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Arquivo da categoria Mali

Viva o New York Times, o bagel nosso de cada dia

A matriz da "bagelaria" em Manhattan

Max Boot é referência para mim. Especialista em política internacional e história militar, Boot é conservador e contumaz crítico de artigos do mais liberal New York Times. Mas no seu blog na edição digital da revista Commentary, ele considerou essencial elogiar o jornalão, que é o “bagel nosso de cada dia” (meu, do Boot e de uma multidão que prestigia a qualidade e importância do New York Times).

O motivo é a campanha de assédio cibernético que foi movida através de hackers pela ditadura chinesa contra o jornal (outras publicações foram alvejadas também ), em represália à documentada investigação jornalística, exibindo a vasta e corrupta fortuna acumulada pelo primeiro-ministro Wen Jiabao e família.

Boot saudou a integridade do nosso bagel” e lembrou que organizações jornalísticas com os recursos e a independência do New York Times podem produzir material desta profundidade e peitar qualquer infame esquema todo-poderoso (como VEJA sempre faz no Brasil).

Boot tem toda razão. Mesmo quem discorda da linha editorial do New York Times precisar torcer por seu sucesso empresarial e isto vale também para publicações com linhas distintas na iniciativa privada. Lucros são essenciais para que sejam mantidos estes investimentos investigativos no capitalismo democrático. Sem publicações como o New York Times, haverá um sério prejuízo de livre informação de qualidade para todos.

Vou dar uma rápida medida do que o New York Times ofereceu no fim-de-semana, apenas na área desta coluna, que é política internacional. Primavera Árabe é um negócio muito complicado, em que não faltam sacações definitivas de “especialistas” de poltrona sobre tudo quanto é buraco do mundo, dizendo que representa isto ou aquilo (veja eu na foto, hehehe).

De repente, nas manchetes estão crises como Mali (intervenção militar francesa contra jihadistas) e Argélia, (sangrenta tomada de reféns por terroristas islâmicos em uma refinaria), tão enroladas como o conflito AfPak (Afeganistão e Paquistão), onde se misturam agendas locais, regionais e globais, ambições ideológicas e pessoais, num jogo de intrincadas alianças, jogo duplo, jogo triplo, tudo bizantino. Nós sacamos e lastreamos nossa sacada bebendo em fontes originais, como o New York Times, naquela tal história de primeiro rascunho da história.

O New York Times recorreu a três tarimbados repórteres (na África do Norte e em Nova York) para contar a história de um islâmico senhor da guerra, Yyad Ag Ghali. Em casa, a Argélia é brutal para combater militantes islamistas, mas azeitou o poder de Ghali no Mali. Como o Paquistão, a Argélia tem aliados e inimigos entre grupos extremistas e criminosos. Para quem tiver paciência para tentar entender a complexidade das coisas nestes cafundós, eu recomendo a leitura da reportagem, um alerta contra nossos julgamentos, feitos de forma instantânea, como se conhecessemos com intimidade os caminhos do labirinto (ou do deserto).

Esta reportagem estava na edição impressa do jornal, no sábado (que coragem, aliás, colocar este tipo de assunto bizantino e remoto na capa). Já na edição de domingo, ficando apenas na área de política internacional, o New York Times tinha reportagens de sua própria equipe (não de agências) despachadas da Argélia, Mali, Egito, Paquistão, Índia, Islândia, Alemanha, Espanha, Turquia, Rússia e Venezuela, além de um balanço da gestão de Hillary Clinton como secretária de Estado, produzido em Washington.

No auge da guerra do Iraque, com a crise econômica explodindo nos EUA e a mídia vivendo suas aflições de transição do impresso para o digital, foi ponto de honra para o New York Times manter sua robusta sucursal em Bagdá (e com equipe de segurança para proteger seus jornalistas e funcionários) a um custo de US$ 3 milhões anuais.

Claro que não devemos dar apenas só vivas ao jornal por sua cobertura internacional. São brindes com sobriedade. Pela direita, alguém como Max Boot critica o jornal, que também leva cascudos do outro lado, por ter bebido veneno de suas fontes, apesar de seus recursos investigativos. Basta ficar no caso da própria guerra do Iraque, pois o New York Times embarcou na história das armas de destruição em massa de Saddam Hussein que não existiam.

Mas muito crédito ao New York Times. Custa caro preparar este “bagel nosso de cada dia”, mastigado lentamente ou meramente engolido .

