Curtas & Finas (Primavera Asiática)
Neste domingo, 1 de abril, tem eleição em Mianmar, o remoto e sofrido país asiático. É preciso acreditar que não será de mentira. A frágil tigresa da resistência democrática, Aung San Suu Kyi, uma favorita desta coluna, faz uma aposta que o voto será de verdade. Existe uma supreendente mudança no país, um exemplo de “primavera asiática”. Uma truculenta junta militar ficou mais civilizada e resolveu patrocinar uma abertura, algo no ritmo Ernesto Geisel de distensão lenta e gradual. Com a necessária cautela, Suu Kyi, Prêmio Nobel da Paz e sempre comparada a Nelson Mandela, é fiadora deste processo.
Neste domingo, estarão em jogo apenas 48 das 650 cadeiras do Parlamento até agora fantoche. Suu Kyi concorre a uma delas por seu partido, a Liga Nacional pela Democracia, que projeta ganhar 2/3 das cadeiras em disputa. Países ocidentais acompanham com atenção e caso concluam que teve lugar uma votação livre e limpa, devem começar a suspender sanções contra Mianmar. (atualização: esta coluna tão subjetiva dá os parabéns para o anúncio não oficial da eleição de Suu Kyi para deputada, por uma margem esmagadora, como se previa)
A abordagem mais flexível de Suu Kyi contribuiu para que ela costurasse coalizões com bolsões reformistas dentro deste regime brutal e corrupto, íntimo da ditadura chinesa, que está no poder desde 1962. O atual presidente, Thein Sein, hoje fardado de paletó e gravata, é o promotor destas mudanças que incluem medidas contra corrupção, reformas econômicas e libertação de presos políticos. A própria Suu Kyi teve revogada a prisão domiciliar. Há duas décadas, ela fez uma aposta em reformas e perdeu. A junta militar não reconheceu uma estrondosa vitória eleitoral do seu partido, não permitiu que assumisse o poder e empreendeu uma bárbara repressão.
Como nos tempos da abertura política brasileira, existem bolsões radicais nos meios militares de Mianmar. Um golpe nunca pode ser descartado para reverter os avanços, assim como impaciência na oposição com o cauteloso ritmo de Suu Kyi. Esta distensão política é precária e personalizada. É ilustrativo que os dois fiadores, Suu Kyi e o presidente Thein Sein, estejam em um frágil estado de saúde. Suu Kyi, 66 anos, não tem óbvios herdeiros políticos, ela que é uma figura icônica, filha do herói da independência nacional. Se o processo avançar, uma etapa posterior será Suu Kyi conquistar a presidência em eleições programadas para 2015. Até lá será necessária sua transformação de ícone dissidente em líder política com a mão na massa e propostas concretas. Antes, é claro, será o teste da verdade das reformas democráticas neste 1 de abril.
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Conversa desgalhou um pouco, mas colher de chá para Amauri e Maisvalia pelos comentários desta sexta-feira sobre democracia.





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