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Arquivo da categoria Grã-Bretanha

02/04/2012

às 6:00 \ Argentina, Falklands, Grã-Bretanha, Malvinas

Pelas Malvinas, vamos chorar pela Argentina

A multidão inebriada e o general Galtieri

Irresistível tirar vantagem da data redonda, nesta segunda-feira, dos 30 anos da invasão argentina das ilhas Malvinas/Falklands, para recorrer à citação do escritor Jorge Luís Borges de que o conflito entre Grã-Bretanha e Argentina pela posse daquelas ilhas barrentas no Atlântico Sul era o equivalente a dois carecas brigando por um pente. Está bem, é mais do que um pente: tem petróleo, lula, ovelha, este treco pomposo de honra e o debate solene sobre identidade nacional (sem esquecer a autodeterminação dos “nativos”, 90% deles de origem britânica).

A frase de Borges é hilária, mas tudo o que envolve a conversa sobre Malvinas/Falklands tem componentes tragicômicos (649 soldados argentinos e 255 britânicos mortos). O cômico em 1982 era isto mesmo: de um lado, estava um império colonial já careca (e desdentado) e, do outro, uma ditadura brutal comandada pelo general beberrão Leopoldo Galtieri. Naquele começo dos anos 80, a primeira-ministra conservadora Margaret Thatcher, na esteira de inclinação do antecessor trabalhista James Callaghan, queria ajustar um cronograma para se livrar da possessão (para o desgosto dos “nativos”).

E, de certa forma, as linhas de qualquer solução negociada foram traçadas naqueles dias: um compromisso através do qual as ilhas se tornariam território soberano argentino, mas com governo autônomo e modo de vida britânico, algo vagamente ao estilo do acordo que os britânicos costuraram com a China sobre Hong-Kong. Mas era difícill uma conversa sóbria com os inebriados generais argentinos, em particular Galtieri. Eles recorreram a um dos truques mais manjados da demagogia politica para distrair as atenções da vergonha que era aquele regime: a patriotada.

E vamos chorar por muito tempo pelos argentinos, vamos chorar pelos “soldaditos conscriptos”, bucha de canhão na aventura miilitar e, em geral, pela cidadania que se comportou e ainda se comporta de forma imbecil. Vamos lamentar as massas que denunciavam uma ditadura infame e que de uma hora para outra passaram a saudar os generais-bandidos que decidiram invadir as ilhas. Mais de um milhão de argentinos se congregaram na Plaza de Mayo para festejar Galtieri, o herói beberrão da pátria. Saíram os generais, mas permanece o fetiche nacionalista, agora a cargo de Cristina Kirchner.

Este negócio de meu país, certo ou errado, está errado. O resultado pode ser um pesadelo nacionalista. Isto foi tão flagrante com os déspotas militares argentinos. O verdadeiro conflito fronteiriço deles era com com o Chile, na disputa pelas ilhas no canal de Beagle. O controle significa grandes vantagens em termos de águas territoriais e direitos sobre a Antártida.

Nunca seria fácil dobrar os chilenos e assim os militares argentinos tramaram algo conhecido com “plano Rosario”: primeiro ocupar as Malvinas/Falklands e depois as ilhas de Beagle. O plano fracassou. Houve a derrota para os britânicos. E aí a Argentina foi forçada a aceitar a mediação do Vaticano no conflito com o Chile. Em 1985 um tratado concedeu as ilhas para os chilenos e, apesar da rima fácil, as Malvinas ainda não são argentinas.

A rigor, como diz um dos meus jornalistas ingleses favoritos, John Carlin, os argentinos têm uma dívida de gratidão com Margaret Thatcher. O fiasco da aventura militar há 30 anos enterrou a ditadura militar. Thatcher libertou os argentinos. É uma pena que a tragicomédia continue…como estamos carecas de saber.

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Colher de chá (mate) para o Rodrigo(dia 2,12:38), pelo choro justo.  E outra colherada para o Fernando (dia 2, 13:28), comentário saboroso.  E colher de chá mate noturna para o Felipe (dia 3, 20:52) e suas considerações sobre solidariedade burra.

