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Arquivo da categoria Irã

18/06/2013

às 6:00 \ Brasil, Irã, Turquia

Curtas & Finas (Teerã & Istambul & São Paulo)

Primavera em Teerã

A provocação escancarada no texto de Barbara Slavin está na foto. São dias (alguns dias) de primavera em Teerã. A moçada numa jogada tática decidiu apoiar o moderado (pragmático, conservador iluminado, sensato, ladino e vai por aí) Hassan Rohani nas eleições de sexta-feira passada. Ele agora é presidente-eleito.

Deu até para a moça descobrir a cabeça nas celebrações, apesar da patrulha islâmica que molesta a população. Cenas bem diferentes das de junho de 2009 quando o aparato de repressão do regime iraniano foi à carga contra os manifestantes que denunciavam a fraude da reeleição de Mahmoud Ahmadinejad.

Istambul 2013 está mais para Teerã 2009, na truculência policial contra manifestantes e isto num país que de longe é muito mais democrático do que o Irã do aiatolá Khamenei. Mas o sultão-faraó Recep Erdogan bota para quebrar, em nome da tirania da maioria. Tem o seu povo, logo o povo que protesta na praça contra ele não é legítimo.

Numa retórica que faz lembrar Bashar Assad e tantos ditadores da região, Erdogan acusa terroristas, arruaceiros, especuladores financeiros e forças estrangeiras de estarem orquestrando a movimentação contra ele. E, sim, sua linguagem lembra o discurso oficial iraniano contra a moçada que foi protestar na praça Azadi, em Teerã há quatro anos.

A narrativa de Erdogan como o porta-estandarte de um modelo islâmico de democracia ficou tão esfumaçada como o gás lacrimogêno na praça Taksim, em Istambul. Mas a avenida não está aberta para o triunfo incontestável de Erdogan (sua meta é conquistar a presidência com poderes reforçados), embora não possamos subestimar sua capacidade putiniana de ditar as coisas por uns tempos.

Já em Teerã, o aiatolá Khamenei conseguiu esfumaçar as coisas, mas sem usar gás lacrimogêneo (ou coisas piores) desta vez. É aquilo que tanto se comenta: o líder supremo soube manejar a válvula de escape. A profundidade da frustração contra a linha dura talvez fosse mais perigosa para o regime iraniano do que a vitória de Hassan Rohani. Melhor deixar o povo extravazar. A moça pôde descobrir a cabeça num gesto primaveril. Agora resta descobrir o que vem depois desta primavera em Teerã.

PS- E o Brasil? E São Paulo, minha cidade natal? E minhas avenidas da Consolação e Paulista, por onde tanto caminhei desde garoto? Para mim, ainda resta descobrir o que virá depois da explosão de indignação. Sei que Dilma Rousseff não tem o pesado jogo de cintura de Erdogan ou a capacidade de travar o multidimensional jogo do aiatolá Khamenei. Em outros tempos, isto talvez fosse possível com o aiatolula.
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Colher de chá para “Curica de Deputado”, pela síntese opinativa e pontual, exatamente ao meio-dia (dia 18). 

15/06/2013

às 14:14 \ Ahmadinejad, Irã, Khamenei, Rohani

Na eleição iraniana, uma válvula de escape

Vitória de Rohani é mancha sutil para o regime

Mais reviravoltas e mais surpresas nas primaveras do mundo árabe-islâmico. Agora foi a vez do Irã. Quem diria que, em meio ao clima de desilusão e repressão (ambas incrementadas depois da eleição fraudulenta de Mahmoud Ahmadinejad há quatro anos), os iranianos dessem o recado que deram no pleito presidencial de sexta-feira? Vitória no primeiro turno do moderado Hassan Rohani (apoiado por reformistas e por gente que resolveu dizer não aos fundamentalistas).

Houve uma arrancada da cidadania na reta final, o que explica a vitória de Rohani já no primeiro turno, ao conseguir mais de 50% dos votos. O comparecimento às urnas foi acima das projecões, mas ainda abaixo dos números da antológica eleição de 2009 que resultou no segundo último e mandato de Ahmadinejad e na prisão dos candidatos reformistas.

Eleições presidenciais iranianas costumam ser surpreendentes, Desta vez, o mais intrigante foi o fato de Rohani ter passado pelo crivo do sistema (encarnado no líder supremo, o aiatolá Khamenei). Não estamos falando da aprovação para concorrer, mas da ausência da falcatrua para negar sua vitória já no primeiro turno.

De certa forma, Khamenei tem razão. Ele foi humilhado mas, ao mesmo tempo, como disse, foi um voto de confiança no sistema. A ditadura foi legitimada, mas também castigada. Setores desiludidos com a revolução islâmica ou com seus subprodutos, como corrupção, incompetência econômica e cansaço com as lideranças tradicionais, encontraram um canal para expressar seu inconformismo.

E agora?

Eleições na ditadura islâmica servem como válvula de escape (funciona para todos). O manda-chuva e dono da bola é Khamenei. Vamos ver como ele irá controlar o jogo agora. Também precisamos ver o grau de docilidade de Rohani ao sistema encarnado em Khamenei, que, no final das contas, toma as decisões em questões como o programa nuclear.

