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Arquivo da categoria Irã

22/05/2012

às 6:00 \ Crise nuclear, Egito, EUA, Europa, Irã, Israel, Uncategorized

Curtas & Finas (Gritos & Sussurros)

Os cochichos de Netanyahu e Barak

Eu tenho revelações bombásticas nesta terça-feira. Prontos? Quarta-feira vem aí. Será um dia agitado no mundo e aqui me limito a eventos programados: reunião de cúpula, em Bruxelas, dos dirigentes da União Europeia (mais pressão para a austera Angela Merkel amolecer), o primeiro dia do primeiro turno de históricas eleições presidenciais egípcias e uma intrigante rodada de negociações nucleares, em Bagdá, entre seis potências mundiais e o Irã.

No primeiro assunto (Europa), é previsível a capacidade europeia de empurrar com a barriga, no segundo (Egito) é imprevisível garantir quais candidatos irão sobreviver para o segundo turno (numa disputa em que ressurgiu até o nasserismo e na qual liberais e islâmicos da linha-dura salafista respaldam o mesmo candidato). Vou me concentrar um pouco mais no terceiro evento (Irã nuclear).

Existe no jargão diplomático, o chamado otimismo cauteloso de que seja possível romper o impasse. Por esta narrativa, o Irã sente o peso das sanções e todo falatório estridente não passaria de preparação para anunciar concessões (como aceitação de inspeções rigorosas de suas instalações nucleares e diminuição drástica da produção de urânio enriquecido). O tom otimista já foi manifestado nesta terça-feira pelo diretor da Agência Internacional de Energia Atômica, Yukiya Amano, acenando com um acordo pelo qual o Irã permitiria investigações de uma instalação suspeita de realizar testes para o desenvolvimento de uma ogiva nuclear.

Mas não posso passar batido pela estridência abjeta, como na declaração esta semana do chefe do Estado-Maior das Forças Armadas iranianas, general Hassan Firouzabadi, de solidariedade à causa palestina de “total aniquilação de Israel”. Do outro lado (a destacar os EUA de Barack Obama em campanha de reeleição), interessa algum tipo de compromisso para afastar o cenário de um ataque às instalações nucleares iranianas.

Falta sempre combinar com Israel  (aquele país que deve ser “aniquilado”) e aqui está a informação interessante: na imprensa israelense, há especulações, que para mim soam muito otimistas, de que o governo estaria mais flexível (ou resignado) na questão de enriquecimento de urânio iraniano. Tal disposição teria sido manifestada aos americanos pelo ministro da Defesa Ehud Barak, enquanto o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu mantém a postura pública de inflexibilidade.

Na segunda-feira, Netanyahu voltou a advertir o Ocidente para não mostrar fraqueza. E mesmo em público, também na segunda-feira Barak é durão. Ele alertou os países ocidentais que o Irã está apenas fingindo disposição para fazer concessões nas negociações. Alertas `a parte, Israel toparia que o Irã continuasse o enriquecimento de urânio no nível baixo de 3.5% (a partir dos 20%, o que já acontece, fica mais fácil saltar rapidamente para o nível que possibilita a construção da bomba).

Um cenário nestas negociações em Bagdá seria pavimentar o caminho para um acordo interino, pelo qual o Irã interromperia o enriquecimento de urânio a 20% e abriria mão de 100 quilos de material neste nível. Em troca, as seis potências mundias (EUA, Grã-Bretanha, França, Alemanha, Rússia e China) suspenderiam os esforços para impor novas sanções. No entanto, o embargo europeu de petróleo ainda entraria em vigor em julho, assim como as sanções americanas contra o Banco Central iraniano. Entenda-se por resignação em Israel o fato de que avanços efetivos em negociações inviabilizariam um ataque militar por uns tempos (bom para os EUA, bom para o Irã).

Vamos aguardar os desdobramentos nesta quarta-feira em Bruxelas, Cairo e Bagdá, além de ficar na escuta dos cochichos em Jerusalém.

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Colher de chá para os comentários (concisos, algo que é uma benção para mim) desta terça-feira do João Felipe sobre as sutilezas da história, guerra e da diplomacia. 

14/05/2012

às 6:00 \ Irã, Israel, Mundo Árabe, Oriente Médio, Palestinos

Em defesa de Israel (de novo) e até de Netanyahu

Netranyahu, por cima, com seu novo parceiro Mofaz

Que coisa! Governos são derrubados por crise econômica (Europa, num jogo de dominó) ou são derrubados porque o prazo de validade expirou (Oriente Médio, como no Egito) ou se aguentam no poder porque expiram a oposição com força bruta (também no Oriente Médio, como na Sïria). E lá em Israel, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu mostra que o país está sólido, em uma recado aos inimigos externos e também aos amigos de Israel que temem pela coesão interna do país.

Netanyahu, do partido de direita Likud, deu um golpe de mestre na semana passada, ao aliciar o partido de centro Kadima para a coalizão de governo. Assim, ele não antecipou as eleições gerais de outubro de 2013 para o próximo setembro como estava praticamente decidido e costurou uma supermaioria no Parlamento (3/4 das cadeiras). A jogada maquiavélica de Netanyahu atraiu muita atenção e especulações sobre as ramificações externas.

