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Primeira Impressão (Islamistas)

Na semana que vem, teremos o primeiro turno das eleições presidenciais egípcias, mais uma fase de uma turbulenta transição pós-ditadura Mubarak, parte do turbulento processo que é a primavera árabe. Este processo não foi iniciado por partidos islamistas, mas agora eles tiram proveito de oportunidades democráticas ou de rachaduras na velha ordem em diversos países do Oriente Médio e norte da África para adquirir poder.
Portanto, vamos saudar a chegada do livro The Islamists Are Coming, editado por Robin Wright, uma veterana jornalista americana, muito chegada no Oriente Médio e que hoje está no Wilson Center, em Washington. São mais de 50 partidos islamistas no mundo árabe e o livro, com uma introdução de Robin Wright e ensaios de 10 especialistas, rastreia o que está acontecendo na Argélia, Egito, Jordânia, Líbano, Líbia, Marrocos, terrritórios palestinos, Síria e Tunísia.
Rótulos são complicados, mas algumas tendências são detectadas. Exceto Hezbollah, no Líbano, e Hamas (territórios palestinos), estes partidos islamistas não possuem braços armados e não pregam um conflito frontal contra Israel, embora hostilidade ao estado judeu e antissemitismo sejam componentes flagrantes. Ademais, existem condenações da rede Al-Qaeda e de jihadistas armados. que também tentam atuar no meio da encrenca. Basta ver o que está acontecendo na Sïria.
Importantes eventos históricos influenciam a atuação destes partidos, a destacar a revolução iraniana de 1979, a guerra contra os soviéticos no Afeganistão (1979-1989) e a guerra civil na Argélia (1992-1999). São eventos como triunfo de revoltas populares contra ditadores pró-ocidentais (Irã), de resistência à invasão de terras islâmicas (Afeganistão) e da possiblidade de vencer eleições parlamentares (Argélia).
Mas a experiência da Frente Islâmica de Salvação, na Argélia, que venceu o pleito mas foi derrotada por um golpe, mostrou a necesidade de um jogo político astuto e gradualista para permitir a ascendência do conservadorismo religioso. Variantes da Irmandade Muçulmana (Tunísia e Egito, por exemplo) exercem este jogo cauteloso.
A ascensão de partidos islamistas pelo voto gera uma conversa interminável sobre o que significa usar a liberdade para coibir a liberdade. Afinal, eleitos, partidos islâmicos podem reprimir liberdades individuais e perseguir minorias. Podem ser partidos democráticos (refletem a vontade da maioria), o que não é o mesmo que liberalismo.
No paradigma-alerta de Fareed Zakaria,  existem também democracias iliberais. E um corolário interminável desta conversa interminável é se islamismo é compatível com liberalismo, mesmo em países fora da esfera da primavera árabe, onde a democracia já está supostamente consolidada, como o caso da Turquia.
No livro editado por Robin Wright, as variáveis de desempenho econômico e de governança são trazidas para tentar entender vislumbrar o desfecho da primavera árabe. Os partidos islamistas que eventualmente irão adquirir e exercer o poder terão legitimidade através de bem-sucedidas políticas econômicas e governança de resultados. Não basta implementar a lei de sharia ou sonhar com um califato.
Discutir moralidade pode mobilizar a massa e desviar as atenções mas, no final das contas, os islamistas precisarão propor modelos de geração de empregos, baixar a inflação e atrair capital estrangeiro. Bastar que já existe um pouco de fadiga com a Irmandade Muçulmana no Egito, que comanda o Parlamento, e que as eleições presidenciais podem resultar na vitória de Amr Moussa, uma figura proveniente da velha ordem ditatorial.
Há um consenso no livro que desempenho econômico irá determinar o futuro político destes partidos. Mas sempre está aí o exemplo iraniano em que preservação no poder também é devida a outros fatores como repressão, fervor religioso, inimigos externos que desviam as atenções dos problemas internos e nacionalismo.
Também é importante lembrar como nesta primavera árabe, com o foco na Irmandade Muçulmana (vista como mais inclinada à cautela e ao pragmatismo), foi subestimado o avanço de grupos mais fundamentalistas, como os salafistas. São grupos que expressam posições rígidas em questões sociais e oposição ao sistema democrático de governo, embora participem de eleições.
Os ensaios no livro deixam em aberto questões como se os partidos islamistas estão realmente dedicados ao compromisso democrático e à tolerância, embora a prática será o teste (esperamos que não fatal). A linguagem ambígua, vaga e contraditória de partidos islamistas alimenta o ceticismo e o temor de seus opositores, como minorias religiosas, mulheres e liberais, além de integrantes da velha ordem ditatorial.
A história ainda está sendo rascunhada, mas os islamistas já chegaram para participar dela.
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Colher de chá para o Lexikon.

09/12/2011

às 6:00 \ Livros

Primeira Impressão (Melhores do ano)

O meu querido jornalão Financial Times, como de hábito, foi rápido no gatilho para fazer o listão de melhores livros de não-ficção de 2011. A seleção inclui categorias como negócios & economia, história, política, ciência, esportes, artes, música, arquitetura, filmes, culinária, moda e viagens. É um périplo ao longo de duas páginas. Preciso aqui encurtar a viagem e vou fazer apenas uma seleção da seleção para os leitores. Duas más notícias: trata-se do meu arbítrio e todos os livros recomendados pelo Financial Times são em inglês, embora já seja possível encontrar alguns em português.

