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Arquivo da categoria Líbia

17/05/2013

às 6:00 \ Benghazi, Escândalos, Líbia, Obama

Atrás da fachada, o grande escândalo líbio de Obama

Milícias no cerco de ministérios em Trípoli

Na trindade de escândalos que assolam o governo Obama, o primeiro foi Benghazi, o caso do ataque terrorista em 11 de setembro de 2012 à missão diplomática na cidade líbia que resultou na morte do embaixador americano e mais três pessoas. Benghazi explodiu na campanha eleitoral do ano passado e continua sendo o mais convoluto, com o governo minimizando o impacto e os republicanos maximizando. Os outros escândalos são o grampeamento de telefones de jornalistas da agência AP e o alvejamento pela receita federal de grupos conservadores para o escrutínio de mais calibre.

O debate sobre a resposta do governo é extremamente legítimo (tanto na questão da falta de segurança em uma missão diplomática num lugar tão barra pesada, como no contorcionismo retórico do governo para explicar o que aconteceu, no calor de uma campanha eleitoral). Sorry pelo trocadilho, mas neste escândalo há mais fumaça do que fogo.

No entanto, há um escândalo político mais amplo no contexto líbio. Eu pessoalmente fui a favor da intervenção ocidental na Líbia em 2011, que culminou na queda e morte selvagem do ditador Muamar Khadafi. O escândalo está no day after. Está na falta de zelo do governo Obama para contribuir de forma resoluta na reconstrução da Líbia.

Até hoje, o governo de plantão em Trípoli carece de condições para controlar o país, onde pipocam milícias. Grupos rebeldes continuam armados, em aberto desafio ao estado. O Parlamento se submeteu a bandoleiros que tinham cercado os ministérios da Justiça e das Relações Exteriores, exigindo legislação que negasse emprego público a quem tivera alta posição no governo de Khadafi, que ficou quatro décadas no poder.

Destruir um regime infame é apenas a primeira fase (e alguns infames, como o de Bashar Assad, são duros e muito atrozes na queda), numa longa marcha de reconstrução. Obama nunca foi chegado em intervenções humanitárias e seu projeto estratégico é contrair a presença americana no Oriente Médio. A Líbia foi um acidente de percurso nesta trajetória, aconteceu e exigia responsabilidade. Mas contribuir para a estabilização de um país custa caro e leva tempo.

Max Boot, um dos meus estrategistas conservadores favoritos, vai no ponto. Tomado pela “síndrome do Iraque”, Obama sempre considerou o esforço para estabilizar a Líbia como o primeiro passo para um atoleiro e não para a redenção de um país. Seu governo deixou a Líbia na mão. E aqui os republicanos não pegam no pé de Obama, pois a base do partido é avessa ao conceito de “nation building”. Eles preferem ficar na fachada do problema, que é Benghazi.

Na paráfrase da música, a pergunta para Obama é: se foi só para desfazer, por que é que foi?

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E vamos de colher de chá para o certeiro Henrique (dia 17, 11:23).  E uma colher de chá de fim de semana para a Rubia (dia 19, 19:46).

Obama perdido na história e os americanos, na geografia

Onde fica Benghazi?

Temos três assuntos escandalosos na praça política americana: a marcação discriminatória pelo Fisco de grupos conservadores, a quebra do sigilo telefônico pelo ministério da Justiça de jornalistas da agência de notícias AP, num caso de vazamento de informações sobre terrorismo, e a atuação do governo Obama na tragédia de Benghazi, que resultou na morte do embaixador na Líbia e mais três pessoas na missão diplomática dos EUA na cidade, num ato de terror islâmico em 11 de setembro do ano passado.

A opinião pública americana não tem maiores dificuldades para entender a primeira história sobre uma agência antipática por natureza, que vive de arrecadar impostos. E neste caso, até o presidente Obama se diz escandalizado com o escândalo. Dá para explicar a história em uma frase. A mesma coisa com a quebra do sigilo telefônico de jornalistas fazendo o seu trabalho. Ambos os casos fazem justiça às acusações de um governo abusivo.

