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Arquivo da categoria Educação

05/10/2011

às 22:35 \ Civilização, Educação, EUA, Gênios

Curtas & Finas (iSteve Jobs)

Não tenho nada de original para dizer sobre Steve Jobs, este gênio empreendedor, metido a Messias, supermarqueteiro, da escola Thomas Edison e Henry Ford. Em todo caso, vou dizer alguma coisa. Antes de tudo, Steve Jobs é a prova da inesgotável capacidade inovadora da sociedade americana. Como ele, era na base de erro, acerto, erro, acerto. Este americano se reerguia. Sucumbiu porque o ser humano sucumbe. Em alguma garagem, um Steve Jobs Jr. está bolando alguma coisa, comprovando mais uma vez como é prematuro assinar o atestado de óbito dos EUA.

Sobre coisas mais pedestres: Steve Jobs criou elegantes “necessidades necessárias”. Sou um retardado tecnológico e por esta razão sou grato à empresa Apple por tornar produtos como o Mac acessíveis para gente como eu. Meu primeiro computador, ainda na faculdades aqui nos EUA, foi um Macintosh. Desta vez o press-release, como o da Apple, está bom. Obrigado, Steve Jobs, por realmente facilitar nossa vida, melhorar o mundo. O que sempre me fascinou na empresa é sua empatia com o consumidor. Muitos consumidores ficam fascinados com a filosofia cool da Apple. Bom para eles. O que realmente mexe comigo é a possibilidade de usar o produto sem a necessidade de um manual de instrução. Claro que a iFilha sempre ajuda. Descanse em paz, iJobs.
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Colher de chá, claro, nepotista, para a filha Ana (dia 6, 12:13). Não é marmelada. iLeia!

O terror do 11 de setembro e os atentados contra a verdade

Fugindo do terror e da negação da realidade- foto Doug Kanter/AFP

O que aconteceu em 11 de setembro de 2001? Resposta simples e histórica: terroristas suicidas da rede Al Qaeda lançaram ataques nos EUA. Mas, como diz Christopher Hitchens, “é muito provável que aqueles que aceitam esta narrativa convencional são, pelo menos globalmente, a minoria”. Estamos, de fato, na era da desinformação, dos atentados às verdades mais elementares e da persistência das mais bizarras teorias conspiratórias, alimentadas na Internet.

A descrença no convencional sobre o 11 de setembro nestes dez anos não foi lugar-comum apenas no mundo muçulmano. Logo após os ataques, ganharam vida em todas as partes as bizarrices sobre um complô do governo americano e dos judeus (sempre eles). Havia a história que quatro mil judeus tinham sido alertados sobre os atentados e não apareceram para trabalhar naquele dia no World Trade Center, inicialmente publicadas no jornal sírio Al Thawra. Existem as fantasias detalhadas sobre o míssil que o próprio Pentágono disparou contra o Pentágono. Na França, o livro de Thierry Meyssan sobre a “mentira assustadora” do 11 de setembro foi best-seller, disparando esta fantasia sobre o míssil ou um pequeno avião investindo contra o Pentágono.

Arautos profissionais da paranóia na imprensa alternativa americana, de direita e de esquerda, se uniram para denunciar as tramas. Personagens folclóricos como o apresentador de rádio Alex Jones e o repórter conspiratório Michael Ruppert tinham certeza sobre os planos diabólicos do governo Bush para manufaturar os atentados. Tudo elementar: era preciso um pretexto para invadir o Afeganistão e o Oriente Médio, beneficiar a indústria petrolífera e de armamentos, forjar um estado fascista que suprimisse as liberdades civis e consolidar uma nova ordem mundial. Sacou? World Trade Center? Centro do Comércio Mundial.

Logo depois dos atentados, a maluquice popular nos EUA até que estava sob controle. Numa pesquisa no começo de 2002, apenas 8% acreditavam que o governo Bush, então muito popular, mentia sobre o que acontecera. Os números cresceram depois da guerra do Iraque diante do fato real de que o governo Bush, de fato, enganara sobre as armas de destruição em massa de Saddam Hussein. O número de céticos sobre a narrativa convencional dos atentados do 11 de setembro saltou para 16% em 2004. Escaramuças burocráticas em Washington e esforços do governo (como acontecem em qualquer governo) para acobertar ou minimizar suas falhas na prevenção dos atentados também alimentaram as teorias conspiratórias.

Políticos da ala mais esquerdista do Partido Democrata deram munição para os conspiradores e Michael Moore com o seu documentário Fahrenheit 11 de Setembro foi uma festa para os paranóicos ao martelar nas conexões da família Bush com a Arábia Saudita e o clã Bin Laden. Por volta de 2007, pesquisas revelararam que até 1/3 dos americanos duvidavam da narrativa convencional sobre o 11 de setembro.

O tempo passou, Bush esvaneceu e Barack Obama assumiu a presidência. O ódio a um presidente foi transferido a outro. Um parte dos conspiradores sobre a verdade do 11 de setembro (os “truthers”) inclusive migrou para a nova conspiração sobre as falsidades na vida daquele “queniano” que mentira sobre ter nascido no Havaí. Hoje “só” uns 10% dos americanos não acreditam que a rede Al Qaeda tenha sido responsável pelos atentados. Um alerta deve ser feito: o campo continua fértil para teorias conspiratórias, de qualquer gênero, em tempos de incerteza econômica nos EUA, falta de confiança nas lideranças políticas e um descrédito sem precedentes das instituições, a destacar o governo federal.

