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Arquivo da categoria Mundo Árabe

Eu não sou fã de Erdogan, mas…

Chapéu ao estilo Ataturk

Continuando a frase do título desta coluna, eu tiro o chapéu para o primeiro-ministro turco. São impressionantes as conquistas nos últimos dias de Recep Tayyip Erdogan para se tornar o maior líder do seu país desde Kemal Ataturk, o pai da Turquia moderna, que surgiu das cinzas do Império Otomano, e também para consolidar sua liderança regional. Erdogan inclusive tem apelado ao chapéu de estilo cossaco que era usado por Ataturk.

Foram dois lances: um deles pegou o mundo de surpresa e eu explico mais para a frente. O mais coreografado foi a trégua com os separatistas do Partido dos Trabalhadores do Curdistão, uma organização definida como terrorista na Turquia, Europa e EUA. Seu líder Abdullah Ocalan, que está em confinamento solitário há 14 anos em uma ilha, acertou com as autoridades o acordo. Os rebeldes devem baixar as armas e lutar politicamente por suas aspirações, que também baixaram.

O líder curdo Abdullah Ocalan

O conflito já custou 40 mil  vidas em  30 anos, quase todas curdas. Ao invés do sonho da independência para os curdos da Turquia, haverá aceitação de um estado unitário, com língua, cultura e direitos da minoria respeitados. Tudo isto inscrito em uma reforma da Constituição.

Os curdos são um povo sem pátria, que tiveram suas aspiraçães traídas por ingleses e franceses, com a derrota do Império Otomano na Primeira Guerra Mundial e vivem espalhados pela Turquia, Síria, Iraque, Irã e Armênia. Na Turquia, eles representam  20% dos 75 milhões de habitantes.

Erdogan seduz os curdos e espera conseguir o apoio deles no referendo para a reforma da Constituição em 2014 para criar uma presidência forte. E a próxima aspiração do ambicioso e autoritário Erdogan é chegar à presidência depois de três mandatos como primeiro-ministro, mas ele quer uma chefia de Estado com poder e não cerimonial.

Com o esforço para criar um modus-vivendi com os curdos na Turquia, Erdogan melhora ainda mais suas relações com o governo semiautônomo curdo no Iraque. Os turcos estiveram entre os grandes beneficiados da guerra no Iraque, mas em boa parte suas exportações e investimentos em construção foram na região curda, sem contar os projetos energéticos. Esta intimidade do sunita Erdogan com os curdos deixa furioso o primeiro-ministro xiita do Iraque, Nouri al-Maliki.

Ao fechar o acordo com os separatistas curdos, os turcos esperam também acalmar militantes do Partido dos Trabalhadores no Curdistão, que atuam na Síria, agora com sinal verde do ditador Bashar Assad, que se tornou inimigo de Erdogan, partidário dos rebeldes na guerra civil. Um dos motivos que este acordo com Ocalan pode melar serão os esforços de sabotagem do regime Assad e seus aliados iranianos. Existe também resistência nacionalista dentro da Turquia.

Erdogan com Obama

Neste complexo jogo de xadrez geopolítico, outro lance, mediado pelo presidente americano Barack Obama, foi a reconciliação entre a Turquia e Israel. Foram três anos de disputa e o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu pediu desculpas por erros isralenses fatais na tomada da embarcação turca que levava ajuda a palestinos em Gaza, em 2010. Erdogan, de sua parte, recuou da mais virulenta retórica antiisraelense, como equiparar sionismo a fascismo.

Esta reconciliação também pode melar. De qualquer modo, Turquia e Israel são aliados estratégicos dos EUA e compartilham a preocupação com a instabilidade regional, a destacar na Siria, com o qual ambos fazem fronteira. Será interessante saber como a Turquia irá se comportar em caso de ataque israelense ou americano contra as instalações nucleares do Irã, país com o qual também tem fronteira e mantém muitos negócios, em meio à competição por liderança regional.

Com estes lances políticos e diplomáticos dos últimos dias, Erdogan confirma sua influência e sua condição de ator indispensável na região. Mais do que isto, ao aparar as arestas com os EUA e Israel, ele mantém um pé no Ocidente, ao mesmo tempo que avança no mundo árabe-islâmico, com a pretensão de vender um modelo de conciliação entre islamismo e democracia, em particular na esteira da Primavera Árabe. Erdogan flerta e suspeita da Europa. Os sentimentos são mútuos.

Querem mais? A pequena ilha de Chipre se tornou epicentro da crise financeira europeia, com investidores russos no meio da confusão e peão de um grande jogo de interesses energéticos, com seus promissores campos offshore de gás e petróleo. A ilha está dividida entre o sul greco-cipriota e o norte turco-cipriota. A maior parte das águas territoriais são reinvindicadas pelos turco-cipriotas, cuja república é reconhecida apenas pela Turquia.

Erdogan com Putin

Entre dois mundos (o Ocidente e o Oriente), a Turquia é isso aí: um pé para cá, outro para lá. Pena que o dançarino seja alguém como Erdogan, um paladino do autoritarismo, dirigente de um país campeão mundial de encarceramento de jornalistas. Com as reformas constitucionais, o plano de Erdogan é firmar uma presidência forte ao estilo francês. O risco é o de que seja uma mutação do modelo de Vladimir Putin, o presidente da Rússia, outro país com um pé para cá, outro para lá.

