente e controlado pelos islamistas. Tivemos também a ratificação, em uma hipocrisia judicial, da candidatura presidencial de Ahmed Shafik. E num cenário que parecia inimaginável semanas atrás, ele vence as eleições no domingo. Assim, a Irmandade Muçulmana fica sem Parlamento e sem o Executivo.

Mas, cuidado com a nostalgia da restauração da velha ordem. Ela, de fato, pode ser pior do que o controle do poder pelos islamistas. Os militares não têm projeto, além de manterem o poder e seus privilégios. Obviamente o sonho de muita gente é o modelo turco: islamistas no exercício do poder ficam mais moderados e toleráveis, apesar de colocarem um véu nas instituições democráticas. Mas a conversa agora é sobre o modelo argelino.

Em 1991, na Argélia, os militares cancelaram o segundo turno de eleições para impedir a vitória islamista. O resultado foi uma década de guerra civil que deixou mais de 200 mil mortos. No começo de 2011, tivemos mais um golpe palaciano do que uma revolução popular no Egito, quando os militares se livraram de Hosni Mubarak. Mas a mudança abriu espaço para uma sociedade civil mais vibrante e desordenada. Até onde os militares estariam dispostos a ir para restaurar a ordem agora? No ano passado, eles se recusaram a massacrar as massas em larga escala como os brucutus de Bashar Assad estão fazendo na Síria. Uma saída argelina no Egito fará dos massacres sírios, em comparação, um piquenique.

Talvez, para evitar o caos ou o banho de sangue,  ainda se costure um arranjo entre militares e Irmandade Muçulmana, que já se mostrou de uma flexibilidade e uma venalidade fenomenais nesta transição egípcia. Isto se os militares e a Irmandade conseguirem controlar as massas nos próximos dias. Como falei, no Egito é hora a hora e sexta-feira é um dia tradicional de protestos. Há quem aposte também em fadiga revolucionária, decepção com partidos islamistas e desorientação dos setores liberais, que agora constatam que foram esmagados pelos dois pilares egípcios: os militares e a Irmandade Muçulmana. Com isto, a população se resignaria  a este golpe militar. Vários cenários são possíveis, até um acordo com Shafik de presidente e Morsi de primeiro-ministro. Prefiro não apostar nas próximas horas.

Para valer, se eu fosse grego ou egípcio,estaria mais amargurado do que estou com a situação nos dois países.

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Colher de chá para o Marcio Silva (dia 15, 14:48), por sua observações sobre os militares egípcios e a Irmandade Muçulmana.  E uma colher de café  para o Alexandre (dia 16, 3:35), que corrigiu meu português.

Rabiscos Estratégicos (Síria e o Resto)

As vítimas de Houla

Desenhar cenários para a Síria pode ser basicamente um exercício escolar (ou acadêmico, para parecer mais sofisticado). Já vi alguns do gênero que o país irá se converter em mais um estado falido. A máfia Assad irá controlar alguns setores do país, a Irmandade Muçulmana terá o seu quinhão e numa terra de ninguém estará operando a rede Al Qaeda. Quem quiser se aventurar a desenhar seus cenários, bom exercício. Faz bem para a mente para esquecer das cenas do aqui e agora, como massacre de crianças pelas tropas e milícias da ditadura Assad.

O nó na Síria faz parte de um emaranhado de crises que vários atores não conseguem desenrolar. A opção de alguns, como potências ocidentais, é o simbolismo para escamotear a impotência para decisões mais vigorosas. Temos assim sanções, moções, a expulsão de diplomatas sírios, as monocórdicas declarações de indignação e advertências soltas no ar, como as do chefe do estado-maior das Forças Armadas dos EUA, general Martin Dempsey, de que poderá haver uma uma intervenção militar caso não cessem as atrocidades.

Pergunta acadêmica? Intervenção exatamente a favor de quem? Mais apropriado (e fácil) falar que se está contra esta coisa horrenda que é o regime Assad. Enquanto isto, sabemos que os russos estão a favor de Bashar Assad, mais exatamente de algum regime que garanta o status sírio como o último estado-cliente de Moscou no Oriente Médio.

O que não falta é apelo. Indignação moral é típica dos intervencionistas humanitários (nos sabores liberais e neoconservadores). O editorial de terça-feira do Wall Street Journal esbravejou contra as Nações Unidas e fez o inevitável paralelo com Srebrenica, na Bósnia, onde, em 1995, oito mil muçulmanos foram massacrados pelos sérvios enquanto os capacetes azuis holandeses da ONU não faziam nada. Na frase amarga de um ativista de Houla, palco do massacre da semana passada na Síria, como em Srebrenica, o trabalho dos monitores da ONU foi contar o número de mortos.

Na Síria, ocorrem massacres aos olhos e contas da ONU. Aliás, as milícias pró-Assad, dominadas por sua seita alauíta, lembram as milícias sérvias que circulavam na guerra civil da Bósnia nos anos 90. Srebrenica levou o governo Clinton a passar ao largo da ONU e intervir nos Balcãs. O Wall Street Journal passou o pito esperado no governo Obama, que nem clintoniano consegue ser, dizendo que seu objetivo é meramente deixar passar as eleições de novembro, sem precisar recorrer ao uso de força no Oriente Médio (só mandando de vez em quando tropas especiais e uns aviões não-tripulados para matar terroristas no Iêmen).