Ironicamente, além de abuso, temos também uma Casa Branca inoperante, que não controla desmandos de escalões inferiores, e incompetente pela lentidão de sua resposta. Sem uma rápida faxina operacional (cabeças precisam rolar) e de relações públicas, Obama vai sofrer precocemente a maldição do segundo mandato. Com tantas mancadas, será um “pato manco” antes da hora. Aliás, precoces são também os paralelos nixonianos nestas controvérsias.

Já a terceira história (Benghazi) exige muitos parágrafos, é enrolada e se perde em labirintos semânticos sobre o que autoridades disseram a respeito do incidente. Exige até mapa (como vamos esclarecer abaixo). Basta ver que minha coluna Benghazi de segunda-feira, não “rendeu” a fuzilaria habitual de comentários, mesmo com um tema marcado por expressões que geram orgasmos palpiteiros, como Primavera Árabe e Obama.

Assunto, portanto, brochante e por várias razões. Serve para exibir a ignorância geográfica dos americanos neste assunto geopolítico. Na pesquisa, 39% das pessoas que consideram Benghazi o maior escândalo da história americana não conseguem encontrar a cidade no mapa. Estes geopolitiqueiros indignados com a resposta do governo Obama ao ataque não sabem que o local da tragédia fica na Líbia.

Nesta pesquisa da firma Public Policy Polling (PPP), no total, 23% dos entrevistados disseram que Benghazi é o pior escândalo da história americana. Como era de esperar, republicanos estão especialmente indignados. Para 41% deles, Benghazi é mais grave do que Watergate (por  uma margem de 74 a 21) ou Irã-Contras (70 a 20). Esta é a opinião de 10% dos democratas e de 20% dos eleitores independentes. Não sabemos se estes palpiteiros sabem exatamente o que foram estes outros dois escândalos. E caso você tenha dúvidas, dê uma passada no centro de pesquisas Google.

Mas aqui esta o ponto curioso nesta pesquisa PPP: entre os consultados, os eleitores democratas são os mais ignorantes sobre a localização geográfica de Benghazi. Quanto mais conservador o consultado, mais certeiro na resposta. Conservadores são bem informados sobre Benghazi, pois são obcecados com o assunto. Eles têm orgasmos políticos, estimulados por políticos republicano a imprensa do setor, capitaneada pela Fox News.

Além da ignorância geográfica, Benghazi sempre foi uma história enrolada. Mais fácil mapear as outras duas controvérsias, que tiram ainda mais o foco da agenda de Obama no segundo mandato, já murchada no ambiente de hiperpartidarismo em Washington, e têm o potencial de revigorar um Partido Republicano brochado.

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Colher de chá para as ilações do Nehemias (dia 15, 12:08). 

14/05/2013

às 6:00 \ Líbia, Primavera Árabe, Síria

As danças selvagens da Primavera Árabe

Rebeldes sírios em Aleppo

Quem acompanha as marchas e contramarchas da Primavera Árabe (ambas longas), está acostumado a escutar que a Síria não é Líbia. Claro que não é. Se o conserto na Líbia já é difícil (e olha que, graças à intervenção ocidental, Muamar Khadafi partiu sem cerimônia ou julgamento), imagine, então, na Síria, onde tudo parece sem conserto, mesmo sem intervenção?

Faço a pergunta sabendo que a intervenção internacional ocorre de forma gradativa na Síria. Há um incremento do envolvimento regional. Temos o Irã e a milícia xiita Hezbollah segurando as pontas da ditadura Assad, juntos com os russos, enquanto Arábia Saudita e Catar fornecem armas para seus rebeldes favoritos (que não são os meus).

O envolvimento internacional teve lances mais dramáticos em questão de dias. Primeiro foi Israel, que realizou bombardeios aéreos na Síria para alvejar armas destinadas ao Hezbollah, e agora a Turquia, que foi alvejada por atentados perto de sua fronteira com a Síria.

A Turquia já está bem metida na guerra civil e se tornou grande santuário de refugiados e de rebeldes sírios. Os turcos denunciam diariamente a inteligência síria de associação com estes atentados, mas não dão sinais de que irão partir para a ignorância contra o regime sirio e muito menos que farão isto sozinhos.

