O quixotesco espanhol Rajoy e seus inimigos reais
É verdade que o adiós dos socialistas do palácio foi menos caótico, embora também patético, do que as recentes partidas do grego George Papandreou e do italiano Silvio Berlusconi. É verdade também que, pouco carismático e com seu jeitão burocrático, Rajoy parece pertencer à escola de Lucas Papademos e Mario Monti, mas seu mandato é mais legítimo, pela urna, pois o Partido Popular conquistou maioria absoluta no Parlamento, no melhor desempenho na sua história (e o pior da economia desde o fim da ditadura). E eleições ocorridas na data de falecimento do ditador Francisco Franco (1975) ocorreram no quadro da sólida democracia espanhola.
Os inefáveis mercados, porém, continuam votando nesta crise na Europa e têm pressa. Na semana passada, ao elevar o custo dos empréstimos ao país para um nível quase insustentável, os mercados deixaram claro que não descolam a Espanha de crises mais urgentes ou mais dramáticas como as da Grécia e Itália (hoje na Europa está cada vez mais difícil até diferenciar núcleo da periferia).
E, por si, o desafio espanhol é dramático: o governo precisa “descolar” 150 bilhões de euros no ano que vem, os bancos privados uns 120 bilhões – três vezes mais do que neste ano-, enquanto empresas não financeiras necessitam arrecadar cerca de 30 bilhões de euros. O desemprego da ordem de 22.6% é o mais alto na União Europeia e supera 45% entre os jovens (18 a a 24 anos ). E, apesar do arrocho já iniciado tardiamente pelo desmoralizado governo socialista, o país não deverá atingir a meta de um déficit de 6% do PIB em 2011. Tudo indica que o país esteja à beira da recessão.
Embora sem muita demagogia e até discreto sobre promessas de redenção, Rajoy buscará a quadratura do círculo ao estabelecer o compromisso de mais austeridade, tentando convencer investidores e o país que também possui uma estratégia de crescimento. Será o esforço para gerar empregos com reformas trabalhistas, num país em que existe pouca flexibilidade para demitir e contratar, onde sindicatos estão encastelados nos privilégios dos seus velhos quadros enquanto os jovens, quando têm empregos, vivem de trabalhos temporários. O cenário é de mais protestos sociais, como os dos jovens “indignados” e de greves sindicais, mas existem evidências também da crença popular sobre a necessidade de sacrífícios.
Rajoy não tem carisma para conduzir o país por este caminho desagradável. E credibilidade? Mario Vargas Llosa, o peruano Nobel de Literatura e também cidadão espanhol, tem suas dúvidas sobre a credibilidade dos vitoriosos. O escritor anunciou publicamente que não votaria no Partido Popular, embora satisfeito com as suas propostas de “necessárias reformas radicais” para enfrentar o monstro econômico.
Vargas Llosa argumentou que estava preocupado que a ala mais conservadora do Partido Popular, com remanscentes do franquismo e íntima da Igreja católica, agora desfaça reformas sociais aprovadas no governo socialista. Na avaliação do escritor (corrreta no meu entender), as reformas fizeram a Espanha avançar, como na autorização do casamento gay, ampliação da lei de aborto e os direitos da mulher.
Eu espero, porém, que Varga Llosa esteja errado e que que estes temas sociais não sejam uma camisa-de-força e um desvio de curso das urgentes tarefas fiscais, trabalhistas e de reativação do crescimento na Espanha para os vitoriosos conservadores, além de manterem o firme compromisso pró-Europa. No discurso da vitória no domingo à noite, Rajoy disse que o “destino” espanhol é na Europa e dinheiro europeu será necessário para tirar o país da zona de perigo para permanecer na zona do euro.
Mariano Rajoy não tem a férrea determinação de ícones conservadores como Margaret Thatcher ou sequer a beligerância do seu ex-jefe e ex-primeiro-ministro José Maria Aznar, mas foi durão e efetivo como ministro do Interior para combater o terror basco. E no mês passado, o grupo separatista ETA anunciou o fim da luta armada depois de 40 anos, derrotado tanto por governos conservadores, como socialistas.
Mas, diante da situação de terror econômico, é mais provável que Rajoy dê cutucadas nos espanhóis, tentando empurrá-los pela trilha de ajustes necessários. Pouco para a ocasião? Talvez não. O conservadorismo moderado e conciliatório de Rajoy pode permitir até composições com os derrotados socialistas em algumas circunstâncias.
Rajoy não hesitou em fazer isto quando estava na oposição, por exemplo, na formação de um governo Partido Popular-socialista no País Basco em 2009 ou ao votar por uma rara emenda constitucional pela estabilidade orçamentária no Parlamento, por pressão do alto comando europeu, a destacar a primeira-ministra alemã Angela Merkel. Resta saber como irão se comportar os socialistas que desejaram o melhor para os novos ocupantes do poder, mas prometem uma oposição ativa.
Há urgência na Espanha e o que o país tem no momento é o aparentemente quixotesco Mariano Rajoy, que venceu eleições gerais apenas na terceira tentativa e vai enfrentar inimigos que não têm nada de imaginários. Mas, citando, um escritor castelhano chamado Miguel de Cervantes, que demorou para conseguir a consagração, diligência é a mãe da boa sorte.
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Colher de chá para Queiroz (dia 21, 9:24) e Pablo (dia 21, 10:39), por comentários abrangentes sobre o cenário espanhol.



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