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Colher de chá para a Andrea (dia 4, 10:19), leitora fiel que dera uma sumida. Não suma! 

31/01/2013

às 6:00 \ França, Mali, Síria

Curtas & Finas (Mali & Síria)

Libération!?

Legion d’Honneur para as tropas francesas que impediram o pior no Mali, com a intervenção no país africano contra as legiões jihadistas. Mas na expressão francesa, há uma sensação de déjà vu. Uma tropa ocidental ágil e bem equipada ocupa cidades e inimigos fanáticos batem em retirada. Voilà! Missão cumprida?

Há a expectativa de que agora  forças locais ou regionais possam impedir que os fanáticos retornem (embora nunca tenham partido, pois se enfiaram em esconderijos no deserto ou nas montanhas). Vital que a comunidade internacional não permita um vácuo de poder no Mali, um risco presente no Afeganistão com a partida em 2014 das tropas ocidentais (e aqui tomo cuidado para não fazer comparações entre duas realidades tão diferentes).

E este enorme, até ontem ou anteontem desconhecido para quase todos nós, país africano representa desafios geopolíticos circunscritos que nem se comparam à enormidade da encrenca síria no contexto do Oriente Médio e da Primavera Árabe. São guerras com trajetórias diferentes. A Síria é um símbolo de inação e relutância da comunidade internacional (Conselho de Segurança da ONU travado e países ocidentais avessos a uma intervenção), enquanto a França, e não os EUA, de forma unilateral mostrou agilidade no Mali, em nome dos seus interesses nacionais, tradição de atuação nas ex-colônias e preocupação com o avanço do terrorismo islâmico na África.

Em comum, nas crises do Mali e da Síria, temos o cenário de radicais islâmicos, identificados com a rede Al-Qaeda, que sequestraram lutas de rebeldes contra governos centrais. Há perspectivas um pouco mais promissoras no Mali diante de um consenso regional e multilateral para estabilizar o país. A França, aliás, tem muita familiaridade (paternalista) com o país.

No caso da Síria, há complexos rachas internos (ideológicos, sectários e étnicos), sem falar de rivalidades regionais (Irã ao lado do regime Assad e os regimes sunitas apoiando os rebeldes) e globais (países ocidentais associados aos rebeldes e Rússia ao governo de Damasco).

A Síria é um conflito crescentemente caótico, com riscos de ampliação regional. Basta ver os informes de quarta-feira sobre uma ação aérea israelense no país, alvejando um comboio com sofisticadas baterias de mísseis antiaéreos russos destinadas ao Hezbollah, a milícia xiita libanesa, que é aliada do regime de Damasco. É tudo tão caótico que, pelo menos neste caso, Israel e grupos rebeldes sirios (inclusive jihadistas) têm uma desconfortável afinidade de interesses.

Por ora, as tropas francesas contiveram as amputações praticadas por jihadistas no Mali em nome de uma interpretação transloucada da lei islâmica, a sharia. Legion d’Honneur para os franceses. A hemorragia continua na Síria, em grande parte responsabilidade do regime. Desonra para Bashar Assad e sem condecorações para o resto do mundo, que não sabe o que fazer, como agir.

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Acima já dei as medalhas, aqui embaixo dou a colher de chá para os soldados franceses no Mali.

14/01/2013

às 6:00 \ África, França, Mali, Mundo islâmico

E nós com o Mali?

Jihadistas argelinos no Mali

Esta aí a pergunta: e nós com o Mali? Para a resposta, eu concedo a palavra para o secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon. Para dar uma medida da desolação sobre o país africano, ele deixou de falar em naçõesunidês e foi direto ao ponto: “O norte da Mali corre o risco de se tornar um santuário permanente para terroristas e redes do crime organizado onde as pessoas são submetidas a uma estrita interpretação da lei sharia e os direitos humanos são abusados em uma base sistemática”.

Com seu senso de urgência, o Conselho de Segurança da ONU decidiu no final do ano passado despachar tropas africanas neste próximo setembro para estabilizar a situação no Mali. Não deu para esperar, enquanto o país é mutilado e jihadistas, entre outros bárbaros crimes, mutilam braços e pernas de suspeitos de crimes no norte do país, agora por eles controlado. Lá estão filiais da rede Al-Qaeda e as brigadas internacionais do jihadismo.

A tragédia humana realmente ganhou urgência estratégica quando os jihadistas passaram a avançar para o sul do país. Mas estamos diante de um desafio mais amplo e que ajuda a explicar a decisão francesa, na sexta-feira, de uma intervenção militar, agora reforçada pelo envolvimento de atores regionais e apoio ocidental, dando sustentação ao alquebrado governo local.

Uma quixotesca missão francesa?

O Mali e outros países da região se tornaram uma espécie de nova fronteira do extremismo jihadista na era pós-Afeganistão. Ironicamente, o Ocidente se envolve no Mali quando os EUA aceleram o desengajamento no Afeganistão. Lembra-se? Era o santuário da rede Al-Qaeda até a invasão de 2001 na sequência dos atentados do 11 de setembro. Mas temos este moto contínuo, de ir remendando os estragos jihadistas onde existem oportunidade e oportunismo.

Sabemos da carga colonial francesa (ou britânica) na África, mas isto não deve nos conduzir para uma conversa cheia de clichês sobre desígnios neoimperialistas. Os velhos imperialistas são países cansados, com seus imensos problemas internos, mas ainda têm algumas responsabilidades geopolíticas, impulsos morais e interesses econômicos. Allez! 

O colonialismo saliente agora é exercido pelo jihadismo empenhado em implantar esta mais estrita interpretação da lei islâmica no Mali, numa grotesca e ignóbil aliança com rebeldes separatistas e traficantes de drogas. Sim, muitos destes rebeldes eram mercenários de Muamar Kadafi na Líbia e voltaram bem equipados para o seu país, com o fim do regime e a morte do déspota em 2011. São efeitos colaterais. E esta intervenção francesa terá outros, como mortes de inocentes no fogo cruzado e possíveis retaliações terroristas.

Com resignação, mas também convicção, eu digo que esta intervenção de uma ex-potência colonial no Mali é justa e necessária. Alguma outra opção imediata? Eu não a conheço. No final do ano passado,  a revista The Economist foi no ponto quando previu que o “maior desafio em 2013 na África para seus governos e o Ocidente será reverter a maré extremista, especialmente quando a rede Al-Qaeda se move do oeste, do Oriente Médio, para as areias do Saara.” Isto dito, não podemos esquecer cenários dantescos como o do Congo.

Existe um arco de atuação do jihadismo terrorista ao longo do norte da África, do nordeste para o noroeste. Serão necessárias complicadas alianças envolvendo paises africanos, organismos multilaterais e o Ocidente para combater o jihadismo. O Mali é urgente, mas está aí a Nigéria, o país mais populoso (dividido entre muçulmanos e cristãos) e maior produtor de petróleo do continente, onde atua o grupo jihadista Boko Haram, com especialidades como matar “infiéis”, sequestrar ocidentais e queimar igrejas. Seus militantes inclusive estão no Mali.

A operação francesa é limitada e não está muito claro o que pode alcançar, além de conter o avanço jihadista. Uma medida de sucesso irá exigir um envolvimento de longo prazo no Mali, por ora fora dos planos. Paris anunciou que o engajamento deve persistir por algumas semanas. Basta ver que alguns resultados positivos na luta na Somália, outro santuário do terror islâmico do outro lado do norte da África, levaram anos para serem concretizados.

Muitos dos governos onde os jihadistas atuam na África são horríveis, com sua corrupção, ineficiência e brutalidade, Mas, apesar da sensação quixotesca de que não há muito para fazer além de minorar a tragédia ou dar alguns pitacos como os franceses agora, não é possível ficar de braços cruzados em meio à mutilação.

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Colher de chá para Simon Tisdall, que escreve no jornal The Guardian, com uma visão muito cética sobre a operação francesa no Mali.

Curtas & Finas (Pobre Mali)

Amotinados em Mali - Foto AFP

No mês passado, este colunista tão idealista contou uma história edificante: O Mali, país de vasta maioria islâmica e um dos mais miseráveis do mundo (embora seja o terceiro maior produtor de ouro na África), ao menos, era uma democracia estável há duas décadas. E as eleições no mês que vem poderiam emplacar o primeiro mórmon na presidência de um país no mundo. Se eleito, Yeah Samaké ganharia a parada do republicano americano Mitt Romney (isto, é claro, se ele derrotar o democrata Barack Obama em novembro).