Cameron na Casa Branca

A Turquia é integrante da Otan, a aliança militar ocidental, e seu primeiro-ministro Recep Erdogan estará quinta-feira em Washington para se reunir com Barack Obama. A história é que ele trará mais provas do uso de armas químicas pelo regime sírio. Na segunda-feira, foi a vez do primeiro-ministro britânico David Cameron, grande aliado americano e outro integrante da Otan, conversar com Obama.

Assim como na Líbia em 2011, Cameron quer os americanos menos relutantes na Síria. Os céticos apontam a situação melancólica da Líbia pós-Khadafi (com um governo fraco e milícias islamistas com a corda toda) para advertir para o atoleiro sírio. Mesmo Cameron se mostra mais relutante sobre o que fazer na Síria do que semanas atrás. Afinal, com a inação, o custo da ação ficou ainda mais alto

Sim, o dia da libertação líbia foi mais fácil do que o day after. No entanto, isto não quer dizer que sem envolvimento ocidental, a Líbia não estaria onde está, ou seja, com milícias islamistas em plena atividade. Talvez a Líbia, de qualquer forma, seria o que a Siria é hoje em dia: com um ditador recorrendo a barbaridades para enfrentar rebeldes radicalizados.

Multiplicam-se as denúncias de limpeza étnica de sunitas praticadas por milícias alauítas (a mesma do clã Assad) e agora circula o vídeo com imagens do comandante rebelde Abu Sakkar, da Brigada Farouq, num ato de selvageria canibalesca, ao que parece comendo o coração de um soldado governista morto. O vídeo está sendo veiculado, tanto pela Human Rights Watch, como pela propaganda do regime Assad.

Podemos concluir, então, que com ou sem intervenção ocidental, o cenário é atroz. Não existem boas opções. Na segunda-feira, falando ao jornalistas na Casa Branca, ao lado de Obama, David Cameron disse que seu país ainda não decidiu se irá armar a oposição síria, mas complementou que algo deve ser feito. No alerta de Cameron, se o Ocidente não trabalhar com a oposição “responsável”, a oposição extremista irá crescer.

Há que escolher entre más opções. O negócio é dançar ou dançar. Se preferirem, se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. No caso do comandante  rebelde Abu Sakkar, não é uma metáfora.

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Colher de chá para o Rogério (dia 14, 14:08). 

As batalhas de Benghazi, de Khadafi a Hillary Clinton

A celebração em Benghazi, outubro de 2011

Benghazi é uma cidade no leste da Líbia. É um emblema das tantas ramificações da Primavera Árabe, de leste a oeste. Benghazi foi berço da insurreição contra a ditadura de Muamar Khadafi. A perspectiva de um massacre em larga escala da população pelas forças de Khadafi foi o impulso e a justificativa para a intervenção ocidental na Líbia em 2011.

A ditadura caiu, mas a libertação da Líbia não trouxe apenas a esperança (precipitada) de um país melhor e com tanto potencial, mas também o poder de milícias islamistas, muitas delas operando a partir de Benghazi, um centro do fundamentalismo islâmico. Estas milícias fazem o que podem para impedir a consolidação de um novo estado líbio, na verdade se comportando como um paraestado.

Ramificações de Benghazi estão na Sïria, ainda sob o poder formal de um ditador jovem, Bashar Assad, mas da velha escola das autocracias árabes, como era o caso de Khadafi, que subiu ao poder na mesma época de Hafez Assad, pai do atual dirigente sírio. O regime de Damasco concretizou o que Khadafi não conseguiu em Benghazi. Várias cidades sírias foram vítimas de massacres em larga escala, que não puderam ser evitados, pois não houve a intervenção ocidental, como na Líbia.

Estas cidades sofreram duramente e duplamente. Foram massacradas pelo Exército e milícias a mando de Assad, mas muitas delas também são submetidas agora ao domínio de milícias islamistas, que estão entre as tropas mais aguerridas no conflito sírio. Em algumas partes do país, as mílicias a serviço de Assad impõem a limpeza étnica de sunitas; em outras, milícias islamistas impõem a lei sharia.

É neste cenário de guerras de milícias, que acontecem tantas ramificações da guerra civil síria, como intervenções estrangeiras em diferentes escalas (Irã, Hezbollah, Rússia, Israel, Turquia, países árabes e países ocidentais). Não era este o plano, especialmente do Ocidente, quando ocorreu a intervenção para salvar Benghazi de Khadafi em 2011. Não se esperava que entre as ramificações da Primavera Árabe estivessem possibilidades de uma guerra regional ou tanto espaço para a rede Al Qaeda, que parecia ter sido atropelada na fase inicial das insurreições na África do Norte e Oriente Médio.

A rede original Al Qaeda foi bastante enfraquecida pelas ações do governo Obama (a destacar operações com aviões não tripulados e de forças especiais, como aquela que matou Osama Bin Laden no Paquistão há pouco mais de dois anos). Na narrativa político-eleitoral de Obama, o fim de Osama se tornou uma grande cartada. Mas a rede Al Qaeda, mais do que uma organização, se disseminou como uma inspiração em países do Oriente Médio e África do Norte. Ademais, a Primavera Árabe abriu espaço para a atuação de forças jihadistas, na Líbia e em outros países.

A batalha de Benghazi, em Washington

E justamente nos meses finais da campanha eleitoral de 2012 (e ainda por cima no dia 11 de setembro) ocorreu o ataque contra a missão diplomática (e anexo da CIA) dos EUA em Benghazi, quando Obama apregoava seu sucesso na luta contra o terror e Hillary Clinton era secretária de Estado. As ramifícações desta Benghazi estão agora aí com toda intensidade na guerra da política interna americana, com as investigações movidas pelos republicanos no Congresso, sendo que a Casa Branca e os democratas estão na defensiva.

O embaixador americano Christopher Stevens e mais três americanos morreram em 11 de setembro de 2012, quando ocorreu a invasão da missão diplomática em  Benghazi. Não há questões agora sobre a segurança inadequada na missão diplomática e que o ataque foi perpretado por jihadistas. Alguns republicanos, em ritmo de CPI permanente, acusam a Casa Branca de acobertamento e gritam Watergate, pedindo o impeachment do presidente Obama. Por que não extrapolar as ramificações? As alegações republicanas são de que o governo demorou para assumir que fora um ataque terrorista (e não um protesto espontâneo) e que fez o que pôde para ocultar isto da opinião pública para conquistar dividendos políticos e eleitorais.

A credibilidade do governo Obama está manchada. De fato, ele fez o que pôde para minimizar Benghazi na campanha eleitoral de 2012. Mas a politização da tragédia também ocorre do lado republicano. Tudo é feito para maximizar esta tragédia, já de olho na campanha eleitoral de 2016, e manchar a imagem de Hillary Clinton, que poderá ser a candidata democrata.

Benghazi e suas ramificações cada vez mais intrincadas, de primavera a primavera.

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Menos fogos de artifício do que eu imaginava nesta coluna. Colheres de chá para Henrique (dia 13, 9:31), Adnor (dia 13, 11:21) e Ingo (dia 13, 19:04). 

Rabiscos Estratégicos (Primavera Árabe & Romney)

Lunáticos não iluminados na Líbia

Já vimos este filme: o mundo islâmico não está preparado para tolerar a blasfêmia (ou o insulto mais rasteiro). Levou um tempo para isto acontecer no Ocidente. E temos os arautos da islamofobia preparados para jogar lenha na fogueira, com suas provocações acintosas e vídeos chulos ridicularizando Maomé, como este feito provavelmente por cristãos fundamentalistas (com participação de coptas egípcios que vivem nos EUA) e promovido por esta figura execrável que é o pastor Terry Jones, aquele que gosta de queimar cópias do Corão. O que o pastor Jones acharia de um filme que retrata Jesus Cristo como pedófilo?

