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Homens são de Marte e mulheres são de Vênus e Obama

Obama faz discurso para mulheres - Foto Kevin Lamarque/ Reuters

Vamos falar de sexo, mas só um pouco. Eu não tenho muito a dizer sobre o assunto em público, como é o caso de candidatos republicanos à presidência americana. Eles cometeram pecado politico e agora que paguem. Não adianta culpar a mídia liberal, o politicamente correto e o presidente democrata Barack Obama, em campanha de reeleição. Seria estupidez política da parte de Obama não tirar proveito da carolice republicana. Obama, movido a populismo, já investiu em guerra de classes (os 99% contra 1%, entre eles, Mitt Romney). Agora ele fatura com a guerra dos sexos.

Os candidatos republicanos, a destacar Rick Santorum, ressuscitaram as guerras culturais, em temas como métodos anticoncepcionais (meu Deus, o assunto já está sacramentado). Aborto é um assunto mais complicado, que divide inclusive as mulheres (ao contrário de métodos anticoncepcionais), mas o radicalismo partidário (a palavra correta é reacionarismo) em questões sociais e morais incomoda mulheres, mesmo republicanas moderadas, sem falar as independentes. Quem são estes homens republicanos para dar lição de moral e ditar regras em assuntos reprodutivos da mulher?

A Casa Branca esteve por um momento na defensiva quando enfureceu a hierarquia da Igreja católica, ao insistir que hospitais católicos oferecessem seguro médico que cobrisse métodos anticoncepcionais. Precisou alterar a política, ainda batendo na tecla de que se trata de uma questão de saúde da mulher e não de guerra à religião, como apregoam os republicanos. Mas, sortudo como de hábito, Obama foi abençoado pela cafajestice do papa do talk-radio conservador, Rush Limbaugh, que chamou de vadia e prostituta uma estudante da Universidade de Georgetown (católica), que advoga esta cobertura médica.

O debate sobre religião e exorbitância do papel do estado se converteu em uma conversa sobre falta de civilidade e mulheres. E também sobre falta de macho entre os republicanos. Um cardeal dos colunistas conservadores, George Will, perguntou: se Mitt Romney não teve coragem de encarar para valer Limbaugh por sua cafajestice, como vai enfrentar os aiatolás iranianos numa crise nuclear? Ok, meio folclórica a analogia de George Will. De qualquer forma, ela mostra a exasperação mesmo de gente conservadora com o primarismo republicano nestas primárias.

Em questões de mulher, o partido dá o palco para o coro evangélico e tem um tom pré-revolução feminista. Rick Santorum chegou a lamentar o “feminismo radical” que encoraja mulheres a trabalhar fora de casa, sem falar de suas perorações que sexo deve ter função reprodutiva e não de prazer. Bem, agora é hora dos republicanos sofrerem na pele. Basta ver a pesquisas recentes. A situação de Obama ficou um pouco mais confortável neste primeiro trimestre, com alguns sinais de melhoria na economia e o desgaste republicano na guerrra civil das primárias. Mas é simplesmente escandalosa a vantagem do presidente entre mulheres.

Há duas décadas existe o fosso dos sexos nas eleições. Mulheres votam mais nos democratas e os homens, nos republicanos. Mulheres são receptivas a um governo mais intervencionista, porém acolhem com menos ardor intrusões na vida privada. No geral, mulheres são mais liberais do que homens em questões sociais e menos fogosas para apoiar guerras. Este fosso diminui ou desaparece numa crise econômica. Nas eleições para o Congresso em 2010, os republicanos trucidaram os democratas, mesmo entre mulheres. As pesquisas das últimas semanas recolocaram as coisas nos eixos (para os democratas).  Se as eleições fossem hoje, Obama massacraria qualquer oponente republicanos no voto feminino. Em alguns pesquisas, diferença na faixa de 20 pontos. O consolo republicano é ter um bastião entre homens, a destacar brancos de nível econômico e educacional mais baixo.

Meu conselho para os republicanos: falem menos de sexo (se quiserem, façam bastante). O fosso entre sexos em eleições é um problema muito mais grave para os republicanos. Não se trata apenas desta radicalização para a direita do partido, que ficou ainda mais flagrante na atual temporada das primárias. É mera demografia eleitoral. Mulheres são maioria e votam mais do que os homens. Ganharam este direito bem antes da revolução feminista.

***
Colher de chá matinal para o infatígável cabo eleitoral republicano Maisvalia (dia 12, 9:25). E uma colher de chá vespertina para a Vera (dia 12, 15:15), pelas colocações sobre religião.