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Colher de chá para os comentários do General Failure e do Henrique, bem amarrados e articulados. 

Os crimes de rua e o criminoso regime iraniano

Lavagem de roupa suja no Parlamento

O mundo árabe atravessa as turbulências de uma transição em que os velhos regimes caem, são ameaçados ou resistem. O regime islâmico em Teerã já é ancien (nasceu em 1979) e tenta resistir em meio à podridão interna, à fluidez do cenário regional e ao cerco internacional devido ao seu programa nuclear. Como diz um bom sacador das coisas lá de dentro, Karim Sadjadpour, como tantos regimes autoritários, a república islâmica tem os atributos de uma enorme máfia. Este é um regime criminoso, em termos comuns e políticos.

Desde domingo, circulam os vídeos, imagens e relatos dos embates no Parlamento iraniano entre duas facções do regime: uma do presidente Mahmoud Ahmadinejad e a outra da família Larijani (a conversa é de Máfia, mas esta é também uma família no sentido mais familiar da expressão), com troca de acusações de chantagem e corrupção. O presidente do Parlamento é um Larijani (Ali), muto chegado ao líder supremo, o aiatolá Khamenei, que despreza Ahmadinejad, o pequeno monstro que fugiu ao controle do grande déspota religioso.

Embora tenha revelado suas aspirações para ser o primeiro astronauta iraniano, o objetivo imediato do presidente é fincar os pés na lama política depois das eleições de junho (não vai concorrer a um terceiro mandato), numa disputa em que só podem competir integrantes das “famílias” do mafioso regime islâmico. Oposicionistas que concorreram nas eleições fraudulentas de 2009, que deram a vitória a Ahmadinejad, agora estão em prisão domicliar.

A lavagem de roupa suja no Parlamento indica alguma erosão da autoridade do capo Khamenei. Esta sujeira escancarada é mais uma mancha para o regime, marcado por incompetência econômica, atuação terrorista no mundo, mentiras sobre o seu programa nuclear e repressão dentro de casa.

São crimes em várias escalas. As sanções internacionais em punição a um programa nuclear ilegal sem dúvida agravaram a pobreza neste país, que já teria ido para o espaço (e não apenas o suposto macaco enviado na semana passada),  sem suas receitas petrolíferas.

Um regime algoz e dois jovens

As indicações são de que as privações populares incrementaram o crime. Enquanto as facções lá em cima estão metidas na corrupção e desmandos em larga escala, o regime trata com rigor o populacho, com enforcamentos na principal praça de Teerã de acusados de roubo. No mês passado, foram enforcados dois jovens que roubaram e esfaquearam um homem. A vítima, que perdeu posses que valiam menos de 20 dólares, sobreviveu, mas mesmo assim os dois jovens foram condenados à morte e executados.

Existem fotos mais atrozes do que a publicada sobre enforcamentos no Irã, mas optei por esta dos dois jovens. Não vou fazer leitura da expressão de um deles, mas para mim é um tremendo impacto a imagem do rapaz aparentemente buscando o consolo no ombro do algoz.

De acordo com a organização Anistia Internacional, o Irã é país campeão mundial de enforcamentos patrocinados pelo estado (pelo menos 360 em 2011), mas o número é muito maior. O regime algoz quer intimidar a população com os espetáculos públicos de enforcamento.
Bem, de volta aos irmãos Larijani. O Ali, se pudesse, enforcava Ahmadinejad dentro do Parlamento. Outro, Sadegh, é aiatolá e chefia o Judiciário. Ele disse que os enforcamentos e o rigor são necessários nestes tempos poroblemáticos. Nas palavras dele, “precisamos aumentar os custos para aqueles que cometem os crimes de rua”. O crime supremo, sabemos, é este regime sórdido, que, além de enforcar os miseráveis, devora seus próprios filhos.
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Assunto Irã gera comentários passionais (e por incrível que pareça tem até apologista deste regime mafioso). Dou a colher de chá para o Pietro, por seu tom pessoal e analítico no comentário. E numa adendo um pouco bizarro, colher de café aos leitores que atenderam ao meu apelo e agora estão escrevendo os comentários com letras minúsculas.
E colher de chá para Gudrun (dia 6, 18:12), por comentário com arco histórico.

Um palco menor para Obama (e para os EUA)

O "novo começo" de Obama no Cairo em 2009

Os republicanos de Mitt Romney esperam que o discurso de Barack Obama nesta terça-feira na abertura da assembleia-geral das Nações Unidas tenha sido o último no palco internacional do presidente democrata em busca da reeleição. Para os republicanos, Obama recorre a uma oratória ingênua, ambivalente e apaziguadora que já deu para o gasto.

O presidente, no seu discurso nesta terça-feira condenou o vídeo com insultos a Maomé que deflagrou protestos no mundo islâmico, mas fazendo uma defesa do direito à livre expressão de forma cerebral e passional. O presidente lembrou ainda ser muito importante que pessoas no mundo islâmico se mobilizem contra a perseguição aos cristãos e a negação do Holocausto.

Para os republicanos, é hora do presidente sair de cena, especialmente agora que a cena está ocupada por protestos antiamericanos no mundo islâmico que apenas confirmam a fraqueza e o fracasso da política externa de um presidente que em 2009, cinco meses depois de assumir o poder, fez um discurso no Cairo, expressando a esperança de uma dinâmica diferente, “um novo começo”,  no relacionamento dos EUA com o mundo islâmico.