A resposta à idiotice dos provocadores islamofóbicos é a idiotice indesculpável. Missão cumprida para os produtores do vídeo “Inocëncia do Islamismo”, quem quer que sejam. Exatamente numa data horrenda para a civilização, 11 de setembro, são realizados ataques contra missões diplomáticas americanas no Oriente Médio. Gente nada sofisticada se complementa. Tudo se agrava com as ramificações. Jihadistas, talvez com laços com a rede Al-Qaeda, se aproveitam da confusão para assassinar diplomatas americanos em Bengazi, na Líbia (e líbios morreram quando defendiam os diplomatas). Nada mais irônico.

A Líbia foi libertada da tirania Kadafi com a contribuição inestimável de americanos como o assassinado embaixador Chris Stevens. Outra ironia: foi na Líbia que partidos islamistas tiveram um desempenho medíocre em eleições. A opção popular foi por partidos moderados. Mas existe um vácuo de segurança no país, com milícias armadas em todas as partes, algumas jihadistas. São dilemas terríveis para a diplomacia americana: como manter o apoio a governos, que recebem ajuda de Washington e que sequer conseguem proteger embaixadas e consulados? Em contrapartida, a solução é bater em retirada da região e assim fortalecer estas forças extremistas? Os incidentes agora na quinta-feira no Iêmen intensificam o dilema.

É difícil, mas esta deve ser uma oportunidade para o frágil governo líbio exercer com mais rigor sua autoridade e com plena participação americana ir à caça destes extremistas, em nome da justiça, da seguranca nacional e da esperança de um bom rumo para a primavera árabe. Quanto ao povo, que proteste com vigor contra a gente islamofóbica e contra estes lunáticos que se apropriam do islamismo e fazem o que podem para desestabilizar governos mais moderados na primavera árabe.

Mais difícil ainda isto acontecer no Egito de presidente Mohamed Morsi, da Irmandade Muçulmana, cuja prioridade após o ataque popular à embaixada americana no Cairo foi acionar a sua embaixada em Washington para adotar ações legais contra os produtores do vídeo que gerou a encrenca. A reação egípcia é perturbadora. Temos um presidente com seu habitual jogo duplo. Num dia, ele recebe empresários americanos, dizendo que investimentos são bem acolhidos no país e, no outro, Morsi silencia sobre o fracasso das forças de segurança egípcias para proteger a embaixada americana. Caso os protestos se alastrem no Egito contra este vídeo idi, Morsi precisará provar se é presidente ou líder de uma facção religiosa, fazendo média com uma turba.

Romney na quarta-feira (presidenciável?)

Outra ramificação inevitável da encrenca foi na corrida eleitoral americana. Missões diplomáticas americanas são atacadas e Mitt Romney ataca o presidente Obama como apaziguador, sempre pronto para pedir desculpas aos adversários dos EUA, alguém que não defende os valores americanos e que simpatiza com a turba que violou território diplomático americano. São “talking points” de campanha disparados na hora errada. Um tweet da embaixada americana no Cairo na hora do sufoco é transformado em uma prova de que todo um governo, encabeçado pelo “banana” Obama, não tem peito para defender os interesses nacionais.

Romney não se mostra presidenciável e até líderes republicanos no Congresso não ecoaram seu partidarismo num momento de tragédia nacional.  Ele deu suas estocadas desajeitadas e nervosas numa entrevista coletiva, na qual qualificou a política externa do atual governo como uma “desgraça”, entre declarações sombrias da secretária de Estado Hillary Clinton e do presidente Obama concentradas na trágica morte dos diplomatas.

Qual é a do Romney.  Ele é machão? Vai enfrentar a primavera árabe? Vai peitar o mundo islâmico de forma unilateral quando o povo americano não tem estômago para aventuras militares e existe um rombo fiscal? Muitos comentaristas conservadores e políticos republicanos, obviamente cerraram fileiras com o candidato, repetindo a papagaiada que Obama pede desculpas e é um fracote, mas para mim está de bom tamanho o que disse Nicholas Burns, um dos mais importantes diplomatas da era Bush, que qualificou o candidato republicano de leviano e irresponsável. Podemos ficar com alguém da ativa, que é bem informado. Seu nome é Mike Rogers, o deputado republicano que chefia a Comissão de Inteligência da Câmara. Ele disse: “Não estou muito seguro sobre o que o Romney está falando”.

