Curtas & Finas (Negativo & Negativo)
De uns dias para cá, a campanha eleitoral americana parece mais civilizada para mim. Será que estou surdo? Um pouco, mas, mais importante, deixo a televisão sem som, enquanto Barack Obama, Mitt Romney e seus segundos Joe Biden e Paul Ryan despejam suas arengas (você é uma desgraça! Não, você é uma desgraça!). Desgraça é um substantivo, mas esta é uma campanha que padece de tantos adjetivos.
Até jornalistas que cobrem a campanha, para os quais desgraça pouca é bobagem, estão lamentando o tom. Alguns mais sensacionalistas avaliam que nunca-na história-deste-pais houve uma campanha tão negativa. Esta conversa já existia desde o duelo eleitoral entre Thomas Jefferson e John Adams em 1800, no início da história deste país.
Mas nesta semana impressiona a rápida reversão de expectativas. No sábado passado, assim que Romney anunciou Ryan como companheiro de chapa apareceram as projeções (que eu registrei aqui) de que a campanha finalmente se tornara adulta, deixando de lado as picuinhas de que o candidato republicano é desumano, a rigor “desucanino” porque prendeu o cachorro Seamus no teto do carro ou que o presidente Obama tem um outro padrão cultural porque comeu carne de cachorro na Indonesia quando era criança.
Com Ryan, o debate seria azedo, mas adulto. Voltou a ser basicamente intragável, com a troca de acusações sobre o futuro dos programas médicos de que o resultado do plano de cada partido no poder será o assassinato em massa de velhinhas.
Assistir ao debate se tornou programa de índio e vozes estão clamando para os dois caciques fumarem o cachimbo ao menos de uma trégua. Mas por que uma fumacinha de conciliação agora, quando a opção preferencial, talvez a única, das campanhas sejam as labaredas eleitorais e ideológicas?
A visão comum é a de que candidatos presidenciais correm para as extremas durante as primárias e jogam no centro na eleição principal. Mas neste 2012, vemos Romney e Obama mais preocupados em atiçar as suas bases. Natural quando os republicanos sejam mais conservadores e os democratas mais liberais. O empenho marqueteiro é para mobilizar estas bases, garantir que ela compareça em 6 de novembro.
Existem os eleitores indecisos e eles podem ser, well, serem decisivos, mas trata-se de um punhado. Por alguns cálculos, não mais de 5% deles ainda não tomaram partido. Faz todo o sentido uma campanha tão negativa, tão agressiva, tão pessoal. Mas desagradável para cachoro.
***
Estou conservador. Vou repetir a colher de chá para o Davi (dia17, 9:51).



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