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As mentiras de Assad e as meias verdades da Al Jazeera

Al Jazeera nem sempre é liberdade - Foto Getty

Nenhuma colher de chá para o brutal regime sírio, que diz ter concordado com um cessar-fogo da ONU, em mais uma encenação para ganhar tempo na sua repressão a uma rebelião cada vez mais militarizada. Ativistas sírios e televisões por assinatura no mundo árabe prestam um serviço de utilidade pública, exibindo as vítimas e as engrenagens da máquina de repressão do regime sírio (como crianças torturadas e mortas). Mas precisamos conter nosso entusiasmo e levar em conta os alertas de alguém como Ali Hashem, o jornalista que pediu demissão da rede Al Jazeera no começo de março, reclamando da “cobertura parcial e não profissional” da insurreição síria.

Em um comentário no jornal britânico The Guardian, Hashem, que era correspondente baseado em Beirute, elabora críticas, não apenas de sua ex-empresa, mas de meios de comunicação em geral do mundo árabe. Ele diz que se estes veículos se tornaram partidos, transmitindo a parte da história que serve à agenda política dos proprietários ou dos interesses dos países onde estão estacionados. No caso da Al Jazeera, o emirato do Catar. Nem se trata de contar mentiras. Para Hashem, o modus operandi é contar apenas parte da verdade e enterrar o resto.

Claro que é verdade a brutalidade do regime sírio e que sua narrativa dos acontecimentos é mentirosa, fantasiosa e mera peça de propaganda, num atentado de maniqueísmos. Mas a narrativa do outro lado tem tons cinzentos. A bem da verdade, apesar de tudo, a Al Jazeera  é um avanço jornalístico no mundo árabe. Dando uma desgalhada, dou o exemplo aqui de uma análise no seu site em inglês sobre a encrenca política no Egito (tema de minha coluna de terça-feira). Análise razoável (a versão em inglês costuma ser mais razoável), sinalizando o descrédito da Irmandade Muçulmana.

Mas voltando à Síria, num exemplo específico, Hashem diz que a Al Jazeera se recusou a transmitir imagens de rebeldes armados lutando na fronteira entre Síria e Líbano, no empenho para manter a narrativa de que se trata de uma rebelião “pacífica e limpa”. É uma narrativa formulada pelos governantes do Catar, os mesmos goverrnantes que censuraram a cobertura da rebelião e de massacres no Bahrein. E por quê? Países sunitas como Catar e Arábia Saudita estão na linha de frente da campanha para derrubar regimes como o da Síria (aliado do xiita Irã), mas não querem saber do clamor por liberdade na sua vizinhança, especialmente se há rebeldes xiitas, como é o caso do Bahrein, governado por uma minoria sunita.

Para Hashem, a busca de credibilidade pela Al Jazeera e outros canais da região se tornou um exercício de futilidade. Os grupos que controlam estas emissoras estão se comportando como ditadores da escola Assad, que obviamente manipulam a cobertura da midia estatal (aqui achei a comparação hiperbólica). Hashem conclui que muita gente na região recorre cada vez mais à imprensa ocidental para saber o que está acontecendo. Isto é refletido nos ganhos de audiência do serviço árabe da BBC de Londres. Hashem arremata que quando governos que possuem organizações de mídia no Oriente Médio impõem suas agendas, canais como Al Jazeera estão caminhando para o “suicídio jornalístico”.

E tudo isto, enquanto os Assads matam (e alguns rebeldes também).

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Pessoal, a colher de chá vai mesmo para o Ali Hashem. 