Não há dúvida que existe um custo político, e com urgência eleitoral, para Obama com os ataques republicanos e a percepção sobre sua fraqueza ou inabilidade para guiar o curso dos acontecimentos, em particular nas últimas semanas no mundo islâmico. Pesquisas mostram que, embora a aprovação geral do presidente nas pesquisas eleitorais tenha aumentado nas últimas semanas, ele perdeu pontos em política externa, uma de suas vantagens sobre o desafiante republicano Romney.

E sem os holofotes de uma campanha eleitoral, como examinar o desempenho de Barack Obama? Por cortesia do site The Atlantic, dois acadêmicos de Washington, especializados em Oriente Médio, trazem suas luzes, um mais asssociado aos conservadores (Michael Rubin, do American Enterprise Institute) e o outro aos liberais (Aaron David Miller, do Wilson Center).

Para Rubin, em larga escala fracassou o esforço de Obama para virar a página e superar a desconfiança mútua (EUA e mundo islâmico). Mas para Rubin, as ações de Obama após o discurso no Cairo não tiveram impacto decisivo porque não teria motivos para ter. Rubin aponta um certo narcisismo americano (graças a nós ou culpa nossa), como se tudo que acontecesse no Oriente Médio girasse em torno da política americana. No geral, republicanos maximizam o papel de Obama  e denunciam seu papel de porta-estandarte da caótica Primavera Árabe.

E Rubin se distancia da narrrativa republicana no sentido de que a morte de diplomatas americanos na Líbia e bandeiras americanas queimadas em todas as partes evidenciem a fraqueza da liderança Obama. Rubin salienta que existem décadas de frustração com opressão e falta de oportunidades econômicas. Ele até quantifica, dizendo que “80% do que vemos no Oriente Médio têm relação com política doméstica”. Os EUA são um pretexto. No entanto, Rubin responsabiliza Obama por ingenuidade, por estimar que sua mudança de tom traria mudanças substantivas.

Já Aaron David Miller diz que culpar Obama pelos protestos antiamericanos é “inapropriado”. Na linha de Rubin, ele argumenta que a influência dos EUA na Primavera Árabe é pequena na medida em que os eventos são movidos por forças além do controle de Washington. Um ambiente de liberalização permitiu que ressentimentos contra os EUA, acumulados sob governos republicanos e democratas, explodissem. Para Miller, que serviu no Departamento de Estado sob diferentes partidos na Casa Branca, “uma raiva profunda está enraizada no que é percebido como nosso apoio cego a Israel e fúria contra a politica de contraterrorismo”.

Para Miller, era natural que partidos islamistas triunfassem em eleiçoes democráticas pela disciplina e coerência na mensagem para seduzir as massas em países como o Egito. O resultado é, na sua expressão, a existência de uma “primavera islamista”. Ele diz que teria preferido uma mensagem mais dura de Obama ao presidente egípcio Mohamed Morsi depois que distúrbios violentos explodiram na sequência da divulgação de trechos de um filme que ridiculariza o profeta Maomé. Obama passou o pito mais tarde.

De sua parte, Michael Rubin observa que Obama errou ainda mais cedo, pois poderia ter feito mais para impedir que islamistas ganhassem o poder. Ele argumenta que a Casa Branca deveria ter apoiado forças moderadas e mais democráticas de forma vigorosa. Aqui vejo uma incorrência no raciocínio de Rubin. Afinal, ele é o mesmo que apontou menos capital de influência dos EUA.

Rubin critica a Casa Branca por terceirizar sua política externa, trabalhando nos eventos no Oriente Médio através de aliados como Turquia e Arábia Saudita. E o resultado é a consolidação de forças nem sempre afinadas com os interesses americanos. Aliás, podemos antever este cenário na Síria, onde sauditas e turcos são bem ativos para auxiliar os rebeldes que combatem o regime Assad.

Já Miller arremata que, apesar das bravatas de campanha, ele não espera grandes mudanças na política externa americana para o Oriente Médio, quem quer que vença em 6 de novembro. O teatro eleitoral tem suas emoções e suspense, mas mesmo sem ele é uma história de perigos e desafios para os EUA no grande drama do Oriente Médio, onde é menor o palco para a atuação da única superpotência planetária.

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Um pouco fora do contexto desta coluna, mas colher de chá para o Henrique (dia 25, 14:25), por suas observações sobre um outro discurso na manhã desta terça-feira no palco da ONU. 

Finas & Curtas (Ahmadinejad & Morsi)

Um abraço ambivalente

Semana de abertura da assembleia-geral das Nações Unidas em Nova York. Alguma boa notícia sobre a chatice? Pelo menos uma: será a última vez que Mahmoud Ahmadinejad terá o púlpito para despejar sua mensagem obscurantista e antissemita, com aquele sorriso imbecil.

O presidente iraniano está no final do seu segundo e último mandato. Desde sua primeira eleição em 2005, ele tem sido uma presença regular na cidade em setembro, ganhando um espaço descomunal na imprensa, dando a mesma entrevista odiosa ano depois de ano. Poderão vir outras figuras iranianas igualmente odiosas no seu lugar nos próximos anos, mas Ahmadinejad nunca mais pisará no meu pedaço. Mais complicado dizer se ele irá desaparecer do pedaço político iraniano.

