Blogs e Colunistas

Arquivo da categoria Itália

09/11/2011

às 6:00 \ Europa, Grécia, Itália

O poder a tecnocratas europeus (por um tempinho)

O grego Papademos e o italiano Monti - Fotos Reuters/Getty

Em sinal desconsolador (ou quem sabe promissor), a Europa em crise profunda começa a depositar suas esperanças em costuradores de consensos interinos, tapadores de remendos, especialistas em contabilidade, tecnocratas cinzentos e não esfuziantes propagadores de promessas irrealistas ou carismáticos e irresponsáveis salvadores da pátria. Não existem na praça versões de Churchill ou De Gaulle (nem mesmo Margaret Thatcher ou Willy Brandt) para um momento histórico e crucial de sangue, suor e lágrimas. É a canseira Merkozy (Angela Merkel e Nicolas Sarkozy), sem falar de coisas piores e bem menores.

Talvez seja a hora, por algumas semanas ou meses, de governos de união nacional chefiados por figuras incolores, mas respeitáveis, como o grego Lucas Papademos, que já foi vice-presidente do Banco Central Europeu, ou o italiano Mario Monti, outro burocrata supereuropeu, um dos nomes cotados para colocar um pouco de ordem por uns tempos no caos político e econômico, assim que terminar esta novela Berlusconi (advertência: no caso dele, depois que termina uma, uma outra pode começar).

Berlusconi prometeu na terça-feira renunciar quando for aprovada a lei orçamentária .Além das óbvias questões de danos morais e à saúde política da Itália, Berlusconi, em termos econômicos, é um alto risco à segurança nacional e da Europa. Os custos de empréstimos saltaram para níveis insustentáveis na quarta-feira, comprovando que a mera promessa de Berlusconi sair de cena foi insuficiente para acalmar os mercados e o cenário de eleições no começo de 2012 alonga a incerteza. O recado é claro: fora já.

Estes nomes de tecnocratas podem parecer pequenos diante da enormidade da crise de cada país em apuros, do grande drama europeu. Mas eles crescem diante de um risco Berlusconi. O que fazer, além de depositar a esperança em governos técnicos de emergência por algumas semanas ou meses? No Europa é dia atrás de dia, um ponto a mais atrás do outro no custo de empréstimos para países na pindaíba. O que a Europa tem feito ultimamente é empurrar os problemas para frente, movida por reuniões de cúpula que terminam de madrugada e bordões do gênero “tudo sera feito para salvar o euro”. Com a incapacidade de apagar pequenos incêndios dois anos atrás, como a Grécia, agora é a floresta pegando fogo.

Manifestantes furiosos com pacotes de austeridade ou a noção de que países se tornaram protetorados da troika União Europeia-Banco Central Europeu-FMI botam para quebrar nas ruas. Mas mudanças políticas de uma semana para cá têm sido em grande parte empreendidas por operadores de mercado, elevando os custos dos empréstimos, como no caso italiano, de forma frenética. Eles tiveram mais força do que eleitores ou parlamentares para finalmente dar um basta no venal reinado de Berlusconi (advertência renovada: com ele só acaba quando termina).

Nestes tempos de conexões econômicas globais de alta tensão, o ritmo de democracias nacionais se mostra inadequado e suas lideranças incapazes de manter o necessário passo apressado. E processo democrático pode ser mesmo uma linguiça, melhor nem sempre ver como acontece. Aliás, as lideranças continentais tampouco se mostram à altura da tarefa.

O destino está sendo contado e cantado nas notas que bancos, corretoras e empresas de análise de risco enviam a seus clientes. Jan Randolph, da IHS Global Insight, por exemplo escreveu que “Berlusconi efetivamente perdeu o capital político para conduzir o país através de um período de austeridade e reformas estruturais que afrouxe as amarras da economia e estimule o crescimento. É possível que um amplo governo de unidade nacional, chefiado por um respeitado tecnocrata como Mario Monti, seja formado ou novas eleições sejam convocadas.”

Estamos, é claro, apenas desenhando cenários em dias voláteis e também melancólicos. Soluções temporárias podem ser sábias até que governos sólidos e estáveis possam empreender reformas e pacotes de austeridade salgados. Nada é garantido com estes tecnocratas, sequer que eles assumam o papel nos próximos dias ou semanas. Afinal, os atores políticos tradicionais continuam no palco. Ademais, os tecnocratas também são capazes de fazer um papelão. Mas no mundo real as escolhas as vezes são entre Berlusconi e Papandreou (o primeiro-ministro grego de partida) ou os burocratas como Monti e Papademos.

Adiante do fogo na floresta europeia, caso as coisas se aclarem, estão as decisões históricas se as nações que compõem uma União Europeia que se preparou para trabalhar junta na calmaria, não na tempestade, poderão consolidar uma integração ao preço de menos soberania nacional. Estamos longe disso. Um projeto europeu hoje em dia é aguentar até o dia seguinte (exagerei, até a semana seguinte). Quando a gente grita Viva a Europa! não é um brado de vitória, mas que ela consiga realmente sobreviver.
***
Enquanto a Itália não acaba, a colher de chá vai para o leitor “Anti-Petista”, com seus desabafos em parte em italiano (dia 9, 9:32 e 9:35). Colheres merecidas também para o Bruno (dia 9, 10:11) e o Rober (dia 9, 10:25), que apontaram pontos fracos no meu texto.

08/11/2011

às 6:00 \ Itália

Curtas & Finas (Berlusconi)

Com Silvio Berlusconi, são tantos spreads, como entre o custo para a Itália fazer empréstimos e o alívio que será a partida do primeiro-minstro do poder. São as diferenças entre as taxas de juros pagas pelo títulos da dívida italiana e a alemã. São os spreads entre sua percepção da realidade e a realidade (não há crise séria, diz Berlusconi, afinal os restaurantes estão cheios), são as diferenças entre sua idade (75 anos) e as meninas da corte, são os spreads entre ele e a dignidade nacional. Existe a diferença entre a gravidade dos problemas e o ridículo de um político que dedilha no Facebook para garantir que os rumores da partida são sem fundamento (seria ainda pior tocar harpa, como Nero). E há os números escandalosos: depois que ele voltou ao poder em 2008, pela terceira, vez, Berlusconi sobreviveu a 51 votos de confiança. Há o spread entre sua fortuna pessoal de US$ 9 bilhões e a dívida nacional de US$ 2.6 trilhões. Contas, contas. Em 2009, pelas contas do próprio Berlusconi, ele já tinha encarado 577 interrogatórios policiais, 2.500 comparecimentos judiciais e 106 julgamentos, relacionados a inúmeros escândalos legais e políticos. Foram aventuras sexuais que deixariam Hugh Hefner corado. Já a diferença entre os negócios de Berlusconi e os negócios nacionais sempre foi mais estreita. No epitáfio político, lá estará escrito: ele foi o homem que ficou mais rico enquanto arruinava o seu país, nos seus diferentes valores. Que spread.
***
Colher de chá para as vozes da Itália: o perspicaz Estevan (dia 8, 12:45) e Paulo “que crise?” (dia 8, 7:30).


 

Serviços

 

Assinaturas



Editora Abril Copyright © Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados