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Arquivo da categoria Monarquia

05/06/2012

às 6:00 \ Espanha, Grã-Bretanha, Monarquia

Curtas & Finas (Rei Juan Carlos I)

O rei e a presidente - Foto Pedro Ladeira/France Presse

A semana real é da rainha Elizabeth II e seu jubileu de diamante, mas vamos dar atenção a outro monarca que não está sendo muito festejado por seus súditos. É o rei Juan Carlos I, da Espanha. Ele veio esta semana para a América do Sul (Brasil e Chile), chefiando uma delegação empresarial que caça negócios. Pobre Espanha, na maior pindaíba. Mas o sentimento de compaixão não se estende ao monarca de 74 anos. Esta foi sua primeira viagem ao exterior deste a excursão em abril para Botsuana, na África, para caçar elefantes.

Os súditos só souberam da viagem porque Juan Carlos I retornou para Madrid após sofrer queda na cabana onde se hospedava para ter uma cirurgia de emergência de implante de prótese de quadril. Os ferimentos políticos foram profundos. Houve críticas à paixão do rei -que é presidente honorário da filial espanhola da ONG conservacionista World Wildlife Fund- por caçada de animais,  mas muito mais por ter dado uma de Maria Antonieta: uma viagem opulenta enquanto 25% dos súditos estão desempregados. Até um jornal conservador como El Mundo escreveu que Juan Carlos I “transmitiu uma imagem de indiferença e frivolidade”. E existe a história trágica com armas de fogo na vida do rei. Aos 18 anos ele matou por acidente com uma pistola o irmão mais novo, Afonso, que tinha 14 anos

O monarca acabou pedindo desculpas pelo vexame tamanho elefante, mas desde a democratização da Espanha nos anos 70, não se ouvia com tanta intensidade que o imperador está nu. Os Bourbons não costumavam ser devassados como a família real britânica e seus escândalos. Mas isto agora é frequente na Espanha. E um foco é o genro do rei, Iñaki Urdangarin, que está sendo investigado por fraude e corrupção.

Como os tempos mudaram. O rei sempre foi respeitado por seu papel de encorajamento na transição da ditadura franquista para a democracia. Sua reputação se consolidou quando agiu rapidamente durante uma tentativa de golpe em 1981. Eu pessoalmente gostei quando o reizão espanhol mandou Hugo Chávez calar a boca (o antológico “por qué no te callas”?), numa reunião da Cúpula Ibero-Americana, no Chile, em 2007. Meu rei, por que tu caças?

Existe a idéia de que a Espanha seja mais “juancarlista”‘ do que monarquista, com os súditos bem menos apegados à instituição do que nas ilhas da rainha Elizabeth. Se for assim, a monarquia espanhola que se cuide, pois o caçador virou caça.

***
Colher de chá para o Antonio (dia 5, 10:57), por um argumento interessante comparando a rainha Elizabeth e o rei Juan Carlos. Estendo a colher de chá a vários leitores que questionaram o argumento, entre eles, Rodrigo, Patricia, Carmem e Ricardo Platero. Se mais algum quiser a premiação por este motivo que se apresente. Bom debate. E uma colher de chá (com xícara de porcelana), para o Magno (dia 5, 14:24) pelo apanhado histórico e comparações entre as monarquias da Grã-Bretanha e Espanha. Rccomendo a leitura.

04/06/2012

às 6:00 \ Grã-Bretanha, Monarquia

A rainha está salva, Deus salve os outros britânicos

O dever cumprido da Elizabeth II no Tâmisa

Deus salve a rainha….das intempéries, da chuva tão britânica e dos aborrecidos rituais. De resto, ela está salva, mais complicada é a situação dos súditos. Fico feliz pelo jubileu de diamante de Elizabeth II. Para todos nós, plebeus, ela é como família, muito familiar, a mulher mais conhecida do mundo (sorry, Lady Gaga). Está tão próxima e tão distante (sentimento mútuo). E sou muito solidário. Imagine aguentar os 60 anos de suplício no cargo?

Até bacana a procissão de barcos no rio Tâmisa, no domingo, pertinho de casa, festa ensopada e a rainha altiva, de pé, na balsa real. Mas, coitada dela, com esta vida de rituais (400 compromissos formais por ano), assistindo a uma dança tribal em algum Cuavutugu, tomando nota de algum escândalo na corte ou precisando escutar o relato das coisas do governo na audiência semanal ao primeiro-ministro de plantão. Já foram doze que se curvaram. Começou com o herói salvador da pátria Winston Churchill e agora é um tal de David Cameron.