12/12/2011

às 6:00 \ Alemanha, Europa, Grã-Bretanha

Dialeto europês agora tem fortíssimo sotaque alemão

Cameron com Merkel (Foto: Tobias Schwarz/Reuters)

Não foi exatamente um duelo de titãs entre Angela Merkel (secundada pelo barulhento Nicolas Sarkozy) e o britânico David Cameron. Nesta Europa velha de guerra está difícil encontrar novos superheróis. Existe uma Europa fraca, porém empenhada em forjar uma identidade mais sólida para sobreviver, tendo`a frente a cautelosa Angela Merkel. O dialeto europês agora mais engessado e fluente em disciplina fiscal tem fortíssimo sotaque alemão. Em linguagem fácil, os alemães querem mais Europa; os britânicos, menos.

O gesso é visto como uma última oportunidade para salvar o alquebrado euro. Inglês é língua franca no mundo, mas na babel europeia ficou difícil dar a palavra para o primeiro-ministro britânico David Cameron. Para tentar salvar o euro, foi preciso rachar a União Europeia (dos 27 países, 17 integram a zona do euro). O novo pacto imposto pelos alemães significa mais integração, mais regulamentação, mais austeridade, mais penalidade para quem descumprir metas fiscas (isto em tese, é claro) e menos soberania nacional, Em troca, mais pacotes de resgate e mais intervenções do Banco Central Europeu.

A Grã-Bretanha rechaçou o pacote, ficou marginal. Não se trata apenas do interesse de Londres de manter o país fora do esquema de regulamentação financeira, mas do reforço do ceticismo daquelas ilhas divididas do continente pelo canal da Mancha sobre sua identidade europeia. Euroceticismo é mais acentuado no Partido Conservador de Cameron, mas existe também ambivalência entre os trabalhadores. A “zona” que virou a zona do euro até deu alívio ao país da libra por terem embarcado no projeto.

O que sempre existiu em Londres foi uma necessidade de “estar `a mesa” europeia, embora sem pagar plenamente a conta. Estar na mesa era importante para se contrabalançar ao poder de alemães e franceses. Aliás, o projeto europeu avançou com a unificação alemã há 20 anos e os próprios alemães estimaram que estarem mais solidamente dentro da tenda europeia era conveniente para minimizar os temores sobre o seu poder. Londres concordou.

Mas a crise monetária de agora exige um aprofundamento da união política. Compromisso tortuoso para os idissioncráticos britânicos, embora com eles de fora a Europa fique com sotaque alemão ainda mais carregado. Eles disseram não e Angela Merkel disparou um “have nice day” para Cameron. Será um “nice day” para a Europa sem a Grã-Bretanha? E vice-versa?

Há um duelo de titãs entre dois historiadores britânicos desde as decisões de sexta-feira em Bruxelas, rechaçadas por Londres (além de dúvidas de outros países menos importantes), mas o fato marcante é a decisão britânica de ser periferia deste núcleo mais amplo, porém ainda fragil da Europa. Timothy Garton Ash só tem a lamentar. O historiador de Oxford estima que é mau negócio para todo mundo. Ele prefere não fazer previsões sobre o futuro da Europa, mas avalia que se a União Europeia sobreviver neste processo lento e penoso, ela vai desenvolver uma união mais profunda, sem a Grã-Bretanha, que corre o risco da irrelevância.

Niall Ferguson, hoje em Harvard, acha que David Cameron teve a visão historicamente correta, pois o continente está à beira do colapso. Não existe sentido investir nos Estados Unidos da Europa, pois esta federação não terá vida longa. A bíblia do mercado financeiro britânico, o Financial Times, mancheteou que “o acordo na zona do euro deixou a Grã-Bretanha isolada”, mas Ferguson prefere a velha piada: nevoreiro no canal da Mancha: continente isolado.

