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08/05/2013

às 6:00 \ Imigrantes, Republicanos

Nos EUA, a guerra civil republicana sobre o século 21

Rubio, DeMint e o futuro do poder republicano

Um dia de trégua aqui na coluna para a guerra civil na Síria. Vamos tratar da guerra civil entre os republicanos americanos. Nesta quinta-feira, começará o debate no Senado em Washington sobre uma abrangente proposta de reforma de imigração, num pacote amarrado por um grupo bipartidário de senadores, a chamada “gangue dos 8″, entre eles o republicano Marco Rubio, da Flórida, filho de imigrantes cubanos e potencial candidato presidencial em 2016.

Nesta guerra civil, no outro lado da cerca, está um dos mentores de Rubio, o ex-senador Jim DeMint, agora à frente da Fundação Heritage, o mesmo lobby conservador intelectual que contribuiu para que fosse detonada uma reforma de imigração em 2007.

No novo estudo, alarmista e com pinceladas xenófobas, a Fundação Heritage extrapola que a proposta bipartidária do Senado vai custar aos contribuintes americanos US$ 6.3 trilhões nas próximas décadas, devido aos custos de assistência médica e de programas sociais a 11 milhões de imigrantes ilegais que poderão se tornar cidadãos. DeMint, em entrevistas esta semana insiste em qualificar a reforma de imigração de  ”anistia”, embora o caminho para a cidadania seja custoso e penoso (mais de dez anos).

As projeções foram rapidamente contestadas por um batalhão de políticos, acadêmicos e lobbies conservadores, o que deixa flagrante a fratura do movimento. Na contestacão, chama atenção a presença de Grover Norquist, o incansável oponente de alta de impostos. Todos estes críticos conservadores dispararam contra a metodologia do estudo da Fundação Heritage, lembrando que ele não leva em conta o papel de imigrantes para o crescimento econômico e a mobilidade social entre eles.

Além destes princípios econômicos para estimular a reforma da imigração, existe o bom senso político. O Partido Republicano sofreu uma heremorragia de votos em 2012 junto ao eleitorado latino e asiático. O país muda rapidamente em questões sociais e morais (como na aceitação do casamento entre pessoas do mesmo sexo). Em 2007, quando fracassou a proposta de reforma da imigração, a opinião pública estava rachada sobre o tema. Hoje, de acordo com as pesquisas, 2/3 dos americanos são favoráveis a um caminho para a cidadania aos imigrantes ilegais.

O estudo da Fundação Heritage, porém, é munição para a base republicana, composta basicamente de conservadores brancos e mais velhos, que nutrem suspeitas pela diversidade, complexidade sócio-cultural e o século 21 em geral. E esta base dá as cartas em primárias, e que pode levar a Câmara dos Deputados, com maioria republicana, refém da base, a não emplacar uma reforma da imigração.

Mesmo no Senado, de maioria democrata, não está completamente garantida a passagem da proposta e setores da minoria republicana estão mobilizados para sabotar como puderem a reforma da imigração.

Na sua mais recente coluna no New York Times, David Brooks derrubou a cerca dos setores que querem restringir a imigração ou não regularizar  a situação daqueles que já estão no país de forma ilegal. Entre outras coisas, os oponentes conservadores estão tentando restringir o fluxo de conservadores para o país, pois pesquisas mostram que imigrantes têm ideias tradicionais sobre família e comunidade. Eles possuem uma sólida ética de trabalho, impulso para a assimilação na sociedade americana e ambição para a mobilidade social.

Os imigrantes melhoram o EUA. E, de resto, como ressalta Brooks, os oponentes da reforma da imigração querem conter o inevitável. O país é cada vez mais cosmopolita e se distancia do perfil do eleitor republicano de carteirinha.

Se os oponentes da reforma da imigração vencerem a guerra civil republicana,  o partido irá perder poder político, eleições e o bonde do século 21.

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Colher de chá para o David Brooks. O rapaz promete. 

30/01/2013

às 6:00 \ Congresso EUA, Demografia, Imigrantes, Obama

Os prós e prós da reforma de imigração nos EUA

Juramento de cidadania

Influentes senadores democratas e republicanos agilizaram na segunda-feira um esboço de acordo bipartidário para a reforma da imigração nos EUA e o presidente Barack Obama, que se esquivou da questão no primeiro mandato, fez discurso a respeito na terça-feira em Las Vegas. Em clima de comício eleitoral, Obama elogiou o empenho bipartidário, mas alertou que se as coisas atolarem no Congresso, ele vai enviar ao Legislativo o seu próprio pacote de propostas.