22/06/2011

às 6:00 \ Guerras Culturais

A arenga conservadora do ex-liberal David Mamet

Mamet de briga - Foto Astrid Stawiarz/Getty

Como eu estou indo para a briga contra David Mamet, diretor do filme Cinturão Vermelho, melhor estar protegido por Christopher Hitchens, outro mestre do jiu-jitsu verbal. O premiado autor, dramaturgo, roteirista, diretor e produtor Mamet acaba de publicar uma coleção de ensaios, na qual pontifica sobre sua conversão de liberal exacerbado em conservador exacerbado. Que arenga deste afiado artíficie das letras. O nome da peroração é Secret Knowledge (Conhecimento Secreto, editora Sentinel). E, como diz o meu protetor Hitchens, numa resenha no New York Times, trata-se de um “livro extraordinariamente irritante”, escrito por uma daquelas pessoas que, acreditando ter perdido a fé, acredita ter encontrado a razão.

Nenhuma indignação em si com a conversão de Mamet, que ja fora anunciada num texto no antro liberal Village Voice, em 2008. Esta foi também a jornada de beligerantes intelectuais judeus como Irving Kristol e Norman Podhoretz (patronos do movimento neoconservador nos anos 70). Tanta coisa justifica Mamet ter “encontrado a razão” (a sua razão): é duro para um judeu como Mamet conviver com a venalidade de amplos setores da esquerda, obcecados com Israel e travando uma campanha com tonalidades antissemitas. É duro conviver com a boçalidade do excesso politicamente correto. É duro conviver com o paternalismo liberal. Mas é duro conviver com as caricaturas e o simplismo de Mamet.

Ele escreve que “os israelenses querem viver em paz nas suas fronteiras e que os árabes querem matar todos eles”. Mamet adora Sarah Palin (há gosto para tudo), mas ele denuncia uma campanha insidiosa contra a celebridade conservadora por ser uma incansável trabalhadora, enquanto Karl Marx nunca trabalhou na vida. Mamet tem uma dívida de gratidão a Glen Beck (Glen Beck?) por tê-lo ajudado a encontrar a razão.

Mamet nunca tinha lido livros de economia. Agora devora Friederich Hayek e Milton Friedman. Pontifica que Franklin Roosevelt “desmantelou o livre mercado e com isto tem o mesmo prontuário de “nazistas, stalinistas e outros socialistas”. São ataques desmesurados à ação afirmativa (cotas raciais), comparada à escravidão, e o puro desmerecimento das mudanças climáticas. Pelo menos este último assunto é atual. Existe um anacronismo neste aguerrido recém-chegado `a tropa de elite da direita nas guerras culturais (é verdade que a tropa esquerdista é bem mais numerosa). Em 2011, o convertido ainda está apoplético com a viagem de Jane Fonda ao Vietnã do Norte em 1972. Apesar do barulho e do fervor de Mamet, a discussão esquerda x direita soa tão antiquada, num tom daquelas velhas porfias entre ex-comunistas e comunistas.

Mamet mudou de idéias, mas não o estilo agressivo, vulgar e cortante. Filho de um advogado liberal de Chicago, com 63 anos, ele passou quatro décadas dedicado ao indiciamento do capitalismo e da direita. Seus grandes personagens, como na peça American Buffalo (1975), são retratos da vida americana, em um zero-sum game. Antes, o estado era o amigo para aliviar as aflições humanas, hoje é o inimigo. Tudo tão peremptório. Existe uma exasperante confrontação entre os personagens de David Mamet. A intensidade é irritante (boa expressão, Hitchens). Mamet se torna seu próprio personagem e parece desprovido de ironia.

De qualquer forma, eu espero não perder a fé no autor David Mamet, que nos deu a peça Glengarry Glen Ross (1984). No cinema, com o nome em português Um Sucesso a Qualquer Preço (1992), nunca vai dar para esquecer o desesperado e velho corretor de imóveis Shelley Levene (Jack Lemmon), soldado da infantaria na guerra pela vida e dignidade.

Ao escritório, chega o novo chefe, Blake (Alec Baldwin), para motivar a soldadesca e também numa “missão de misericórdia”. Ele anuncia as novidades no concurso de vendas. O primeiro prêmio é o de sempre: o Cadillac Eldorado. Blake mostra o segundo prêmio (um conjunto de facas para cortar carne). O terceiro prêmio: demissão. A retórica de Mamet continua incisiva, mas para que tanta hipérbole? Eu, Blake Blinder, não vou demiti-lo, mas nada de prêmio por este livro.


 

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