Para ele, os sucessivos acordos são meros remendos e a carga da cavalaria (Fundo de Establidade Europeu, Banco Central Europeu e FMI) chega com atraso e com munição insuficiente para o resgate. Dramático, Ferguson acredita que serão anos de austeridade e contração com o objetivo de salvar um projeto quixotesco de união. No final das contas, está sendo assinado um pacto coletivo de suicídio. Melhor estar fora desta morbidez.

Mas a Europa unida é a utopia necessária. Vai obviamente além de uma união política, econômica, cultural e muito burocrática. O projeto europeu domesticou demônios. Quem imagina uma nova guerra entre Alemanha e França? Até entendo a impossiblidade política para Cameron ter aderido a este novo acordo, mas Timothy Garton Ash tem razão: ele prestou um desserviço para a civilização europeia. Péssimo negócio para a Europa que sua segunda economia fique de fora do novo pacto. Ademais, uma política externa e de segurança da Europa sem a Grã -Bretanha não terá credibilidade. Aos olhos dos EUA e da China (a superpotência emergente) a Europa sairá enfraquecida.

Os britânicos não têm motivos para celebrar o desfecho da cúpula, como tablóides xenófobos que trataram Cameron como um Churchill combatendo “agressores alemães”. A própria coalizão de governo pode rachar, pois o Partido Liberal Democrata é mais animado com o projeto europeu e o vice-primeiro-ministro Nick Clegg advertiu, nos termos do Financial Times , que a decisão de Cameron pode deixar o país “isolado e marginalizado”. Mas tampouco deve haver júbilo na Europa com esta decisões. Muito nevoreiro nos dois lados do canal.
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Colher de chá de consolação para a Carmem, por seus comentários simpáticos aos britânicos. Como aquelas ilhas, está está meio isolada neste debate.

01/12/2011

às 6:00 \ Crise nuclear, Grã-Bretanha, Irã

Curtas & Finas (Irã)

O espetáculo degradante na embaixada britânica em Teerã - Foto Reuters

Não devemos ficar chocados, chocados, quando “estudantes” iranianos tomam de assalto a embaixada e o complexo residencial de diplomatas britânicos em Teerã. Esta milícia faz o trabalho para a Guarda Revolucionária do regime islâmico, a linha dura da linha dura. A moçada aprendeu a violar regras básicas do Direito Internacional e dos direitos humanos (também espancou os manifestantes pró-democracia na Primavera de Teerã em 2009) na escola da revolução islâmica.

Houve consentimento de algum poder decisório nestes protestos e atos de vandalismo. Em linguagem de submundo, de elementos do poder decisório. Para os círculos de poder em Teerã, existe a tríade satânica formada por Grã-Bretanha, EUA e Israel, que trama e executa ações contra o seu programa nuclear e participantes. Como americanos e israelenses não têm representações diplomáticas em Teerã, sobrou os britânicos para serem alvejados desta forma tosca.

Muitos destes “estudantes” devem ser filhos dos “estudantes” que tomaram a embaixada americana em Teerã e fizeram 52 reféns, em 1979. O espetáculo degradante na terça-feira, que constrangeu até diplomatas iranianos de carreira, foi aplaudido por deputados (os mesmos que já pediram em sessão a execução de líderes oposicionistas) e justificado pelo presidente do Parlamento, Ali Larijani, um velho adversário do presidente Mahmoud Ahmadinejad. A brincadeira estudantil, no raciocínio de Larijani, foi uma reação à tradicional arrogância colonial britânica. Larijani também achou um absurdo a decisão unânime do Conselho de Segurança das Nações Unidas condenando a investida.

Não vamos complicar a conversa. A lógica da linha dura é endurecer e, na bizarra correlação de forcas hoje no Irã, Ahmadinejad é o moderado no confronto com as forças alinhadas ao líder supremo, o aiatolá Khamenei, do qual Larijani é íntimo. Existe esta briga pelo poder na cúpula iraniana (com vistas às eleições parlamentares de 2012 e presidenciais em 2013).

