Se eu fosse grego, se eu fosse egípcio (segunda parte)
São tempos tão desoladores na Europa que os velhos clichês eleitorais não se aplicam. Na Grécia, no domingo, não foi o duelo eleitoral entre o medo e a esperança. Foi entre o medo e a fúria. O alto comando europeu e os mercados saudaram com alívio tênue a vitória do medo (a que ponto chegamos), cujo mensageiro foi o desacreditado partido conservador Nova Democracia, de Antonis Samaras, o político que engole com alguns ajustes a pílula da austeridade para o país continuar a receber ajuda e permanecer na zona do euro. Ele agora tem a suada tarefa de formar um governo de coalizão.
A Grécia se afastou alguns passos do precipício (para o qual poderia e ainda pode arrastar o resto da Europa). Lá na borda, continua o arauto da fúria, o jovem carismático Alexis Tsipras, da coalizão da esquerda radical Syriza, que terminou em segundo lugar. Mas sua fúria contra o receituário de austeridade e, ao mesmo tempo, garantindo adesão ao projeto do euro, cativou os jovens.
A fúria, portanto, subsiste, embora um professor da Universidade de Atenas, Thanos Veremis, com sarcasmo tenha definido a coalizão Syriza (com radicais socialistas, comunistas, ecologistas, trotskistas, maoístas, castristas e chavistas) como um “cemitério de idéias mortas”. Com Samaras, existe uma sobrevida e a exígua e melancólica vitória do medo sobre a fúria de alguma forma será recompensada.
Os sinais da cúpula europeia são de que será afrouxada a corda no pescoço grego. O mensageiro desta proposta, o novo presidente francês François Hollande, tem agora um mandato mais forte com o triunfo socialista nas eleições parlamentares de domingo. Não adianta Angela Merkel ficar furiosa.
No Egito, não existe vitória de nada. São tempos de farsa e fadiga. Mal começou a contagem de votos na disputa presidencial entre duas figuras intragáveis (o herdeiro de Hosni Mubarak, Ahmed Shafik, e o irmão muçulmano Mohammed Morsi) e os militares deram sequência ao golpe, iniciado com a dissolução na quinta-feira do Parlamento, que era dominado pelos islamistas. E com os resultados ainda não oficializados, os dois candidatos clamam vitória, em uma medida (uma má medida) da encrenca egípcia.
Mas a eleição foi ofuscada pelos “votos” militares. Com a declaração constitucional de domingo à noite, os militares à frente do governo interino afivelaram ainda mais seus cintos no poder. Eles terão autoridade sobre o orçamento, poder de veto sobre a capacidade de qualquer futuro presidente para declarar querra e sobre qualquer artigo de uma futura Constituição, para cuja redação vão nomear os integrantes. O maior poder executivo será o comando militar e não o presidente.
Muito complicado aqui entrar em detalhes sobre os erros táticos dos setores que se engajaram na primavera árabe egípcia. Os militares jogaram habilmente e permitiram que florescessem as divisões entre setores liberais, esquerdistas e islâmicos. Deram espaço para os islâmicos se desgastarem no exercício do poder parlamentar, do qual se apossaram de forma precipitada e gananciosa. Foram cúmplices na deterioração de lei e ordem que levaram vários setores (inclusive cristãos) a se assustarem com a transição.
Os militares nunca partiram do poder depois da queda de Hosni Mubarak (foram eles que puxaram o tapete do faraó). A transição egípcia de certa forma se revela cerimonial. É mais fácil derrubar um ditador do que um sistema ditatorial. Claro que este golpe em etapas pode criar uma nova dinâmica de resistência popular, depois de semanas de fadiga eleitoral (o comparecimento no segundo turno da votação presidencial foi menor do que no primeiro) e confusão sobre os lances dos vários atores, mas a jogada dos militares egípcios também está sendo comparada ao golpe dos militares turcos em 1980. Eles deram as cartas por duas décadas.
Neste começo de semana sou mais grego do que egípcio. Não sei o que serei ao final da semana.
***
Colher de chá matinal para o debate grego entre Pedro I e Ricardo Platero.













De saída, Neymar adia escolha entre Barcelona e Real
Justiça solta três envolvidos na adulteração de leite no RS
Petrobras decide manter ativos da empresa na Argentina
Colisão de caminhão provocou queda de ponte nos EUA
Incêndio em depósito de combustível ainda interdita 28 casas