Romney mostra inclusive pânico eleitoral quando está em ligeira desvantagem nas pesquisas menos de dois meses antes da votação. Esta crise pode ter ainda ramificações, mas não vislumbro um impacto mais profundo na campanha eleitoral, além de desmerecer Romney.

A crise serviu para mostrar mais uma vez que os republicanos escolheram alguém fraco para enfrentar um presidente que deveria estar em posição muito vulnerável na sua campanha de reeleição devido à economia e não à política externa.  Imaginem. Obama reeleito, apesar de circunstâncias tão desfavoráveis. Este filme ainda não vimos.

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Pessoal, peço um pouco de tolerância comigo hoje. Promete ser um dia de muitos comentários e alguns já são loooongos. Estou em um dia atrapalhado e será difícil ficar no pingue-pongue com os leitores. Comentários são sempre incentivados, mas reitero o pedido para um ambiente de civilidade. 

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Vou antecipar minha colher de chá. Vai para os líbios e demais ativistas no mundo árabe protestando esta semana contra os lunáticos que pregam e matam em nome do islamismo.

A Líbia e as estações políticas no mundo árabe

As tintas eleitorais e as tonalidades democráticas

Não vamos fazer muito onda sobre os resultados (ainda preliminares) das eleições parlamentares na Líbia, mas eles são uma brisa acolhedora na Primavera Árabe. Antes de tudo, foi a vitória do processo (perdão por este jargão): a eleição aconteceu, foi bem menos violenta do que se temia e teve comparecimento acima das expectativas (até em bastiões da ex-ditadura Kadafi). Para os padrões de transição na região, é um bom desfecho. Foi a vitória do pragmatismo sobre a ideologia religiosa.

A opção preferencial dos líbios (um país onde os partidos estavam banidos mesmo antes da ascensão do poder do ditador Kadafi em 1969) foi para para a Aliança das Forças Nacionais do ex-primeiro ministro interino Mahmoud Jibril e não para os grupos islamistas ou abertamente jihadistas. A aliança vencedora é liberal, embora o próprio Jibril não assuma o rótulo fácil,  para os padrões dos grupos que emergiram na Primavera Árabe e sua vitória contrasta com o triunfo eleitoral da Irmandade Muçulmana na Tunísia e Egito.

Jibril, educado nos EUA (como o presidente egípcio, Mohamed Morsi, da Irmandade Muçulmana), é um favorito das forças ocidentais que se envolveram na rebelião líbia no ano passado. Foi aquele que confrontou os islamistas dizendo: quem são eles para decidir quem é mais muçulmano? Claro que a identidade muçulmana está enraizada no mundo árabe, e vai florescer nesta Primavera Árabe, mas a proposta de Jibril é de um governo de coalizão, funcional, estável, que atraia capital estrangeiro e que faça o melhor uso possível da riqueza petrolífera.

Nada fácil se movimentar neste espaço exíguo num cenário ocupado de um lado por ditaduras amalucadas, ossificadas e sanguinárias (nas versões seculares e religiosas) e, do outro, por forças com legitimidade eleitoral, porém com pendores iliberais como a Irmandade Muçulmana.

Na Líbia, compromissos inclusive com forças extremistas serão necessários e problemas espinhosos existem, como a persistência de milícias armadas e divisões regionais e tribais, mas até agora o país desafia os prognósticos mais sombrios. Tem petróleo como o Iraque, mas não as mesmas divisões sectárias.

Bobagem qualquer celebração, mas tampouco um obituário desta Líbia pós-Kadafi (alguém ainda com saudades, precisando esbravejar que tudo piorou?). Em termos mais amplos, o cenário no Oriente Médio é fluido e incerto. Em países bem mais importantes do que a Líbia, como Egito e Síria, é dia atrás de dia de marchas e contramarchas.

Já que tantos teimam nas metáforas sobre esta primavera árabe se convertendo no inverno árabe (e o que existia antes das rebeliões?), vamos rebater que nestas transições existem todas as estações ao mesmo tempo.