Para o Ocidente, também existem grandes dilemas agora. Quando na presidência está um perigoso palhaço como Mahmoud Ahmadinejad é mais fácil demonizar (satanizar no jargão da revolução islâmica) o regime iraniano. A dinâmica ficou mais sutil e quem sabe, ao permitir que Rohani triunfasse no primeiro turno, Khamenei queira confundir as coisas e dividir o outro lado (tanto em termos domésticos, como internacionais).

Não dá para definir esta eleição como um referendo, mas o resultado serviu para evidenciar o fracasso do sistema, tanto na condução do cotidiano (desde economia ao sufocamento das liberdades individuais), como na sua linha dura no duelo nuclear com a comunidade internacional. Rohani, por exemplo, fala em governar com prudência e esperança. Acena com mais disposição para afrouxar as coisas em todos os sentidos (do papel da mulher às negociações nucleares).

A nova dinâmica complicará a preservação das sanções internacionais mesmo que o Irã não faça maiores concessões nas negociações nucleares, em particular no enriquecimento de urânio. Rohani promete meramente mais engajamento com as potencias ocidentais e em troca quer o abrandamento das sanções. Mas, em parte, ele foi o beneficiado por estas sanções, que agravaram a situação econômica e o desgaste do regime.

Até agora, Khameni não deu mostras de flexibilidade. Precisamos ver se ele usará a escolha de um moderado no cargo de presidente para ensaiar alguma acomodação, tanto dentro de casa, como lá fora. Em suma, como o poder supremo vai controlar a válvula de escape?

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Neste bazar de ideias, que abriu no sabadão, com o mote da válvula de escape, colher de chá para Yes, We Scam e Sorales. Por que não? 

13/06/2013

às 6:00 \ Irã

Curtas & Finas (Khamenei & Khamenei)

Eu quero assim

O aiatolá Khamenei pede um comparecimento “épico” nas eleições presidenciais que serão realizadas na ditadura islâmica sob o seu tacão e Corão (primeiro turno nesta sexta-feira). É uma destas escolhas de Sofia (embora não haja mulher concorrendo). Comparecimento épico significa dar legitimidade à corruptela eleitoral, mas votar no menor dos males pode servir para dar um recado ao sistema.

Para as forças reformistas (e elas possuem várias tonalidades), que foram esmagadas na eleição fraudulenta de quatro anos atrás que conferiu o segundo e último mandato a Mahmoud Ahmadinejad, são opções desalentadoras. O único candidato vagamente reformista no páreo, Mohammad-Reza Aref, caiu fora por razões táticas.

A ideia agora é dar apoio ao menos duro no plantel de candidatos aprovados pelo sistema. Ele é Hassan Rohani. O cidadão já foi negociador nuclear de Teerã com a comunidade internacional. Alguns setores reformistas (a rigor, devemos rotulá-los de pragmáticos), como o ex-presidente Hashemi Rafsanjani (que se inscreveu para concorrer, mas foi vetado pelo poder supremo, o aiatolá Khamenei), apostam nele como um candidato de reconciliação com o regime em torno de algumas exigências mínimas.

Rohani, por exemplo, na campanha fala de um governo de “esperança e prudência”. Para dar uma medida do desalento, Rohani denunciou os protestos reformistas quatro anos atrás. Sua proposta é seguir negociando o programa nuclear com a comunidade internacional, livrar-se das sanções que contribuíram para o desastre econômico do país, mas manter o projeto de enriquecimento de urânio. Muito esperançoso.

Na outra banda, não existem esperança e prudência. Entre os candidatos fundamentalistas, está o prefeito de Teerã, Mohammad-Baqer Qalibaf (Ahmadinejad também ocupou o cargo), com um projeto mais gerencial para reverter o desastre econômico. O aiatolá Khamenei prefere Saeed Jalili, o atual negociador nuclear, um tipo dócil e incolor. Khamenei, manda-chuva e manda-intolerância desde 1989, espera que não se repita a história de ser traído pelos presidente de plantão.
Khamenei, como de hábito, quer um espetáculo coreografado, mas dentro e fora do sistema acontecem surpresas que fogem ao roteiro. Um exemplo é o moderado Rohani chegar ao segundo turno (no próximo dia 21), isto, é claro, se o sistema permitir. Nas escolhas inglórias da realidade iraniana, sempre é bom ver algum espaço político e cívico conquistado por setores mais razoáveis, para dar algum alento para setores da sociedade que sabem que este sistema vigente é infame, uma falcatrua. Sempre bom ver o aiatolá Khamenei humilhado, nada épico, mas….
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Colher de chá para os iranianos que, de alguma forma, darão um recado ao sistema nas eleições.  E pelas contribuições ao longo da quinta-feira, colher de chá para o Ivan.

Rabiscos Estratégicos (Síria, Turquia e além)

Combatentes do Hezbollah na Síria

Qual é o seu rascunho do dia sobre o arco de turbulências no mundo árabe-islâmico?

O conflito na Síria que se dissemina pela região (a destacar Líbano e Iraque) é componente essencial de uma guerra fria (cada vez mais quente entre o regime xiita do Irã e seus rivais sunitas (a destacar a Arábia Saudita). O cálculo de Teerã e da milícia xiita libanesa Hezbollah é o de que será possível salvar Bashar Assad (vital para a sobrevivência destes dois atores), mas evitar uma ampla guerra regional. Uma aposta muito arriscada.

Mas não é apenas isto. Não se trata meramente de um conflito sectário. Nunca podemos esquecer os componentes de crua politica. E minha “gurua” para assuntos de Oriente Médio, Roula Khalaf, do Financial Times, lembra o seguinte: as rivalidades sectárias estão sendo exploradas por atores autoritários na região no seu esforço para permanecer no poder.

Vamos ao caso mais gritante, sofrido: na Síria, onde a maioria da população é sunita, a oposição se insurgiu contra o regime de opressão e não pelo fato da família Assad pertencer à minoria alauíta (seita que compartilha as práticas xiitas).

O regime teve sucesso para tirar vantagem do mosaico religioso do país e angariar apoio de minorias temerosas, como os cristãos, alegando seu combate contra extremistas sunitas. A propaganda ganhou um fundo de verdade na medida em que combatentes rebeldes se radicalizaram e, pior, jihadistas entraram na arena, capazes de provocarem atrocidades, como o regime Assad, embora ainda não na mesma escala (nem tiveram tempo para tal).

Mas, é muito mais duvidoso um sucesso estratégico para a Síria e seus aliados do “eixo da resistência (Irã e Hezbollah) no seu conflito contra o amplo arco sunita, que inclui de extremistas ligados à rede terrorista Al Qaeda ao governo do primeiro-ministro turco Recep Erdogan. Isto não quer dizer que as coisas estejam tranquilas do outro lado.

Fogo no laboratório da praça Taksim

Basta ver a Turquia. O governo Erdogan estendeu demais seu arco de atuação no Oriente Médio na pretensão de assumir a liderança da Primavera Árabe, mas agora suas flechas são disparadas dentro de casa, alvejando a praça Taksim, em Istambul e outros espaços cívicos, marcados por protestos pacíficos, arruaças e polícia policialesca.

Deste terça-feira, uma escalada de violência na Turquia. Bem ali, no laboratório que testa a fórmula que mistura islamismo e democracia, made in Turkey, produto de exportação. O laboratório está pegando fogo nas disputas de seculares x islamistas.  Apesar dos pesares, melhor ainda estar em Istambul do que em Damasco, Cairo, Riad ou Teerã.

Em outros países que conheceram a Primavera Árabe, alguns com mais fogo do que os outros, há os conflitos de seculares x islamistas e também os de islamistas x islamistas. No Irã, onde a primavera foi esmagada ha quatro anos na eleição fraudulenta de Mahmoud Ahmadinejad, é a linha dura x linha dura na eleição presidencial do próxima sexta-feira, com a benção do aiatolá Khamenei.

Vários rascunhos serão reescritos sobre este turbulento período no mundo árabe-islâmico no começo do século 21. Este é o meu, du jour.

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Colher de chá para Anna (dia 12, 14:20). 

27/05/2013

às 6:00 \ Hezbollah, Irã, Israel, Libano, Síria

O Líbano velho (e novo) de guerra

Funeral de miliciano sunita em Trípoli, no Líbano

Você está confuso com a Síria? Está cansado de acompanhar o conflito? Então, vá para o Líbano. Ainda não dá para ficar cansado, mas a confusão é imediata. Era wishful thinking que a degringolada na Síria não sugaria o país vizinho, enfronhado nas suas bizantinas e voláteis divisões sectárias e políticas. Para começo de conversa, são 18 seitas no país (com sua subdivisões entre muçulmanos e cristãos). A duras penas, o país até agora evitou uma nova guerra civil como a que prosperou entre 1975 e 1990.

Desde então, grandes diferenças foram o fortalecimento do movimento xiita Hezbollah (hoje peça importante do governo, embora seja terrorista) e a diluição da influência cristã (hoje, 40% da população). Para dar uma medida da confusa volatilidade, um dos mais importantes líderes cristãos no final da guerra civil era o ex-comandante do Exército, Michel Aoun, que combatia muçulmanos, outras milícias cristãs e os sírios que invadiram o Líbano e praticaram um grande massacre de centenas de civis e soldados desarmados em Beirute em outubro de 1990. Hoje, Aoun é aliado da Síria e do Hezbollah.

Agora, a mais virulenta divisão sectária no Líbano é entre sunitas e xiitas (e não entre muçulmanos e cristãos). No sábado, no décimo-terceiro aniversário da retirada de Israel no sul do Líbano (naquelas bandas não é salada russa, mas de couscous), o líder do Hezbollah, Hassan Nasrallah, assumiu publicamente que sua milícia terrorista está metida até o pescoço na guerrra civil síria, ao lado do ditador Bashar Assad e do patrono de ambos, o regime xiita iraniano. Milicianos do Hezbollah estão lutando e morrendo nos combates pelo controle da estratégica cidade de Qusair, a 10 quilômetros da fronteira.