Uma leitura é a de que o país se uniu como não se unia desde a guerra de 1967. Logo, o terreno está sendo preparado para um ataque às instalações nucleares iranianas. Possível. Há uma leitura também que a incorporação do Kadima, um partido com uma posição mais aberta e sensível à questão palestina, pode movimentar as coisas naquela frente diplomática após tantos anos de paralisia. Menos possível. Basta ver que Israel e palestinos sequer conseguem retomar negociações substantivas, como mostrou a mais recente troca de correspondência entre os dois lados.

As considerações urgentes para o lance de Netanyahu foram mais domésticas e aqui manifesto um pouco de alívio. Nas considerações externas, eu persisto nas dúvidas sobre a sabedoria deste ataque ao Irã (em particular se for uma iniciativa unilateral de Israel) e no caso palestino não vislumbro avanços significativos tão cedo, o que a longo prazo é uma dano ao direito palestino a um estado, à legitimidade de Israel e à busca de um modus-vivendi entre judeus e árabes no Oriente Médio. É  um cenário inquietante e que continua se agravando.

Ao menos, porém, existe uma frente mais sólida internamente (a noção de solidez, é verdade,  deve ser encarada com ceticismo em Israel e sua classe de políticos tão oportunistas, fisiológicos e corruptos). País mais sólido internamente fica mais preparado para enfrentar desafios externos. E porque o alívio? O Likud nunca foi minha praia, mas o consolo para mim é o fato de ser um partido relativamente secular, como é o caso do Kadima (que é filhote do próprio Likud). Este casamento de conveniência entre pai e filho aumenta a margem de manobra para diminuir o espaço que já é desproporcional de pequenos partidos ultrarreligiosos, que converteram o país em refém de suas causas (ao lado de partidos ultranacionalistas de direita, outro dano para a saúde e o futuro do país).

Com esta nova coalizão, ficou mais fácil a aprovação de reformas nos próximos meses, a destacar a exigência de algum tipo de serviço nacional para os jovens religiosos (hoje isentos do serviço militar obrigatório) e também de reformas do sistema político para reduzir o poder destes partidecos. Eu considero uma maravilha uma freada na aceleração religiosa em Israel, um belo exemplo quando vemos o avanço do fundamentalismo islâmico no Oriente Médio, no lugar de infames ditaduras seculares.

O poder desproporcional destes pequenos partidos religiosos é uma distorção que ameaça a própria coesão da sociedade israelense (muitos destes cidadãos ultrarreligiosos recebem benefícios sociais ou têm isenções e sequer reconhecem o próprio estado). Curiosamente, reformas exigindo algum tipo de serviço nacional, ao invés de militar, para milhares de estudantes de escolas religiosas, tambem terão implicações para os cidadãos árabe-israelenses do país (cerca de 20% da população), hoje também isentos do serviço militar. Se estes cidadãos são parte da sociedade e querem plena igualdade também devem servir ao país, numa dinâmica de mais direitos e deveres.

Na verdade, estas dinâmicas internas e externas Israel devem ser enfrentadas simultaneamente, num desafio que garanta pontos essenciais: um estado judaico, democrático e seguro (e um dia em paz com seus vizinhos). Será um teste histórico para Netanyahu, alguém que eu considero mais hábil para estes lances táticos (como costurar esta surpreendente coalizão) do que uma visão estratégica (no caso palestino, ele foi arrastado ao longo dos anos para aceitar o mero direito palestino a um estado).

Para dar uma medida, o compromisso do Kadima com o cenário de dois estados é mais determinado. Seu líder Shaul Mofaz propôs em 2009 a criação imediata de um estado palestino em 60% da Cisjordânia e aceita, ao contrário de Netanyahu, as fronteiras anteriores à guerra de 1967 como base para um acordo de paz, com entrega de algumas terras israelenses para compensar a perda aos palestinos de blocos de assentamentos judaicos dentro da Cisjordânia. Mas hoje em dia, Netanyahu reflete o país. Ele é um político cauteloso. O seu passo é o passo nacional. Se eleições tivessem sido antecipadas para setembro, o Kadima teria levado uma rasteira do eleitorado.

Não há dúvida que Netanyahu tem agora inquestionável legitimidade política para pressionar os EUA contra arrastadas negociações com o Irã sobre suas ambições nucleares, enquanto ameaça com o ataque preventivo. Vale lembrar que as divergências dentro de Israel sobre o Irã são muito mais sobre quando seria o momento mais adequado para o ataque e se isto deve ser feito sem o apoio ou, pior, contra a vontade americana.

Mas na dinâmica externa, as coisas não estão, é claro, exclusivamente nas mãos de Netanyahu. No caso iraniano, ele não poderá fazer nada até que haja um desfecho das negociações nucleares entre a comunidade internacional e o Irã (a solidez da coalizão de Netanyahu aumenta a urgência destas conversacões).