23/02/2012

às 6:00 \ Imprensa, Síria

Curtas & Finas (Marie Colvin)

Ao lado do fotógrafo francês Rémi Ochlik, a lendária repórter americana Marie Colvin, a serviço do jornal britânico The Sunday Times, morreu na quarta-feira enquanto cobria o conflito na Síria. Ela foi vítima, talvez intencional, de um bombardeio das forças de Bashar Assad na cidade de Homs. Horas antes de morrer, Marie Colvin, que já tivera sua tragédia pessoal ao cobrir a guerra civil em Sri Lanka, onde perdeu a visão de um olho, comparou Homs a outros palcos de tragédia, como Sarajevo e Srebrenica (na Bósnia dos anos 90). Para o editor do Sunday Times, John Withrow, Marie Colvin acreditava profundamente que reportagens como as dela poderiam “diminuir os excessos de regimes brutais e fazer a comunidade internacional prestar atenção”.

Marie Colvin, de fato, fazia a sua parte. Na noite de terça-feira, ela relatava em televisões nos EUA e Grã-Bretanha coisas horríveis, como a morte de um bebê em uma clínica improvisada de Homs. Eram relatos acompanhados de imagens de ativistas contrários a este brutal regime de Bashar Assad. O mundo, portanto, presta atenção. Mas as indicações não são de diminuição dos excessos. Existe uma escalada da brutalidade do regime sírio (que não discrimina entre civis e rebeldes armados), que resultou em ações de uma oposição que se militariza e na qual grupos como a rede Al Qaeda pegam carona.
No ar, estão os apelos por uma intervenção estrangeira por razões humanitárias e também para ajudar rebeldes que não são páreo para as forças governamentais. Existe uma escalada da brutalidade do regime Assad, mas também sua hesitação tática e estratégica para usar o seu arsenal, a todo vapor, a todo calibre. Para dar uma medida, em pouco menos de um ano, morreram oito mil pessoas no conflito na Síria, mas até agora a resposta tem sido calibrada (não existe ironia na expressão). Papai Assad (Hafez), matou talvez cinco vezes mais apenas na cidade de Hama, numa insurreição da Irmandade Muçulmana em 1982. A operação durou 26 dias.
E por que a diferença? Em parte, tecnologia. Viva, sim, a geração Facebook ou YouTube. Ela contribui, assim como Marie Colvin fazia, para reduzir excessos dos regimes brutais como o de Bashar Assad. Por esta razão, eles matam repórteres incansáveis e cidadãos-jornalistas como o vídeo blogueiro sírio Ramy al-Sayed.

O regime Assad, no seu cinismo, acredita que se controlar a brutalidade, mesmo com uma escalada como a que está em curso, a comunidade internacional irá tolerar a violência sem recorrer a envolvimento militar direto. As forças governamentais até agora, ao contrário de 1982, ainda não recorreram a bombardeios aéreos ou mísseis balísticos. Marie Colvin chamava a atenção, portanto, apenas para uma carnificina temperada. Eu espero que sua morte não tenha sido em vão, a morte de mais uma vítima deste regime brutal e venal.

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A colher de chá vai mesmo para os jornalistas que, como Marie Colvin, cobrem conflitos como o da Síria, apesar dos riscos pessoais.

Curtas & Finas (Cabo & Twitter)

Mitt Romney no cabo - Foto Joe Raedle/Getty

Gafes e supergafes (como o oops do outrora candidato texano Rick Perry) na campanha eleitoral americana 2012 estão imortalizadas no YouTube e rendem muitas conversas e comentários no Facebook e Twitter, mas sem ilusões. As redes sociais e a novíssima mídia não imperam nas primárias republicanas. O novo, na verdade, está pegando carona com o velho, mas não o velhíssimo.

Mídia da terceira idade (a velhíssima) são as redes abertas de televisão (com o noticiário local e nacional) e os veneráveis jornais. Mídia velha é a TV por assinatura (eu, por hábito, prefiro dizer cabo). E os americanos dependem justamente do noticiário 24 horas da televisão a cabo para acompanhar a corrida das primárias republicanas. Podem seguir o torneio 25 horas por dia ou,  se preferirem, o reality-show, agora com Mitt, Rick, Newt e Paul

Falando no último, Ron Paul é o candidato que mais cativa a moçada das redes sociais. Mas nas primárias da Flórida, os eleitores estavam mais para pais e avós da moçada. No final das contas, as redes sociais têm pouco uso para o típico eleitor nesta corrida republicana. Uma pesquisa com 1.500 pessoas, feita pelo Pew Research Center, revelou que mais de 1/3 dos americanos acompanham o noticiário eleitoral pelo cabo, tanto quanto nos ciclos anteriores, enquanto dependem cada vez menos de jornais e das redes abertas.

Como são primárias republicanas, a liderança indiscutível é da Fox News, que, de qualquer forma, bate com facilidade rivais como CNN e MSNBC. Pelo estudo, apenas 2% dos americanos têm acompanhado o reality-show republicano pelo Twitter, 3% pelo YouTube e 6% pelo Facebook.  Em princípio, é uma medida do impacto modesto das redes sociais no jogo eleitoral. A campanha acontece na televisão e no atual ciclo os debates televisionados foram realmente cruciais (oops, Rick Perry). O cabo dá o tom, inclusive, com a conversa intermináveis dos analistas e marqueteiros. Na Fox Nnews é até a porta giratória. Herman Cain saiu das primárias e já entrou no time de analistas da emissora “fair and balanced”.

No entanto, é cada vez mais difícil separar as mídias. A narrativa está no cabo, mas aí acontecem as explosões nas redes sociais, quando as pessoas comentam o que acontece na velha mídia, reagem aos debates, aos discursos, às gafes ou à virgula tirada do contexto.

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Colher de chá para o Magno (dia 10, 15:23), não escreveu no tamanho twitter, mas soube se alongar sobre o assunto.

27/10/2011

às 6:00 \ Imprensa

Curtas & Finas (Imprensa)

Obama em evento de campanha (Foto: Jewel Samad/AFP)

Boas e más notícias sobre o viés político da imprensa americana. Boas e más, de acordo com a visão do cidadão. Vamos começar dando uma colher de chá aos conservadores, para a Sarah Palin e ao Tea Party, que tanto reclamam da parcialidade liberal da imprensa. Um estudo amplo mostra o seguinte: após endossar os candidatos presidenciais republicanos de forma maciça nos anos 70 e 80, os jornais diários deram uma guinada nos últimos 20 anos, concedendo apoio aos candidatos democratas. Vamos ficar com o tal do queridinho, Barack Obama. Dos últimos cinco ciclos eleitorais, ele teve o endosso mais significativo – 64% dos editoriais. Ainda abaixo da benção que republicanos recebiam. Em 1972, Richard Nixon obteve 93%. Na sequência, Gerald Ford, Ronald Reagan e George H.W. Bush conseguiram margem acima de 70%. Os números foram compilados pelo New York Times (aquele jornalão liberal), com base em material do Editor & Publisher e da George Washington University.

Bem, chega de chá com açúcar para a dona Sarah. a queridinha do Tea Party. Ela encerrou a farsa semanas atrás formalizando que não iria concorrrer nas primárias republicanas, com uma acusação habitual: Obama possui uma vantagem injusta como candidato, pois “tem cerca de 90% da mídia no bolso”. Mas outro estudo, este do Pew Research Center, mostra que o reverso é verdade, pelo menos nos últimos cinco meses. Obama recebeu, de longe, a mais negativa cobertura entre os candidatos presidenciais: apenas 9% da cobertura foi positiva e 34% negativa, em contraste a 32% de cobertura positiva e 20% de negativa ao governador republicano do Texas, Rick Perry (isto seguramente deve ter mudado mais recentemente com suas pisadas na bola na campanha). O estudo analisou mais de 11 mil veículos de mídia, além de centenas de milhares de blogs (não me peçam para explicar a metodologia, não fui lá). Em cobertura positiva, Perry foi seguido por Sarah Palin (31%), Michele Bachmann (31%), Herman Cain (28%) e Mitt Romney (26%).