Do outro lado da guerra civil síria, estão basicamente os sunitas (a grande maioria da população do país) e seus combatentes mais aguerridos são extremistas islâmicos, muitos deles jihadistas estrangeiros. Militantes sunitas libaneses se engajaram mais a fundo na guerra civil do país vizinho ao lado dos rebeldes. No dia seguinte ao pronunciamento de Nasrallah, no domingo, foguetes foram disparados contra o baluarte do Hezbollah nos subúrbios do sul de Beirute. O comando militar dos rebeldes sírios nega envolvimento.

Que bando! Nasrallah, Assad e Ahmadinejad

Semanas atrás, Israel já tinha bombardeado na Síria depósitos de foguetes sofisticados destinados ao Hezbollah. Para Nasrallah, o Hezbollah, a Síria e o Irã compõem o bloco de resistência contra os EUA e  Israel. O grupo terrrorista sunita Al Nusra, que combate na Siria e é ligado à rede Al Qaeda, promete “queimar” Beirute em represália às ações do Hezbollah na guerra civil síria.

Já nos campos de refugiados palestinos na Síria e do Líbano, há grupos apoiando os dois lados na guerra civil síria e se posicionando com a escalada do conflito libanês. No norte do Líbano, está em curso uma miniguerra civil em Trípoli, a segunda cidade do país, entre sunitas e alauítas, a seita minoritária de Bashar Assad. Com alarme, Israel desgosta de todos os lados no conflito. mas em termos estratégicos seu maior foco continua sendo o inimigo iraniano.

Houve tempos em que líderes sunitas libaneses elogiavam o Hezbollah por resistir contra Israel, sua razão de ser. Hoje o grupo atua como capanga do ditador Assad e do aiatolá Khamenei, resistindo contra o avanço sunita na Síria, no mosaico de conflitos no Oriente Médio. Nasrallah promete lutar na Síria até a vitória de Assad (o que não vai acontecer). O Hezbollah diz que não deseja uma guerra civil no Líbano, mas irá arrastar o país para uma, em nome dos interesses do seu bloco. Para o ex-ministro libanês Saad Hariri, líder sunita apoiado pelos sauditas, Nasrallah está cometendo suicídio político e militar com seu engajamento na Síria. Mas por autointeresse, talvez Nasrallah não tivesse outra alternativa. Sem Assad, o Hezbollah pode não sobreviver.

A Síria hoje é o Líbano de ontem e o Líbano poderá ser amanhã a Síria de hoje.

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Colher de chá para o J.R. Monteiro (dia 27, 21:03). 

06/05/2013

às 6:00 \ EUA, Hezbollah, Irã, Israel, Libano, Síria

As várias encrencas dentro (e fora) da encrenca síria

O céu de Damasco depois da visita israelense

No cada vez mais caótico cenário sírio, existem várias guerras, envolvendo atores internos e externos. Uma das frentes se intensificou no domingo, quando Israel, pela segunda vez em três dias, bombardeou, perto de Damasco, suprimentos de mísseis avançados destinados à milícia xiita libanêsa Hezbollah. com a qual travou uma guerra em 2006.

Em dois ataque anteriores (em janeiro e na sexta-feira), Israel também agiu para destruir armas enviadas pelo Irã ao Hezbollah no Líbano, via Síria. Na triangulação, o Irã e o Hezbollah são aliados da ditadura Assad, mas jogam também com seus próprios interesses em caso de colapso do regime de Damasco, que pode também tentar sobreviver apenas como um enclave na costa, apoiado por seus dois aliados regionais.

Para Israel, convém ver seus inimigos enfraquecidos e imersos na guerra civil síria. Israel, no entanto, teme que o descontrole do conflito interno se torne uma crescente ameaça caso grupos jihadistas sírios, ao contrário do regime Assad que eles combatem, não mantenham a estabilidade na fronteira que persiste desde a guerra de 1973 ou tenham acesso ao arsenal de armas químicas de Damasco.

Como parte do seu cálculo estratégico, Israel expressa disposição para intervenções mais frequentes no conflito sírio, tanto para alertar sobre o perigo das armas químicas, como para conter o Hezbollah e dar recados para seus patronos iranianos. Israel estima que pode realizar estas intervenções sem uma reação efetiva tanto do regime sírio (atado na guerra civil), como do Irã e do Hezbollah, embora sempre haja o risco de retaliações via atentados terroristas.

Em comum, vários atores internos e externos no conflito sírio, muitos deles rivais entre eles, como o regime Assad, rebeldes, Irã, Liga Árabe, Turquia, Egito, Líbano e o Hezbollah, denunciaram o mais recente bombardeio israelense como uma violação da soberania interna do país, mas está todo mundo metido e mentindo na encrenca.

Claro que tem gente gostando da atuação israelense, mesmo sem gostar de Israel. O governo turco ridicularizou a Síria por não ter peito para retaliar contra Israel, como deveria, e, ao mesmo tempo, em um dos seus mais pesados ataques contra o presidente Asssad, seu ex-amigo do peito, o primeiro-ministro Recep Erdogan, o acusou de ser um carniceiro que pratica atrocidades contra o seu próprio povo.

