Blogs e Colunistas

Arquivo da categoria Globalização

17/04/2012

às 6:00 \ Emergentes, EUA, Geopolítica, Globalização

Curtas & Finas (Rabiscos Estratégicos)

Superherói, superpotência

Em rabiscos estratégicos na terça-feira passada, eu mencionei um ensaio do professor e blogueiro Walter Russell Mead, publicado no Wall Street Journal, descartando a narrativa, novamente em ascensão, de que os EUA estejam em declínio. No argumento de Mead, está ocorrendo um rearranjo na ordem mundial. O declínio, na verdade, é marca da Europa Ocidental e Japão, os aliados tradicionais dos americanos. Os EUA, ainda na liderança, assim ampliam o sistema trilateral, adicionando China, Índia, Brasil e Turquia.

Boa polêmica e no site da revista The Economist, a tese de Mead é questionada com exclamação: Come on! O texto argumenta que Mead não menciona a estagnação americana como um fator que contribuiu para o fim do sistema trilateral e que, na nova ordem, os americanos serão os principais players e não mais os dominantes. The Economist, com gentileza intelectual, puxa as orelhas de Mead, perguntando “por que é tão difícil para ele admitir que o poder relativo dos EUA está escorregando e que o seu lugar na cabeceira na mesa se tornou menos seguro?”

Granda parte da noção do declínio americano obviamente está plantada no terreno econômico, com a ascensão, well, dos países emergentes. Mas para dar sequência à polêmica, numa tréplica ao texto da Economist, quem tiver paciência, leia um ensaio de um economista original chamado Tyler Cowen, em The American Interest, uma publicação que alimenta os cérebros.

No argumento de Cowen, o dinamismo criativo do mundo empresarial americano é simplesmente estupendo, cada vez mais eficiente e produtivo, ao preço preocupante para a saúde social do país de menos mão-de-obra. O resultado é um salto das exportações, que vai levar a uma renascença econômica, descartando a noção de declínio. Um resumão da tese de Cowen está em uma recente coluna do sempre ponderado David Brooks, no New York Times.

***
Boas sacadas (especialmente com humor) são premiadas aqui. Colher de chá matinal para o Nei Brasil (dia 17, 10:05), pelo “conceito” de Tenente América. 

31/10/2011

às 6:00 \ Brasil, China, Demografia, Globalização, Índia

Sete bilhões, mortos de fome, mortos de gordura

O superemergente bebê chinês- FotoThinkStock

Para os filhos intelectuais de Thomas Malthus e Paul Ehrlich nada mais assustador e sintomático que esta segunda-feira de Halloween, dia das bruxas, tenha a marca do bebê, do nascimento de um ser humano, que significa sete bilhões de habitantes no planetinha. E lá estão os alertas apocalípticos sobre superpopulação, guerra por recursos, fome, doenças e múltiplas mazelas.

A revista National Geographic ressalta com consternação que “é difícill não ficar alarmado”, mas bem melhor seguir a linha de uma excelente revista brasileira chamada VEJA. Na reportagem especial da edição corrente com o título Sete Bilhões de Oportunidades, VEJA enfatiza que “o novo inquilino da Terra é emblemático de um mundo em que a espécie humana tem sido extremamente bem sucedida diante das adversidades”.

Eu não vou repisar o tom de VEJA (caro leitor desta coluna, vá lá, leia uma reportagem bem mais abrangente do que esta rápida pensata), mas, em um esforço de marcar presença nesta data redonda (de bebê gordo), vou acrescentar alguma coisa. O inquilino do planeta de número sete bilhões, já sabemos, terá quase que certamente uma vida mais afortunada do que os bilionários anteriores. Basta ficar na própria Índia, pois nenhum país gera mais medo de superpopulação do que este gigante emergente. Na Índia, a produção de comida tem crescido mais do que a população desde a Revolução Verde dos anos 60. Sim, as mazelas existem e vão persistir por um bom tempo, mas um bebê indiano nascido em 2011 tem quase o dobro de probalidade de sobreviver o primeiro ano de vida do que um nascido em 1960.

Será que o prato está meio cheio ou meio vazio? Com esta metáfora meio anoxérica, chegamos num ponto interessante. É o argumento que colide com os alertas automáticos do gênero Oh My God de gente catastrofista de guerras iminentes sobre recursos. Os conflitos e desafios são ainda mais complexos. Consumidores de países emergentes (e no saco de mantimentos podemos colocar Índia, China e Brasil), com cada vez mais renda disponível, vão adotar um cardápio mau presságio para a saúde e os custos resultantes. São multidões ávidas para consumir o refrigerante, o salgadinho, a porcaria açucarada e o hambúrguer gorduroso.

Como no caso do álcool, do cigarro e de outras drogas, há o conflito entre o preço da segurança alimentar e liberdade individual de escolha. Nas palavras de um recente editoral do jornal Financial Times , “os indivíduos têm o direito às indulgências, mas também responsabilidade sobre os custos”. Se somos bebês em educação alimentar e na consumação de vícios e prazeres, será que não faz sentido o estado-babá para policiar e coibir alguns de nossos hábitos? Os excessos policialescos irritam, mas cruzadas como a do prefeito Michael Bloomberg, em Nova York, são pertinentes. Muitos estados americanos, em tempos de arrocho fiscal e crescentes custos de saúde, se inclinam pesadamente para o chamado “imposto sobre o pecado”.

Obviamente, obesidade ainda é mais visível em países ricos (ou cada vez menos ricos e com bolsões de pobreza, como nos EUA, que ajudam a explicar a má nutrição ao ritmo fast food), mas a condição se alastra por outras partes do mundo, no fenômeno conhecido como “globesidade”‘: 1/4 da população do planeta está acima do peso. Thomas Malthus realmente errou esta de longe. E há partes do mundo em desenvolvimento em que obesidade convive com a fome.

Mas já que começamos falando da índia, vamos terminar falando da China, superpopulosa e supermergente. A ditadura comunista implantou o controle de natalidade com a política de “filho único”. Esta geração é a mais gorda da história chinesa. Nada mais irônico que num período de 50 anos, a China tenha feito a jornada da desastrada política agrícola do maoísmo que matava milhões de fome para uma abertura econômica que pode matar por obesidade. Como diz Thomas Barnett, o geoestrategista que escreve na World Politics Review, uma dávida da globalização foi mover a humanidade da era da subsistência para a era da abundância (não para todos, evidentemente). Velhos problemas convivem com os novos, como lidar com um sucesso sem precedentes. Prato meio vazio, prato meio cheio.
***
Colher de chá para o Jorji (dia 31, das bruxas, 12:29), com um comentário original e polêmico, como é a sua marca. Também uma colher para todos os leitores que elogiaram minha gravata no último Manhattan Connection. Sorry, por plagiar o trocadilho infame de um leitor aqui, mas a gravata estava gozada.

 

Serviços

 

Assinaturas



Editora Abril Copyright © Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados