Deus salve as rainhas
Nada, porém, de fazer diatribes. Este pessoal sabe organizar um show. Um pouco de distração não deve escandalizar. Por que não tratar o espetáculo com indiferença, sem hostilidade? Estou com o punhado de republicanos britânicos, mas não vou me insurgir pela causa antimonárquica. Estou aqui me curvando ao inevitável e tampouco quero ver as cabeças da realeza rolarem.
Monarquia é uma idiossincrasia da briosa democracia em Britannia. E os súditos podem se dar ao luxo desta indulgência, a favor ou contra, ou seja, mesmo aqueles furiosos com a extravagância. Afinal, são dias de menos civilidade e mais amargura no país-ilha. A economia não ajuda. Vamos nos preocupar mais em denunciar ditaduras por aí e não fazer galhofa do Reino Unido (nem, em contrapartida, tratar de forma muito solene). Também não me interessa expor as travessuras da corte. Tablóides e paparazzi dão conta do recado (e com galhardia). E já existe um excesso de picardia entre colunistas. Quem sou eu, por exemplo, para competir com Christopher Hitchens? Entrem no site Slate.
Melhor ainda. Vou poupar meus súditos de muita sociologia sobre o que representa a entrada de Kate Middleton (tataraneta de mineiro de carvão pelo lado materno) na Casa de Windsor. O casamento não diz muito sobre mobilidade social, cinderelas, a plebéia e o príncipe. A possível futura rainha conheceu Willliam na Universidade St. Andrews, que, como lembra o jornal Financial Times, é famosa pelo campo de golfe e pela reputação para moças e moços de famílias afluentes (aristocratas e burguesas) conseguirem um bom casório.
Chega de Kate e William. Vamos ser corteses e desejar que sejam felizes para sempre no casamento. Parece ser um bom par. Meu negócio é com a rainha Elizabeth. Ela tem mais tempo de trono do que eu de vida. É uma figura familiar, que transmite segurança e reconfortante continuidade (não estendo as sensações ao longevo Fidel Castro). A rainha, de fato, é parte da minha vida. Sou paulistano e desde moleque fui sócio do “clube inglês” (o São Paulo Atlhetic Club), lá numa travessa da Consolação. A rainha está emoldurada na minha memória. O retrato dela pendurado na sede do clube, além de outros royals.
É verdade que ultimamente ficou tudo misturado. E é para confundir, pois a monarquia em Britannia é um espetáculo institucionalizado. Adorei o filme A Rainha, que, no final das contas é um manifesto a favor da monarquia. Sua Majestade do cinema, Helen Mirren, está venerável naquele retrato da capacidade da rainha dar a volta por cima depois da morte da princesa Diana e salvar a monarquia da desmoralização total e do frenesi populista. Nem vou discutir aqui se a rainha errara ou não com sua reação inicial (frígida e distante) à morte de Diana, mas impressiona a monarca estóica naquela comoção. A rainha ficou e a carruagem da comoção passou. Elizabeth e Helen transmitem o senso de dever, acima das contingências. A rainha está aí para servir, ela é uma funcionária pública (embora com muitas mordomias, que ficam mais gritantes nestes tempos de cortes orçamentários).
A rainha Elizabeth tem se provado uma boa presidente (opa!) da firma (a expressão também é do Financial Times), antenada para recauchutar a marca, quando a legitimidade da Casa de Windsor é questionada. A aquisição de Kate Middleton aparentemente valoriza a marca. A rainha se sobrepõe à imagem da realeza ser apenas um flagrante de celebridades metidas em escândalos, ociosidades ou negociatas. Há os privilégios, mas também o sacrifício entediante em nome das instituições, aguentando o primeiro-ministro de plantão, solenidades inúteis e espetáculos de dança folclórica em quaquer viagem pelo exterior.
A Casa de Windsor têm estes componentes Disney-Hollywood-tablóide-paparazzi, mas também é o elo de coesão social, nacional e nos resquícios da Comunidade Britânica. O segredo para os sucessores do trono será exercer o papel com a mesma mecânica e arcaica dignidade da rainha Elizabeth, mesmo sendo um pouco mais moderninhos.



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