Oportunista, o oponente republicano Mitt Romney, secundado pelo neoconservador John McCain (derrotado por Obama em 2008), cobra ações, como armar os rebeldes sírios. Mas quem são os rebeldes? E se as armas ficarem nas mãos de setores ligados à Irmandade Muçulmana ou, pior, da rede Al Qaeda? A bem da verdade, Romney  se distanciou de muitos republicanos que acusaram Obama de ter puxado o tapete de Hosni Mubarak no ano passado, permitindo o avanço da Irmandade Muçulmana no Egito. Como Obama, ele percebeu que uma mudança de guarda era inevitável no Egito. Mas sobre a Síria, armar rebeldes pode significar uma guerra civil em larga escala, com ramificações regionais. O presidente Romney está pronto para esta parada? Conversa de palanque eleitoral é moleza.

Obama, de fato, não tem uma estratégia muito rígida. Não atua com indignação moral (o que alimenta a narrativa de alguns setores conservadores de que seja um apaziguador). Obama esta mais para a escola cerebral da realpolitik. Ele acolhe as mudanças democráticas da primavera árabe, mas se a conversa é sobre Arábia Saudita, deixa para lá. Falando em sauditas, aí está um pessoal disposto a armar rebeldes na Síria. Os sauditas tramam contra a ditadura Assad ao mesmo tempo em que tramam para manter a ditadura do Bahrein (aqui com cumplicidade americana).

Mas já fizemos estes rabiscos tortos antes nesta coluna. Precisamos reconhecer que indignação moral só pode ser o ponto de partida. Uma decisão sobre intervenção militar num atoleiro como a Síria envolve cálculos estratégicos, políticos e prudência. Claro que processo decisório pode ser impelido por indignação moral em algumas circunstâncias. E se Assad aprontar alguma coisa da escala de Srebrenica? O pai dele fez coisas pavorosas há 30 anos na cidade de Hama, mas antes de imagens transmitidas por telefones celulares e do Youtube.

Evidentemente que precisamos rabiscar muito quando falamos de Síria. O país não pode ser traçado isoladamente. Temos o risco de uma conflagração entre sunitas e xiitas (os blocos liderados, respectivamente, por sauditas e iranianos). Os contornos da atuação turca são muito complicados. O governo Erdogan é assertivo como campeão democrático e muçulmano no Oriente Médio, mas tem a carga neoimperialista otomana (e ainda por cima integra a aliança ocidental da Otan). Preocupa-se também com os clamores curdos dentro da Síria (enquanto bate pesado nos seus curdos dentro de casa).

As ansiedades de Israel são imensas. Difícil extrapolar o que é pior ou melhor para os israelenses. Assad é um status quo tolerável, mas a queda seria um golpe nos iranianos. É sintomático que o cauteloso primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu pela primeira vez tenha rompido o silêncio na crise síria para expressar indignação com o massacre na cidade de Houla.

Para o governo Obama, o que mais preocupa no momento na região é evitar uma guerra entre Israel e Irã e as expectativas de avanços nas negociações nucleares na semana passada estavam infladas. Obama não quer encrenca na campanha eleitoral (em Atenas, Damasco ou Teerã), embora seja cobrado pelos republicanos para tomar providências na Sïria e Irã (a Grécia pode pegar fogo). Mas especialmente a Síria, nos rabiscos estratégicos do governo Obama, leva jeito de Afeganistão. Lembram-se? Aquele atoleiro em que os americanos decidiram ficar com um pé dentro e um pé fora. Por que enfiar um na Síria? No máximo, Obama pode empurrar alguém para enfiar antes (turco ou saudita) ou se for jogado na vala comum por um episódio do gênero Srebrenica.

Crianças, podem desenhar o que bem entenderem (ou não)

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Colher de chá matinal para a rápida rabiscada do Fernando (dia 30, 10:10). 

Curtas & Finas (Sobras Egípcias)

O candidato Amr Moussa votando- Foto EFE

Moussa vagamente lembra nome de sobremesa, mas é o sobrenome de um dos candidatos com chance de garfar a eleição presidencial egípcia. Foram dois dias de votação no primeiro turno (quarta e nesta quinta-feira) e os resultados serão anunciados na semana que vem. Quem sabe Amr Moussa esteja lá, concorrendo no segundo turno em junho. E, na metáfora gastronômica, o site da publicação Foreign Policy tem um perfil saboroso, que aqui eu cozinho, deste ex-ministro das Relações Exteriores da ditadura Mubarak concorrendo nas primeiras eleições democráticas para presidente no país.

O título do perfil escrito por David Kenner é The Good Felool. O termo pejorativo felool significa no Egito “sobras” da ditadura Mubarak. E Moussa é visto por muitos como uma sobra digerível do velho regime. Ele não integrou a ala mais podre (foi inclusive espirrado do centro do poder) e agora se apresenta como uma ponte entre o passado desacreditado o futuro incerto. Moussa é o candidato enfaticamente não-islamista, posa de estadista experiente (75 anos) e sabe circular pelo mundo (chefiou a desmoralizada Liga Árabe). Apesar de sua virulência antiIsrael, tem relações cordiais com o presidente israelense Shimon Peres.

O texto da Foreign Policy não engole Moussa com facilidade. Diz que seu potencial presidenciável mostra a leviandade de se falar de uma revolução no Egito. Na expressão do texto, “Moussa, para o melhor ou para o pior, não é a culminação de nada se aproximando de revolução”. Fica a critério do gosto político de cada, decidir o que seria o melhor ou o pior para o Egito da primavera árabe. Mas deixo bem claro aqui neste espaço que gosto se discute.

Moussa hoje se refaz como um crítico da ditadura Mubarak e se apresenta como uma alternativa ao bloco islamista, que já controla o Parlamento e tem dois candidatos presidenciais (será inacreditável se um deles não estiver no segundo turno da eleição). O fato é que o futuro presidente egípcio precisará realmente construir uma ponte entre um poderoso establishment militar (felool da ditadura) e um Parlamento dominado por islamistas. Para a tarefa se apresenta o bom felool, um mestre-cuca da receita do compromisso político. Nas devidas proporções, Moussa é um José Sarney. Cada país tem as sobras que merece, para o melhor ou para o pior.

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Colher de chá para o Felipe (dia 24, 11:38), pelas comparações, nas devidas proporções, entre a transição democrática no Egito e no Brasil.

Uma eleição egípcia caótica e incerta (tudo poderia ser pior)

Sem carisma, Morsi tem a máquina da Irmandade Muçulmana

Os egípcios estão votando nas primeiras eleições presidenciais relativamente abertas na história do país. Mal termino a primeira linha do texto e já está difícil saudar algo mais. Que doideira! Antes de tudo, as pesquisas são incrivelmente voláteis e incertas. Não dá para confiar nelas. São 13 candidatos e, nas últimas semanas, nomes improváveis despontaram na liderança.

Exemplos são o nasserista (que podemos traduzir como nacionalista, esquerdista e secular) Hamdeen Sabahi. e uma sobra da ditadura Mubarak, o ex-primeiro-ministro e ex-comandante da Força Aérea Ahmad Shafik, abertamente contrário à revolução que permitiu a realização desta eleição presidencial. Na piada de um blogueiro liberal do Cairo, é preciso ser muito pateta para votar neste Shafik, afinal ele foi incompetente para completar o serviço e massacrar a massa na rua. De qualquer forma, seu eleitorado tem saudades de lei e ordem (nos critérios de uma ditadura corrupta e ossificada como a de Mubarak). Shafik representa a continuidade (e, desde a queda da monarquia em 1952,  todos os presidentes são militares)

Já o eleitorado de Sabahi é nostálgico (e igualmente retrógado) de um regime ainda anterior, aquele da mensagem nacionalista, estatizante e populista da ditadura Nasser. Sintomaticamente, o discurso de Sabahi é bem virulento contra Israel (padrão entre os candidatos). Para quem não sabe, Nasser era aquele militar que prometia jogar os judeus no mar e ficou banhado de vergonha com a derrota na guerra contra Israel em 1967.

De volta a 2012. Em muitas pesquisas, dois nomes são considerados os mais prováveis para avançarem para o segundo turno em junho: um deles é outra sobra do regime Mubarak (apesar da vestimenta de desertor), o ex-ministro das Relações Exteriores, Amr Moussa, também virulento na sua posição contra Israel, mas que se posiciona como aceitável para o Ocidente, por seu distanciamento da virulência islâmica e por vestir roupagens de secular liberal para os padrões locais.

O segundo é o candidato mais intrigante na eleição, para não dizer bizarro: o ex-dirigente da Irmandade Muçulmana (outro desertor), o médico Abdel Moneim Aboul Fotouh. Ele congrega apoio em um espectro que vai de islamistas barra pesada (os salafistas) a liberais da geração Facebook. Para uns, Fotouh promete a sharia (a lei islâmica). Para outros, o estado civil. Para Fotouh, amigo de todos, com suas mil promessas, sobrou o trocadilho de homem de duas faces.

E, finalmente, temos o homem da máquina islâmica (a Irmandade Muçulmana). Ele é o engenheiro Mohamed Morsi. Num perfil do jornal francês Le Monde, a definição está bem aparada: Morsi é cinzento como sua barba e quadrado como seus óculos. Ele também é conhecido como “pneu estepe”, pois só concorre devido à desqualificação de Khairat al-Shater, pelo fato de ter estado na prisão durante a ditadura Mubarak.

Algumas pesquisas mostram que Morsi não irá ao segundo turno. É uma possiblidade que devemos acolher com incredulidade e se acontecer será uma tremenda surpresa neste Egito já com tantas reviravoltas. Afinal, a falta de carisma de Morsi é compensada por disciplina e organização da Irmandade Muçulmana, que está aí há 80 anos, esperando sua vez de chegar ao poder, após sobreviver à repressão da monarquia e sucessivas ditaduras. Seria um terremoto político se Fotouh avançar para o segundo turno e não Morsi.

É verdade que a Irmandade Muçulmana (que já manda no Parlamento, secundada pelos salafistas) decepcionou muita gente com suas maquinações na caótica transição pós-ditadura Mubarak. Ora, se acomoda com os militares (que ainda dão as cartas no país), ora, parte para o confronto. A Irmandade, que prometera não concorrer à presidência, quer convencer sua base que a renascença vem aí (renascença é o nome do seu projeto de governo), enquanto garante para investidores estrangeiros que uma teocracia infernal não será implantada no país.

Rebeldes de primeira hora na praça Tahrir alertam contra o empenho manipulador da Irmandade Muçulmana, enquanto muitos dizem que o grupo subestima o que é conhecido como “estado profundo” no Egito, ou seja, o aparato militar que irá continuar a manipular as coisas, não importando quem vença a eleição presidencial ou controle o Parlamento.

Mas vamos acabar também com um toque positivo. Tudo caótico, volátil e incerto no Egito (inclusive sobre os poderes do futuro presidente), mas poderia ser pior, como nos tempos do museu de cera de Mubarak. E há suspense: pela primeira vez, não sabemos quem irá vencer eleições presidenciais no país,  em um teste crucial na turbulenta transição democrática.