A rainha se comporta com dignidade, quando seu longo reinado não reflete o momento mais glorioso da história britânica. Sua coroação aconteceu dias depois de Edmund Hillary e Sherpa Tenzing terem conquistado o monte Everest, um neozelandês e um nepalês no cume do mundo, representando um império onde o sol nunca se punha.

O cume imperial ocorrera bem antes, no jubileu de diamante da rainha Vitória em 1897. Elizabeth “presidiu” o desabamento do império ao longo das duas primeiras décadas do seu reinado. Mesmo a sobrevivência do núcleo, o Reino Unido, pode ser colocada em dúvida, com o referendo em 2014 sobre a independência da Escócia, Mas, de novo, vamos nos curvar à dignidade da rainha. Ela abraçou com classe o papel reduzido. Existe esta conversa da monarquia britânica ser um brand, com fenomenal capacidade de autopromoção e autorenovação (sai Lady Di, entram William & Kate), mas o crédito corporativo deve ir mesmo para esta matriarca, que trabalha sem reclamar e com calma.

Ela teve alguns tropeções nesta era midiática, como na morte de Lady Di, mas se recuperou com maestria e não se curva. Elizabeth II é popular sem ser populista. Existem os dramas midiáticos e os genuínos (a família dá muito desgosto e muitos dos integrantes carecem de compostura), mas podemos contar com este comportamento estóico na rainha, firme aos 86 anos, aguentando a chatice do ritual. A monarquia britânica nunca teve uma taxa de aprovação tão alta como agora. Dá até pena a convicção dos republicanos fanáticos.

Churchill, o primeiro primeiro-ministro a se curvar

Em um mundo de rupturas, Elizabeth II é continuidade. Eu cresci no clube inglês em São Paulo (cada vez menos inglês), no bairro da Consolação. No hall, toda minha vida, vi o retrato da rainha. Enquanto isto, o Brasil foi de Getúlio a Dilma. Provavelmente a rainha é imortal, mas se um dia ela faltar ao serviço, há uma certa inquietação com o que o herdeiro Charles pode fazer e falar, com suas causas pessoais e excentricidades.

Elizabeth II sabe exercer o cerimonial. Carrega o fardo de forma acidental,  porque o tio abdicou para ficar com sua americana divorciada e o pai (o rei gago Colin Firth, sorry, George VI) assumiu o trono. Muitos sonham com mudanças na linha sucessória, indo da matrona diretamente para o casal telegênico William & Kate. Melhor não se apressar.

O valor monárquico está no ritual e a sabedoria da rainha discreta foi se ajustar de forma dosada às mudanças (até concordou em pagar imposto de renda sobre sua fortuna privada). É uma proeza o seu sucesso em meio ao declínio nacional. Portanto, o respeito que os britânicos nutrem por ela não deve ser confundido com apoio eterno a mandato dinástico, em um país que está curtindo um feriadão de quatro dias, em meio à recessão, austeridade, sérios problemas sociais e escarranchado entre o continente e os EUA. O clima de feriado deve se estender até os Jogos Olímpicos de Londres no final de julho, mas não são tempos de Cool Britannia.

A rainha não filosofa em público sobre os desafios, mas ela já viu muita água passar debaixo da Ponte de Londres. Max Hastings, um arguto observador de cena britânica, disse que Elizabeth II sempre entendeu a coisa mais importante sobre um moderno monarca constitucional: ela ou ela ser julgado pelo o que são e não pelo o que fazem. A rainha não se mete em política, não toma partido, não abusa do cargo e permanece solidamente no convencional. Deus salve o entusiasmo real dos britânicos por sua monarca especialmente diante da dificuldade para preservar instituições tradicionais em tempos tão dinâmicos. Parabéns para Elizabeth II pelo jubileu de diamante. Ela é uma rocha. Vamos esperar que suas ilhas também sejam.

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Colher de chá para o Ricardo Platero (dia 4, 12:10), pela sacada da pontualidade do chá das 5, abs, Caio 

27/04/2011

às 6:00 \ Grã-Bretanha, Monarquia

Deus salve as rainhas

Tim Graham/Getty e Divulgação

Advertência ou boa notícia: além desta referência adiante, o texto não irá mencionar os termos Obama e Oriente Médio. Já entenderam, né? Vou tocar naquele assunto do momento. O mundo está cheio de pseudoeventos. O casamento Will and Kate é apenas mais um, embora um pouco excessivo.

