25/03/2013
às 6:00 \ Chipre, Curdos, EUA, Europa, Irã, Iraque, Israel, Mundo Árabe, Mundo islâmico, Oriente Médio, Primavera Árabe, Rússia, Síria, TurquiaEu não sou fã de Erdogan, mas…
Continuando a frase do título desta coluna, eu tiro o chapéu para o primeiro-ministro turco. São impressionantes as conquistas nos últimos dias de Recep Tayyip Erdogan para se tornar o maior líder do seu país desde Kemal Ataturk, o pai da Turquia moderna, que surgiu das cinzas do Império Otomano, e também para consolidar sua liderança regional. Erdogan inclusive tem apelado ao chapéu de estilo cossaco que era usado por Ataturk.
Foram dois lances: um deles pegou o mundo de surpresa e eu explico mais para a frente. O mais coreografado foi a trégua com os separatistas do Partido dos Trabalhadores do Curdistão, uma organização definida como terrorista na Turquia, Europa e EUA. Seu líder Abdullah Ocalan, que está em confinamento solitário há 14 anos em uma ilha, acertou com as autoridades o acordo. Os rebeldes devem baixar as armas e lutar politicamente por suas aspirações, que também baixaram.
O conflito já custou 40 mil vidas em 30 anos, quase todas curdas. Ao invés do sonho da independência para os curdos da Turquia, haverá aceitação de um estado unitário, com língua, cultura e direitos da minoria respeitados. Tudo isto inscrito em uma reforma da Constituição.
Os curdos são um povo sem pátria, que tiveram suas aspiraçães traídas por ingleses e franceses, com a derrota do Império Otomano na Primeira Guerra Mundial e vivem espalhados pela Turquia, Síria, Iraque, Irã e Armênia. Na Turquia, eles representam 20% dos 75 milhões de habitantes.
Erdogan seduz os curdos e espera conseguir o apoio deles no referendo para a reforma da Constituição em 2014 para criar uma presidência forte. E a próxima aspiração do ambicioso e autoritário Erdogan é chegar à presidência depois de três mandatos como primeiro-ministro, mas ele quer uma chefia de Estado com poder e não cerimonial.
Com o esforço para criar um modus-vivendi com os curdos na Turquia, Erdogan melhora ainda mais suas relações com o governo semiautônomo curdo no Iraque. Os turcos estiveram entre os grandes beneficiados da guerra no Iraque, mas em boa parte suas exportações e investimentos em construção foram na região curda, sem contar os projetos energéticos. Esta intimidade do sunita Erdogan com os curdos deixa furioso o primeiro-ministro xiita do Iraque, Nouri al-Maliki.
Ao fechar o acordo com os separatistas curdos, os turcos esperam também acalmar militantes do Partido dos Trabalhadores no Curdistão, que atuam na Síria, agora com sinal verde do ditador Bashar Assad, que se tornou inimigo de Erdogan, partidário dos rebeldes na guerra civil. Um dos motivos que este acordo com Ocalan pode melar serão os esforços de sabotagem do regime Assad e seus aliados iranianos. Existe também resistência nacionalista dentro da Turquia.
Neste complexo jogo de xadrez geopolítico, outro lance, mediado pelo presidente americano Barack Obama, foi a reconciliação entre a Turquia e Israel. Foram três anos de disputa e o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu pediu desculpas por erros isralenses fatais na tomada da embarcação turca que levava ajuda a palestinos em Gaza, em 2010. Erdogan, de sua parte, recuou da mais virulenta retórica antiisraelense, como equiparar sionismo a fascismo.
Esta reconciliação também pode melar. De qualquer modo, Turquia e Israel são aliados estratégicos dos EUA e compartilham a preocupação com a instabilidade regional, a destacar na Siria, com o qual ambos fazem fronteira. Será interessante saber como a Turquia irá se comportar em caso de ataque israelense ou americano contra as instalações nucleares do Irã, país com o qual também tem fronteira e mantém muitos negócios, em meio à competição por liderança regional.
Com estes lances políticos e diplomáticos dos últimos dias, Erdogan confirma sua influência e sua condição de ator indispensável na região. Mais do que isto, ao aparar as arestas com os EUA e Israel, ele mantém um pé no Ocidente, ao mesmo tempo que avança no mundo árabe-islâmico, com a pretensão de vender um modelo de conciliação entre islamismo e democracia, em particular na esteira da Primavera Árabe. Erdogan flerta e suspeita da Europa. Os sentimentos são mútuos.
Querem mais? A pequena ilha de Chipre se tornou epicentro da crise financeira europeia, com investidores russos no meio da confusão e peão de um grande jogo de interesses energéticos, com seus promissores campos offshore de gás e petróleo. A ilha está dividida entre o sul greco-cipriota e o norte turco-cipriota. A maior parte das águas territoriais são reinvindicadas pelos turco-cipriotas, cuja república é reconhecida apenas pela Turquia.
Entre dois mundos (o Ocidente e o Oriente), a Turquia é isso aí: um pé para cá, outro para lá. Pena que o dançarino seja alguém como Erdogan, um paladino do autoritarismo, dirigente de um país campeão mundial de encarceramento de jornalistas. Com as reformas constitucionais, o plano de Erdogan é firmar uma presidência forte ao estilo francês. O risco é o de que seja uma mutação do modelo de Vladimir Putin, o presidente da Rússia, outro país com um pé para cá, outro para lá.
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Colher de chá para os comentários do General Failure e do Henrique, bem amarrados e articulados.

















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