A oposição síria acusou Israel de desviar as atenções dos mais recentes massacres praticados pelo regime Assad contra sua própria população e de ser insensível aos crimes praticados por este regime, mas porta-vozes rebeldes na frente de batalha reconheceram que os ataques israelenses desde sexta-feira vieram em boa hora.

Para a oposição, a situação é uma saia justa, pois ela não pode parecer que compactua com Israel (e, de fato, muitos rebeldes jihadistas não hesitariam em ir à carga contra Israel depois de derrotarem Assad), mas a oposição ganha pontos quando o Hezbollah, que se mete de forma cada vez mais mais profunda no conflito interno ajudando Assad, inclusive com tropas, é enfraquecido devido aos bombardeios israelenses ou quando o regime de Damasco precisa se guarnecer contra vários inimigos.

Na narrativa do regime sírio, opositores são “terroristas” e agora se revelam cúmplices de Israel e dos imperialistas ocidentais. Damasco chegou ao ponto de dizer que existe uma coordenação entre Israel e jihadistas associados à rede Al Qaeda. O Hezbollah, de sua parte, elabora que o Ocidente e seus aliados árabes usam o conflito interno sírio como cenário de uma guerra mais ampla contra o Irã.

Já o governo Obama, avesso a um envolvimento profundo na encrenca síria e que se desmoralizou por ter uma linha vermelha desbotada e flexível, a qual Assad não pode cruzar no uso de armas químicas, parece dar sinal verde para Israel estabelecer sua própria linha vermelha para o Irã e o Hezbollah.

A Síria, sem dúvida, hoje, é uma das frentes de batalha em um tabuleiro regional de conflitos multidimensionais. Para os vários atores envolvidos, não interessa no momento uma guerra em larga escala, mas uma escalada pode fazer as coisas fugirem ao controle, com tantos atores sugados para dentro do conflito.

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Esta é uma coluna de narrativa estratégica. Colher de chá para os vários palpites estratégicos da Carmem. 

01/05/2013

às 6:00 \ Arábia Saudita, Irã

O filme da repressão saudita

A diretora Haifaa al-Mansour e a atriz Waad Mohammed pedalando para a fama no Festival de Veneza

A coluna de terça-feira foi um desenho da repressão iraniana. Hoje o foco é um filme da repressão saudita. Conhecemos o essencial: ambos os países são mecas do fundamentalismo religioso (um xiita e o outro sunita). Com o movimento refomista travado, o Irã pedala para trás. E a Arábia Saudita?

Com o filme O Sonho de Wadjda (com estreia oficial no Brasil nesta sexta-feira), a mensagem da diretora Haifaa al-Mansour, 38 anos, acaba sendo ambígua na história de Wadja, a menina de 11 anos, com seu sonho e trama para ter uma bicicleta. Aqui um trailer do filme, com legendas em português.

Haifaa al-Mansour exibe o obscurantismo do seu país, em particular em relação às mulheres, mas também serve de garota-propaganda para o regime saudita apregoar pelo menos algumas tímidas reformas (para nós, de fora, em ritmo paquidérmico, mas para a casa Saud, algo camaleônico). Aliás, curiosamente, é no cinema que a sociedade iraniana (em filmes como A Separação, premiado com o Oscar) exibe ao mundo suas nuances.

E Haifaa al-Mansour está sendo premiada e festejada por seu feito. No mês passado, foi a festa no festival Tribeca em Nova York. E o filme é um sucesso doméstico? Antes de mais nada, não há cinemas na Arábia Saudita desde os anos 70, em contraste à profusão de shopping-centers (o filme será lançado em DVD e televisão por assinatura). No reino do petróleo, o consumismo hedonista coexiste com uma interpretação obscurantista e puritana do islamismo.

A proeza de Haifaa al-Mansour foi além de dirigir um filme na Arábia Saudita. O Sonho de Wadjda foi o primeiro longa-metragem inteiramente filmado no país. A história da filmagem dá um filme. Foi difícil conseguir patrocínio, pois parecia impossível que uma mulher concretizasse a missão.

Haifaa al-Mansour é uma saudita viajada e ocidentalizada (estudou na Austrália e casou com um diplomata americano). Produtores alemães bancaram seu projeto, assim como a produtora do príncipe iluminista saudita Alwaleed bin Talal. Haifaa al-Mansour superou outro obstáculo num país em que as mulheres não gostam de ser fotografadas ao encontrar a promissora menina Waad Mohammed para o papel de Wadjda. Saiu a permissão para a filmagem, mas existem as restrições sauditas para mulheres trabalharem em público. Haifaa al-Mansour dirigiu o filme de dentro de uma van, dando instruções através de um walkie-talkie.

É uma corrida de obstáculos (fazer o filme levou cinco anos), mas Haifaa al-Mansour acredita que a sociedade saudita pelo menos avança, com pequenos espaços sendo negociados. É possível traçar alguns paralelos na ficção da menina Wadjda com a corajosa (e tambem trágica) realidade da menina Malala Yousafzai (baleada no Paquistão pelo Taliban por lutar por educação feminina), por tentarem conquistar o fundamental.

Malala sobreviveu e está na luta. A metáfora do filme de Haifaa al-Mansour é óbvia. A menina Wadjda almeja a liberdade conferida pela bicicleta, ela quer ir adiante e mais rapidamente. Como o filme tem beneplácito do regime, Haifaa al-Mansour despolitiza o tema. Nas entrevistas, ela diz que é uma obra sobre esperança.

Na vida real, as autoridades sauditas anunciaram no começo de abril que as mulheres podem andar de bicicleta em público, desde que em áreas recreacionais, trajadas a rigor e na companhia de um parente do sexo masculino. Mas nada ainda de dirigir carros, apesar de uma corajosa campanha de mulheres.

No plano dos potentados sauditas: lentíssimas mudanças políticas e culturais, polpudo assistencialismo, combate barra pesada ao terror islâmico (interno) e dura, mas dosada, repressão para impedir que a Primavera Árabe chegue ao país, a pé, de camelo ou de bicicleta. Esta é a esperança do regime, mas não é justo as Wadjdas esperarem tão pouco. Elas têm direito a muito mais.

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Colher de chá para a Andrea, bom trabalho neste Dia do Trabalho. Pedalem com os dois comentários dela. 

30/04/2013

às 6:00 \ Irã

O desenho da repressão iraniana

O cenário é desolador no Irã, que terá eleições presidenciais em junho. Como diz a revista The Economist, será a disputa de conservadores x conservadores, ou seja, entre setores do establishment do regime xiita. Não existe espaço para reformistas, que foram abafados, torturados, presos e mortos com os protestos que tiveram lugar depois da fraudulenta eleição que deu um segundo e último mandato para Mahmoud Ahmadinejad em junho de 2009.
Com este cenário, quem pode escapa. Há um brain drain: cabeças jovens e pensantes vão embora do país. O jornalista Omid Memarian conseguiu fugir para os EUA após prisão e tortura em 2004. Antes, ele fora forçado a fazer uma confissão de culpa diante das câmeras de televisão. Mas, Memarian nos lembra que uma válvula de escape é o cartum.
Tristemente, cartunistas iranianos têm sido presos ou estão no exílio. Memarian prestou uma homenagem a estas vozes (e a estes traços), editando um livro publicado pela Campanha Internacional pelos Direitos Humanos no Irã. Em Sketches of Iran, temos 40 ensaios sobre perseguição política, acompanhados de cartuns políticos de artistas que estão dentro e fora do país.
O cartum acima é uma homenagem do artista Nikahang Kowsar a Mostafa Tajzadeh, um dos mais importantes líderes da oposição reformista no país, preso depois das eleições de 2009 e que cumpre pena de seis anos de cadeia, acusado de fazer “propaganda contra o regime”. Tajzadeh enfureceu o regime com as cartas enviadas do cárcere. Como punição, foi colocado na ala do pior tipo de preso comum na infame prisão de Evin.
Nós podemos reagir com uma risada, um sorriso amarelo ou ficarmos ainda mais indignados com o que se passa no Irã, mas o livro editado por Memarian nos oferece esta pequena válvula de escape. Pena que ativistas dos direitos humanos, como a advogada Nasrin Sotoudeh, também cumprindo pena de seis anos de prisão (no cartum abaixo de Afshin Sabouki), continuem algemados, incapazes de fazer o seu trabalho.

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Colher de chá matinal para o Maisvalia (dia 30, 8:56).  E na mesma linha uma vespertina para os comentários do leitor O Antipetralha. Hoje estou caricaturalmente generoso. Mais uma colher de chá para o Ricardo Platero (dia 30, 14:35). Abre um bom debate.

Eu não sou fã de Erdogan, mas…

Chapéu ao estilo Ataturk

Continuando a frase do título desta coluna, eu tiro o chapéu para o primeiro-ministro turco. São impressionantes as conquistas nos últimos dias de Recep Tayyip Erdogan para se tornar o maior líder do seu país desde Kemal Ataturk, o pai da Turquia moderna, que surgiu das cinzas do Império Otomano, e também para consolidar sua liderança regional. Erdogan inclusive tem apelado ao chapéu de estilo cossaco que era usado por Ataturk.

Foram dois lances: um deles pegou o mundo de surpresa e eu explico mais para a frente. O mais coreografado foi a trégua com os separatistas do Partido dos Trabalhadores do Curdistão, uma organização definida como terrorista na Turquia, Europa e EUA. Seu líder Abdullah Ocalan, que está em confinamento solitário há 14 anos em uma ilha, acertou com as autoridades o acordo. Os rebeldes devem baixar as armas e lutar politicamente por suas aspirações, que também baixaram.

O líder curdo Abdullah Ocalan

O conflito já custou 40 mil  vidas em  30 anos, quase todas curdas. Ao invés do sonho da independência para os curdos da Turquia, haverá aceitação de um estado unitário, com língua, cultura e direitos da minoria respeitados. Tudo isto inscrito em uma reforma da Constituição.

Os curdos são um povo sem pátria, que tiveram suas aspiraçães traídas por ingleses e franceses, com a derrota do Império Otomano na Primeira Guerra Mundial e vivem espalhados pela Turquia, Síria, Iraque, Irã e Armênia. Na Turquia, eles representam  20% dos 75 milhões de habitantes.