O dilema para Netanyahu será um acordo com Teerã que ainda permita algum tipo de enriquecimento de urânio. Como ele poderá realizar um ataque num contexto em que existe um acordo indesejável para Israel, mas aceitável para grande parte da comunidade internacional? O primeiro-ministro de Israel também precisa medir se lança um ataque enquanto Barack Obama está no poder ou se arrisca a uma espera eleitoral (nos EUA), no qual poderá ou não assumir o seu amigão, o republicano Mitt Romney, em janeiro próximo.

No caso palestino, resta ver qual será a resposta à nova dinâmica interna em Israel pelas lideranças palestinas (O Fatah do ainda presidente Mahomud Abbas, que controla a Cisjordânia, e o Hamas, que manda em Gaza). As apostas de Abbas não funcionaram (como buscar o reconhecimento unilateral palestino na ONU e não através das tortuosas negociações com Israel).

Como Obama em Washington, Abbas também apostava (e perdeu) que Netanyahu seria em algum momento espirrado do poder em Jerusalém. Agora precisa aceitar a realidade de um adversário mais forte e decidir se irá se engajar. Quanto ao Hamas, não há muita diferença na sua postura, além de uma suavização da retórica antiIsrael por alguns setores do grupo fundamentalista islâmico. O Hamas se sente mais fortalecido com o avanço da Irmandade Muçulmana no Egito, da qual é filial, e não se dobra aos esforços de Abbas para colocar Gaza sob o seu controle. Nenhum dos três atores tem muito a oferecer para se sair do lodaçal diplomático.

Esta união em Israel é um desafio para os inimigos do país, mas ainda resta saber exatamente o que fará Netanyahu com os frutos de sua vitória, além de ter menos dor-de-cabeça com a caótica política interna israelense.

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Colher de chá para o Caio Blinder, ele merece por ser tão paciente. 

30/04/2012

às 6:00 \ Crise nuclear, Irã, Israel

Curtas & Finas (Israel & Israel)

Yuval Diskin (esq.) agora aperta Netanyahu

Será que Israel vai atacar as instalações nucleares do Irã? Eu não sei. Só sei que no momento o governo de Israel está sendo atacado e questionado dentro de casa. Mais complicado é saber os motivos. De semanas para cá, gente do aparato militar e de inteligência (ativa e reserva) foi à carga. Obviamente, estes profissionais não são pombinhas que voaram para as bandas do inimigo. Meir Dagan, o ex-chefe do Mossad (serviço de contraterrorismo e espionagem), novamente expressou sua oposição a ataques preventivos contra as instalações nucleares iranianas.

Dagan acredita que o regime de Teerã seja racional para tomar decisões, apesar da conversa do presidente Mahamoud Ahmadinejad de aniquilar Israel. Depois, foi a vez do chefe do estado-maior das Forças Armadas, general Benny Gantz, também racionalizar a liderança iraniana e enfatizar suas dúvidas se o regime islâmico queira realmente construir a bomba, diante do preço que pagará caso chegue a este ponto.

E, finalmente, tivemos as declarações mais pesadas de Yuval Diskin, ex-chefe do Shin Bet (inteligência doméstica), questionando a própria racionalidade, não dos dirigentes iranianos, mas dos israelenses (o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e o ministro da Defesa Ehud Barak), que foram cunhados como “nossos dois Messias”. Diskin disse nao ter “fé” na habilidade desta liderança para conduzir uma guerra em nome de Israel. No raciocínio de Diskin, um ataque preventivo pode levar o Irã a acelerar seu programa nuclear e dar legitimidade ao regime islâmico.

Os contraataques mais afiados foram disparados contra Diskin, acusado de ter uma agenda pessoal de ressentimento por não ter sido escolhido para chefiar o Mossad ou de ter ambições políticas, alinhado à oposição de centro e de esquerda que sonha com o desmanche da coalizão de direita chefiada por Netanyahu. As críticas foram lançadas quando esquenta a conversa sobre a antecipação das eleições gerais, programadas para o final de 2013, já para este segundo semestre.

Sociedades mais abertas (como a de Israel) ou mais fechadas (como a do Irã) têm jogos de rivalidades pessoais e políticas. No caso de Israel, com uma tradição de caótica democracia e de brutal franqueza nas relações entre seus cidadãos, este jogo é até mais escancarado. De qualquer forma, parece estranho quando altos ex-funcionários do serviço de informação resolver passar tanta informação. Pode realmente ser relutância sobre o que fazer com o desafio iraniano. Para quem gosta de intriga, uma especulação é que possa ser uma trama de desinformação para confundir os inimigos (e talvez os amigos).

Um cenário é que Netanyahu e Barak tenham o papel de “bad cops”, os policiais que pegam pesado no suspeito enquanto Dagan, Gantz e Diskin banquem os “good cops”, encarregados de falar macio, acalmar e fazer com que o suspeito fale sem ser intimidado ou na surra. Nesta metáfora, a idéia seria manter a pressão, ameaçar com um ataque para ver se é possível não ir às últimas consequências. Gente irritada com esta metáfora pode achar que Diskin e companhia são uns idiotas, que estão apenas encorajando um inimigo que vê dúvidas, caos e discórdia do outro lado.