E esta abertura da assembleia-geral das Nações Unidas é a estreia global de Mohamed Morsi, o presidente egipcio e ponta-de-lança de um novo, democrático, desafiador e islamista mundo árabe. Morsi recoloca o Egito em um papel de liderança populista no mundo árabe-islâmico, como não se via desde o tempo do  campeão do pan-arabismo Gamal Abdel Nasser. É um jogo pelo poder que ele disputa com países como Turquia, Arábia Saudita e o Irã.

Em entrevistas antes de chegar a Nova York, Morsi deu uma medida de sua ambiguidade. Tem um terno de presidente egípcio, mas veste a camiseta de dirigente da Irmandade Muculmana.  Quer amizade com os EUA de Barack Obama que ajudaram a puxar o tapete do ditador Hosni Mubarak, um tradicional  aliado ocidental, mas advertiu que Washington alimenta o antiamericanismo no mundo árabe devido à a sua aliança com Israel. Quer revisar o tratado de paz com Israel, mas insiste não desejar um conflito (e em termos militares seria uma insanidade para o seu país). Morsi promete melhorar as relações com o Irã, mas denuncia o apoio de Teerã ao regime sírio.

Morsi terá um auditório efusivo na assembleia-geral da ONU ao se colocar com paladino dos interesses palestinos. E como tantos dirigentes no mundo islâmico, Morsi joga para a plateia nesta última onda de incidentes antiocidentais que explodiu com a divulgação de um trailer de um filme que ridiculariza o profeta Maomé. Primeiro, ele deixou a banda dos protestos passar, mas deu uma recuada, com medo de descontrole nas ruas e por ter levado um pito americano.

O jogo de Morsi é a ambivalência, pois mistura as responsabilidades do cargo e o compromisso com a causa islamista. Ahmadinejad é um inimigo facilmente identificável. Morsi é uma figura complexa, que vai exigir jogo de cintura do Ocidente e de Israel.

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Nada inspirador para colher de chá. Prêmio acumulado.  Saiu a loteria. Telegrafo a colher de chá para o Praetor (dia 25, 1:15),  com saboroso trocadilho sobre o presidente egípcio.

Salman Rushdie e a intolerância satânica (e maquiavélica)

Já vimos este este filme. Agora é a vez da entrada em cena do xeque Hassan Nasrallah, líder do Hezbollah, o grupo xiita, extremista, terrorista, compactuado com o Irã, aliado do regime sírio e integrante o governo libanês. Nasrallah pediu uma semana de protestos contra o vídeo produzido nos EUA que insulta o profeta Maomé e que gerou manifestações antiocidentais em várias partes do mundo islâmico (e até fora dele). Nasrallah, que raramente aparece em público, disse que se trata de um insulto “sem precedentes”, pior que o romance Os Versos Satânicos, de Salman Rushdie, publicado em 1988, ou as caricaturas do profeta Maomé, publicadas na Dinamarca em 2005.

A queima do livro de Rushdie na Grã-Bretanha (na Grã-Bretanha!)

Neste filme, eu prefiro a narrativa de Salman Rushdie, o muçulmano indiano que com a publicação de sua blasfêmia foi alvo de uma fatwa do regime xiita iraniano em 1989. Estes protestos agora no mundo islâmico coincidem com a publicação das memórias de Rushdie. O nome é Joseph Anton, o pseudônimo que ele adotou por 13 anos como parte do seu esforço para se proteger do estado terrorista iraniano.

Para Nasrallah, um vídeo vagabundo como este produzido por provocadores nos EUA insulta mais do que a destruição de mesquitas pela artilharia do regime sírio ou as barbaridades praticadas pelo regime iraniano. Insulta mais do que a intolerância de radicais islâmicos (aí seria um caso de autoincriminação).

A celeuma hoje em torno deste filmeco e a que foi gerada pelo livro de Rushdie se inserem no conflito entre o iluminismo ocidental (razão, tolerância e, sim, diálogo, que muitas vezes é confundido com apaziguamento) e o radicalismo islâmico (teocrático, literal, intolerante e que muitas vezes descamba para o puro terrorismo).

Falando em iluminismo, Rushdie tem algo ilustrativo a dizer sobre o “nosso lado”.  Ao final de Joseph Anton, Rushdie reflete que não sabe se ele venceu ou não a batalha em torno dos Versos Satânicos. O autor está vivo (embora o regime iraniano também esteja), sua livre expressão não foi suprimida e o livro continua sendo impresso. Mas nas palavras de Rushdie, “o medo e as ameaças cresceram”.

Uma consequência da Primavera Árabe foi a ascensão salafista e, para o dissabor de Rushdie, liberais ocidentais se dobraram às sensibilidades das formas mais extremas do islamismo. Ele acredita que, hoje em dia, seu agente literário não conseguiria vender o manuscrito de um romance mais crítico do islamismo do que Os Versos Satânicos.

E aqui minha intervenção. Minto caso não assuma estar mais em casa com a provocação literária de Salman Rushdie do que com o filmeco vagabundo agora produzido. Infelizmente, na essência não há diferença em termos de liberdade de expressão. Digo infelizmente, pois a diatribe intelectual de Rushdie foi legítima (uma religião pode ter os seus Luteros, os seus apóstatas, os seus enfants terribles), enquanto o filmeco tem o propósito de jogar mais lenha na  fogueira, num espetáculo primata de islamofobia. Nada contra provocar o islamismo ou qualquer religião. Mas é com este vídeo que se vai  ao debate?

Como lidar politicamente com o desafio? As memórias de Rushdie refrescam a nossa memória sobre viver sob o decreto de morte do aiatolá Khomeini. Mas ele vai além. Rushdie explica o jogo político. Não podemos nos concentrar exclusivamente na indignação muçulmana contra sua blasfêmia (algo que o iluminismo incorporou à civilização ocidental). Havia a jogada dos líderes teocráticos iranianos para manter acesa a chama da revolução depois do desastre da guerra contra o Iraque e o empenho para fortalecer Teerã na luta pelo poder no mundo islâmico contra o reino saudita. Rushdie foi um pretexto para vitaminar uma teocracia terrorista que amargava sérios problemas.

Nas celeumas de agora, os salafistas (islamistas ainda mais radicais do que grupos como a Irmandade Muçulmana) e gente ainda mais fanática como a rede Al-Qaeda querem ganhar pontos na luta pelos corações, mentes e espaço político entre as massas nestas turbulências que marcam a Primavera Árabe. E figuras como o xiita Nasrallah querem desviar a atenção do seu pacto com regimes como os do Irã e da Síria, acossados pela maioria sunita no Oriente Médio, e focalizarem nos suspeitos habituais, como os EUA e Israel.

É o mesmo tipo de manipulação empreendida pelo regime terrorista de Teerã. Foi assim em 1989 com o aiatolá Khomeini. É assim em 2012 com o aiatolá Khamenei.

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Colher de chá para os madrugadores Maisvalia e Pedro I no debate sobre os dilemas satânicos da liberdade de expressão. E uma matinal para o Nehemias (dia 18, 9:25).

 

Rabiscos Estratégicos (Israel & Oriente Médio)

Protesto estudantil no Cairo contra Israel

Não é segredo que Israel acompanha com apreensão a volatilidade geopolítica no Oriente Médio. Por este motivo, é interessante acompanhar o raciocinio de Barry Rubin, judeu americano e acadêmico conservador influente, que circula nos meios militares e de inteligência em Israel. Na sua avaliação, as coisas estão melhores do que parecem para Israel na esteira da Primavera Árabe.

Para Rubin, será um período de batalhas internas, instabilidade e conflitos contínuos que irão reduzir a capacidade de países árabes lutarem contra Israel. Existe a óbvia ressalva do aventureirismo para desviar as atenções. Mas mesmo que ocorra algo neste sentido -e aqui Rubin é específico sobre Egito e Síria pós-revolução- , os países árabes terão menos capacidade militar para atuar de forma efetiva contra Israel. Hostilidade popular contra Israel não é novidade e já servia de válvula de escape antes da Primavera Árabe. Não mudou, por exemplo, nas ruas egípcias, mas, na estimativa de Rubin, os militares ainda controlam política externa e vão conter os ímpetos da Irmandade Muçulmana, agora no poder formal.

E as coisas não estão brilhantes para estrelas que buscam hegemonia regional no mundo árabe (embora não sejam árabes), casos da Turquia e Irã. A ascensão de movimentos islamistas sunitas na Líbia, Tunísia, Egito e Síria turva as ambições de um país que é herdeiro do império otomano e de outro que é persa e xiita. A condescendência do primeiro-ministro turco Recep Erdogan irrita o mundo árabe e os iranianos estão praticamente sem ativos não xiitas. Barry Rubin pontifica que o grande conflito no Oriente Médio no futuro não será entre árabes e israelenses, mas entre sunitas e xiitas e haverá a competição pelo controle de zonas mais movediças como Líbano, Síria Iraque e Bahrein.

Rubin é daquela escola mais otimista de que mesmo os regimes conservadores que sobrevivem em meio aos tumultos (a destacar Arábia Saudita) sabem que a maior ameaça deriva do Irã e de movimento revolucionário islamista e não de Israel. Na verdade, estas autocracias percebem que Israel é uma espécie de protetor.

Sobre a questão palestina, Rubin diz que os dirigentes palesitinos como Mahmoud Abbas mais uma vez desperdiçaram uma oportunidade histórica. Não tiraram vantagem das rusgas entre Israel e os EUA. Para Rubin, o governo Obama estava pronto para se tornar o mais pró-palestino da história americana. No entanto, a liderança palestina se recusou a cooperar com Obama, sequer topando em retomar negociações com Israel. Numa dura campanha eleitoral, Obama retorna para uma zona de conforto mais tradicional e mais pró-Israel.

Na sua análise, Barry Rubin passa quase batido pela questão nuclear iraniana (“ameaça no futuro” e fatores de contenção como pressões externas e problemas logísticos para construir a bomba).

Apesar de tudo, Rubin avalia que Israel e sua segurança estão em “boa forma”.  Ele não está tão apreensivo, embora naquelas bandas seja perigoso ser muito primaveril.
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Hoje vou ser leviano, primaveril. O assunto é sério, mas a colher de chá vai para a piada do Maisvalia (dia 17, 11:39)
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PS: Israel pode até estar relativamente em boa forma estratégica, mas dentro de casa é outra história. As informações nesta terça-feira são de implosão da grande coalizão de governo forjada há dois meses.