Erdogan seduz os curdos e espera conseguir o apoio deles no referendo para a reforma da Constituição em 2014 para criar uma presidência forte. E a próxima aspiração do ambicioso e autoritário Erdogan é chegar à presidência depois de três mandatos como primeiro-ministro, mas ele quer uma chefia de Estado com poder e não cerimonial.

Com o esforço para criar um modus-vivendi com os curdos na Turquia, Erdogan melhora ainda mais suas relações com o governo semiautônomo curdo no Iraque. Os turcos estiveram entre os grandes beneficiados da guerra no Iraque, mas em boa parte suas exportações e investimentos em construção foram na região curda, sem contar os projetos energéticos. Esta intimidade do sunita Erdogan com os curdos deixa furioso o primeiro-ministro xiita do Iraque, Nouri al-Maliki.

Ao fechar o acordo com os separatistas curdos, os turcos esperam também acalmar militantes do Partido dos Trabalhadores no Curdistão, que atuam na Síria, agora com sinal verde do ditador Bashar Assad, que se tornou inimigo de Erdogan, partidário dos rebeldes na guerra civil. Um dos motivos que este acordo com Ocalan pode melar serão os esforços de sabotagem do regime Assad e seus aliados iranianos. Existe também resistência nacionalista dentro da Turquia.

Erdogan com Obama

Neste complexo jogo de xadrez geopolítico, outro lance, mediado pelo presidente americano Barack Obama, foi a reconciliação entre a Turquia e Israel. Foram três anos de disputa e o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu pediu desculpas por erros isralenses fatais na tomada da embarcação turca que levava ajuda a palestinos em Gaza, em 2010. Erdogan, de sua parte, recuou da mais virulenta retórica antiisraelense, como equiparar sionismo a fascismo.

Esta reconciliação também pode melar. De qualquer modo, Turquia e Israel são aliados estratégicos dos EUA e compartilham a preocupação com a instabilidade regional, a destacar na Siria, com o qual ambos fazem fronteira. Será interessante saber como a Turquia irá se comportar em caso de ataque israelense ou americano contra as instalações nucleares do Irã, país com o qual também tem fronteira e mantém muitos negócios, em meio à competição por liderança regional.

Com estes lances políticos e diplomáticos dos últimos dias, Erdogan confirma sua influência e sua condição de ator indispensável na região. Mais do que isto, ao aparar as arestas com os EUA e Israel, ele mantém um pé no Ocidente, ao mesmo tempo que avança no mundo árabe-islâmico, com a pretensão de vender um modelo de conciliação entre islamismo e democracia, em particular na esteira da Primavera Árabe. Erdogan flerta e suspeita da Europa. Os sentimentos são mútuos.

Querem mais? A pequena ilha de Chipre se tornou epicentro da crise financeira europeia, com investidores russos no meio da confusão e peão de um grande jogo de interesses energéticos, com seus promissores campos offshore de gás e petróleo. A ilha está dividida entre o sul greco-cipriota e o norte turco-cipriota. A maior parte das águas territoriais são reinvindicadas pelos turco-cipriotas, cuja república é reconhecida apenas pela Turquia.

Erdogan com Putin

Entre dois mundos (o Ocidente e o Oriente), a Turquia é isso aí: um pé para cá, outro para lá. Pena que o dançarino seja alguém como Erdogan, um paladino do autoritarismo, dirigente de um país campeão mundial de encarceramento de jornalistas. Com as reformas constitucionais, o plano de Erdogan é firmar uma presidência forte ao estilo francês. O risco é o de que seja uma mutação do modelo de Vladimir Putin, o presidente da Rússia, outro país com um pé para cá, outro para lá.

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Colher de chá para os comentários do General Failure e do Henrique, bem amarrados e articulados. 

19/03/2013

às 6:00 \ EUA, Irã, Iraque, Israel, Síria

Iraque, 10 anos (II)

Netanyahu e a animação na ONU da bomba iraniana

Na minha coluna de segunda-feira, havia uma longa arenga sobre a irresponsablidade, a arrogância e os danos causados pela invasão do Iraque, deflagrada há exatamente dez anos pelos EUA e seus aliados. Existem lições sobre os excessos, exageros, fantasias políticas e consequências não intencionais.

No pêndulo geopolítico e emocional (sem esquecer o quadro econômico dos EUA), fomos para o outro lado. Temos hoje um governo presidido por Barack Obama relutante para intervir, alcunhado com a doutrina de “liderar de trás”.

Existe hesitação inclusive para fornecer ajuda indireta a rebeldes sírios que querem derrubar o ditador Bashar Assad. A cautela que abafa a arrogância imperial pode ser salutar, mas também pode ser paralisante. Existe o excesso e existe o excesso de zelo.

O desprezo do governo Bush pelo multilateralismo no Iraque fez com que ele abusasse do unilateralismo (ok, ele tinha uma imensa coalizão meio fajuta). Mas agora o risco é o reverso. Decisões que envolvem os mais importantes interesses do mundo ocidental ficam amarradas nas armadilhas armadas por russos e chineses no Conselho de Segurança das Nações Unidas. Em nome da não intervenção em assuntos internos de outros países, Moscou e Pequim zelam por seus interesses e assim são responsáveis pela imersão da Síria em um banho mais prolongado de sangue.

