O poder a tecnocratas europeus (por um tempinho)
Talvez seja a hora, por algumas semanas ou meses, de governos de união nacional chefiados por figuras incolores, mas respeitáveis, como o grego Lucas Papademos, que já foi vice-presidente do Banco Central Europeu, ou o italiano Mario Monti, outro burocrata supereuropeu, um dos nomes cotados para colocar um pouco de ordem por uns tempos no caos político e econômico, assim que terminar esta novela Berlusconi (advertência: no caso dele, depois que termina uma, uma outra pode começar).
Berlusconi prometeu na terça-feira renunciar quando for aprovada a lei orçamentária .Além das óbvias questões de danos morais e à saúde política da Itália, Berlusconi, em termos econômicos, é um alto risco à segurança nacional e da Europa. Os custos de empréstimos saltaram para níveis insustentáveis na quarta-feira, comprovando que a mera promessa de Berlusconi sair de cena foi insuficiente para acalmar os mercados e o cenário de eleições no começo de 2012 alonga a incerteza. O recado é claro: fora já.
Estes nomes de tecnocratas podem parecer pequenos diante da enormidade da crise de cada país em apuros, do grande drama europeu. Mas eles crescem diante de um risco Berlusconi. O que fazer, além de depositar a esperança em governos técnicos de emergência por algumas semanas ou meses? No Europa é dia atrás de dia, um ponto a mais atrás do outro no custo de empréstimos para países na pindaíba. O que a Europa tem feito ultimamente é empurrar os problemas para frente, movida por reuniões de cúpula que terminam de madrugada e bordões do gênero “tudo sera feito para salvar o euro”. Com a incapacidade de apagar pequenos incêndios dois anos atrás, como a Grécia, agora é a floresta pegando fogo.
Manifestantes furiosos com pacotes de austeridade ou a noção de que países se tornaram protetorados da troika União Europeia-Banco Central Europeu-FMI botam para quebrar nas ruas. Mas mudanças políticas de uma semana para cá têm sido em grande parte empreendidas por operadores de mercado, elevando os custos dos empréstimos, como no caso italiano, de forma frenética. Eles tiveram mais força do que eleitores ou parlamentares para finalmente dar um basta no venal reinado de Berlusconi (advertência renovada: com ele só acaba quando termina).
Nestes tempos de conexões econômicas globais de alta tensão, o ritmo de democracias nacionais se mostra inadequado e suas lideranças incapazes de manter o necessário passo apressado. E processo democrático pode ser mesmo uma linguiça, melhor nem sempre ver como acontece. Aliás, as lideranças continentais tampouco se mostram à altura da tarefa.
O destino está sendo contado e cantado nas notas que bancos, corretoras e empresas de análise de risco enviam a seus clientes. Jan Randolph, da IHS Global Insight, por exemplo escreveu que “Berlusconi efetivamente perdeu o capital político para conduzir o país através de um período de austeridade e reformas estruturais que afrouxe as amarras da economia e estimule o crescimento. É possível que um amplo governo de unidade nacional, chefiado por um respeitado tecnocrata como Mario Monti, seja formado ou novas eleições sejam convocadas.”
Estamos, é claro, apenas desenhando cenários em dias voláteis e também melancólicos. Soluções temporárias podem ser sábias até que governos sólidos e estáveis possam empreender reformas e pacotes de austeridade salgados. Nada é garantido com estes tecnocratas, sequer que eles assumam o papel nos próximos dias ou semanas. Afinal, os atores políticos tradicionais continuam no palco. Ademais, os tecnocratas também são capazes de fazer um papelão. Mas no mundo real as escolhas as vezes são entre Berlusconi e Papandreou (o primeiro-ministro grego de partida) ou os burocratas como Monti e Papademos.
Adiante do fogo na floresta europeia, caso as coisas se aclarem, estão as decisões históricas se as nações que compõem uma União Europeia que se preparou para trabalhar junta na calmaria, não na tempestade, poderão consolidar uma integração ao preço de menos soberania nacional. Estamos longe disso. Um projeto europeu hoje em dia é aguentar até o dia seguinte (exagerei, até a semana seguinte). Quando a gente grita Viva a Europa! não é um brado de vitória, mas que ela consiga realmente sobreviver.
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Enquanto a Itália não acaba, a colher de chá vai para o leitor “Anti-Petista”, com seus desabafos em parte em italiano (dia 9, 9:32 e 9:35). Colheres merecidas também para o Bruno (dia 9, 10:11) e o Rober (dia 9, 10:25), que apontaram pontos fracos no meu texto.




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