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Da Grécia ao Afeganistão, fadiga e frustração

Como organizar e pagar a estratégia de saída ocidental do Afeganistão?

Pelo menos os líderes ocidentais se movimentam. Eles foram de Camp David para Chicago, onde está em curso a reunião da Otan para discutir o futuro (que futuro?) do Afeganistão. Tudo melancólico, a começar pelo encontro da liderança do G-8 em Camp David, concentrado na crise europeia. Saiu o esperado comunicado, onde até as vírgulas são negociadas, sobre a guerra austeridade x novo pacto de crescimento.

Foi o cerco liderado pelo novo presidente francês François Hollande contra a primeira-ministra alemã Angela Merkel para suavizar, abrir a carteira e bancar o novo pacto de crescimento, mas ela move poucas vírgulas e poucos euros. O resultado foi o comunicado frouxo do G-8, fazendo média entre o compromisso formal para manter a Grécia na zona do Europa e a insistência alemã de que um apoio entusiasmo seria o recado errado, confundido com uma tábua de salvação a qualquer preço, não apenas para os gregos, mas outros países da zona do euro em uma situação de sufoco. O duelo tem nova rodada na cúpula da União Europeia (dirigentes sempre se movimentando) nesta próxima quarta-feira.

O presidente americano Barack Obama, morrendo de medo de uma bancarrota europeia durante sua campanha de reeleição, apenas bota banca, mas não assistência aos aliados do outro lado do Atlântico, enquanto tenta sugar alguma ajuda dos europeus às voltas com os seus buracos afegãos (Grécia e demais) para o Afeganistão original, assunto principal da agenda da cúpula da Otan.

Tanto na crise europeia, como na afegã, existem fadiga e frustração. A Grécia é um símbolo dos erros na construção do projeto europeu. Foi aceita no clube quando não deveria ter sido e agora se teme que, caso seja espirrada, gere tamanha encrenca que talvez não haja condições de fazer as reformas na associação, para que seja realmente mais unida, mas com menos autonomia para os sócios. No cenário mais aterrador, o clube com planos tão grandiosos talvez seja fechado e no seu lugar seja aberto um outro menor e mais elitista.

Existe justificável irritação com o Grécia dentro da Europa e estes dilemas estratégicos e táticos sobre até que ponto compensa salvar o país e se remédios tão dolorosos, como a austeridade, podem agravar a situação do paciente. Mas é inegável que não dá para escapar da dor. A Europa empreendeu uma jornada visionária no pós-guerra e os planos de união colidem com as realidades de países em graus diferentes de solidez e potencial. E obviamente uma crise econômica é um desafio para quem está em uma situação menos pior,  se comportou como formiga e agora precisa ajudar quem sempre foi metido a cigarra. Como se fala formiga em alemão e cigarra em grego?

A Europa foi maravilhosa com o sucesso de sua reconstrução pós-guerra e agora tem esta dificuldade para ampliar a obra ou impedir que desabe. Já no caso afegão, é a constatação sobre a mera inviabilidade de construção de um país sólido, democrático e próspero (no jargão em inglês a expressão é nation-building). No caso europeu, o debate é em torno do jargão conhecido como Grexit (como será a eventual saída da Grécia da zona do euro?). No Afeganistão, é uma estratégia mais ampla de saída dos países ocidentais, liderados pelos EUA (até 2014).

O projeto bem mais modesto é se contentar com um mínimo de segurança, sem retorno da rede Al Qaeda que teve santuário no pais até a derrubada do Taliban em 2001, um nível tolerável de corrupção e de ineficácia do governo local e mesmo um modus-vivendi com o Taliban. O problema é evitar a percepção de uma fuga atabalhoada, que apenas iria encorajar o Taliban a ser maximalista e levar atores regionais como o Paquistão, um dos parceiros mais turbulentos e menos confiáveis que os EUA já tiveram na história,  a fazer seus próprios cálculos, pois os americanos vão cair fora do buraco de qualquer forma. Já o cálculo americano é que um Paquistão nuclear e instável merece mais atenção do que a busca de estabilidade no vizinho Afeganistão.

Por esta razão, existe esta mensagem ambígua do governo Obama: vamos sair e vamos ficar no Afeganistão. A mensagem é caríssima. Significa um compromisso de respaldar o governo local a um preço de US$ 4 bilhões anuais, por dez anos, nesta tarefa inglória de afeganistização da guerra. Existe um desejo entre praticamente todos os membros da Otan de uma saída com dignidade do Afeganistão. E para o governo Obama, ainda sobrou a tarefa ingrata de achacar o que for possível dos aliados em termos de compromissos financeiros e cronograma de retirada de tropas. Basta ver que François Hollande, contra a austeridade na Europa, é  bem austero no Afeganistão, pois promete antecipar em dois anos a retirada das tropas francesas do país.

Esta reunião em Chicago, portanto, se destina a organizar uma saida com dignidade e ver como rachar a conta afegã. Quem prefere falar de Grécia? Tanta movimentação, de Camp David a Chicago, para isto.

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Colher de chá para o Aurélio (dia 21, 12:26) e sua doutrina das melancias.  E uma noturna para o Mauricio (dia 21, 19:2o), por colocar a fadiga e a frustração no seu devido contexto.

As lições francesas para o président Obama

O que espera Obama? Foto Kevin Lamarque/Reuters

Em cerca de 350 pesquisas de opinião pública, o socialista François Hollande era o favorito para derrotar o conservador Nicolas Sarkozy. Portanto, foi até uma proeza para o quase ex-presidente francês (mais uma semaninha no cargo) ter perdido por uma margem tão apertada. Antes de tudo, alternância de poder é coisa de uma sólida e saudável democracia (e isto a França é) e, depois de tudo, este é o paradigma na Europa em crise econômica: o governo de plantão paga a conta e é espirrado do poder. Cartas socialistas e conservadoras estão saindo do baralho europeu, de acordo com as circunstâncias do jogo em cada país.

Hora de falar do jogo americano. Será que a mesma sorte do conservador Sarkozy (incapaz de conseguir a reeleição) estará reservada dentro de seis meses para o democrata Barack Obama? Pela lógica do voto punição, voto desabafo, voto frustração, Obama deverá encorpar a legião sem emprego (aposentadoria precoce, à la europeia), mas o presidente  é um coringa.

Ele está no sufoco de um Sarkozy, mas seu discurso populista contra o excesso de austeridade pregado pelos republicanos pode dar para o gasto e garantir a reeleição em novembro. Obama é um Sarkollande  (mistura de Sarkozy com Hollande). No comício que lançou “oficialmente” sua campanha sábado passado (foto acima), ele tinha temas “hollandeses” como justiça, inclusão e mais taxação dos ricos (embora menos draconiana), mas sua inicial mensagem personalista de mudança em 2008 tinha um toque de Sarkô. Qual deles irá sobressair?

Não vamos nos estender aqui, mas a realidade eleitoral americana é diferente da europeia. Obama, por exemplo, ainda é pessoalmente popular (o que não era o caso de Sarkozy). O Partido Republicano está tão desgastado como o Partido Democrata, mas eleitores não têm canais multipartidários para extravazar a fúria (apesar de ensaios como Occupy Wall Street e outras ruas, o circo não pegou fogo). O primeiro turno das eleições já acabou, aconteceu nas primárias republicanas. Dentro de alguns meses, os americanos irão realmente se concentrar no turno final de novembro, no mano a mano entre Obama e o oponente republicano Mitt Romney.

A economia americana se mostra molenga, porém não tão capenga como na Europa. Ressalva:  divisões na zona do euro sobre políticas de austeridade e caos político, como na Grécia, podem agravar a crise. Por extensão, afetariam a economia americana e as chances de reeleição de Obama. Já se a dobradinha Merkel/Hollande segurar o rojão, ponto para o presidente americano. Mas este é um comentário recheado do “por outro lado”. Se um político incolor como o socialista Hollande conseguiu (assim como o conservador Mariano Rajoy na Espanha), por que não o republicano Mitt Romney? Eles compensam a falta de carisma, com o excesso de problemas associados ao ocupante no cargo.

Começamos falando da praga de pesquisas neste comentário, vamos terminar no mesmo tom. Aqui nos EUA, as centenas de pesquisas mostram uma disputa equilibrada, ao contrário da França, onde sempre sinalizaram a vitória de Hollande. Nenhum dos dois candidatos americanos está em uma posição avassaladora ou arrasadora. Podemos torcer por um ou outro ou estimar o favoritismo de um ou outro, mas realmente não sabemos para quem François Hollande telefonará na noite de 6 de novembro para dar os parabéns.

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Colher de chá para Sanidade Republicana (dia 8, 8:38), lembrando a lição básica: a eleição americana ainda está distante, no remoto novembro.

06/05/2012

às 22:44 \ Eleições francesas, Hollande

Bonne chance, président (vai precisar)

Hollande na praça da Bastilha - Foto/AFP

Bonne chance, président Hollande. O desejo não é meramente protocolar. O vitorioso nas eleições francesas de domingo vai precisar de extrema boa sorte. Opa! A palavra extremismo assusta na Europa de hoje. Hollande precisará de muita sorte com os citoyens e de muita habilidade para acertar o casamento com frau Angela Merkel, depois do voto de desabafo que guilhotinou o poder do impopular e esfuziante presidente bling-bling Nicolas Sarkozy.

Hollande pode ir para a praça da Bastilha e prometer uma revolução contra o fiskalpakt, mas vamos ver como irá convencer os aiatolás da austeridade em Berlim e Frankfurt (sede do Banco Central Europeu) a soltar o dinheiro. Frau Merkel tem a chave do cofre. Ela pode adotar um tom camarada com seu novo francês (menos elétrico do que o anterior), para não humilhá-lo em começo de mandato, mas não se deixará seduzir facilmente. E não será apenas ela. Os franceses votaram no domingo contra a austeridade. Os mercados também estão votando. E não adianta denunciar a ditadura dos operadores de títulos da dívida pública francesa. A praça é do povo e deles também.

A revista The Economist fez terror contra Hollande e alertou que ele é “perigoso”. O Libération, jornal francês de esquerda, assim que se confirmou a vitória do candidato socialista no domingo, estampou a manchete “Normal!” Dá para ser perigoso e normal ao mesmo tempo? Vamos tirar a média e esperar que Hollande não seja um idiota. Maluquices podem ficar a cargo dos partidos extremistas, de esquerda e de direita, em alta na Europa, como na Grécia que também teve eleições no domingo ou Marine Le Pen (esta sim perigosa de carteirinha).

Afinal qual loucura pode fazer o europeista Hollande? Declarar guerra contra Angela Merkel ou erguer barricadas em Paris? A França normal, de direita ou de esquerda está centrada no projeto europeu. É âncora deste projeto e não quer que vá ao fundo em outro sentido. Existe esta revolta contra austeridade, mas é difícil imaginar o que o estado na França mais possa fazer.

Este estado já consome 56% do PIB francês (algo de dar inveja aos suecos), não equilibra o orçamento desde os anos 70 e impõe uma das cargas tributárias mais pesadas no mundo. Tudo bem, dá para pensar em alguns paliativos para minorar a dor (e os alemães precisam exportar, sendo que a Europa ainda é o seu maior mercado), mas nada do elixir venenoso que o povão quer engolir.

O mentor de Hollande foi o presidente socialista François Mitterrand, para o qual ele trabalhou nos anos 80. Depois que ganhou a eleição em 1981, Mitterrand implantou nacionalização, aumentou o salário mínimo, encurtou a semana de trabalho e inchou o estado do bem-estar social. O resultado foi fuga de capital, desvalorização cambial e desemprego. Dois anos mais tarde, Mitterrand deu a guinada. Caso comprove que não seja um idiota, tudo deverá ser mais rápido com Hollande.

Claro que existe o risco político. Em seis meses, a multidão pode voltar para a praça da Bastilha, não para celebrar, mas para pedir a cabeça de Hollande. Portanto, bonne chance, président.

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Colher de chá para o Abilio (de Portugal), por suas perguntas pertinentes e observações sobre a postura alemã (dia 7, 9:31).  E uma colher de chá vespertina para um punhado de leitores que travou um debate muito civilizado sobre Europa e economia nas últimas horas, com destaque para  o Magno, que havia tomado um chá de sumiço e retornou.

 

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