A Líbia e as estações políticas no mundo árabe

As tintas eleitorais e as tonalidades democráticas

Não vamos fazer muito onda sobre os resultados (ainda preliminares) das eleições parlamentares na Líbia, mas eles são uma brisa acolhedora na Primavera Árabe. Antes de tudo, foi a vitória do processo (perdão por este jargão): a eleição aconteceu, foi bem menos violenta do que se temia e teve comparecimento acima das expectativas (até em bastiões da ex-ditadura Kadafi). Para os padrões de transição na região, é um bom desfecho. Foi a vitória do pragmatismo sobre a ideologia religiosa.

A opção preferencial dos líbios (um país onde os partidos estavam banidos mesmo antes da ascensão do poder do ditador Kadafi em 1969) foi para para a Aliança das Forças Nacionais do ex-primeiro ministro interino Mahmoud Jibril e não para os grupos islamistas ou abertamente jihadistas. A aliança vencedora é liberal, embora o próprio Jibril não assuma o rótulo fácil,  para os padrões dos grupos que emergiram na Primavera Árabe e sua vitória contrasta com o triunfo eleitoral da Irmandade Muçulmana na Tunísia e Egito.

Jibril, educado nos EUA (como o presidente egípcio, Mohamed Morsi, da Irmandade Muçulmana), é um favorito das forças ocidentais que se envolveram na rebelião líbia no ano passado. Foi aquele que confrontou os islamistas dizendo: quem são eles para decidir quem é mais muçulmano? Claro que a identidade muçulmana está enraizada no mundo árabe, e vai florescer nesta Primavera Árabe, mas a proposta de Jibril é de um governo de coalizão, funcional, estável, que atraia capital estrangeiro e que faça o melhor uso possível da riqueza petrolífera.

Nada fácil se movimentar neste espaço exíguo num cenário ocupado de um lado por ditaduras amalucadas, ossificadas e sanguinárias (nas versões seculares e religiosas) e, do outro, por forças com legitimidade eleitoral, porém com pendores iliberais como a Irmandade Muçulmana.

Na Líbia, compromissos inclusive com forças extremistas serão necessários e problemas espinhosos existem, como a persistência de milícias armadas e divisões regionais e tribais, mas até agora o país desafia os prognósticos mais sombrios. Tem petróleo como o Iraque, mas não as mesmas divisões sectárias.

Bobagem qualquer celebração, mas tampouco um obituário desta Líbia pós-Kadafi (alguém ainda com saudades, precisando esbravejar que tudo piorou?). Em termos mais amplos, o cenário no Oriente Médio é fluido e incerto. Em países bem mais importantes do que a Líbia, como Egito e Síria, é dia atrás de dia de marchas e contramarchas.

Já que tantos teimam nas metáforas sobre esta primavera árabe se convertendo no inverno árabe (e o que existia antes das rebeliões?), vamos rebater que nestas transições existem todas as estações ao mesmo tempo.

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Colher de chá para Paulo Boccato e Ricardo Platero, pelas posições opostas. 

Ao vencedor, o Egito (uma batata quente)

Morsi, vitorioso, mas não faraônico

Mohammed Morsi não é uma figura faraônica, mas o poder simbólico de sua vitória eleitoral é indiscutível. No Egito que já foi governado por faraós, reis e ditadores, ele é o primeiro presidente eleito democraticamente. Funcionário da Irmandade Muçulmana (o termo técnico é apparatchik), Morsi também é o primeiro presidente de um partido islamista que chega ao poder no mundo árabe.

Morsi tem um mandato popular e legitimidade democrática, mas seus poderes são restritos. Os militares que capitaneiam a transição pós-ditadura Mubarak foram astutos para não melar sua vitória eleitoral. No entanto, eles manietaram o poder do futuro presidente. Têm poder de veto nas decisões do Executivo e assumiram poderes legislativos com a dissolução do Parlamento eleito democraticamente e que era controlado por partido islâmicos.

E os militares estão aferrados ao que se conhece como “estado profundo”, com seus tentáculos no aparato de segurança, no judiciário e nos negócios (por alguns cálculos controlam 40% da economia). Eles são um estado dentro do estado. Entramos em uma segunda fase da transição no Egito. A Irmandade Muçulmana e os militares são agora parceiros relutantes no poder e o grupo islâmico tem uma tradição de duplicidade.

Ele confronta e faz conluio com os militares. Na época dos protestos pela derrubada de Hosni Mubarak, se dizia que a Irmandade tinha um pé na praça Tahrir e o outro nos quartéis. Agora é a questão de saber até que ponto o grupo irá confrontar os militares para ampliar o seu poder. É um jogo delicado, pois ele precisa de aliados que a tratam com suspeita, como setores liberais e esquerdistas.

Ademais, a Irmandade precisa agir com pragmatismo para atrair investidores estrangeiros e trazer de volta os turistas, vitais para a economia local (como proibir álcool e biquini?). E não podemos esquecer que, embora a vitória eleitoral tenha sido legítima, este é um país polarizado, pois quase metade dos eleitores votaram em Ahmed Shaifk, um resquício da ditadura Mubarak, com sua promessa de restaurar lei e ordem e botar um frei no avanço islâmico. A Irmandade Muçulmana foi eleita pelo voto e resultados serão cobrados. Os militares foram astutos para aceitar a vitória e o primeiro discurso do vencedor Morsi foi conciliatório. O que mais eles poderiam fazer?

