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Os importantes sideshows da Líbia e Tunísia

O líder islâmico tunisiano Rachid Gannouchi na volta do exílio - Foto Fethi Belaid/AFP

A morte de Muamar Kadafi foi um espetáculo bárbaro e mórbido, mas a Líbia é um sideshow no grande cenário da “primavera árabe”. Claro que o que acontece no país norte-africano tem ramificações regionais. E a queda de uma ditadura, com estas cenas bárbaras do fim de Kadafi, servem de inspiração e também de constatação para os custos de uma revolução. Um país bem mais importante que vem imediatamente à mente é a Síria. Como o veterano Kadafi, o jovem Bashar Assad resolveu peitar a rebelião. O resultado foi a exacerbação e existe a possiblidade de uma guerra civil em larga escala na Síria.

Outro sideshow que pode ajudar a sinalizar tendências é a Tunísia onde tudo começou. Lembra-se? Foi a Revolução Jasmim no início do ano, a primeira moderna revolução árabe. O desfecho por lá foi relativamente pacífico, com a fuga do ditador Ben Ali e séquito perdulário para o exílio na Arábia Saudita. E agora neste domingo já teremos eleições para uma assembléia constituinte no país vizinho da Líbia

Da “primavera árabe” tunisiana floresceram até partidos demais. Somente concorrendo nesta eleição há 112. Outros 162 não participam, entre eles os perturbadores salafistas, que são os radicais que esposam uma interpretação literal do islamismo e que neste mês aprontaram arruaças (no Egito, os salafistas aprontam coisas muito piores contra os cristãos) quando uma televisão privada decidiu exibir o desenho animado franco-iraniano Persepolis, uma visão crítica daquela revolução islâmica do aiatolá Khomeini, que nós esperamos que nunca mais floresça na região.

O início da democracia na Tunísia é atabalhoado (e como não poderia ser numa transição como esta?). Este primeiro processo eleitoral é um teste sobre perspectivas democráticas. E os olhos estão em um partido islâmico, Nahda (significa renascença). Já se chamou Ação Islâmica (o novo nome assusta menos), tem raízes na Irmandade Muçulmana e hoje se diz muito mais inspirado no modelo turco do governista Partido de Justiça e Desenvolvimento (o primeiro-ministro Recep Erdogan no momento não me inspira muito). As pesquisas mostram que Nahda será o primeiro colocado, conseguindo de 20% a 30% das cadeiras, e assim terá um papel-chave para forjar o futuro da Tunísia.

No espectro islâmico, de fato, é um partido moderado, embora nas entranhas seja mais complicado. Seu líder, é um veterano político, Rachid Ghannouchi, que já esteve preso e no exílio. Seu discurso professa a crença em um governo “civil”, mas a base do partido é mais radical e impaciente. É possível até que ao longo do caminho o partido rache, pois setores mais radicais não gostam da agenda de Ghannouchi de buscar apenas mudanças graduais, empenhado em não assustar, especialmente o Ocidente, que quer botar fé no casamento do islamismo com a democracia.

Em outra parte do espectro, há muitos partidos seculares (centristas e esquerdistas), vigilantes para impedir a islamização da sociedade tunisiana (que sofreu com uma ditadura corrupta, mas num clima de tolerância social). No entanto, nesta banda secular há setores que constatam a realidade da força islâmica no país e com isto visualizam um governo de unidade nacional.

Não sou um especialista em política interna da Tunísia e não me aventuro a grandes previsões. Não anima uma vitória de um partido como Nahda, com sua agenda escorregadia, mas quem sabe não seja um desastre num país que pelo menos esboça algum tipo de consenso numa fase de renascença nacional.
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Debates sempre intensos sobre primavera árabe, visões mais pessimistas e outras mais otimistas. Pelos contrastes, colher de chá para os leitores Rober (dia 21, 12:06), Vera (dia 21, 12:11), Karla (dia 21, 12:19).