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Colher de chá para Abdel e Betty (e Ricardo Platero e Carmem) pela saída dos temas habituais da crise egípcia e sinalizando o potencial econômico do país (potencial, potencial, potencial). Que celeiro de premiações hoje aos leitores!

Primeira Impressão (Islamistas)

Na semana que vem, teremos o primeiro turno das eleições presidenciais egípcias, mais uma fase de uma turbulenta transição pós-ditadura Mubarak, parte do turbulento processo que é a primavera árabe. Este processo não foi iniciado por partidos islamistas, mas agora eles tiram proveito de oportunidades democráticas ou de rachaduras na velha ordem em diversos países do Oriente Médio e norte da África para adquirir poder.
Portanto, vamos saudar a chegada do livro The Islamists Are Coming, editado por Robin Wright, uma veterana jornalista americana, muito chegada no Oriente Médio e que hoje está no Wilson Center, em Washington. São mais de 50 partidos islamistas no mundo árabe e o livro, com uma introdução de Robin Wright e ensaios de 10 especialistas, rastreia o que está acontecendo na Argélia, Egito, Jordânia, Líbano, Líbia, Marrocos, terrritórios palestinos, Síria e Tunísia.
Rótulos são complicados, mas algumas tendências são detectadas. Exceto Hezbollah, no Líbano, e Hamas (territórios palestinos), estes partidos islamistas não possuem braços armados e não pregam um conflito frontal contra Israel, embora hostilidade ao estado judeu e antissemitismo sejam componentes flagrantes. Ademais, existem condenações da rede Al-Qaeda e de jihadistas armados. que também tentam atuar no meio da encrenca. Basta ver o que está acontecendo na Sïria.
Importantes eventos históricos influenciam a atuação destes partidos, a destacar a revolução iraniana de 1979, a guerra contra os soviéticos no Afeganistão (1979-1989) e a guerra civil na Argélia (1992-1999). São eventos como triunfo de revoltas populares contra ditadores pró-ocidentais (Irã), de resistência à invasão de terras islâmicas (Afeganistão) e da possiblidade de vencer eleições parlamentares (Argélia).
Mas a experiência da Frente Islâmica de Salvação, na Argélia, que venceu o pleito mas foi derrotada por um golpe, mostrou a necesidade de um jogo político astuto e gradualista para permitir a ascendência do conservadorismo religioso. Variantes da Irmandade Muçulmana (Tunísia e Egito, por exemplo) exercem este jogo cauteloso.
A ascensão de partidos islamistas pelo voto gera uma conversa interminável sobre o que significa usar a liberdade para coibir a liberdade. Afinal, eleitos, partidos islâmicos podem reprimir liberdades individuais e perseguir minorias. Podem ser partidos democráticos (refletem a vontade da maioria), o que não é o mesmo que liberalismo.
No paradigma-alerta de Fareed Zakaria,  existem também democracias iliberais. E um corolário interminável desta conversa interminável é se islamismo é compatível com liberalismo, mesmo em países fora da esfera da primavera árabe, onde a democracia já está supostamente consolidada, como o caso da Turquia.
No livro editado por Robin Wright, as variáveis de desempenho econômico e de governança são trazidas para tentar entender vislumbrar o desfecho da primavera árabe. Os partidos islamistas que eventualmente irão adquirir e exercer o poder terão legitimidade através de bem-sucedidas políticas econômicas e governança de resultados. Não basta implementar a lei de sharia ou sonhar com um califato.
Discutir moralidade pode mobilizar a massa e desviar as atenções mas, no final das contas, os islamistas precisarão propor modelos de geração de empregos, baixar a inflação e atrair capital estrangeiro. Bastar que já existe um pouco de fadiga com a Irmandade Muçulmana no Egito, que comanda o Parlamento, e que as eleições presidenciais podem resultar na vitória de Amr Moussa, uma figura proveniente da velha ordem ditatorial.
Há um consenso no livro que desempenho econômico irá determinar o futuro político destes partidos. Mas sempre está aí o exemplo iraniano em que preservação no poder também é devida a outros fatores como repressão, fervor religioso, inimigos externos que desviam as atenções dos problemas internos e nacionalismo.
Também é importante lembrar como nesta primavera árabe, com o foco na Irmandade Muçulmana (vista como mais inclinada à cautela e ao pragmatismo), foi subestimado o avanço de grupos mais fundamentalistas, como os salafistas. São grupos que expressam posições rígidas em questões sociais e oposição ao sistema democrático de governo, embora participem de eleições.
Os ensaios no livro deixam em aberto questões como se os partidos islamistas estão realmente dedicados ao compromisso democrático e à tolerância, embora a prática será o teste (esperamos que não fatal). A linguagem ambígua, vaga e contraditória de partidos islamistas alimenta o ceticismo e o temor de seus opositores, como minorias religiosas, mulheres e liberais, além de integrantes da velha ordem ditatorial.
A história ainda está sendo rascunhada, mas os islamistas já chegaram para participar dela.
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Colher de chá para o Lexikon.

15/05/2012

às 6:00 \ Israel, Mundo Árabe, Palestinos

Rabiscos Estratégicos (Israel & palestinos)

Expectativas frustradas

No plano formal, as perspectivas diplomáticas no diálogo entre israelenses e palestinos são desoladoras. Para mais detalhes, os leitores podem dar uma comedida olhada na coluna anterior. É inquietante que isto também esteja acontecendo no plano informal. O israelense Yossi Alpher está azedo, como raramente esteve. Ao lado do palestino Ghassan Khatib, Alpher edita o site bitterlemons.net, que promove a troca civilizada de idéias e busca de soluções para o conflito. O título do seu último texto  é sintomático: “Tristemente, nada mais para conversar”.

Quase 20 anos depois dos acordos de Oslo, consagrado pelo aperto de mão entre Yitzhak Rabin e Yasser Arafat, com a benção de Bill Clinton, que estabeleceram as bases para acordos definitivos entre israelenses e palestinos, as expectativas são muito baixas sobre o que pode ser alcançado. Existe inclusive crescente pessimismo sobre a perspectiva da solução dos dois estados.

Neste seu comentário azedo, Alpher observa que interlocutores dos dois lados estão simplesmente cansados diante do cenário pouco promissor. Entre o alastramento das colônias israelenses na Cisjordânia e a insistência palestina em exigências inaceitáveis, como o direito de retorno dos refugiados, está duro ver alguma luz no fim do túnel.

Mas, na advertência de Alpher, nada mais escuro do que a inclinação para se admitir a solução de apenas um estado, que resultaria no apartheid (a minoria israelense dominando a maioria palestina sem plenos direitos) ou em um estado árabe (com uma minoria judaica discriminada). Alpher joga um limão verde, dizendo que é preciso uma direção mais ousada nas conversações informais, com mais contatos entre israelenses e o Hamas, o que pavimentaria o caminho para contatos israelenses com islamistas adicionais do mundo árabe.

Quebra do tabu? Alpher lembra que antes dos acordos de Oslo em 1993 era ilegal o contato de israelenses com a Organização de Libertação da Palestina. Alpher lança o desafio. Diz que israelenses corajosos estão prontos para o diálogo. E quem se habilita do lado do Hamas?

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O leitor “Seu Madruga” chegou apenas no início da tarde de terça-feira com vários argumentos interesssantes e dados históricos. Colher de chá.  E horas antes da madrugada de quarta-feira, colher de chá para o Magno e Amauri, por vários comentários ao longo do dia. Destaco o tom civilizado dos três leitores.  Para mim é um prazer este tipo de debate.

14/05/2012

às 6:00 \ Irã, Israel, Mundo Árabe, Oriente Médio, Palestinos

Em defesa de Israel (de novo) e até de Netanyahu

Netranyahu, por cima, com seu novo parceiro Mofaz

Que coisa! Governos são derrubados por crise econômica (Europa, num jogo de dominó) ou são derrubados porque o prazo de validade expirou (Oriente Médio, como no Egito) ou se aguentam no poder porque expiram a oposição com força bruta (também no Oriente Médio, como na Sïria). E lá em Israel, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu mostra que o país está sólido, em uma recado aos inimigos externos e também aos amigos de Israel que temem pela coesão interna do país.

Netanyahu, do partido de direita Likud, deu um golpe de mestre na semana passada, ao aliciar o partido de centro Kadima para a coalizão de governo. Assim, ele não antecipou as eleições gerais de outubro de 2013 para o próximo setembro como estava praticamente decidido e costurou uma supermaioria no Parlamento (3/4 das cadeiras). A jogada maquiavélica de Netanyahu atraiu muita atenção e especulações sobre as ramificações externas.

Uma leitura é a de que o país se uniu como não se unia desde a guerra de 1967. Logo, o terreno está sendo preparado para um ataque às instalações nucleares iranianas. Possível. Há uma leitura também que a incorporação do Kadima, um partido com uma posição mais aberta e sensível à questão palestina, pode movimentar as coisas naquela frente diplomática após tantos anos de paralisia. Menos possível. Basta ver que Israel e palestinos sequer conseguem retomar negociações substantivas, como mostrou a mais recente troca de correspondência entre os dois lados.

As considerações urgentes para o lance de Netanyahu foram mais domésticas e aqui manifesto um pouco de alívio. Nas considerações externas, eu persisto nas dúvidas sobre a sabedoria deste ataque ao Irã (em particular se for uma iniciativa unilateral de Israel) e no caso palestino não vislumbro avanços significativos tão cedo, o que a longo prazo é uma dano ao direito palestino a um estado, à legitimidade de Israel e à busca de um modus-vivendi entre judeus e árabes no Oriente Médio. É  um cenário inquietante e que continua se agravando.

Ao menos, porém, existe uma frente mais sólida internamente (a noção de solidez, é verdade,  deve ser encarada com ceticismo em Israel e sua classe de políticos tão oportunistas, fisiológicos e corruptos). País mais sólido internamente fica mais preparado para enfrentar desafios externos. E porque o alívio? O Likud nunca foi minha praia, mas o consolo para mim é o fato de ser um partido relativamente secular, como é o caso do Kadima (que é filhote do próprio Likud). Este casamento de conveniência entre pai e filho aumenta a margem de manobra para diminuir o espaço que já é desproporcional de pequenos partidos ultrarreligiosos, que converteram o país em refém de suas causas (ao lado de partidos ultranacionalistas de direita, outro dano para a saúde e o futuro do país).

Com esta nova coalizão, ficou mais fácil a aprovação de reformas nos próximos meses, a destacar a exigência de algum tipo de serviço nacional para os jovens religiosos (hoje isentos do serviço militar obrigatório) e também de reformas do sistema político para reduzir o poder destes partidecos. Eu considero uma maravilha uma freada na aceleração religiosa em Israel, um belo exemplo quando vemos o avanço do fundamentalismo islâmico no Oriente Médio, no lugar de infames ditaduras seculares.