O estudo ressalta que nos primeiros 100 dias de governo, a imprensa se comportou como tiete em relação ao novo presidente. Ofereceu uma recepção muito mais favorável a ele do que aos antecessores George W. Bush e Bill Clinton no mesmo período. Agora, a imprensa está mais crítica sobre Obama, um presidente-candidato, muito mais sobre ele, e Romney, que quase certamente vão se enfrentar no duelo de novembro de 2012. Atitude correta. Os principais dirigentes políticos americanos devem ser tratados com todo o rigor. O país está decepcionado com eles. Abaixo a imprensa dócil num momento dramático da história americana, de encruzilhada e de propostas contrastantes de governo. E vocês, leitores, escrevam seus editoriais, a favor e contra.
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Em geral, o formato Curtas & Finas não dá colher de chá, mas o Pablo (dia 27, 11:01) merece por seu comentário a respeito da imprensa.

Os destroços e as construções de setembro

Bush nos destroços do World Trade Center- Foto Win McNamee/Reuters

O décimo aniversário dos atentados de 11 de setembro de 2001 é uma data redonda, um maná dos céus para a imprensa. Existe, portanto, uma exuberância celebratória. Mas, como este aniversário acontece em um momento de fragilidade econômica e de crise de confiança na liderança ocidental, uma narrativa constante (com as metáforas inevitáveis) é vincular a derrubada das torres gêmeas do World Trade Center a um colapso econômico.

Ironicamente, uma tese que esvazia um pouco o triste furor comemorativo é que a crise econômica terá mais impacto histórico do que os ataques terroristas do 11 de setembro. Basta ver um artigo na edição corrente de VEJA (um especial de 31 páginas sobre os 10 anos dos atentados, leitura obrigatória!), de Bill Emmott, jornalista e escritor (ex-diretor da revista The Economist). O título é O 15 de setembro de 2008, em referência à quebra do Banco Lehman Brothers, um estopim da crise econômica.

Mas, deixemos este debate detalhado sobre o impacto da crise econômica para 15 de setembro de 2018. No aqui e agora, estamos prestes a ultrapassar os dez anos dos atentados. A data é sóbria e existem questões sobre a validade de vários aspectos da obra no Marco Zero, em particular a construção da nova torre com o nome 1 World Trade Center e o risco de uma localizada bolha imobiliária. Porém, vale muito mais destacar esta mescla de comemoração e renascimento.

Não existem apenas destroços físicos e emocionais. A torre sobe em Manhattan, num desafio ao terror. Claro que esta é uma nação fragilizada, polarizada, frustrada e incerta sobre o seu futuro. Na narrativa do historiador Paul Kennedy, não vai dar outra: os excessos imperiais (e aqui contam custos de guerras americanas sem a devida tributação, sem falar, é claro, das perdas humanas) deverão levar a um declínio inevitável. Sim, o declinio acontece em meio ao que o guru Fareed Zakaria chama de “ascensão do resto”, inclusive o Brasil. No entanto, por favor, não vamos assinar o atestado de óbito dos United States of America ou desmerecer a capacidade de recuperação.

Nesta semana de tanto enfoque sombrio no décimo aniversário de uma data nada querida, vamos ressaltar alguns aspectos positivos: Osama bin Laden está morto, o perigo do terror Al Qaeda sobrevive, mas a rede está enfraquecida e desde aquele 11 de setembro nenhum grande atentado aconteceu nos EUA. Infelizmente, tantas outras sociedades foram vítimas. A infame agenda ideológica de uma jihad global não tem vez contra o Ocidente. Pode causar estragos, mas até no mundo islâmico está desacreditada, embora a mensagem mais moderadamente islamista (como a da Irmandade Muçulmana) tenha appeal e ganhe espaço na primavera árabe.

O Ocidente e sua capital Nova York aguentaram o tranco há dez anos (podemos reconversar sobre aspectos mais complexos do rombo em 15 de setembro de 2018, ao estilo Bill Emmott) e os ataques deixaram destroços, mas, apesar de alguns excessos na guerra contra o terror, prevalecem sólidas instituições democráticas. A rede Al Qaeda não destruiu o nosos modo de vida (inclusive coisas patéticas como o atual nível do confronto político-partidário nos EUA).