20/10/2011

às 10:40 \ Líbia

Curtas & Finas (Kadafi)

Isto aqui não é um blog. Não gosto de reagir minuto a minuto `a marcha da história. Mas vamos lá para uma rápida pensata: a morte de Kadafi é espetacular e ao mesmo tempo anticlimática, pois já ocorrera o colapso do cruel e bizarro estado kadafista. Quanto mais demorasse a morte, captura ou fuga de Kadafi, mais complicado o esforço de uma transição para alguma coisa na Líbia. Vamos por ora, neste minuto, saudar o fim de um carrasco. Para alguma coisa a “primavera árabe” serviu. Muitas esperanças estão murchando. Sabemos dos perigos óbvios, que coisa ruim pode ser substituída por coisa ruim ou até pior. Mas no “big picture” até que a Líbia tem chances: tem petróleo e tem menos problemas étnicos e religiosos que outros países da região. Tem também o apoio ocidental. “Nossos” dirigentes carecem de capacidade de liderança e são oportunistas. Mas vamos dar crédito para Sarkozy, Cameron e Obama por terem assumido a posição que assumiram. A intervenção humanitária e também por outros motivos funcionou. Agora é trabalhar por um futuro melhor na Líbia. Boa sorte para os líbios.

22/08/2011

às 9:44 \ Líbia, Mundo Árabe, Oriente Médio

Os trilhos e as trilhas na Líbia e no resto do mundo árabe

O time vitorioso do momento- Foto Bob Strong/Reuters

Internet nos dá o leviano privilégio de comentar o jogo aos 43 minutos do segundo tempo. Então vamos lá para comentar o jogo da Líbia x Líbia. Existe o ponto óbvio que nunca deu para torcer por Kadafi e sua prole. Mas simplesmente não dá para ficar no meio-do-campo, apenas alertando contra os riscos representados pelo outro time, um pessoal com uniformes diversos (de ex-monarquistas a islamistas, passando pela gente boa que dá entrevista civilizada na BBC de Londres). E não podemos esquecer o bando de kadafistas que na última hora trocou de camisa.

É com esta turma díspare e de uniformes remendados que aconteceu a marcha para Trípoli. São os vitoriosos do momento (aos 43 minutos do segundo tempo). Nós também vencemos. Nós somos os países ocidentais que apoiaram a resolução da ONU por intervenção da Otan. Tudo bem, a interpretação da resolução foi elástica. Abusando da metáfora aqui, coisa do futebol. Mas melhor isto do que a postura do Brasil. A diplomacia brasiliense não ficou no meio-do-campo, batendo bola com todo mundo. Ficou em cima do muro, com a abstenção. É possível que haja um preço para o Brasil em contratos de exploração de petróleo com um novo regime. Lamento até agora a abstenção da Alemanha, embora entenda a bagagem da história que torna o país da dona Angela Merkel avesso a uma intervenção militar.

Para enfatizar um ponto: na Lïbia é vitória do conceito de intervenção humanitária. Não sabemos exatamente o que vem pela frente, mas sem esta intervenção poderia ter ocorrido um banho de sangue em Bengazi praticado pelos kadafistas. Haverá outras oportunidades de colunas para detalhar o que vem pela frente. Espero desenvolver a idéia de “sucesso catastrófico” caso não haja tempo de uma transição relativamente ordeira na Líbia. Estão aí, obviamente, as lições do Iraque pós-invasão 2003.

Numa coluna anterior, eu disse que os eventos espetaculares na Líbia comovem, mas não são muito relevantes para o grande esquema das coisas no Oriente Médio. Mantenho o que disse com uma pequena ressalva: espero que a comoção líbia sirva de inspiração para acelerar a queda da ditadura Assad na Síria. De novo, precisamos nos acautelar com os perigos de mudanças em geral no mundo árabe. Mas o bonde da história vai adiante. Quando as coisas saem dos trilhos, também podem surgir trilhas interessantes.
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A colher-de-chá nos comentários vai para o “Tocqueville” (fenomenal nome de guerra), dia 22, 14:53, por se embrenhar na trilha da esperança.


 

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