Nos EUA, a guerra civil republicana sobre o século 21
Um dia de trégua aqui na coluna para a guerra civil na Síria. Vamos tratar da guerra civil entre os republicanos americanos. Nesta quinta-feira, começará o debate no Senado em Washington sobre uma abrangente proposta de reforma de imigração, num pacote amarrado por um grupo bipartidário de senadores, a chamada “gangue dos 8″, entre eles o republicano Marco Rubio, da Flórida, filho de imigrantes cubanos e potencial candidato presidencial em 2016.
Nesta guerra civil, no outro lado da cerca, está um dos mentores de Rubio, o ex-senador Jim DeMint, agora à frente da Fundação Heritage, o mesmo lobby conservador intelectual que contribuiu para que fosse detonada uma reforma de imigração em 2007.
No novo estudo, alarmista e com pinceladas xenófobas, a Fundação Heritage extrapola que a proposta bipartidária do Senado vai custar aos contribuintes americanos US$ 6.3 trilhões nas próximas décadas, devido aos custos de assistência médica e de programas sociais a 11 milhões de imigrantes ilegais que poderão se tornar cidadãos. DeMint, em entrevistas esta semana insiste em qualificar a reforma de imigração de ”anistia”, embora o caminho para a cidadania seja custoso e penoso (mais de dez anos).
As projeções foram rapidamente contestadas por um batalhão de políticos, acadêmicos e lobbies conservadores, o que deixa flagrante a fratura do movimento. Na contestacão, chama atenção a presença de Grover Norquist, o incansável oponente de alta de impostos. Todos estes críticos conservadores dispararam contra a metodologia do estudo da Fundação Heritage, lembrando que ele não leva em conta o papel de imigrantes para o crescimento econômico e a mobilidade social entre eles.
Além destes princípios econômicos para estimular a reforma da imigração, existe o bom senso político. O Partido Republicano sofreu uma heremorragia de votos em 2012 junto ao eleitorado latino e asiático. O país muda rapidamente em questões sociais e morais (como na aceitação do casamento entre pessoas do mesmo sexo). Em 2007, quando fracassou a proposta de reforma da imigração, a opinião pública estava rachada sobre o tema. Hoje, de acordo com as pesquisas, 2/3 dos americanos são favoráveis a um caminho para a cidadania aos imigrantes ilegais.
O estudo da Fundação Heritage, porém, é munição para a base republicana, composta basicamente de conservadores brancos e mais velhos, que nutrem suspeitas pela diversidade, complexidade sócio-cultural e o século 21 em geral. E esta base dá as cartas em primárias, e que pode levar a Câmara dos Deputados, com maioria republicana, refém da base, a não emplacar uma reforma da imigração.
Mesmo no Senado, de maioria democrata, não está completamente garantida a passagem da proposta e setores da minoria republicana estão mobilizados para sabotar como puderem a reforma da imigração.
Na sua mais recente coluna no New York Times, David Brooks derrubou a cerca dos setores que querem restringir a imigração ou não regularizar a situação daqueles que já estão no país de forma ilegal. Entre outras coisas, os oponentes conservadores estão tentando restringir o fluxo de conservadores para o país, pois pesquisas mostram que imigrantes têm ideias tradicionais sobre família e comunidade. Eles possuem uma sólida ética de trabalho, impulso para a assimilação na sociedade americana e ambição para a mobilidade social.
Os imigrantes melhoram o EUA. E, de resto, como ressalta Brooks, os oponentes da reforma da imigração querem conter o inevitável. O país é cada vez mais cosmopolita e se distancia do perfil do eleitor republicano de carteirinha.
Se os oponentes da reforma da imigração vencerem a guerra civil republicana, o partido irá perder poder político, eleições e o bonde do século 21.
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Colher de chá para o David Brooks. O rapaz promete.







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