Rabiscos eleitorais (Europa)
A crise econômica na zona do euro claro que gera muita turbulência política na região. Nos últimos anos, partidos plantonistas no poder, de esquerda ou de direita, foram derrotados em eleições; partidos extremistas saíram das trevas e ganharam um lugar ao sol, como na Grécia (onde as agremiações tradicionais estão desmoralizadas), movimentos separatistas avançam (Espanha), partidos iconoclastas também roubam a cena, como as variações do Partido Pirata (a favor de democracia direta, mais transparência e oposição a direitos autorais) e há os remendos para a crise como, convocar tecnocratas (Mario Monti, na Itália) para tocar o barco nas águas turbulentas.
Mas é na própria Itália, onde também prospera a receita iconoclasta do Movimento Cinco Estrelas, do comediante Beppe Grillo, que a velha ordem ainda consegue fincar suas âncoras nas águas turbulentas. Isto não acontece na centro-direita, que afundou no caos depois da era Berlusconi, mas na centro-esquerda as coisas estão mais ordeiras, pelo menos para os padrões dos tumultos políticos italianos.
O Partido Democrático (que congrega de ex-comunistas a católicos progressistas) acaba de escolher o ex-comunista Pier Luigi Bersani, em primárias com alto grau de participação, como o seu líder para as eleições parlamentares de março próximo. Político veterano, ele já integrou ministérios de governos de centro-esquerda nas últimas décadas. Bersani está bem posicionado para ser primeiro-ministro, graças ao favoritismo do Partido Democrático nas pesquisas.
Isto, porém, não significa a volta da solidez política e econômica na Itália. Será difícil para Bersani montar um estável coalizão de governo e para complicar ele poderá ser refém de centrais sindicais que resistem como podem à politica de austeridade e de reformas estruturais que Mario Monti tenta penosamente implantar.
Existe ainda uma possiblidade do próprio Monti entrar no páreo eleitoral, impulsionado por forças centristas, em nome de eleitores desencantados com os partidos que estão na praça. Outra opção é Monti manter um papel vital na vida pública (presidente ou superministro) para abrandar a turbulência. Buona Fortuna!
Desencanto é o sentimento mais popular na Europa, embora soluções extremistas ainda não tenham prosperado na escala em que se temia. Fazendo uma pesquisa para escrever este texto, eu vi um número perturbador. Nas primeiras eleições democráticas em Portugal em cinco décadas, ocorridas em 1975, com o fim do salazarismo, o comparecimento às urnas foi de 92%. No ano passado, foi de apenas 58%.
Na Alemanha, de Angela Merkel, o coração econômico da Europa e núcleo duro da zona do euro, as eleições gerais terão lugar em setembro próximo. No outro componente do núcleo duro, a França, a popularidade do presidente socialista François Hollande está em queda livre e existe um clima de guerra civil no principal partido conservador, a União por um Movimento Popular, depois das tumultuadas primárias vencidas por Jean-François Copé.
Já na democracia-cristã alemã, a primeira-ministra Angela Merkel (um resíduo de liderança no Velho Mundo) não teve problemas para ser reeleita líder partidária pela sétima vez na terça-feira, obtendo 97.9% dos votos, seu melhor desempenho até hoje. Merkel vai faturar um terceiro mandato em setembro, um feito raro na Europa de hoje, mas é improvável que ela consiga manter sua atual coalizão de centro-direita. Para evitar maiores turbulências na Europa e preocupada em não parecer irresponsável nesta crise profunda, a maior ambição da social-democracia nem é destronar a democracia-cristã de Merkel e sim ser a parceira júnior em uma grande coalizão de governo.
A Europa menor empurra com a barriga. Por ora, não dá para votar em nada muito diferente.
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Colher de chá para João-Lisboa (dia 5, 11:42), que retorna depois de um sumiço, com um alerta sobre a Alemanha.







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