Há situações em que intervenções militares precisam ser realizadas. Cedo para julgar, mas eu espero que a história mostre que foi acertada a intervenção limitada do Ocidente na Libia, que culminou em 2011 na queda e morte de Muammar Khadafi, um outro Saddam. A França, apesar de seu prontuário hipócrita, agiu corretamente ao intervir no Mali agora no começo de 2013 para conter o terror jihadista. A mesma França que deixou os americanos na mão no Iraque há dez anos.

A guerra do Iraque deixou patente vários excessos, como a politização do trabalho de inteligência dos EUA. Probabilidades se tornaram certezas (ou mentiras), ajustáveis à agenda política, a destacar do vice-presidente Dick Cheney, que precisava de material de inteligência para justificar o casus belli para a guerra (as armas de destruição em massa de Saddam Hussein, que, no final das contas, ou das contas erradas, não existiam).

Mas é um risco encarar os dilemas do presente com os paradigmas do passado. Houve um fracasso de inteligência no Iraque. Logo, por que, então, acreditar que o Irã esteja a caminho de sua bomba nuclear? A farsa no Iraque é usada marotamente por muita gente para justificar braços cruzados no Irã ou para denunciar intenções malevolentes dos EUA e de Israel.

Como confiar em Khamenei?

Mas crença manipulada não pode ser mecanicamente substituída pela descrença infundada. Sim, Dick Cheney mentiu. Isto quer dizer que devemos acreditar no aiatolá Khamenei quando ele jura que o Irã não tem um programa nuclear com fins militares? Seu país é violador contumaz das regras, alvo de sanções aprovadas até por Moscou e Pequim.

O fiasco estratégico no Iraque, o temor de agir de forma atabalhoada, uma maior sensibilidade para costurar um bloco multilateral e a fadiga de guerra são obstáculos plausíveis para ações mais agressivas contra o Irã ou a Coreia do Norte. Mas são também incentivos para estes dois países (integrantes, ao lado do Iraque de Saddam Hussein, do “eixo do mal” alcunhado por George W. Bush) avançarem com seus programas nucleares (os norte-coreanos já possuem bombas), em função de uma certa confiança de que o atual governo americano de Barack Obama não será rápido no gatilho. Iranianos abusam devido ao poder americano enfraquecido nos últimos anos e também com problemas de credibilidade depois do vexame iraquiano, que, entre outras coisas, foi um plus para Teerã.

A ameaça nuclear iraniana, aliás, será ponto central das conversas esta semana em Jerusalém entre Obama e Benjamin Netanyahu. O dirigente israelense novamente vai acossar o presidente americano a compartilhar do seu senso de urgência e necessidade de aderir a uma postura drástica, como um ataque as instalações nucleares iranianas este ano ou no mais tardar em 2014.

Estou endossando Netanyahu? Não, embora como em 2003, no caso iraquiano (oops), acredite na ameaça das armas de destruição em massa do Irã. Outras opções, porém, ainda não estão esgotadas.

Minhas dúvidas existem em parte graças a um debate franco sobre a sabedoria de um ataque contra o Irã, manifestada até por uma legião de ex-chefes militares e da inteligência de Israel (curiosamente aqui temos um outro tipo de politização de inteligência, em que gente da reserva questiona o processo analítico e decisório dos governantes).

Há também divergências abertas entre os EUA e Israel sobre o relógio nuclear, ou seja, quando o Irã realmente terá condições de consumar o ciclo para a fabricação da bomba. Trago estes exemplos para mostrar como 10 anos depois da farsa das armas de destruição do Iraque, há um espetáculo mais complexo no caso iraniano.

Foto pornográfica

Já no caso da Síria, estou mais inclinado a aceitar a necessidade de uma intervenção, inclusive para enfraquecer o eixo Teerã-Damasco. Não vou repetir a ladainha que é melhor ficar com os diabos conhecidos do que arriscar com os desconhecidos. Sei disso. Mas olhe os dois caras na foto. Difícil ser meramente cerebral quando estamos falando de Bashar Assad e Mahmoud Ahmadinejad. É um cenário em que se misturam considerações estratégicas e humanitárias.

Desta vez, ao contrário do Iraque de Saddam Hussein, existem dilemas muito aflitivos sobre intervir e não falsos pretextos para invadir. E o debate aqui é cada vez mais acadêmico, pois creio que armas aos rebeldes serão fornecidas por países ocidentais e o regime de Assad é apenas a crônica de uma morte anunciada (uma longa crônica).

E eu escrevi uma longuíssima crônica. Ao que interessa: dez anos depois, o Iraque oferece muitas lições. A sabedoria é saber quais e quando usá-las.

***
Parece que esperei 10 anos (ou 10 horas), mas saiu a colher de chá. Vai para os cenários do Maurício (dia 19, 20:46). E na calada da noite, mais uma para o Waldorf (dia 19, 23:03).

 

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