Mas hora de improvisar o roteiro. Temos más noticias sobre o Mali. Militares se amotinaram esta semana contra o governo de Amadou Toumani Touré, aliado dos EUA e da França, a ex-metrópole colonial.  Maior confusão no pobre Mali. O próprio presidente Touré fora um comandante militar que dera um golpe, mas supervisionou a transição para a democracia e se dispôs a cumprir as regras do jogo. Naquele roteiro bem familiar, os amotinados de agora prometem restaurar a ordem democrática, assim que der.  A fúria estava se avolumando desde janeiro na tropa quando uma rebelião de integrantes do grupo étnico tuaregue se disseminou por cidades no norte do Mali.

A rebelião resultou em mais de 200 mil refugiados e foi fortalecida pelo retorno de mercenários tuaregues que estavam na folha de pagamentos do ex-ditador líbio Muamar Kadafi (ganhavam dez mil dólares para topar o trabalho e mil por dia de serviço para o tirano morto e linchado em outubro passado). Os amotinados reclamavam há meses de falta de equipamentos e mesmo comida, acusando o governo de incompetente. Enfrentam insurgentes mais treinados e com armamento mais sofisticado que trouxeram da Líbia. Mais um motivo para lamentar as assombrações de Kadafi.

Ainda torço por estas eleições democráticas em Mali. Imagino que Mitt Romney esteja muito ocupado para se concentrar na crise naquelas bandas distantes, mas ela terá implicações históricas para ele. Repetindo o ponto, se as coisas não se normalizarem no país africano, Romney tem chances de ser o primeiro presidente mórmon no mundo. Só falta combinar com os eleitores americanos, que talvez não se amotinem (nas urnas) contra o status quo.

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Pessoal, a colher de chá vai mesmo para o pobre do Yeah Samaké.

24/02/2012

às 6:00 \ África, Mali, Mórmons, Romney

Curtas & Finas (Yeah Samaké)

Um mórmon na presidência

Mitt Romney primeiro precisa vencer as primárias republicanas e depois derrotar o democrata Barack Obama em novembro para se converter no primeiro mórmon na presidência americana. Muitos obstáculos pela frente. E na corrida dos mórmons, Romney provavelmente perderá para Yeah Samaké. Ele caminha para vencer as eleições presidenciais de abril no Mali -o desolado e miserável país na África Ocidental- e assim se tornar o primeiro chefe de estado mórmon no mundo.

Como Romney, Samaké tem uma família bonita e experiência, tanto na vida privada, como pública. Ele é prefeito de Ouéléssébougou uma cidade com 35 mil habitantes e sua campanha de anticorrupção é considerada um modelo. Samaké está em uma condição inusitada. Ele é mórmon num país cuja população é 90% muçulmana e segue uma religião que até recentemente considerava os negros espiritualmente inferiores. Como explicar esta jornada improvável?

Nos anos 80, Samaké entrou em contato com uma organização de Utah (o estado dos mórmons nos EUA) que fez parceria com empreendedores em Mali para melhorar as perspectivas de saúde, educação e da economia no país. A ética de trabalho e a devoção comunitária de Samaké impressionaram um casal mórmon, que patrocinou a ida dele para os EUA.  Samaké se converteu em Nova York  no ano 2000 e depois foi estudar na Brigham Young University, em Salt Lake City (Utah). Lá, Samaké obteve um mestrado em administração pública, apaixonou-se por uma estudante da Índia, que também se converteu ao mormonismo. Em 2004, ele criou uma fundação dedicada a construir escolas e treinar professores no Mali.

Os frutos do trabalho de Samaké comprovam os esforços da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias (mórmon) para realizar trabalho missionário e humanitário na África, um continente que ela basicamente passava ao largo até os anos 70. Romney, por exemplo, fez  trabalho missionário na França no final da década de 60. Samaké garante que temas como corrupção, pobreza e segurança são mais importantes para os eleitores de Mali do que sua identidade mórmon. Aliás, a população pouco sabe sobre a religião e em geral se refere a Samaké como um “cristão”.

Eu não vou a meter a entendedor da vida em Mali, mas será que os habitantes daquele remoto país africano estão mais maduros para aceitar um presidente mórmon do que tantos eleitores americanos?

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Colher de chá para o Angelo (dia 24, 12:30), pelos comentários francos e educados sobre os mórmons.  E outra para Sorales (dia 25, 10:38), pelo relato da perspectiva mórmon.

 

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