Minha mãe, mais mãe, menos tigresa
Ana Blinder
Minha mãe costuma não passar dos limites. Ela fica em cima de mim, mas não sufoca. Não é mãe tigresa. É uma mãe. Vigia, impõe regras e cobra. É verdade que muitas vezes me irrita (e vice-versa). Sobre a mãe tigresa Amy Chua, eu entendo algumas coisas de sua atitude. Ela pensa que a disciplina radical é o melhor caminho para preparar os filhos para o futuro, especialmente se a gente levar em conta o declínio econômico nos EUA.
Eu concordo com alguns pontos do modo de ser e de agir da mãe tigresa. Em primeiro lugar, a competição da vida é difícil. É preciso preparar os filhos para o que vem depois do high school e da universidade. E reconheço que aqueles elogiados pelo trabalho duro enfrentam novas tarefas com mais determinação do que aqueles elogiados apenas pelo esforço. Mas eu não acredito que a atitude como um todo da mãe tigresa seja a mais efetiva e correta de uma mãe.
As duas filhas de Amy Chua podem até entender o valor de trabalho duro e competição, mas eu duvido que ser chamada de “lixo” pela mãe é uma fonte saudável de motivação. Eu acredito ser normal permitir que os filhos tenham vida social e possam assistir à televisão. Nada de forma excessiva. Nós, adolescentes, merecemos ter uma típica vida de adolescentes. E com o crescente número de suicídios de adolescentes, é desconcertante ver mães como Amy Chua deixando as filhas tão estressadas.
Meu pai me ensinou uma gíria em português. Vou usar aqui. É mais provável que criança criada por alguém como Amy Chua tenha um “chilique” do que uma outra criada por pais como os meus. Nossa, dá até medo. Eu tenho algumas coisas em comum com Sophia e Lulu, as filhas de Amy Chua. Aqui em casa, também somos duas filhas. A mãe tigresa Amy Chua é de uma família chinesa que viveu nas Filipinas. O marido dela é judeu. Existe o esteriótipo de asiáticos e judeus serem pais rígidos, em particular na educação dos filhos. Há a ideia convencional sobre o modo chinês de educar os filhos, um modo que abre o caminho para o sucesso.
Meu pai é brasileiro judeu e minha mãe é filipina. Eu e minha irmã mais velha fomos criadas para sermos perseverantes e trabalhadoras, mas sempre tivemos uma grande dose de liberdade. Sou profundamente grata por ter crescido com este equilíbrio. Sob carinho vigilante e assistência constante dos meus pais, sou excelente aluna, ligada nas notícias e estou acostumada a ver programas de qualidade na televisão (adoro Mad Men). Aliás, negociei e depois de muito tempo consegui ter uma televisão no meu quarto. Estudo muito, mas sempre vou às festas.
Tenho uma vida cheia de tarefas, mas também tempo livre. Acabei de receber uma notícia fantástica. Fui aceita na UPenn, uma universidade Ivy League, uma das melhores dos EUA. Creio que estou sendo preparada e me preparando para a vida, embora Alma Blinder não seja uma mamãe tigresa e Caio Blinder definitivamente não seja um papai tigre. Não existe uma associação automática entre pais obcecados, meio loucos, e sucesso.
Ana Blinder é estudante, tem 17 anos e, para quem passou os olhos de forma distraída no texto, filha do Caio.
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