Eu prefiro ver a confusão como fruto de um debate necessário em Israel em torno de uma decisão histórica. Em termos concretos, gente com credibilidade em Israel acaba se distanciando publicamente do governo Netanyahu e se aproximando de posições da comunidade internacionais (a destacar o governo Obama) de que é preciso dar mais tempo `as sanções e diplomacia antes de um eventual ataque e este deve ser fruto de uma ação coordenada e não apenas de Israel.

E eu, é claro, gostaria de ver bem mais dúvidas, nuances, caos e discórdia do lado iraniano.

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Colher de chá para o infatigável Carlos Cezar (talvez centenas de comentários sobre Israel). 

26/04/2012

às 6:00 \ Crise nuclear, Eleições francesas, EUA, França, Irã

Curtas & Finas (França & Irã)

Os aliados Obama e Sarkozy - Foto/Getty

Uma campeã da campanha contra o que considera islamificação da Europa, a líder da extrema direita francesa Marine Le Pen, não é muito chegada nos aiatolás de Teerã, mas tanto ela como Ali Khamenei estão se saindo bem no jogo eleitoral francês. Marine Le Pen não foi para o segundo turno, mas teve uma grande vitória com quase 20% dos votos dados `a Frente Nacional na primeira rodada.

Com a provável derrota do presidente conservador Nicolas Sarkozy contra o socialista François Hollande em 6 de maio, Marine Le Pen espera pegar o cetro da liderança da direita francesa. A derrota de Sarkozy será também uma vitória para os aiatolás, O presidente francês é complicado, hipócrita e oportunista na sua política externa, exagerando a importância francesa. Mas sua atuação decisiva em crises como da Líbia deve ser reconhecida e sua indignação com a brutalidade do regime Assad na Síria (aliado de Teerã) é louvável.

Sarkozy, conhecido como l’Américain, é bem mais próximo de Washington do que seu antecessor conservador Jacques Chirac (que era inclusive hostil aos interesses dos EUA, como aconteceu na guerra do Iraque). Sarkozy hoje está na linha de frente para unir o Ocidente contra as ambições nucleares iranianas. É verdade que ele compartilha com Barack Obama a antipatia pelo primeiro-ministro israelense Benjamim Netanyahu, mas tem até uma posição mais agressiva do que a do presidente americano sobre o Irã e aqui está mais afinado com Israel, no ceticismo sobre negociações nucleares, pressões por  sanções mais duras e tolerância zero com enriquecimento de urânio pelos iranianos.

Com François Hollande no poder, podemos esperar uma política externa francesa menos exuberante e menos determinada em relação ao Irã. Haverá mais determinação do político socialista para fazer cobrança em cima de Angela Merkel na crise europeia e muito mais foco nas questões domésticas. Tudo será menor com Hollande, a destacar na postura napoleônica, uma marca de Sarkozy.

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Colher de chá bem matinal para o Orlando, que comentou lá dos Pirineus (dia 26, 9:07). E uma vespertina para o Maisvalia (dia 26, 13:57), por um comentário crítico e autocrítico


16/04/2012

às 6:00 \ Crise nuclear, Irã, Israel

Um Prêmio Nobel que diz o que deve ser dito sobre o Irã

Shirin Ebadi

Colunista (termo que prefiro a blogueiro), eu deveria ficar feliz da vida quando um texto mexe com as “multidões” e gera uma pilha de comentários. Mas meus sentimentos são mais complicados, pois meu maior “sucesso” neste espaço acontece quando falo de Israel. Mexe com a massa, a favor e contra. E mexe comigo, pois estou a favor e contra, dependendo as coisas, nos dramas que envolvem Israel, como a crise palestina e o conflito com o Irã.

Na coluna de sexta-feira, por exemplo, me posicionei contra o escritor alemão Günter Grass por seu poema/panfleto O Que Deve Ser Dito, denunciando Israel como a grande ameaça à paz mundial e que um ataque preventivo israelense contra as instalações nucleares iranianas pode levar à aniquilação do povo iraniano. Mas também lamentei a posição israelense de declarar Grass persona non grata. E se eu fosse um escritor, Nobel de Literatura, como Grass, não ficaria orgulhoso por receber solidariedade do regime islâmico iraniano, aquele que fala em varrer Israel do mapa e decreta fatwas contra escritores, como aconteceu com Salman Rushdie , que, por sinal, qualificou a decisão de Israel de “melindre infantil”.

O tambor retórico de Grass fez muito barulho num debate já com muito alarido sobre a questão nuclear iraniana. Gostaria aqui de trazer a opinião de outra pessoa premiada com o Nobel, este da Paz, mulher e iraniana (primeira muçulmana agraciada com a honraria). Ao contrário de Grass, Shirin Ebadi não recebe elogios do regime islâmico. Ela é persona non grata na sua terra natal. Vive no exílio na Grã-Bretanha. Shirin Ebadi esteve na semana passada nos EUA para uma conferência e acaba de expressar algumas opiniões interessantes em uma entrevista ao site The Daily Beast.

No fim-de-semana, ocorreu uma rodada de negociações em Istanbul entre emissários de seis países (EUA, Grã-Bretanha, França, Alemanha, Rússia e China) com os iranianos. A conclusão é de que esta diálogo foi construtivo e que compensa apostar em uma segunda rodada, prevista para 23 de maio. Mas Shirin Ebadi não compartilha o cauteloso otimismo. Ela acha que o regime iraniano basicamente quer ganhar tempo, enquanto avança com o enriquecimento de urânio.

Em contrapartida, nossa premiada diz que as sanções econômicas internacionais estão tendo impacto sobre o regime, mas prejudicando a população. Existe uma teoria de que mesmo a oposição iraniana, aquela brutamente reprimida pelo regime, considera o programa nuclear um motivo de orgulho e um direito soberano. Mas aqui está um dos pontos mais interessantes das declarações de Shirin Ebadi. Ela diz que, na verdade, a população hoje é favorável ao fim do enriquecimento de urânio. O custo em termos do isolamento do país é pesado e há temor pela localização geográfica do Irã, numa zona suscetível a terremotos. A população morre de medo de um acidente ao estilo de Fukushima.

Shirin Ebadi não endossa as garantias do regime iraniano de que o programa nuclear não tem objetivos de fabricar a bomba e ela faz questão de dizer o temor é de que o alvo seria Israel. Shirin Ebadi, porém, não acredita que Israel tenha capacidade para lançar um ataque, enquanto os americanos carecem de apetite para a empreitada.

Para ela, o caminho para resolver a crise e o Irã abandonar seu programa nuclear passa pela derrubada do regime através de uma revolta popular. O levante fracassou em 2009. E hoje a população e o mundo pagam o preço. Valeu, Shirin Ebadi, Prêmio Nobel que fala o que deve ser dito.

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Colher de chá para a Carmem por alguns e mails (manhã do dia 16) sobre como proceder na questão iraniana. Alguns mais opinativos do que fundamentados, mas quase sempre com argumentos sólidos, que devem ser levados em conta, mesmo quando discordamos de alguns.

21/03/2012

às 6:00 \ Crise nuclear, EUA, Irã, Israel

A liga dos “atacólogos” aposta, ora, no ataque ao Irã

Os "war games" de Netanyahu e Obama - Foto Getty

Adivinhar quando vai terminar, terminar, terminar a corrida das primárias republicanas é um dos esportes da temporada. Um outro é se e quando terá lugar o ataque israelense às instalações nucleares iranianas. Existe uma espécie de liga dos “atacólogos”. São repórteres com bom acesso ao círculo decisório israelense. Um deles é Jeffrey Goldberg, da revista Atlantic e que também tem uma coluna no site da Bloomberg. Ele se juntou com mais ênfase ao time que acredita ser muito provável um ataque neste ano.

Goldberg escreveu na Bloomberg que, “após entrevistar muita gente com conhecimento direito do pensamento interno do governo israelense, eu estou altamente confiante que Netanyahu não está blefando e, de fato, ele está na contagem regressiva para autorizar um ataque contra meia dúzia ou mais de instalações nucleares iranianas”. Um tom semelhante foi registrado no imenso artigo de janeiro de Ronen Bergman (que trabalha no jornal israelense Yedioth Ahronoth), publicado na revista do New York Times. Mesma coisa com Aluf Benn, editor-chefe do também diário israelense Haaretz, com o argumento de que Netanyahu já prepara a opinião pública do seu país para um ataque.

Em meio a este senso de inevitabilidade (termo que Mitt Romney voltou a arrebatar de forma ainda mais convincente ao vencer com folga as primárias de terça-feira no estado de Illinois), existe a narrativa de que o presidente Barack Obama está desesperado para não ser arrastado para uma guerra sobre este programa nuclear. Obama teria contido Netanyahu, por ora, com seu compromisso de que os EUA não irão permitir de jeito nenhum que os iranianos fabriquem a bomba. Como parte da barganha com os israelenses, Obama precisaria mostrar serviço nos próximos meses com diplomacia e sanções redobradas.

Nesta linha que Israel não está blefando, os “atacólogos” em geral esperam uma ação antes das eleições presidenciais americanas de novembro. Entre as razões: os avanços iranianos no seu programa nuclear e também a percepção de que o presidente Obama dará mais apoio a seu principal aliado na região antes do que depois da eleição. Há também a idéia de que, do ponto de vista israelense, Obama estará amarrado durante a campanha, incapaz de resistir ou condenar uma iniciativa contra os iranianos.

Uma zona de incerteza imensa existe em duas questões cruciais, caso ocorra o ataque: sua capacidade para reverter este programa nuclear e como o Irã responderia. Jeffrey Goldberg escreve que tanto Netanyahu, como o seu ministro da Defesa, Ehud Barak estão relativamente otimistas sobre o estrago que Israel poderia causar ao complexo nuclear iraniano e não se mostram alarmados sobre a magnitude de retaliações. Para Goldberg, algumas autoridades israelenses acreditam que a opção dos líderes iranianos será minimizar o golpe (como a Síria fez em 2007 quando sofreu um ataque `as suas incipientes instalações nucleares) e lançar apenas um punhado de foguetes em Tel Aviv, num gesto simbólico, ao invés de declarar guerra total.