Na política externa, apesar da hostilidade a Israel e o desprezo pelo modo de vida ocidental, não há como visualizar rupturas imediatas, a destacar no acordo de paz com os israelenses. Ademais, lá está o poder de veto dos militares, que recebem ajuda dos EUA, o grande aliado de israel. Existe uma história de virulento antiamericanismo e antissemitismo na Irmandade Muçulmana. Com os EUA, o grupo buscou muitos contatos nos últimos meses para diminuir as preocupações. No entanto, não respondeu aos acenos de Israel para abrir canais de comunicação. Natural a apreensão israelense com a fluidez do cenário.

De novo, nenhuma supresa com o prontuário de duplicidade da Irmandade Muçulmana, capaz de um pragmatismo venal em algumas situações e e de rigidez fanática em outras. A vitória de Morsi foi bem recebida em algumas partes do Oriente Médio, como no pequeno, riquíssimo e autocrata Catar, que já se envolveu na queda de Muamar Kadafi no Líbia e apóia ativamente rebeldes da Irmandade Muçulmana que tentam derrubar a ditadura secular de Bashar Assad na Síria. No entanto, o grupo não conta com a mesma simpatia da ditadura fundamentalista sunita da Arábia Saudita, que o considera uma ameaça apenas menor do que o Irã xiita.

Com sua vitória democrática no mais populoso país do mundo árabe, a Irmandade Muçulmana significa uma redobrada injeção de ânimo para as rebeliões na região, mas será o seu desempenho como parceira no poder no Egito que dará uma medida mais precisa sobre as perspectivas da Primavera Árabe.  A Irmandade Muçulmana venceu, o Egito é outra história.

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Colher de chá para o comentário realista e cauteloso do Angelo (dia 25, 9:27). 

 

Curtas & Finas (Irmandade Muçulmana & Militares)

Morsi com os militares nas costas no dia da votação

Pela enésima vez, sabemos que será uma tragédia se os egípcios forem submetidos ou precisarem escolher por gerações entre uma teocracia ao estilo iraniano e um esclerosado estado policial. Fácil ser contra o neoMubarak Ahmed Shafik e o apparatchik da Irmandade Muçulmana Mohammed Morsi. Então vamos à provocação de um neoconservador americano, Max Boot, que, ainda por cima, é um dos inúmeros assessores da campanha do candidato presidencial republicano Mitt Romney. Repito, assessor de Romney e não de Barack Obama, que tantos conservadores (e o próprio Romney) consideram apaziguador e ingênuo.

De forma bem resumida, em política externa, os neoconservadores acreditam na promoção de democracia pelos EUA e ficaram conhecidos pelo otimismo que manifestaram com a invasão do Iraque em 2003, por eles endossada com entusiasmo. Com menos otimismo, muitos neoconservadores agora apostam nas perspectivas democráticas da Primavera Árabe e entre eles é comum apoio a uma intervenção na Síria.

Pois bem, nosso neocon Boot argumenta que será um erro para o governo americano cair na tentação e apoiar o golpismo dos militares egípcios. Aliás, outra plataforma neocon, a página editorial do Wall Street Journal, estima que estes generais são os principais responsáveis pela encrenca no Egito, pois sabotaram um plano de transição organizada do poder. O jornal questiona se, mais a longo prazo, os miltares possam vencer um duelo com a Irmandade Muçulmana.

De volta a Boot. Para ele, a longo prazo tampouco ficar com os militares é uma boa aposta estratégica. A melhor aposta a longo prazo é deixar a Irmandade Muçulmana exercer o poder e sofrer o descrédito. De fora, ela irá vestir o manto do martírio. No poder, o grupo precisará oferecer política de resultados e não mera resistência. Nos últimos meses, já pudemos ver o declínio da popularidade da Irmandade Muçulmana.

É possível rebater que demagogia e exércício autoritário do poder podem contrabalancar incompetência e falta de resultados (está aí o Irã dos aiatolás, onde, é verdade, o deus Petroleus deu uma ajuda), mas nada como desmistificar e colocar a Irmandade Muçulmana no seu devido lugar. Por ora, devemos admitir, os cenários parecem pouco promissores para quem aposta em uma democracia pluralista com proteção das minorias políticas e religiosas.

Curioso saber como será a convivência entre militares e a Irmandade Muçulmana se o confronto nos próximos dias não fugir ao controle. O país ansioso aguarda a divulgação dos resultados eleitorais, que não mais serão anunciados nesta quinta-feira, como se previra. Caso não se confirme a vitória da Irmandade Muçulmana (que, pelas evidências, realmente ganhou) ficará evidente que o neoEgito ainda tem muito do velho do moribundo Hosni Mubarak.

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Pessoal, a colher de chá vai para a moçada desiludida, mas que não deve perder as esperanças, no Egito, no fogo cruzado nesta briga de gaviões (militares e   Irmandade Muçulmana).  E uma colher de chá noturna para o leitor Rod (dia 21, 20:27), por um comentário que foge do padrão.

As irmandades muçulmanas no Oriente Médio

O rei Abdullah (de bengala) e irmão herdeiro, príncipe Salman

No Egito, temos a Irmandade Muçulmana com seu avanço ao poder contido pelos militares, em mais um destes lances confusos da curta Primavera Árabe que já parece tão longa. E lá no deserto saudita é o inverno de sempre com uma outra irmandade. É a dos filhos do rei Abdelaziz al-Saud, que fundou, em 1934, o moderno (e tão atrasado) reino montado num barril de petróleo.