O presidente bradou que o momento é “agora” para a reforma da imigração. Uma aposta razoável é que um acordo possa ser aprovado até o final do ano, em torno de compromissos que envolvem segurança nas fronteiras (fronteira mexicana, a rigor), um caminho para a legalização de 11 milhões de imigrantes ilegais no país, uma nova política de vistos que permitam e racionalizem o trabalho temporário de estrangeiros (com diferentes níveis de qualificação) e mais agilidade para a entrada de imigrantes legais.

La frontera

O avanço das negociações, como é fácil prever, será mais tortuoso na Câmara com controle republicano, devido a bolsões muito conservadores avessos a compromissos com os democratas e a Casa Branca. A palavra-de-ordem destes setores é que reforma de imigração é sinônimo de anistia e demagogia. Fácil enquadrar estes setores mais conservadores nos dados de uma pesquisa da rede de televisão CBS: 24% dos americanos são a favor da mera deportação de ilegais, 20% topam apenas vistos temporários para eles e 51% apoiam a abertura do caminho para a cidadania de quem já está aqui.

É ilustrativo que dois dos mais influentes jornais americanos tenham saudado, em editorial, os avanços rumo à primeira reforma de imigração desde 1986 (governo do republicano Ronald Reagan, quando havia 3 milhões de ilegais). O New York Times com mais entusiasmo e o Wall Street Journal, com mais cautela, advertindo sobre pressões de Obama por um acordo mais conveniente para sua agenda partidária, tentando encurralar os republicanos como inflexíveis ou muito tímidos nesta reforma. Para Obama, é melhor pegar carona num sólido plano bipartidário. Melhor dos mundos. Com o sucesso, ele poderá cantar vitória. Com o fracasso, poderá responsabilizar os republicanos.

Colheita econômica e de votos

Evidentemente, os incentivos para uma reforma de imigração são políticos e econômicos. Existe uma urgência republicana para reverter a perda do eleitorado latino e o risco do partido se tornar um enclave de eleitores brancos, homens e sulistas. E o estímulo para os democratas é cimentar o bloco latino como vital na sua coalizão eleitoral (Obama teve 71% do voto da minoria nas eleições de novembro e 73% dos asiáticos).

O senador democrata e latino de Nova Jersey, Robert Menendez, resumiu bem o cenário favorável a um acordo de imigração: “Os americanos apoiam, os eleitores latinos esperam, os democratas querem e os republicanos precisam”. Sobre a economia, os ilegais em sua maioria são parte dela, fazem parte de nossa vida aqui nos EUA. Milhões deles foram acolhidos e absorvidos pela economia e sociedade, sejam empresários que precisam de empregados, sejam donas-de-casa que precisam de empregadas.

Mesmo para gente ilegal que “está dentro do sistema” não será uma moleza conseguir a cidadania. Com a nova legislação, ela poderá levar 15 anos, exigindo pagamento retroativo de impostos e não furar a fila daqueles que esperam legalmente os documentos. E flexibilizar a entrada de trabalhadores temporários é eficiente, pois vai acompanhar as marchas e contramarchas da economia.

E está no DNA do país. Bacana a seguinte frase do editorial do Wall Street Journal: “Um caminho para a cidadania também irá ajudar no processo de assimilação que tem sido uma das forças históricas dos EUA. Não interessa aos EUA uma classe permanente de residentes que nunca poderão ser cidadãos e assim terão menos incentivos para se adaptar aos costumes culturais, falar inglês e deixar enclaves étnicos segregados”.

Resta ver como irá se comportar Washington. Paralisia está no seu DNA. O conceito de compromisso migrou. Mas a nova realidade política abre espaço para uma dinâmica de acordo, lastreada na tradição de acolher imigrantes.

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Colher de chá para o Rony e seu depoimento (dia 30, 9:54).  E outra para o Marcel, pelo mesmo motivo (dia 30, 10:40).

04/07/2012

às 6:00 \ Ásia, EUA, Imigrantes, Latinos

Quatro de julho (2)

Rostos asiáticos na cerimônia de naturalização

Estamos no 4 de julho, feriadão americano da independência. No ritual da coluna, volto a escrever sobre o significado da data no dia mais apropriado. Este colunista que já viveu quase metade de sua vida nos EUA sente-se em casa por aqui (assim como nas bandas de Higienópolis/Consolação/Bom Retiro, em São Paulo). God Bless Americas! Muito para celebrar, mas é sempre bom ter cuidado com o excesso de fogos de artifício. Dá chabu esta lengalenga de país excepcional, o melhor do mundo, USA! USA! USA!. Patriotada é excepcionalmente perigosa em qualquer pátria. Faz o cidadão perder o senso crítico, bravatear, escamotear os problemas nacionais e se comportar de maneira arrogante e xenófoba (ok, no futebol pode). De qualquer forma, no 4 de julho, eu acho bacana saudar à la americana. Na terra de imigrantes, vamos falar de imigrantes, esta força vigorosa que realmente contribui de forma excepcional para a grandeza do país.