Ademais, de acordo com Goldberg, fontes da segurança em Israel não acreditam que o Irá alvejará navios ou instalações americanas no Oriente Médio, em retaliação, como muitos americanos temem, na medida em que Teerã entende que uma retaliação dos EUA ameaçaria a própria sobrevivência do regime. Claro que existe aqui uma contradição com alegações feitas por Netanyahu de que os dirigentes iranianos integram um “culto apocalíptico e messiânico”, insensíveis a cálculos de autointeresse racional.

Já o New York Times, em reportagem na primeira página na terça feira, toma outra caminho e salienta que war games do Comando Central das Forças Armadas incrementaram a preocupação sobre retaliações iranianas, inclusive ataques com mísseis contra navios e instalações americanas no Golfo Pérsico. Deve-se levar em conta aqui que a liderança iraniana pode fazer erros de cálculo (seja messiânica, seja racional) e existem alguns centros difusos de poder.

Nunca se sabe é claro se o falatório em Teerã é para valer. Terça-feira, na sua mensagem do ano novo iraniano, o líder supremo, o aiatolá Khamenei disse: “Não temos armas nucleares e não vamos construí-las, mas diante da agressão dos inimigos, seja dos Estados Unidos ou do regime sionista, vamos atacar para nos defender no mesmo nível em que os inimigos nos atacarem”.

Golberg é pró-Israel e pró-Obama. Sempre manifestou dúvidas se um ataque é o melhor caminho. No entanto, ele arremata sua coluna, dizendo que, da “perspectiva de Netanyahu, um ataque contra o Irã, mesmo se apenas marginalmente bem-sucedido, compensa o risco e pode ser historicamente inevitável”. Palavra de “atacólogo”.

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Colher de chá ataca com Rodolfo (dia 21, 10:27), por argumentos bem fundamentados contra o ataque. E uma segunda colher de chá para o J.R. (dia 21, 13:15), por seu contra-ataque.

Entre Israel e Gaza, um jogo de tensão e acomodação tática

Escalada de ataques em Gaza e sul de Israel - Fotos Reuters/Getty

De uns dias para cá, ocorreu uma escalada de violência nas bandas de Gaza/Israel, com os ataques aéreos/assassinados seletivos praticados por israelenses contra terroristas palestinos (e nas ações morreram também civis) e lançamento de foguetes contra cidades israelenses por radicais islâmicos mais radicais do que o Hamas. Existe um interesse tanto de Israel como do Hamas de impedir que a coisa se degringole. A disposição mútua é tática, manifestada em negociações indiretas mediadas pelo Egito. Naquelas bandas, tréguas são frágeis. Vamos ver.

O foco de Israel no momento é a questão nuclear iraniana, enquanto o Hamas tenta se ajustar a uma nova realidade regional (em função da primavera árabe). O grupo, ao que tudo indica, se distancia dos seus patronos sírios e iranianos (isolados no mundo árabe-sunita) e obviamente fortalece os laços com a Irmandade Muçulmana, na qual tem suas raízes, e que está a um passo do poder no Egito. No cálculo do Hamas, luta política e o mero reconhecimento tático que Israel existe talvez tragam mais ganhos do que a via armada/terrorista. Entre outras coisas, enfraquece a narrativa israelense de que não dá para negociar com um bando de terroristas que prega a destruição do estado de Israel.

Para o Hamas, e por extensão os palestinos, até que convém a eliminação da ameaça nuclear iraniana e a queda do regime Assad na Síria. Entre as ramificações, estaria a recolocação da questão palestina no centro dos acontecimentos no Oriente Médio. Claro que não podemos prever com precisão os desdobramentos em Gaza e na Cisjordânia caso ocorra um ataque israelense às instalações militares iranianas.

O que aconteceria, por exemplo, se o Hezbollah libanês lançar foguetes contra Israel como parte de uma retaliação iraniana? O Hamas ficaria de braços cruzados, apesar de garantias dadas recentemente por alguns dos seus dirigentes? Um dado importante aqui: nesta última escalada de violência, o estrago apenas não foi maior em Israel  devido à taxa de sucesso (70%)  do sistema de interceptação de foguetes disparados contra áreas povoadas. Maiores estragos talvez resultassem em retaliações mais severas. E vale lembrar que existe um racha no Hamas sobre mais resistência ou algum tipo de acomodação tática com Israel. Em contrapartida, interessa a iranianos e sírios botar lenha na fogueira palestina para desviar as atenções dos desafios que enfrentam.

Na questão palestina em si, um desafio é que o processo de paz, estabelecido com os acordos de Oslo em 1993, está essencialmente morto há três anos com o fracasso de negociações entre o então primeiro-ministro israelense Ehud Olmert e o presidente palestino Mahamoud Abbas sobre um status final em questões como fronteiras, refugiados, segurança e Jerusalém.  Com Olmert e seu antecessor Ehud Barak, Israel fez propostas que os palestinos não deveriam ter recusado. Foram maximalistas e perderam uma chance histórica. O de sempre, os palestinos não perderam nenhuma oportunidade de perder oportunidade. Já o atual primeiro-ministro Benjamin Netanyahu é minimalista e quer apenas manter um processo diplomático em curso com os palestinos, mas sem avanços substantivos. É o processo pelo processo.

