Pelas Malvinas, vamos chorar pela Argentina
Irresistível tirar vantagem da data redonda, nesta segunda-feira, dos 30 anos da invasão argentina das ilhas Malvinas/Falklands, para recorrer à citação do escritor Jorge Luís Borges de que o conflito entre Grã-Bretanha e Argentina pela posse daquelas ilhas barrentas no Atlântico Sul era o equivalente a dois carecas brigando por um pente. Está bem, é mais do que um pente: tem petróleo, lula, ovelha, este treco pomposo de honra e o debate solene sobre identidade nacional (sem esquecer a autodeterminação dos “nativos”, 90% deles de origem britânica).
A frase de Borges é hilária, mas tudo o que envolve a conversa sobre Malvinas/Falklands tem componentes tragicômicos (649 soldados argentinos e 255 britânicos mortos). O cômico em 1982 era isto mesmo: de um lado, estava um império colonial já careca (e desdentado) e, do outro, uma ditadura brutal comandada pelo general beberrão Leopoldo Galtieri. Naquele começo dos anos 80, a primeira-ministra conservadora Margaret Thatcher, na esteira de inclinação do antecessor trabalhista James Callaghan, queria ajustar um cronograma para se livrar da possessão (para o desgosto dos “nativos”).
E, de certa forma, as linhas de qualquer solução negociada foram traçadas naqueles dias: um compromisso através do qual as ilhas se tornariam território soberano argentino, mas com governo autônomo e modo de vida britânico, algo vagamente ao estilo do acordo que os britânicos costuraram com a China sobre Hong-Kong. Mas era difícill uma conversa sóbria com os inebriados generais argentinos, em particular Galtieri. Eles recorreram a um dos truques mais manjados da demagogia politica para distrair as atenções da vergonha que era aquele regime: a patriotada.
E vamos chorar por muito tempo pelos argentinos, vamos chorar pelos “soldaditos conscriptos”, bucha de canhão na aventura miilitar e, em geral, pela cidadania que se comportou e ainda se comporta de forma imbecil. Vamos lamentar as massas que denunciavam uma ditadura infame e que de uma hora para outra passaram a saudar os generais-bandidos que decidiram invadir as ilhas. Mais de um milhão de argentinos se congregaram na Plaza de Mayo para festejar Galtieri, o herói beberrão da pátria. Saíram os generais, mas permanece o fetiche nacionalista, agora a cargo de Cristina Kirchner.
Este negócio de meu país, certo ou errado, está errado. O resultado pode ser um pesadelo nacionalista. Isto foi tão flagrante com os déspotas militares argentinos. O verdadeiro conflito fronteiriço deles era com com o Chile, na disputa pelas ilhas no canal de Beagle. O controle significa grandes vantagens em termos de águas territoriais e direitos sobre a Antártida.
Nunca seria fácil dobrar os chilenos e assim os militares argentinos tramaram algo conhecido com “plano Rosario”: primeiro ocupar as Malvinas/Falklands e depois as ilhas de Beagle. O plano fracassou. Houve a derrota para os britânicos. E aí a Argentina foi forçada a aceitar a mediação do Vaticano no conflito com o Chile. Em 1985 um tratado concedeu as ilhas para os chilenos e, apesar da rima fácil, as Malvinas ainda não são argentinas.
A rigor, como diz um dos meus jornalistas ingleses favoritos, John Carlin, os argentinos têm uma dívida de gratidão com Margaret Thatcher. O fiasco da aventura militar há 30 anos enterrou a ditadura militar. Thatcher libertou os argentinos. É uma pena que a tragicomédia continue…como estamos carecas de saber.
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Colher de chá (mate) para o Rodrigo(dia 2,12:38), pelo choro justo. E outra colherada para o Fernando (dia 2, 13:28), comentário saboroso. E colher de chá mate noturna para o Felipe (dia 3, 20:52) e suas considerações sobre solidariedade burra.



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