Houve o ataque direto em 11 de setembro e existe aquela conversa que o grande plano de Osama bin Laden era fazer a gente sofrer com a hemorragia (inclusive econômica) e morrer. Ele morreu. Viveremos na banda ocidental. É verdade que num clima de mais tempestades econômicas, medo de novos ataques terroristas e competição de modelos que contestam a democracia e o capitalismo liberal, seja nas bandas chinesas, seja em bandas islamistas.

A crise econômica poderá ser longa e brava e o perigo mora em qualquer esquina, em qualquer torre, mas é vital que o valor da democracia liberal permaneça intacto, por todos os setembros adiante.
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A colher-de-chá nos comentários vai para o Maurício (dia 5, 13:05) pelas pinceladas do anti-americanismo crônico, solidariedade em larga escala no mundo aos americanos no 11 de setembro e o debate sobre oportunidades perdidas na era Bush. A colher-de-chá está generosa. Outra para a Carmem (13:16), pela declaração de amor a Nova York (que, de colher, ela estendeu ao Rio de Janeiro)

13/07/2011

às 6:00 \ Grã-Bretanha, Imprensa

Extra! Extra! Nem tudo é podre no império Murdoch

Adeus até quando? Foto Carl Cour/ AFP

Existe algo cada vez mais podre no reino da rainha Elizabeth. O mar de lama é mais vasto e mais profundo com as vertiginosas revelações (diárias e sensacionalistas) sobre a promiscuidade envolvendo imprensa, políticos e polícia. A ponta do iceberg neste mar de lama foi o finado tablóide News of the World, do império do magnata Rupert Murdoch, mas as revelações abarcam outras publicações do grupo News International.

São milhares de vítimas. Realeza, plebeus, políticos, gente famosa e gente como a gente tiveram telefones grampeados por profissionais a serviço dos jornais, documentos foram devassados e dados da vida pessoal vendidos por policiais e outros funcionários publicos. Uma das vítimas, o ex-primeiro-ministro trabalhista Gordon Brown, fala dos “métodos repugnantes” do grupo Murdoch para conseguir informações exclusivas e ganhar a batalha da circulação na selvagem guerra entre os tablóides. O jornal The Sun, que pertence ao grupo e é diário mais vendido no país, tinha informações sigilosas sobre a saúde de seu filho Fraser, que tem fibrose cística, e Brown não queria divulgar a informação. Seu direito. O jornal insiste que não acessou diretamente o prontuário médico da família Brown.

Existem lances criminosos, corruptos, sórdidos e macabros (como grampear e editar as gravações no celular de uma menina de 13 anos, assassinada). A postura do grupo News International é indefensável. Mas também há hipocrisia e histerismo neste megaescândalo. Jornais que atacam Murdoch também recorrem a métodos repugnantes para conseguir informações (embora o que se revele agora seja espantoso). Em muitos casos, a compra de informações tem objetivos mais nobres, como dois anos atrás, nas revelações do jornal conservador The Daily Telegraph sobre despesas irregulares e mordomias de parlamentares.

Num caso mais polêmico, o liberal The Guardian, líder nas denúncias agora contra a sordidez do grupo Murdoch, foi para a cama com o hacker australiano Julian Assange, que vazou documentos secretos da diplomacia americana (WikiLeaks). O atual primeiro-ministro conservador David Cameron está numa saia justa por suas ligações perigosas com Murdoch e a executiva do grupo News International Rebekah Brooks, mas o ex-primeiro-ministro trabalhista Tony Blair era ainda mais chegado no magnata imperial, mas pelo menos não contratou, como Cameron, o ex-editor do News of the World, como assessor de imprensa.