No plano externo, são as tensões do conflito nuclear com o Ocidente e Israel. No ar está a possibliidade de um ataque às instalações nucleares iranianas. Alguns setores do regime islâmico estão convictamente interessados no confronto, no incêndio, no martírio. Provocações como este assalto à embaixada britânica, que levaram vários países europeus a convocar seus embaixadores em Teerã, assim que o governo de Londres fechou sua embaixada e expulsou os diplomatas iranianos, fazem parte deste jogo perigoso. Interessa à linha dura da linha dura uma escalada das tensões, mesmo a um preço de crescente isolamento do pais, mesmo a qualquer preço.

A estrutura de poder no Irã é difusa e confusa, apesar da posição suprema do aiatolá Khamenei, que não tem a mesma autoridade do antecessor, o aiatolá Khomeini. Pergunta elementar: como aceitar um programa nuclear em um país nesta situação, com estes opacos centros decisórios, que nem respeitam regras elementares das convenções diplomáticas?
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Colher de chá imperial para o Felipe (dia 1,10:38), pelas comparações históricas. E mais uma colher de chá, noturna, para a Vera (dia 1, 20:54)

13/07/2011

às 6:00 \ Grã-Bretanha, Imprensa

Extra! Extra! Nem tudo é podre no império Murdoch

Adeus até quando? Foto Carl Cour/ AFP

Existe algo cada vez mais podre no reino da rainha Elizabeth. O mar de lama é mais vasto e mais profundo com as vertiginosas revelações (diárias e sensacionalistas) sobre a promiscuidade envolvendo imprensa, políticos e polícia. A ponta do iceberg neste mar de lama foi o finado tablóide News of the World, do império do magnata Rupert Murdoch, mas as revelações abarcam outras publicações do grupo News International.

São milhares de vítimas. Realeza, plebeus, políticos, gente famosa e gente como a gente tiveram telefones grampeados por profissionais a serviço dos jornais, documentos foram devassados e dados da vida pessoal vendidos por policiais e outros funcionários publicos. Uma das vítimas, o ex-primeiro-ministro trabalhista Gordon Brown, fala dos “métodos repugnantes” do grupo Murdoch para conseguir informações exclusivas e ganhar a batalha da circulação na selvagem guerra entre os tablóides. O jornal The Sun, que pertence ao grupo e é diário mais vendido no país, tinha informações sigilosas sobre a saúde de seu filho Fraser, que tem fibrose cística, e Brown não queria divulgar a informação. Seu direito. O jornal insiste que não acessou diretamente o prontuário médico da família Brown.

Existem lances criminosos, corruptos, sórdidos e macabros (como grampear e editar as gravações no celular de uma menina de 13 anos, assassinada). A postura do grupo News International é indefensável. Mas também há hipocrisia e histerismo neste megaescândalo. Jornais que atacam Murdoch também recorrem a métodos repugnantes para conseguir informações (embora o que se revele agora seja espantoso). Em muitos casos, a compra de informações tem objetivos mais nobres, como dois anos atrás, nas revelações do jornal conservador The Daily Telegraph sobre despesas irregulares e mordomias de parlamentares.

Num caso mais polêmico, o liberal The Guardian, líder nas denúncias agora contra a sordidez do grupo Murdoch, foi para a cama com o hacker australiano Julian Assange, que vazou documentos secretos da diplomacia americana (WikiLeaks). O atual primeiro-ministro conservador David Cameron está numa saia justa por suas ligações perigosas com Murdoch e a executiva do grupo News International Rebekah Brooks, mas o ex-primeiro-ministro trabalhista Tony Blair era ainda mais chegado no magnata imperial, mas pelo menos não contratou, como Cameron, o ex-editor do News of the World, como assessor de imprensa.

E quem diria: Murdoch, um senhor do universo, manipulador de politicos, agora é convocado para prestar depoimento no Parlamento sobre o escândalo. Tem menos capital moral, político e também econômico, pois as ações do grupo News International despencaram esta semana.

Murdoch toca um império global de comunicações e entretenimento. Inventou esta coisa diabólica nos EUA que é a Fox News, com sua panfletagem ideológica de direita, empacotada como informação objetiva. Com o mar de lama no outro lado do Atlântico, a TV por assinatura MSNBC faz a festa no seu noticiário, não tanto por indignação moral, mas para abusar de sua panfletagem ideológica de esquerda contra a Fox News.