O poder desproporcional destes pequenos partidos religiosos é uma distorção que ameaça a própria coesão da sociedade israelense (muitos destes cidadãos ultrarreligiosos recebem benefícios sociais ou têm isenções e sequer reconhecem o próprio estado). Curiosamente, reformas exigindo algum tipo de serviço nacional, ao invés de militar, para milhares de estudantes de escolas religiosas, tambem terão implicações para os cidadãos árabe-israelenses do país (cerca de 20% da população), hoje também isentos do serviço militar. Se estes cidadãos são parte da sociedade e querem plena igualdade também devem servir ao país, numa dinâmica de mais direitos e deveres.

Na verdade, estas dinâmicas internas e externas Israel devem ser enfrentadas simultaneamente, num desafio que garanta pontos essenciais: um estado judaico, democrático e seguro (e um dia em paz com seus vizinhos). Será um teste histórico para Netanyahu, alguém que eu considero mais hábil para estes lances táticos (como costurar esta surpreendente coalizão) do que uma visão estratégica (no caso palestino, ele foi arrastado ao longo dos anos para aceitar o mero direito palestino a um estado).

Para dar uma medida, o compromisso do Kadima com o cenário de dois estados é mais determinado. Seu líder Shaul Mofaz propôs em 2009 a criação imediata de um estado palestino em 60% da Cisjordânia e aceita, ao contrário de Netanyahu, as fronteiras anteriores à guerra de 1967 como base para um acordo de paz, com entrega de algumas terras israelenses para compensar a perda aos palestinos de blocos de assentamentos judaicos dentro da Cisjordânia. Mas hoje em dia, Netanyahu reflete o país. Ele é um político cauteloso. O seu passo é o passo nacional. Se eleições tivessem sido antecipadas para setembro, o Kadima teria levado uma rasteira do eleitorado.

Não há dúvida que Netanyahu tem agora inquestionável legitimidade política para pressionar os EUA contra arrastadas negociações com o Irã sobre suas ambições nucleares, enquanto ameaça com o ataque preventivo. Vale lembrar que as divergências dentro de Israel sobre o Irã são muito mais sobre quando seria o momento mais adequado para o ataque e se isto deve ser feito sem o apoio ou, pior, contra a vontade americana.

Mas na dinâmica externa, as coisas não estão, é claro, exclusivamente nas mãos de Netanyahu. No caso iraniano, ele não poderá fazer nada até que haja um desfecho das negociações nucleares entre a comunidade internacional e o Irã (a solidez da coalizão de Netanyahu aumenta a urgência destas conversacões).

O dilema para Netanyahu será um acordo com Teerã que ainda permita algum tipo de enriquecimento de urânio. Como ele poderá realizar um ataque num contexto em que existe um acordo indesejável para Israel, mas aceitável para grande parte da comunidade internacional? O primeiro-ministro de Israel também precisa medir se lança um ataque enquanto Barack Obama está no poder ou se arrisca a uma espera eleitoral (nos EUA), no qual poderá ou não assumir o seu amigão, o republicano Mitt Romney, em janeiro próximo.

No caso palestino, resta ver qual será a resposta à nova dinâmica interna em Israel pelas lideranças palestinas (O Fatah do ainda presidente Mahomud Abbas, que controla a Cisjordânia, e o Hamas, que manda em Gaza). As apostas de Abbas não funcionaram (como buscar o reconhecimento unilateral palestino na ONU e não através das tortuosas negociações com Israel).

Como Obama em Washington, Abbas também apostava (e perdeu) que Netanyahu seria em algum momento espirrado do poder em Jerusalém. Agora precisa aceitar a realidade de um adversário mais forte e decidir se irá se engajar. Quanto ao Hamas, não há muita diferença na sua postura, além de uma suavização da retórica antiIsrael por alguns setores do grupo fundamentalista islâmico. O Hamas se sente mais fortalecido com o avanço da Irmandade Muçulmana no Egito, da qual é filial, e não se dobra aos esforços de Abbas para colocar Gaza sob o seu controle. Nenhum dos três atores tem muito a oferecer para se sair do lodaçal diplomático.

Esta união em Israel é um desafio para os inimigos do país, mas ainda resta saber exatamente o que fará Netanyahu com os frutos de sua vitória, além de ter menos dor-de-cabeça com a caótica política interna israelense.

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Colher de chá para o Caio Blinder, ele merece por ser tão paciente. 

Curtas & Finas (Viva Bush)

Bush em mesquita- Foto Mandel Ngan/AFP

Simon Tisdall, o colunista de política internacional do jornal esquerdista britânico The Guardian, pega pesado. Ele diz que a postura do presidente americano Barack Obama de “dar os ombros” na Síria não tem mais sustentação política, estratégica e moral. Na mesma linha, o comentarista Fred Hiatt, no Washington Post, diz que Obama trata a primavera árabe como uma desasgradável distração e não uma oportunidade histórica, manifestando pouca paixão pelos clamores de liberdade na região.

Para Tisdall, desde os protestos contra o regime islâmico no Irã em 2009, seguidos pelas rebeliões em vários países árabes, Obama variou do “pusilânime ao pragmático, passando pela falta de princípios”. Tisdall arremata que na Síria ”é uma mistura dos três”. Uma passagem por sites neconservadores americanos, favoráveis a intervenção, também mostra desgosto com o presidente, com o argumento válido que, em campanha de reeleição, Obama se assume como o estadista que acaba as guerras, embora elas não acabem. Há ainda outro tipo de desgosto conservador, com a acusação de que o ingênuo (ou sinistro) Obama está promovendo a agenda do fundamentalismo islâmico, especialmente quando deixou de apoiar a ditadura Mubarak no Egito. Obama apanha de tudo quanto é lado.