O esquema ditatorial e geriátrico do poder saudita parece irmanado com o cubano, pois o trono passa de irmão para irmão. Quem manda hoje em Riad é o rei Abdullah, de 88 anos. Ele já sobreviveu nos últimos cinco anos a dois príncipes que indicou para sucedê-lo. O último, Naif, morreu na semana passada. Outro meio-irmão (papai Abdelaziz estava cheio de mulheres e de filhos, uns 45) acaba de ser formalizado como herdeiro. É o príncipe Salman, um garotão de 76 anos.

Esta irmandade saudita, casada com os interesses políticos e econômicos americanos, não morre de amores pela Irmandade Muçulmana ou este negócio de se tentar chegar ao poder pelo voto ou manifestar hostilidade antiamericana. É verdade que as duas irmandades estão, well, irmanadas no fundamentalismo islâmico sunita (a saudita nem tem estas nuances de pragmatismo, fruto de necessidade política, para americano e liberal verem). No reino saudita, impera o wahhabismo e sua rígida interpretação do islamismo.

As variações das irmandades são antissemitas, mas a família real saudita tem um modus-vivendi com Israel, especialmente com a existência do inimigo comum, o Irã persa e xiita. As informações esta semana são de satisfação em Riad e nas capitais dos paisecos do golfo Pérsico com o murchamento das flores da Primavera Árabe pelos militares egípcios.

Eles dissolveram o Parlamento, controlado pela Irmandade Muçulmana, e deixaram claro o seu poder de veto sobre as decisões do Executivo (a Irmandade alega que ganhou as eleições presidenciais de domingo, embora os resultados oficiais não tenham sido divulgados. Em marcha está uma dramática luta pelo poder no Cairo. Estes petroditadores suspeitam da ascensão da Irmandade Muçulmana, considerada a maior ameaça a estes regimes depois do Irã controlado pela teocracia xiita.

A loucura (samba do árabe doido?) é que os sauditas e seus priminhos do golfo Pérsico estão à frente da campanha de desestabilização (e possível derrubada) do regime de Bashar Assad na Síria, que pode desembocar com a filial local da Irmandade Muçulmana no poder. Mas quem mandou Assad ser aliado dos iranianos e russos e contrário aos interesses ocidentais? De sua parte, países ocidentais são seletivos na indignação com as barbaridades no mundo árabe (e Irã), poupando sauditas e potentados do golfo dos sermões em públicos sobre valores universais, como liberdade e igualdade.

Meir Dagan, ex-chefe do Mossad, o serviço secreto israelense, estimou em entrevista à BBC de Londres que a Arábia Saudita irá impedir loucuras antiIsrael com um eventual novo regime em Damasco e que o risco compensa desde que o Irã saia enfraquecido desta encrenca síria. Mas como controlar estas coisas?

Estas transições políticas no mundo árabe são confusas, tumultuadas, sangrentas e podem ser revertidas, como mostra o Egito. Já a Arábia Saudita espera assegurar uma transição mais suave com a escolha de Salman como príncipe herdeiro. Ele é conhecido por favorecer estes laços econômicos e políticos com o Ocidente. Desde novembro, Salman é ministro da Defesa e antes, por 50 anos, foi governador da província de Riad, onde empreendeu uma política de modernização, que, obviamente, nao tem nada a ver com democracia. É o negócio de incentivar mais educação, construir estradas, arranha-céus e shopping-centers.

Naif, o príncipe herdeiro que morreu na semana passada, era bem mais barra pesada e se chegasse ao trono poderia inclusive reverter algumas  reformas cosméticas, como um pouco menos de controle religioso na educação ou permitir que mulheres estudem no exterior. Nos últimos anos, o reino saudita tem vacilado entre empreender algumas reformas modernizantes (de novo, que não devem ser confundidas com democracia ou liberdade) e aplacar os clérigos que exigem pureza religiosa. Salman é visto como menos hostil a algumas mudanças no tratamento das mulheres (para as quais não existe o conceito de cidadania), mas, de novo, não deve ser saudado como defensor de um islamismo mais liberal.

Enquanto isto, o reino enfrenta múltiplos problemas seculares. Existem as receitas petrolíferas que permitem sucessivos programas ao estilo bolsa-família para impedir que floresçam protestos (e quando acontecem não são tratados com delicadeza). O índice de desemprego é de 40% entre os jovens (embora 90% de todos os trabalhadores no setor privado sejam estrangeiros). Num país com este domínio geriátrico e obscurantista, 80% da população têm menos de 20 anos.

Há inquietação social, embora os sinais sejam de que o rei Abdullah seja popular. Há mais informação sobre o mundo, não apenas dentro da imensa famiíia real e apaniguados que podem viajar para o exterior, gastar nos cassinos e estudar nas melhores universidades. Hoje há 10 milhões de usuários na Internet na Arábia Saudita. Eram 500 mil há uma década. Pipocam os pequenos gestos de protestos que são uma sensação na Internet, como as corajosas mulheres que desafiam a proibição para dirigir carro ou uma que enfrentou a patrulha religiosa em um shopping-center ao ser censurada por ter esmalte na unha

A família Saud espera garantir o poder para os filhos, netos, bisnetos e tataranetos do rei Abdelaziz. Mas melhor não confundir estagnação com estabilidade. uma lição para ditaduras religiosas ou seculares.

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Colher de chá bem matinal para a Anouk (dia 20, 8:37), por sua história da princesa saudita. 

 

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