E quem diria: Murdoch, um senhor do universo, manipulador de politicos, agora é convocado para prestar depoimento no Parlamento sobre o escândalo. Tem menos capital moral, político e também econômico, pois as ações do grupo News International despencaram esta semana.

Murdoch toca um império global de comunicações e entretenimento. Inventou esta coisa diabólica nos EUA que é a Fox News, com sua panfletagem ideológica de direita, empacotada como informação objetiva. Com o mar de lama no outro lado do Atlântico, a TV por assinatura MSNBC faz a festa no seu noticiário, não tanto por indignação moral, mas para abusar de sua panfletagem ideológica de esquerda contra a Fox News.

Esta última, claro, que considera mini este maxiescândalo. Imagine se envolvesse um conglomerado liberal. Já que estamos no assunto, Murdoch foi um visionário ao preencher um espaço ideológico desejado por um segmento conservador da população, frustrado com a ausência de uma plataforma como a Fox News.

Back to England. Um pouco de contexto histórico e basta ficar no finado News of the World, comprado em 1969 por Murdoch e que circulou pela última vez no dia 10 passado. O pasquim esteve na praça por 168 anos (e provavelmente será ressuscitado com outro nome se o grupo News International sobreviver ao escândalo), desde os tempos vitorianos. Winston Churchill foi seu correspondente de guerra. Murdoch e companhia apenas depravaram ainda mais a fórmula. George Orwell escreveu um ensaio em 1946 (Decline of the English Murder) sobre o prazer perverso dos ingleses (e nosso, é claro) para ler as histórias de crimes e escândalos (o assassinato “perfeito”) no dominical News of the World.

Nós, leitores e espectadores, somos chegados na crueldade e devassidão, em particular dos ricos e famosos. Temos pendores para o voyeurismo. Damos poder, influência e lucros aos Murdochs. No New York Times, o colunista Roger Cohen foi até corajoso para elogiar Rupert Murdoch. Escreveu que o magnata nos dá muito mais, além da sordidez dos seus tablóides ou da demagogia da Fox News. Com seu saudosismo do velho jornalismo, onde ele começou, Murdoch ajudou a salvar jornais ou pelo menos adiar sua morte.

Sob seu controle, publicações como The Times (de Londres) e The Wall Street Journal oferecem qualidade. E, para mim, é uma emoção ver jornais que ainda investem no noticiário internacional, como estes dois citados, embora careçam de uma cobertura vigorosa neste escândalo na casa. Já outro jornal de prestígio do grupo, The Sunday Times, não sai bonito na foto do escândalo em andamento, pois também andou bisbilhotando a vida de Gordon Brown.

E mais: todo apoio à cruzada de Murdoch para que você, caro leitor, não seja folgado e pague pelo trabalho de quem vive da imprensa, como este escrivão. Uma possibilidade agora é uma retirada estratégica do grupo do jornalismo tradicional britânico, especialmente quando o comando estiver nas mãos do filho James Murdoch, que não tem o mesmo sentimentalismo do pai em relação a jornais. Em contrapartida, o grupo desistiu de completar a compra da operadora de TV por assinatura BSKyB devido a um novo clima político no país, de indignação com as peripécias do império Murdoch.

O pacote de jornalismo investigativo na imprensa britânica é difícil de amarrar. Tem do mais lamacento ao mais digno. É uma imprensa vibrante, agressiva, livre, irreverente, nobre e vulgar. É também canalha e criminosa. Precisa ser mais investigada. O escândalo em curso é escabroso, mas há o risco de um revés com mais vozes pedindo regulamentação e a imprensa se retraindo para uma covarde compostura. O risco é pequeno. Ainda vamos nos escandalizar muito com o pior da imprensa britânica e saudar o melhor.

O leitor do News of the World no ensaio de Orwell estava no sofá. Quanto a mim, não me acotovelo no assento do metrô sem ele, o New York Post, o escandaloso, saboroso e tantas vezes mentiroso tablóide local de Rupert Murdoch.

Estas são as notícias do mundo da imprensa.


 

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