Esta última, claro, que considera mini este maxiescândalo. Imagine se envolvesse um conglomerado liberal. Já que estamos no assunto, Murdoch foi um visionário ao preencher um espaço ideológico desejado por um segmento conservador da população, frustrado com a ausência de uma plataforma como a Fox News.

Back to England. Um pouco de contexto histórico e basta ficar no finado News of the World, comprado em 1969 por Murdoch e que circulou pela última vez no dia 10 passado. O pasquim esteve na praça por 168 anos (e provavelmente será ressuscitado com outro nome se o grupo News International sobreviver ao escândalo), desde os tempos vitorianos. Winston Churchill foi seu correspondente de guerra. Murdoch e companhia apenas depravaram ainda mais a fórmula. George Orwell escreveu um ensaio em 1946 (Decline of the English Murder) sobre o prazer perverso dos ingleses (e nosso, é claro) para ler as histórias de crimes e escândalos (o assassinato “perfeito”) no dominical News of the World.

Nós, leitores e espectadores, somos chegados na crueldade e devassidão, em particular dos ricos e famosos. Temos pendores para o voyeurismo. Damos poder, influência e lucros aos Murdochs. No New York Times, o colunista Roger Cohen foi até corajoso para elogiar Rupert Murdoch. Escreveu que o magnata nos dá muito mais, além da sordidez dos seus tablóides ou da demagogia da Fox News. Com seu saudosismo do velho jornalismo, onde ele começou, Murdoch ajudou a salvar jornais ou pelo menos adiar sua morte.

Sob seu controle, publicações como The Times (de Londres) e The Wall Street Journal oferecem qualidade. E, para mim, é uma emoção ver jornais que ainda investem no noticiário internacional, como estes dois citados, embora careçam de uma cobertura vigorosa neste escândalo na casa. Já outro jornal de prestígio do grupo, The Sunday Times, não sai bonito na foto do escândalo em andamento, pois também andou bisbilhotando a vida de Gordon Brown.

E mais: todo apoio à cruzada de Murdoch para que você, caro leitor, não seja folgado e pague pelo trabalho de quem vive da imprensa, como este escrivão. Uma possibilidade agora é uma retirada estratégica do grupo do jornalismo tradicional britânico, especialmente quando o comando estiver nas mãos do filho James Murdoch, que não tem o mesmo sentimentalismo do pai em relação a jornais. Em contrapartida, o grupo desistiu de completar a compra da operadora de TV por assinatura BSKyB devido a um novo clima político no país, de indignação com as peripécias do império Murdoch.

O pacote de jornalismo investigativo na imprensa britânica é difícil de amarrar. Tem do mais lamacento ao mais digno. É uma imprensa vibrante, agressiva, livre, irreverente, nobre e vulgar. É também canalha e criminosa. Precisa ser mais investigada. O escândalo em curso é escabroso, mas há o risco de um revés com mais vozes pedindo regulamentação e a imprensa se retraindo para uma covarde compostura. O risco é pequeno. Ainda vamos nos escandalizar muito com o pior da imprensa britânica e saudar o melhor.

O leitor do News of the World no ensaio de Orwell estava no sofá. Quanto a mim, não me acotovelo no assento do metrô sem ele, o New York Post, o escandaloso, saboroso e tantas vezes mentiroso tablóide local de Rupert Murdoch.

Estas são as notícias do mundo da imprensa.

27/04/2011

às 6:00 \ Grã-Bretanha, Monarquia

Deus salve as rainhas

Tim Graham/Getty e Divulgação

Advertência ou boa notícia: além desta referência adiante, o texto não irá mencionar os termos Obama e Oriente Médio. Já entenderam, né? Vou tocar naquele assunto do momento. O mundo está cheio de pseudoeventos. O casamento Will and Kate é apenas mais um, embora um pouco excessivo.