*Steve Jobs: The Exclusive Biography, de Walter Isaacson. A biografia foi antecipada devido à morte do fundador da Apple, já com a pretensão de ser a história definitiva da vida e obra de Jobs.

*Jerusalem : The Biography, de Simon Sebag Montefiore. Um estudo épico e absorvente sobre esta cidade, cujas modernas rivalidades religiosas, politicas e étnicas só podem ser entendidas no contexto de três mil anos de história.

*The End of the West: The Once and Future Europe, de David Marquand. A Europa é epicentro da atual crise mundial e o livro é uma espécie de epitáfio. Pessoalmente, espero que seja prematuro.

*A Contest for Supremacy: China, America and the Struggle for Mastery in Asia, de Aaron Friedberg. Um estudo lúcido sobre a luta pelo poder entre a ainda única superpotência mundial e o poder ascendente, especialmente abrangente nos aspectos militares.

* Deng Xiaoping and the Transformation of China, de Ezra F. Vogel. A biografia do homem que transformou como poucos o mundo no século 20, com sua receita de “leninismo de mercado” para a China, mesclando abertura econômica e repressão política.

*That Used To Be Us: What Went Wrong with American and How It Can Come Back, de Thomas L. Friedman e Michael Mandelbaum. Título longo para uma questão curta: como os EUA podem reagir à nova dinâmica mundial?

* The Better Angels of Our Nature: The Decline of Violence in History and Its Causes, de Steven Pinker. Um esforço impressionante para tentar explicar a natureza cada vez mais pacífica da civilização humana. Na minha opinião, o livro do ano, aqui resenhado em outubro.

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Pessoal, boas notícias, os problemas técnicos estão sendo sanados. A faxina está funcionando. Em breve, será possível conversar e não apenas liberar os comentários.

01/04/2011

às 6:00 \ Geopolítica, Livros

Políticos mentem para o bem da nação (primeiro de abril?)

A mentira estratégica- Foto John Kennedy Library

Em homenagem ao primeiro de abril, vamos contar algumas verdades, indo além de obviedades e piadinhas. Líderes políticos mentem, mas por que fazem isto? John Mearsheimer, professor da Universidade de Chicago, acaba de publicar um livro sobre o tema (Why Leaders Lie, Oxford University Press). Mearsheimer não está aí para devassar falcatruas e diatribes retóricas de políticos. ao estilo Kadafi ou ao nosso familiar nunca-na-história-deste-país. Ele restringe sua lorota à política internacional e tampouco está interesssado em falar da mentira para ganhos pessoais,

Seu assunto é a mentira estratégica, para o bem da pátria. Mearsheimer é um utilitarista. Sendo tautológico, ele vê utilidade na mentira, em particular em segurança nacional, negando o absolutismo de Kant, para o qual sempre é errado mentir, “a maior violação do dever do ser humano para si mesmo” (até no primeiro de abril?).

A bem da verdade, o livro é meio fraquinho, escrito às pressas, material compacto (160 páginas). Mas há idéias interessantes. A conclusão mais afiada é que líderes de países democráticos mentem mais do que os autocratas. A razão é simples: ditadores precisam fingir menos e a autoridade deles não deriva do povo. Líderes democratas precisam recorrer à enganação, pois devem satisfações ao distinto público.

Também é mais comum que governos mintam mais para o seu povo do que para seus pares, na medida em que a opinião pública tende a confiar nos seus líderes, enquanto a relação entre os governos já é de mais desconfiança. Aliás, em entrevistas, Mearsheimer lembrou que as revelações nos últimos meses do site Wikileaks confirmam sua tese. Os documentos mostram que existem mais mentiras dos lideres a seus cidadãos do que a outros países. Aliás também é sempre bom lembrar a pérola de Henry Wotton, um diplomata inglês do século 17: “Embaixador é o homem honesto enviado para o exterior para mentir para o bem do seu país”.

Governos muitas vezes mentem para dar curso a uma política correta, mas impopular ou arriscada. Assim, a mentira estratégica é basicamente uma ferramenta na arte de governar. O exemplo supremo de Mearsheimer é John Kennedy na crise dos mísseis em Cuba, em 1962. O líder soviético Nikita Khrushchev somente concordaria em retirar seus mísseis de Cuba, se os americanos tirassem os seus da Turquia, Kennedy concluiu que não poderia revelar à opinião pública este acordo e Khrushchev não deu os detalhes. O presidente americano disse ao líder soviético que mentiria em nome do interesse maior. De fato, impedir uma guerra nuclear é um motivo que justifica a mentira, que acaba se tornando nobre.

As idéias de Mearsheimer flertam com o cinismo e ele se resguarda, advertindo que mentir ameaça a saúde moral de um estado, ao criar uma “venenosa cultura de desonestidade”. Mas Mearsheimer não resiste. Ele arremata que no jogo internacional um dirigente deve mentir de forma seletiva e bem. Verdade?


 

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