Nada, porém, de fazer diatribes. Este pessoal sabe organizar um show. Um pouco de distração não deve escandalizar. Por que não tratar o espetáculo com indiferença, sem hostilidade? Estou com o punhado de republicanos britânicos, mas não vou me insurgir pela causa antimonárquica. Estou aqui me curvando ao inevitável e tampouco quero ver as cabeças da realeza rolarem.

Monarquia é uma idiossincrasia da briosa democracia em Britannia. E os súditos podem se dar ao luxo desta indulgência, a favor ou contra, ou seja, mesmo aqueles furiosos com a extravagância. Afinal, são dias de menos civilidade e mais amargura no país-ilha. A economia não ajuda. Vamos nos preocupar mais em denunciar ditaduras por aí e não fazer galhofa do Reino Unido (nem, em contrapartida, tratar de forma muito solene). Também não me interessa expor as travessuras da corte. Tablóides e paparazzi dão conta do recado (e com galhardia). E já existe um excesso de picardia entre colunistas. Quem sou eu, por exemplo, para competir com Christopher Hitchens? Entrem no site Slate.

Melhor ainda. Vou poupar meus súditos de muita sociologia sobre o que representa a entrada de Kate Middleton (tataraneta de mineiro de carvão pelo lado materno) na Casa de Windsor. O casamento não diz muito sobre mobilidade social, cinderelas, a plebéia e o príncipe. A possível futura rainha conheceu Willliam na Universidade St. Andrews, que, como lembra o jornal Financial Times, é famosa pelo campo de golfe e pela reputação para moças e moços de famílias afluentes (aristocratas e burguesas) conseguirem um bom casório.

Chega de Kate e William. Vamos ser corteses e desejar que sejam felizes para sempre no casamento. Parece ser um bom par. Meu negócio é com a rainha Elizabeth. Ela tem mais tempo de trono do que eu de vida. É uma figura familiar, que transmite segurança e reconfortante continuidade (não estendo as sensações ao longevo Fidel Castro). A rainha, de fato, é parte da minha vida. Sou paulistano e desde moleque fui sócio do “clube inglês” (o São Paulo Atlhetic Club), lá numa travessa da Consolação. A rainha está emoldurada na minha memória. O retrato dela pendurado na sede do clube, além de outros royals.

É verdade que ultimamente ficou tudo misturado. E é para confundir, pois a monarquia em Britannia é um espetáculo institucionalizado. Adorei o filme A Rainha, que, no final das contas é um manifesto a favor da monarquia. Sua Majestade do cinema, Helen Mirren, está venerável naquele retrato da capacidade da rainha dar a volta por cima depois da morte da princesa Diana e salvar a monarquia da desmoralização total e do frenesi populista. Nem vou discutir aqui se a rainha errara ou não com sua reação inicial (frígida e distante) à morte de Diana, mas impressiona a monarca estóica naquela comoção. A rainha ficou e a carruagem da comoção passou. Elizabeth e Helen transmitem o senso de dever, acima das contingências. A rainha está aí para servir, ela é uma funcionária pública (embora com muitas mordomias, que ficam mais gritantes nestes tempos de cortes orçamentários).

A rainha Elizabeth tem se provado uma boa presidente (opa!) da firma (a expressão também é do Financial Times), antenada para recauchutar a marca, quando a legitimidade da Casa de Windsor é questionada. A aquisição de Kate Middleton aparentemente valoriza a marca. A rainha se sobrepõe à imagem da realeza ser apenas um flagrante de celebridades metidas em escândalos, ociosidades ou negociatas. Há os privilégios, mas também o sacrifício entediante em nome das instituições, aguentando o primeiro-ministro de plantão, solenidades inúteis e espetáculos de dança folclórica em quaquer viagem pelo exterior.

A Casa de Windsor têm estes componentes Disney-Hollywood-tablóide-paparazzi, mas também é o elo de coesão social, nacional e nos resquícios da Comunidade Britânica. O segredo para os sucessores do trono será exercer o papel com a mesma mecânica e arcaica dignidade da rainha Elizabeth, mesmo sendo um pouco mais moderninhos.

 

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