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Colher de chá para Paulo Boccato e Ricardo Platero, pelas posições opostas. 

Os importantes sideshows da Líbia e Tunísia

O líder islâmico tunisiano Rachid Gannouchi na volta do exílio - Foto Fethi Belaid/AFP

A morte de Muamar Kadafi foi um espetáculo bárbaro e mórbido, mas a Líbia é um sideshow no grande cenário da “primavera árabe”. Claro que o que acontece no país norte-africano tem ramificações regionais. E a queda de uma ditadura, com estas cenas bárbaras do fim de Kadafi, servem de inspiração e também de constatação para os custos de uma revolução. Um país bem mais importante que vem imediatamente à mente é a Síria. Como o veterano Kadafi, o jovem Bashar Assad resolveu peitar a rebelião. O resultado foi a exacerbação e existe a possiblidade de uma guerra civil em larga escala na Síria.

Outro sideshow que pode ajudar a sinalizar tendências é a Tunísia onde tudo começou. Lembra-se? Foi a Revolução Jasmim no início do ano, a primeira moderna revolução árabe. O desfecho por lá foi relativamente pacífico, com a fuga do ditador Ben Ali e séquito perdulário para o exílio na Arábia Saudita. E agora neste domingo já teremos eleições para uma assembléia constituinte no país vizinho da Líbia

Da “primavera árabe” tunisiana floresceram até partidos demais. Somente concorrendo nesta eleição há 112. Outros 162 não participam, entre eles os perturbadores salafistas, que são os radicais que esposam uma interpretação literal do islamismo e que neste mês aprontaram arruaças (no Egito, os salafistas aprontam coisas muito piores contra os cristãos) quando uma televisão privada decidiu exibir o desenho animado franco-iraniano Persepolis, uma visão crítica daquela revolução islâmica do aiatolá Khomeini, que nós esperamos que nunca mais floresça na região.

O início da democracia na Tunísia é atabalhoado (e como não poderia ser numa transição como esta?). Este primeiro processo eleitoral é um teste sobre perspectivas democráticas. E os olhos estão em um partido islâmico, Nahda (significa renascença). Já se chamou Ação Islâmica (o novo nome assusta menos), tem raízes na Irmandade Muçulmana e hoje se diz muito mais inspirado no modelo turco do governista Partido de Justiça e Desenvolvimento (o primeiro-ministro Recep Erdogan no momento não me inspira muito). As pesquisas mostram que Nahda será o primeiro colocado, conseguindo de 20% a 30% das cadeiras, e assim terá um papel-chave para forjar o futuro da Tunísia.

No espectro islâmico, de fato, é um partido moderado, embora nas entranhas seja mais complicado. Seu líder, é um veterano político, Rachid Ghannouchi, que já esteve preso e no exílio. Seu discurso professa a crença em um governo “civil”, mas a base do partido é mais radical e impaciente. É possível até que ao longo do caminho o partido rache, pois setores mais radicais não gostam da agenda de Ghannouchi de buscar apenas mudanças graduais, empenhado em não assustar, especialmente o Ocidente, que quer botar fé no casamento do islamismo com a democracia.

Em outra parte do espectro, há muitos partidos seculares (centristas e esquerdistas), vigilantes para impedir a islamização da sociedade tunisiana (que sofreu com uma ditadura corrupta, mas num clima de tolerância social). No entanto, nesta banda secular há setores que constatam a realidade da força islâmica no país e com isto visualizam um governo de unidade nacional.

Não sou um especialista em política interna da Tunísia e não me aventuro a grandes previsões. Não anima uma vitória de um partido como Nahda, com sua agenda escorregadia, mas quem sabe não seja um desastre num país que pelo menos esboça algum tipo de consenso numa fase de renascença nacional.
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Debates sempre intensos sobre primavera árabe, visões mais pessimistas e outras mais otimistas. Pelos contrastes, colher de chá para os leitores Rober (dia 21, 12:06), Vera (dia 21, 12:11), Karla (dia 21, 12:19).