Nada, porém, de fazer diatribes. Este pessoal sabe organizar um show. Um pouco de distração não deve escandalizar. Por que não tratar o espetáculo com indiferença, sem hostilidade? Estou com o punhado de republicanos britânicos, mas não vou me insurgir pela causa antimonárquica. Estou aqui me curvando ao inevitável e tampouco quero ver as cabeças da realeza rolarem.

Monarquia é uma idiossincrasia da briosa democracia em Britannia. E os súditos podem se dar ao luxo desta indulgência, a favor ou contra, ou seja, mesmo aqueles furiosos com a extravagância. Afinal, são dias de menos civilidade e mais amargura no país-ilha. A economia não ajuda. Vamos nos preocupar mais em denunciar ditaduras por aí e não fazer galhofa do Reino Unido (nem, em contrapartida, tratar de forma muito solene). Também não me interessa expor as travessuras da corte. Tablóides e paparazzi dão conta do recado (e com galhardia). E já existe um excesso de picardia entre colunistas. Quem sou eu, por exemplo, para competir com Christopher Hitchens? Entrem no site Slate.

Melhor ainda. Vou poupar meus súditos de muita sociologia sobre o que representa a entrada de Kate Middleton (tataraneta de mineiro de carvão pelo lado materno) na Casa de Windsor. O casamento não diz muito sobre mobilidade social, cinderelas, a plebéia e o príncipe. A possível futura rainha conheceu Willliam na Universidade St. Andrews, que, como lembra o jornal Financial Times, é famosa pelo campo de golfe e pela reputação para moças e moços de famílias afluentes (aristocratas e burguesas) conseguirem um bom casório.

Chega de Kate e William. Vamos ser corteses e desejar que sejam felizes para sempre no casamento. Parece ser um bom par. Meu negócio é com a rainha Elizabeth. Ela tem mais tempo de trono do que eu de vida. É uma figura familiar, que transmite segurança e reconfortante continuidade (não estendo as sensações ao longevo Fidel Castro). A rainha, de fato, é parte da minha vida. Sou paulistano e desde moleque fui sócio do “clube inglês” (o São Paulo Atlhetic Club), lá numa travessa da Consolação. A rainha está emoldurada na minha memória. O retrato dela pendurado na sede do clube, além de outros royals.

É verdade que ultimamente ficou tudo misturado. E é para confundir, pois a monarquia em Britannia é um espetáculo institucionalizado. Adorei o filme A Rainha, que, no final das contas é um manifesto a favor da monarquia. Sua Majestade do cinema, Helen Mirren, está venerável naquele retrato da capacidade da rainha dar a volta por cima depois da morte da princesa Diana e salvar a monarquia da desmoralização total e do frenesi populista. Nem vou discutir aqui se a rainha errara ou não com sua reação inicial (frígida e distante) à morte de Diana, mas impressiona a monarca estóica naquela comoção. A rainha ficou e a carruagem da comoção passou. Elizabeth e Helen transmitem o senso de dever, acima das contingências. A rainha está aí para servir, ela é uma funcionária pública (embora com muitas mordomias, que ficam mais gritantes nestes tempos de cortes orçamentários).

A rainha Elizabeth tem se provado uma boa presidente (opa!) da firma (a expressão também é do Financial Times), antenada para recauchutar a marca, quando a legitimidade da Casa de Windsor é questionada. A aquisição de Kate Middleton aparentemente valoriza a marca. A rainha se sobrepõe à imagem da realeza ser apenas um flagrante de celebridades metidas em escândalos, ociosidades ou negociatas. Há os privilégios, mas também o sacrifício entediante em nome das instituições, aguentando o primeiro-ministro de plantão, solenidades inúteis e espetáculos de dança folclórica em quaquer viagem pelo exterior.

A Casa de Windsor têm estes componentes Disney-Hollywood-tablóide-paparazzi, mas também é o elo de coesão social, nacional e nos resquícios da Comunidade Britânica. O segredo para os sucessores do trono será exercer o papel com a mesma mecânica e arcaica dignidade da rainha Elizabeth, mesmo sendo um pouco mais moderninhos.


 

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