Do lado palestino, tampouco existe algo substancial. Abbas sabe que suas posições em questões como o direito de retorno de refugiados palestinos a Israel são irreconciliáveis com a realidade (este retorno é inaceitável para Israel,  seria um suicídio demográfico) e que a expansão dos assentamentos judaicos na Cisjordânia (que deve ser contida por si) não é o único obstáculo em conversações. Abbas tem uma posição fraca, pois não controla Gaza e a perspectiva de reconciliação do seu grupo, o Fatah, com o Hamas é duvidosa, apesar de infindáveis negociações. Ironicamente, se isto acontecesse seria até uma desculpa para mais imobilismo diplomático israelense.

Temos, portanto, acomodação tática, negligência, falta de foco, farsa diplomática e ausência de paradigmas que substituam a fórmula dos acordos de Oslo. Este status quo provisório não pode se tornar crônico. É insustentável

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Estou surpreso, assim como alguns leitores, como o tom calmo dos comentários sobre esta coluna. Debates civilizados. Parabéns aos leitores. Portanto uma colher de chá (de cactus do deserto?) para todos.

08/03/2012

às 6:00 \ Crise nuclear, EUA, Irã, Israel

Curtas & Finas (Bombas & Bombas)

Primeira explosão atômica chinesa- 1964 - Foto/Getty

Conhecemos a frase que generais costumam travar a guerra passada. O cenário de um possível ataque (israelense e/ou americano) às instalações nucleares iranianas tem a mancha imensa do fiasco que foi a guerra do Iraque desfechada em 2003 com o falso pretexto das armas de destruição em massa de Saddam Hussein. Mas será que o fiasco passado é motivo para travar os argumentos para um ataque contra as instalações nucleares iranianas?

Aqui há uma questão, well, explosiva: se partimos da premissa de que a meta do programa nuclear iraniano é a bomba (o que é negado por Teerã), como será possível detectar o momento N, nuclear? Israel e EUA divergem sobre alguns pontos. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, por exemplo, em discurso feito em Washington, na segunda-feira, diante do lobby judaico Aipac, alertou novamente que a tecnologia nuclear iraniana avança para chegar em breve à bomba. Já a inteligência americana avalia que o Irã ainda não decidiu fabricar a bomba e prefere ficar, por ora, na zona de ambiguidade, apenas adquirindo a capacidade.

Num esforço para confortar os inquietos israelenses, os americanos dizem que terão condições de detectar a diferença entre capacidade e o desenvolvimento em si de um artefato nuclear. Os israelenses têm um argumento desconfortável para os americanos: ok, as agências de inteligência dos EUA exageraram ou tiveram seus dados manipulados por atores políticos (Bush e Cheney) no caso das armas de destruição em massa do Iraque. Era o arsenal que não existia.

Mas a inteligência americana também errou do outro lado. E que lista: ela foi supreeendida pelo primeiro teste nuclear soviético em 1949. Esperava que a bomba fosse detonada anos mais tarde. O erro de estimativa deixou furioso o então presidente Harry Truman. Coitado, Truman, afinal, só soube do Projeto Manhattan (o programa nuclear americano que levou ao uso das bombas no Japão) quando assumiu a presidência com a morte de Franklin Roosevelt em abril de 1945. E a inteligência de Washington também foi supreendida pelos primeiros testes nucleares da China, Índia e Paquistão, nas décadas de 60, 70 e 80, respectivamente.

Que bomba de inteligência.

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Colher de chá para o Praetor (dia 8, 9:54)), por seu inteligente conhecimento da história nuclear.  E uma de café para a Carmem (dia 8, 11:44), pelos argumentos simples e efetivos.  Muito generoso hoje. Colher de café também para o sempre bem informado Magno (dia 8, 11:48).  E no dia delas, COLHER DE  SOPA para todas as mulheres leitoras e comentaristas desta coluna.

01/03/2012

às 6:00 \ Irã

Curtas & Finas (Eleições iranianas)

Ahmadinejad x Khamenei - Fotos Reuters/Getty

Os sírios votaram domingo passado e aprovaram por 89.4% a reforma constitucional de Bashar Assad. Os russos deverão votar no domingo que vem no primeiro turno das eleições presidenciais. Será Vladimir Putin ou Vladimir Putin (mas quem sabe não no primeiro turno). As atrozes jornadas eleitorais não param por aí. Nesta sexta-feira, serão as eleições parlamentares no Irã. Constrangido, eu devo admitir que o processo político iraniano tem uns milímetros a mais de legitimidade do que grande parte dos processos dos países do Oriente Médio, seja do aliado sírio, seja do inimigo saudita.