20/10/2011

às 10:40 \ Líbia

Curtas & Finas (Kadafi)

Isto aqui não é um blog. Não gosto de reagir minuto a minuto `a marcha da história. Mas vamos lá para uma rápida pensata: a morte de Kadafi é espetacular e ao mesmo tempo anticlimática, pois já ocorrera o colapso do cruel e bizarro estado kadafista. Quanto mais demorasse a morte, captura ou fuga de Kadafi, mais complicado o esforço de uma transição para alguma coisa na Líbia. Vamos por ora, neste minuto, saudar o fim de um carrasco. Para alguma coisa a “primavera árabe” serviu. Muitas esperanças estão murchando. Sabemos dos perigos óbvios, que coisa ruim pode ser substituída por coisa ruim ou até pior. Mas no “big picture” até que a Líbia tem chances: tem petróleo e tem menos problemas étnicos e religiosos que outros países da região. Tem também o apoio ocidental. “Nossos” dirigentes carecem de capacidade de liderança e são oportunistas. Mas vamos dar crédito para Sarkozy, Cameron e Obama por terem assumido a posição que assumiram. A intervenção humanitária e também por outros motivos funcionou. Agora é trabalhar por um futuro melhor na Líbia. Boa sorte para os líbios.

22/08/2011

às 9:44 \ Líbia, Mundo Árabe, Oriente Médio

Os trilhos e as trilhas na Líbia e no resto do mundo árabe

O time vitorioso do momento- Foto Bob Strong/Reuters

Internet nos dá o leviano privilégio de comentar o jogo aos 43 minutos do segundo tempo. Então vamos lá para comentar o jogo da Líbia x Líbia. Existe o ponto óbvio que nunca deu para torcer por Kadafi e sua prole. Mas simplesmente não dá para ficar no meio-do-campo, apenas alertando contra os riscos representados pelo outro time, um pessoal com uniformes diversos (de ex-monarquistas a islamistas, passando pela gente boa que dá entrevista civilizada na BBC de Londres). E não podemos esquecer o bando de kadafistas que na última hora trocou de camisa.

É com esta turma díspare e de uniformes remendados que aconteceu a marcha para Trípoli. São os vitoriosos do momento (aos 43 minutos do segundo tempo). Nós também vencemos. Nós somos os países ocidentais que apoiaram a resolução da ONU por intervenção da Otan. Tudo bem, a interpretação da resolução foi elástica. Abusando da metáfora aqui, coisa do futebol. Mas melhor isto do que a postura do Brasil. A diplomacia brasiliense não ficou no meio-do-campo, batendo bola com todo mundo. Ficou em cima do muro, com a abstenção. É possível que haja um preço para o Brasil em contratos de exploração de petróleo com um novo regime. Lamento até agora a abstenção da Alemanha, embora entenda a bagagem da história que torna o país da dona Angela Merkel avesso a uma intervenção militar.

Para enfatizar um ponto: na Lïbia é vitória do conceito de intervenção humanitária. Não sabemos exatamente o que vem pela frente, mas sem esta intervenção poderia ter ocorrido um banho de sangue em Bengazi praticado pelos kadafistas. Haverá outras oportunidades de colunas para detalhar o que vem pela frente. Espero desenvolver a idéia de “sucesso catastrófico” caso não haja tempo de uma transição relativamente ordeira na Líbia. Estão aí, obviamente, as lições do Iraque pós-invasão 2003.

Numa coluna anterior, eu disse que os eventos espetaculares na Líbia comovem, mas não são muito relevantes para o grande esquema das coisas no Oriente Médio. Mantenho o que disse com uma pequena ressalva: espero que a comoção líbia sirva de inspiração para acelerar a queda da ditadura Assad na Síria. De novo, precisamos nos acautelar com os perigos de mudanças em geral no mundo árabe. Mas o bonde da história vai adiante. Quando as coisas saem dos trilhos, também podem surgir trilhas interessantes.
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A colher-de-chá nos comentários vai para o “Tocqueville” (fenomenal nome de guerra), dia 22, 14:53, por se embrenhar na trilha da esperança.

 

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