Hispânicos estão no radar e geram paixões. O presidente democrata Barack Obama agora presta atenção nos ‘hermanos”, de olho nas eleições, após anos de indiferença. Republicanos, em geral, se comportam cada vez mais como xerifes do Arizona e questionam o valor de imigrantes (com um discurso centrado nos ilegais para disfarçar o extremismo nativista). Eles visualizam os hispânicos como hordas de trabalhadores ilegais não qualificados, farofeiros invadindo a “nossa praia”, surrupiando indevidamente os benefícios e incapazes de assimilação ao modo de vida USA! USA! USA! (seja lá o que seja). Ironicamente, muitos fazendeiros querem mandar os xerifes plantar batatas com as leis mais rigorosas em vários estados, pois quem vai pegar pesado na roça?

A conversa passional sobre os latinos (ou hispânicos) faz perder de vista uma dinâmica muito importante. Desde 2009, estão chegando ao país mais asiáticos do que hispânicos. Uma das razões é o retorno de hispânicos para a América Latina devido ao crescimento econômico anêmico nos EUA aliado à crescente hostilidade aos ilegais (Obama inclusive endureceu a política de deportações) e potencial de empregos nos países de origem.

Não vou entupir a coluna com dados, extraídos de um estudo divulgado em junho pelo Pew Research Center. Mas, alguns adiante. Cerca de 45% dos latinos são ilegais. Entre os asiáticos, a taxa cai para 15%. Os asiáticos já são 6% da população (eram 1% em 1965). É a minoria racial de crescimento mais rápido. Na imensa maioria (85%), são chineses, filipinos, indianos, coreanos, vietnamitas e japoneses.

E o fluxo, de fato, é um ganho qualitativo para os EUA. Os asiáticos têm uma educação superior à da populacão do seus países de origem ou antepassados. Como 49% deles têm diploma universitário, batem de longe a média americana de 28%. A renda domiciliar anual também é superior à média nacional (US$ 66 mil x US$ 50 mil). São imigrantes movidos por uma cultura capitalista e empreendedorismo. O estudo Pew mostra que esta camada tem uma ética de trabalho mais rigorosa do que a dos americanos.

E vamos desfazer mitos. São grupos étnicos com muita capacidade de assimilação. Uma prova da integração está na taxa de casamento interracial (29%), acima da registrada para brancos, negros e hispânicos. Numa nota pessoal, para quem não sabe, minha mulher nasceu nas Filipinas. Nos conhecemos há muitas e muitas décadas atrás na faculdade no estado de Ohio. Nossa família vira-lata (com duas filhas) é o “samba do crioulo doido” para preencher os dados do censo, com nossa mistura europeia, latino-americana, asiática, católica e judaica (além de santista e são-paulina).

Com esta família melting pot,  é bacana gritar USA! USA! USA! Para nós e para imigrantes de todas as partes do mundo foi uma longa marcha (1/4 dos imigrantes asiáticos tem raízes na China e Taiwan). Mesmo entre os asiáticos, obviamente, há os ilegais sem qualificação profissional, trazidos por máfias em navios cargueiros.

Mas a trajetória hoje é bem mais suave para a grande maioria, com o perfil invejável de educação, ambição econômica e sólidos valores familiares. Esta boa acolhida contrasta com a discriminação que vitimou imigrantes asiáticos, num movimento de portas abertas e fechadas (literalmente para nipo-americanos que foram confinados durante a Segunda Guerra Mundial). Em 1917, o Congresso aprovou um ato de exclusão, que classificou os asiáticos como indesejáveis, ao lado de criminosos, epilépticos e insanos.

Pelo menos em relação aos asiáticos hoje existe sanidade migratória nos EUA. É fascinante que da Ásia emergente venham os imigrantes mais qualificados, mais trabalhadores e mais ambiciosos para os EUA, este país que amarga o tal do declínio histórico.

***
O imigrante aqui começa generoso no quatro de julho. Uma primeira colher de chá para o Pierre (dia 4, 9:33) pela visão abrangente  e outra para a Carmem (dia 4, 9:35), por seu comentário na mosca.  E mais uma para J.R. Monteiro (dia 4, 13:43). Leiam seu depoimento pessoal. 

 

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