Aqui está o gancho para falar bem de alguém que já apanhou bastante: o predecessor de Obama, George W. Bush. Este aí é tratado hoje como pária, inclusive pelos conservadores. Mitt Romney exibe o endosso do pai e do irmão, mas não do ex-presidente amaldiçoado. Tisdall, do Guardian, diz que Obama se distancia de forma deliberada da “agenda de liberdade” de Bush, diante do legado composto pelo fiasco no Iraque e atoleiro no Afeganistão.

Não vou aqui discutir o que Bush fez ou deixou de fazer em crises como Iraque e Afeganistão, mas saudar o seu diagnóstico de radicalismo islâmico e defesa de democracia no mundo árabe, embora marcados por leviandade e carência de uma sólida estratégia. Sim, sabemos que os efeitos de liberdade podem dar azia, especialmente quando vemos a ascensão de grupos como a Irmandade Muçulmana no Egito.

Mas isto não invalida o diagnóstico da administração Bush. Pelo menos logo depois dos atentados do 11 de setembro, a Casa Branca repudiou os paradigmas de que os EUA deveriam apoiar regimes autocráticos no Oriente Médio, como o de Hosni Mubarak, pois eles eram o melhor escudo para conter o avanço do radicalismo islâmico. Bush rapidamente reconheceu que estes regimes eram incubadores do radicalismo. Para complicar, estes regimes tinham e ainda têm o pendor de cooptar os islamistas, permitindo sua atuação no sistema educacional, na mídia e na legislação, em troca de não engajamento político direto.

O incentivo de Bush à democracia teve como um dos resultados a ascensão do grupo radical palestino Hamas em Gaza e sua pregação irritou profundamente os aliados israelenses e sauditas. Bush levou um chega-pra-lá da autocracia saudita e basicamente deu as costas para sua “agenda da liberdade”. Obama dá os ombros.

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Colher de chá para os leitores cafeínados que participaram do debate ao longo da manhã sobre democracia e mundo árabe. Por uns momentos, muito exaltado e personalizado, mas vá lá.  Eu fiquei no camarote, ocupado com outras tarefas profissionais.

Os camelos de Mubarak e os tanques de Assad

Os métodos de combate a uma rebelião popular - Fotos Getty/AFP

Coluna tem uns rituais. Houve semanas em que toda bendita quarta-feira eu escrevia sobre o circo das primárias presidenciais republicanas (terça-feira foi o bye bye do fervoroso Rick Santorum. Hora de dizer God Bless, Mitt Romney). A maldita crise na Síria está mais para arena sangrenta da primavera árabe do que para circo republicano, mas de uns tempos para cá o assunto é ritual de coluna de quarta-feira. Vamos lá.

Incrédulo, eu vi na televisão o mediador da crise e ex-secretário geral da ONU, Kofi Annan, com aquela cara de quem não dorme há uns 300 anos, dizer que ainda é cedo para anunciar que o seu plano de paz morreu. Annan exige que o cessar-fogo seja implantado, enquanto a ditadura síria exige imediatamente novas condições para que isto aconteça. Ditadura exigente e mentirosa. Em um movimento circular, ela retira tanques de uma cidade, conforme determina o plano de Annan, e aí eles são deslocados para outra.

A suspensão total de hostilidades supostamente deve acontecer agora na quinta-feira. O editorial do Wall Street Journal define a mediação de Annan como farelo diplomático. O editorial do Washington Post diz que o plano não passa de cobertura para o regime sírio massacrar o seu próprio povo. Até os russos, benfeitores de Assad, expressam desconforto com a enrolação do afilhado, mas vão segurar a barra. O primeiro-ministro turco Recep Erdogan, que já foi irmão de Bashar, mas se cansou e deserdou o vizinho, não tem papas na língua. Acusa Bashar de ser pessoalmente responsável pela morte de civis sírios. Desde o anúncio do plano de paz de Kofi Annan, no começo do mês, morreram cerca de mil pessoas na Síria, na maioria civis. São mais de nove mil desde que a rebelião começou em março do ano passado.

Exasperado, pois tropas sírias atacaram até acampamentos de refugiados sírios dentro da Turquia, Erdogan disse que Assad “continua matando 60, 70, 80, 100 cada dia. Tropas sírias atiram sem piedade nas costas de mulheres e crianças em fuga”. No jargão do regime, quem se move integra gangues armadas de terroristas, a serviço de forças estrangeiras. Falando em gangues terroristas, até o Hamas palestino, que já foi afilhado de Assad, tirou o corpo fora e foi buscar a benção das autocracias sunitas do golfo Pérsico. Em breve, a TV estatal síria irá enfiar o Hamas neste balaio de gangue terrorista, finalmente concordando com alguma coisa dita pelas autoridades israelenses.

Em meio à confusão e à exasperação, o esfarrapado plano de paz foi adotado pelo Conselho de Segurança da ONU e a Liga Árabe diante da impossiblidade de aceitação de um plano I (intervenção). Força militar estrangeira num conflito interno é uma decisão atroz. Pode funcionar, como nos Balcãs na década de 90 ou na Líbia no ano passado, mas as condições sírias são mais espinhosas, com as ramificações sectárias regionais. Um outro caminho, igualmente atroz, envolve a determinação e sacrifício de movimentos internos por liberdade, secundados por apoio global. Mianmar da briosa Aung Sang Suu Kyi sinaliza esta via.

As ações brutais do regime sírio chocam, mas, na verdade, não devem surpreender. Este é o seu modus operandi desde os anos 80. Irrompe uma revolta popular e a resposta é esmagar a oposição e punir cidades com o intuito de que nunca mais se levantem. A política de arrasa-cidades, porém, não impede a retomada do ciclo.

Rami Khouri, da American University, em Beirute e que escreve coluna no jornal libanês Daily Star, lembra a diferença essencial entre a insurreição em curso na Síria e o que aconteceu no ano passado na Tunísia e no Egito. O presidente Ben Ali fugiu quando a coisa engrossou e Hosni Mubarak despachou asseclas montados a camelo contra os manifestantes na praça Tahrir. Bashar Assad solta os cachorros no sentido figurado. Espalha tanques, artilharia, franco-atiradores, gangues de assassinos e estupradores pelo país. A prioridade é a barbárie, secundada pela encenação diplomática. Há relatos de brutalidades praticadas por rebeldes e atos terroristas (sobre os quais é difícil atribuir responsabilidade), mas nem de longe é possível equivalência com os crimes contra a humanidade praticados pelo regime Assad.

A ditadura síria dizima civis e as esperanças de reconciliação. Sem repressão, esta ditadura simplesmente não sobrevive. No processo, o regime Assad militariza a oposição. Rami Khouri ainda acredita que uma insurreição não militar em larga escala possa dar conta do serviço, mas depende de apoio unânime do Conselho de Segurança da ONU (algo ilusório diante da cumplicidade russa e chinesa com a ditadura em Damasco).

Os camelos de Mubarak não foram páreo para o levante popular (especialmente quando os militares egípcios decidiram não atirar na massa). Na Síria, os tanques de Assad não resolvem a parada, mas a questão é se o regime poderá ser apeado do poder sem tanques do outro lado ou intervenção estrangeira.

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Colher de chá para Felipe e Pablo, com os quais tive troca de idéias sobre a situação síria.

As mentiras de Assad e as meias verdades da Al Jazeera

Al Jazeera nem sempre é liberdade - Foto Getty

Nenhuma colher de chá para o brutal regime sírio, que diz ter concordado com um cessar-fogo da ONU, em mais uma encenação para ganhar tempo na sua repressão a uma rebelião cada vez mais militarizada. Ativistas sírios e televisões por assinatura no mundo árabe prestam um serviço de utilidade pública, exibindo as vítimas e as engrenagens da máquina de repressão do regime sírio (como crianças torturadas e mortas). Mas precisamos conter nosso entusiasmo e levar em conta os alertas de alguém como Ali Hashem, o jornalista que pediu demissão da rede Al Jazeera no começo de março, reclamando da “cobertura parcial e não profissional” da insurreição síria.

Em um comentário no jornal britânico The Guardian, Hashem, que era correspondente baseado em Beirute, elabora críticas, não apenas de sua ex-empresa, mas de meios de comunicação em geral do mundo árabe. Ele diz que se estes veículos se tornaram partidos, transmitindo a parte da história que serve à agenda política dos proprietários ou dos interesses dos países onde estão estacionados. No caso da Al Jazeera, o emirato do Catar. Nem se trata de contar mentiras. Para Hashem, o modus operandi é contar apenas parte da verdade e enterrar o resto.

Claro que é verdade a brutalidade do regime sírio e que sua narrativa dos acontecimentos é mentirosa, fantasiosa e mera peça de propaganda, num atentado de maniqueísmos. Mas a narrativa do outro lado tem tons cinzentos. A bem da verdade, apesar de tudo, a Al Jazeera  é um avanço jornalístico no mundo árabe. Dando uma desgalhada, dou o exemplo aqui de uma análise no seu site em inglês sobre a encrenca política no Egito (tema de minha coluna de terça-feira). Análise razoável (a versão em inglês costuma ser mais razoável), sinalizando o descrédito da Irmandade Muçulmana.

Mas voltando à Síria, num exemplo específico, Hashem diz que a Al Jazeera se recusou a transmitir imagens de rebeldes armados lutando na fronteira entre Síria e Líbano, no empenho para manter a narrativa de que se trata de uma rebelião “pacífica e limpa”. É uma narrativa formulada pelos governantes do Catar, os mesmos goverrnantes que censuraram a cobertura da rebelião e de massacres no Bahrein. E por quê? Países sunitas como Catar e Arábia Saudita estão na linha de frente da campanha para derrubar regimes como o da Síria (aliado do xiita Irã), mas não querem saber do clamor por liberdade na sua vizinhança, especialmente se há rebeldes xiitas, como é o caso do Bahrein, governado por uma minoria sunita.

Para Hashem, a busca de credibilidade pela Al Jazeera e outros canais da região se tornou um exercício de futilidade. Os grupos que controlam estas emissoras estão se comportando como ditadores da escola Assad, que obviamente manipulam a cobertura da midia estatal (aqui achei a comparação hiperbólica). Hashem conclui que muita gente na região recorre cada vez mais à imprensa ocidental para saber o que está acontecendo. Isto é refletido nos ganhos de audiência do serviço árabe da BBC de Londres. Hashem arremata que quando governos que possuem organizações de mídia no Oriente Médio impõem suas agendas, canais como Al Jazeera estão caminhando para o “suicídio jornalístico”.

E tudo isto, enquanto os Assads matam (e alguns rebeldes também).

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Pessoal, a colher de chá vai mesmo para o Ali Hashem. 

 

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