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Entre Israel e Gaza, um jogo de tensão e acomodação tática

Escalada de ataques em Gaza e sul de Israel - Fotos Reuters/Getty

De uns dias para cá, ocorreu uma escalada de violência nas bandas de Gaza/Israel, com os ataques aéreos/assassinados seletivos praticados por israelenses contra terroristas palestinos (e nas ações morreram também civis) e lançamento de foguetes contra cidades israelenses por radicais islâmicos mais radicais do que o Hamas. Existe um interesse tanto de Israel como do Hamas de impedir que a coisa se degringole. A disposição mútua é tática, manifestada em negociações indiretas mediadas pelo Egito. Naquelas bandas, tréguas são frágeis. Vamos ver.

O foco de Israel no momento é a questão nuclear iraniana, enquanto o Hamas tenta se ajustar a uma nova realidade regional (em função da primavera árabe). O grupo, ao que tudo indica, se distancia dos seus patronos sírios e iranianos (isolados no mundo árabe-sunita) e obviamente fortalece os laços com a Irmandade Muçulmana, na qual tem suas raízes, e que está a um passo do poder no Egito. No cálculo do Hamas, luta política e o mero reconhecimento tático que Israel existe talvez tragam mais ganhos do que a via armada/terrorista. Entre outras coisas, enfraquece a narrativa israelense de que não dá para negociar com um bando de terroristas que prega a destruição do estado de Israel.

Para o Hamas, e por extensão os palestinos, até que convém a eliminação da ameaça nuclear iraniana e a queda do regime Assad na Síria. Entre as ramificações, estaria a recolocação da questão palestina no centro dos acontecimentos no Oriente Médio. Claro que não podemos prever com precisão os desdobramentos em Gaza e na Cisjordânia caso ocorra um ataque israelense às instalações militares iranianas.

O que aconteceria, por exemplo, se o Hezbollah libanês lançar foguetes contra Israel como parte de uma retaliação iraniana? O Hamas ficaria de braços cruzados, apesar de garantias dadas recentemente por alguns dos seus dirigentes? Um dado importante aqui: nesta última escalada de violência, o estrago apenas não foi maior em Israel  devido à taxa de sucesso (70%)  do sistema de interceptação de foguetes disparados contra áreas povoadas. Maiores estragos talvez resultassem em retaliações mais severas. E vale lembrar que existe um racha no Hamas sobre mais resistência ou algum tipo de acomodação tática com Israel. Em contrapartida, interessa a iranianos e sírios botar lenha na fogueira palestina para desviar as atenções dos desafios que enfrentam.

Na questão palestina em si, um desafio é que o processo de paz, estabelecido com os acordos de Oslo em 1993, está essencialmente morto há três anos com o fracasso de negociações entre o então primeiro-ministro israelense Ehud Olmert e o presidente palestino Mahamoud Abbas sobre um status final em questões como fronteiras, refugiados, segurança e Jerusalém.  Com Olmert e seu antecessor Ehud Barak, Israel fez propostas que os palestinos não deveriam ter recusado. Foram maximalistas e perderam uma chance histórica. O de sempre, os palestinos não perderam nenhuma oportunidade de perder oportunidade. Já o atual primeiro-ministro Benjamin Netanyahu é minimalista e quer apenas manter um processo diplomático em curso com os palestinos, mas sem avanços substantivos. É o processo pelo processo.

Do lado palestino, tampouco existe algo substancial. Abbas sabe que suas posições em questões como o direito de retorno de refugiados palestinos a Israel são irreconciliáveis com a realidade (este retorno é inaceitável para Israel,  seria um suicídio demográfico) e que a expansão dos assentamentos judaicos na Cisjordânia (que deve ser contida por si) não é o único obstáculo em conversações. Abbas tem uma posição fraca, pois não controla Gaza e a perspectiva de reconciliação do seu grupo, o Fatah, com o Hamas é duvidosa, apesar de infindáveis negociações. Ironicamente, se isto acontecesse seria até uma desculpa para mais imobilismo diplomático israelense.

Temos, portanto, acomodação tática, negligência, falta de foco, farsa diplomática e ausência de paradigmas que substituam a fórmula dos acordos de Oslo. Este status quo provisório não pode se tornar crônico. É insustentável

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Estou surpreso, assim como alguns leitores, como o tom calmo dos comentários sobre esta coluna. Debates civilizados. Parabéns aos leitores. Portanto uma colher de chá (de cactus do deserto?) para todos.

20/10/2011

às 6:00 \ Curdos, Hamas, Terror, Turquia

Semicurtas & Finas (Curdos)

Funeral de militar turco - Foto Adem Altan/AFP

Países têm legítimas preocupações com terrorismo e grupos insurgentes. No zelo para se proteger, podem recorrer a ações desproporcionais, invasões e ocupações de terras. Violam direitos humanos. Seus dirigentes usam linguagem truculenta e maniqueísta. Estamos falando de Israel, só pode ser de Israel. Negativo. Estamos falando da Turquia, aquele país que hoje desfralda a bandeira da “primavera árabe” e aproveita para redobrar sua campanha contra Israel, o ex-aliado. Mas a Turquia também tem estas preocupações legítimas com terrorismo e grupos insurgentes. E recebe apoio e credibilidade do Ocidente na sua campanha contra separatistas curdos.

Na quarta-feira, os militantes do Partido dos Trabalhadors do Curdistão (para os turcos, com razão, são terroristas, ao contrário dos heróicos resistentes do Hamas) mataram dezenas de soldados turcos na fronteira da Turquia com o Iraque, no maior ataque em 18 anos. O presidente Abdullah Gul e o primeiro- ministro Recep Erdogan prometem vingança, anunciam combate sem trégua contra o terror e garantem que não vão recuar um milímetro.

E a escala deste último ataque (na sequência de atentados terroristas dentro da Turquia) afasta a possiblidade de uma rápida solução negociada. No começo do mês, o Parlamento turco renovou a carta branca para as tropas do país lançarem ataques por terra, e não apenas bombardeios aéreos, contra os insurgentes curdos que têm bases dentro do Iraque. Resta saber por quanto tempo o governo iraquiano e o governo autônomo curdo vão tolerar estas incursões.

Na sua bravata, O Partido dos Trabalhadores do Curdistão diz representar 25 milhões de pessoas da etnia, que vivem na Turquia, Iraque, Irã e Síria (onde começou uma repressão da pesada da minoria pela ditadura Assad, inclusive com o assassinato de lideranças). Já são mais de 25 anos de insurgência curda na Turquia, com estimativas de 35 mil mortos no lado curdo (além de 20 mil desaparecidos) e cinco mil baixas turcas. Cerca de quatro mil aldeias curdas foram destruídas. O grosso da matança foi nos anos 80 e 90, mas temos agora uma nova escalada de violência, depois de uma fase de concessões mútuas. De um ano para cá, o governo turco prendeu milhares de curdos, inclusive prefeitos eleitos.

A causa curda não tem a mesma visibilidade da causa palestina (e a conversa é muito mais sobre autonomia do que criação de um estado). Os turcos querem cada vez mais apoio militar, diplomático e moral ocidental (nesta hora é conveniente ser membro da Otan) contra os militantes curdos, enquanto dão cobertura aos radicais islâmicos do Hamas. EUA e União Européia, que condenaram este recente ataque, consideram tanto o Hamas como o Partido dos Trabalhadores do Curdistão organizações terroristas. Os dirigentes turcos concordam com metade desta classificação.


 

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