Dito isto com constrangimento, será uma eleição dentro dos parâmetros de repressão e fraude da revolução islâmica. E justamente devido à fraude e à repressão que marcaram a eleição presidencial de 2009 (que conferiu um segundo mandato a Mahmoud Ahmadinejad) que oposicionistas e reformistas vão boicotar o pleito. Na segunda feira, a organização Anistia Internacional reportou que o regime islâmico empreendeu uma “‘escalada dramática” de repressão antes destas eleições. Centenas de candidatos considerados pouco religiosos ou simpáticos ao movimento reformista foram barrados de competir e houve uma nova rodada de prisões de dissidentes.

A disputa, portanto, é uma guerra de milícias da linha dura, entre a facção do aiatolá Khamenei, que é o líder supremo, e a do presidente Ahmadinejad, metido a supremo. As relações entre as milícias estão tensas e o repressor Ahmadinejad está sendo reprimido por Khamenei. Seus aliados perderam espaço e é possível que haja quórum para o impeachment de Ahmadinejad no próximo Parlamento. Mas nada de subestimar o presidente populista, que espera dar a volta por cima com seus partidários do bloco Frente da Resistência (os aliados do aiatolá estão no bloco Frente Unidas).  Na bizantina política do difusos centros de poder da revolução islâmica, o presidente, por incrível que possa parecer, acena com uma postura menos antagônica em relação ao Ocidente. No entanto, se Ahmadinejad sair enfraquecido, Khamenei poderá ir adiante com o plano que ele insinuou no ano passado de simplesmente abolir a instituição presidencial. Eleições para o cargo estão programadas para 2013

Para o regime, é importante que as eleições ofereçam uma fachada de legitimidade. Ele quer provar que ainda tem apoio popular, apesar do desgaste interno, divisões de poder e o cerco internacional contra o programa nuclear. Uma pesquisa encomendada pelo escritório de Khamenei e que vazou para a imprensa revelou uma projeção de comparecimento em Teerã de 10%. Em áreas pobres e rurais, haverá mais participação e um dos motivos são os programas assistencialistas, como entrega direta do equivalente a 37 dólares mensais por pessoa para compensar o fim de subsídios alimentares e de energia.

A expectativa é de que seja anunciado um comparecimento acima de 60%. De qualquer forma, muitos cidadãos, intimidados ou com medo de serem rotulados de antipatrióticos, irão realmente votar. Em comum,  Khamenei e Ahmadinejad estão à frente de uma farsa.

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Em uma variação da premiação, sem colher de chá para as milícias eleitorais no Irã. 

21/02/2012

às 6:00 \ Crise nuclear, Irã, Israel, Uncategorized

Mais folias não carnavalescas iranianas (III)

A ameaça interna - Foto Getty

O Irã dos aiatolás e do presidente Mahmoud Ahmadinejad já tem uma bomba. É uma bomba-relógio. Por quanto tempo um regime como este poderá persistir? Claro que petróleo ajuda. E mais crise, eleva os preços do barril. Mas existem outros barris no país, com retorno cada vez mais baixo. O que está em alta são as divisões na cúpula do poder, que podemos definir como radicais do A x contra radicais do B. Existem diferentes blocos de poder na folia nuclear iraniana, mas em última instância quem toma a decisão sobre matar ou morrer é o aiatolá Khamenei. O dia em que não for assim, o Irã deixará de ser uma ditadura teocrática para se converter em uma mera ditadura.

Khamenei está entretido em uma guerra pelo poder com Ahmadinejad. Um iranólogo respeitado, Ali Ansari, da St. Andrews University (Escócia), avalia que as respostas confusas do Irã nesta crise nuclear, além de encenarem um típico jogo de ambiguidade em negociações e avanços na crise nuclear, de fato, refletem incerteza decisória.  Alguns lances recentes como os amadores atentados terroristas antiIsrael na Índia, Tailândia e Geórgia, podem ser reflexo também de desespero. O país sente o impacto das sanções e o quadro é de deterioração econômica. Ansari chega ao ponto de cogitar de estado terminal do regime, o que parece exagerado.
Para complicar, haverá eleições parlamentares em março, que serão boicotadas pelo oposição, que nunca engoliu a fraude eleitoral que conferiu um segundo mandato a Ahmadinejad em 2009. Como medida de precaução, o regime investe no bloqueio da Internet para impedir que a opposição use redes sociais para se mobilizar como em 2009. De qualquer forma, o boicote eleitoral será mais um golpe para a legitimidade do regime, que, é verdade, tem um bloco de convicta sustentação popular, ao lado da repressão, da fraude, da mentira e da paranóia.
Neste quadro, interessa a muito gente no Irã reforçar a visão de hostilidade implacável de forças estrangeiras contra o país, numa usual jogada de ditaduras para tentar forjar união nacional e desviar as atenções dos problemas internos. E por que não complicar e provocar, enviando dois navios de guerra para a Síria,  além de advertir o Ocidente para não ajudar a oposição síria?  Isto enquanto Teerã é sustentáculo do regime de Damasco. Sempre é razoável  fazer a pergunta: a maior ameaça para o regime iraniano é externa ou são suas contradições internas e seu estado de exaustão? Bombas de todos os lados. Melhor que o regime nunca tenha a sua, pois é um perigoso folião.
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Colher de chá para as folias especulativas do Alberto (dia 21, 12:22). E outra para as colocações do Pedro (dia 21, 13:43).

 

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