E já que não dá para ter um final feliz para esta história, vamos para o mundo islâmico. Uma pesquisa de julho do Centro Pew confirma que, uma década depois, existe ceticismo no mundo islâmico sobre os eventos de 11 de setembro de 2001. A maioria dos muçulmanos acha inconcebível que árabes tenham sido responsáveis pelos ataques (numa descrença que inclui vergonha para assumir a verdade, crença no pacifismo da religião, desconfiança na capacidade técnica de árabes realizarem os atentados, preconceitos, antiamericanismo e antissemitismo). Dos 19 terroristas suicidas, 15 eram sauditas, dois dos Emirados Árabes Unidos, um libanês e um egípcio. A pesquisa englobou sete países e os territórios palestinos. Em nenhum deles, sequer 30% aceitam que árabes realizaram os ataques. Pior, muçulmanos na Jordânia, Egito e Turquia estão mais céticos hoje do que há cinco anos.

Um dos dados mais preocupantes, aliás, é que esta pesquisa foi feita com a primavera árabe em curso. E no mesmo revolucionário Egito que derrubou Hosni Mubarak existe o nivel mais alto de negação da realidade, com 75% dos egípcios registrando sua descrença que árabes tenham sido responsáveis pela obra de destruição.

Eric Trager, um especialista em Oriente Médio da Universidade da Pensilvânia, passou alguns meses no Egito, fazendo pesquisas e seu relato sobre a percepção do 11 de setembro é desolador. Islamistas encampam este revisionismo sobre o terror, pois reescrever a história é fundamental para desviar a acusação de que sua ideologia motiva o assassinato em massa. O ex-guia supremo da Irmandade Muçulmana, Mehdi Akef, disse para o incrédulo Trager “que não existe o terror da Al Qaeda, é uma expressão americana”. Na narrativa de Akef, os atentados do 11 de setembro representaram um ataque americano contra o Oriente Médio e existe uma política islamista de autodefesa.

Líderes mais jovens da Irmandade Muçulmana gostam da tese que os atentados do 11 de setembro, por sua sofisticação, só podem ter sido obra da CIA ou do Mossad. Mesmo líderes seculares, socialistas ou liberais no “novo Egito” também negam a responsabilidade da Al Qaeda. Mustafa Shawqui, da Coalizão da Juventude Revolucionária, disse a Trager que se tratou de maquinação para dominação global por interesses imperiais. Até o vice-primeiro-ministro do governo provisório, Ali ElSalmy, pisou na bola. Homem educado nos EUA, integrante do governo Sadat nos anos 70 e ex-vice-diretor da Universidade do Cairo, ele disse “não ter certeza sobre quem foi responsável pelos atentados”.

Dez anos depois dos atentados do 11 de setembro, é preciso impedir novos ataques e ainda por cima estes atentados à verdade em países com ou sem primavera árabe.

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A colher-de-chá madrugou. Vai para Ivanildo Terceiro (dia 7, 8:27), por trazer o material didático e visual da construção e desconstrução das teorias conspiratórias no 11 de setembro.

11/07/2011

às 6:00 \ Educação, EUA, Obama

Na era do jovial Obama, o risco de uma geração perdida

Dificuldades pela frente - Foto Thinkstock

Más notícias brindam as legiões de jovens americanos que acabaram de se formar na faculdade (o ano letivo terminou semanas atrás) e vão à luta. Para a turma de 2011, são anúncios de que o desemprego segue teimosamente alto. Sexta-feira passada, foi a surpresa de que em junho a taxa de desemprego subiu para 9.2% e foram criados apenas 18 mil novos postos de trabalho. Ainda é melhor negócio ter o canudo. A taxa de desemprego para aqueles com formação universitária é de 4.4%, mas é um negócio caro. A turma de 2011 é recordista na dívida educacional (22 mil dólares).

Ano passado, as perspectivas eram ainda mais salgadas de entrada no mercado de trabalho para os recém-formados, mas as novas estatísticas mostram um caminho dificil para um país mimado, em que as novas gerações costumam ter uma vida melhor do que as anteriores. A Grande Recessão e as sequelas geraram uma altíssima taxa de desemprego para os jovens (quase 20%).

Há problemas estruturais na economia americana e no mercado de trabalho (crise de país maduro, ganhos de produtividade e falta de sintonia entre as necessidades profissionais das empresas e a aptidão vocacional dos jovens) que obviamente vão além dos desafios cíclicos. Os pacotes de estímulo do governo Obama no máximo contiveram a hemorragia no mercado de trabalho. Os republicanos vão mais longe e dizem que os problemas existem devido aos estímulos e não a despeito deles. São críticas rebatidas com o argumento de que o quadro apenas irá se agravar se a necessidade de um arrocho fiscal a longo prazo for amarrada à ausência de uma injeção pública imediata para vitaminar o mercado de trabalho.

Alguns gaiatos vão me dizer que existem problemas mais sérios por aí, nos buracos do mundo, como a República do Sudão do Sul que acaba de nascer ou os desafios do Brasil emergente. Mas estou aqui para falar literalmente do que estou vendo, na casa dos meus vizinhos Bob e Jude, num subúrbio novaiorquino, com dificuldades para encaminhar seus três filhos jovens e com formação universitária. Está difícil para a turma de 2011 entrar na luta, mas também para a turma de 1967 (os primeiros entre os baby boomers que nasceram depois da Segunda Guerra) cair fora.

Para quem não perdeu o emprego, os planos de aposentadoria estão adiados, pois os benefícios serão mais minguados. Ademais, encaminhar os filhos é carga pesada (e muitas vezes ainda existe a assistência para os pais). Existem aspectos positivos nestas mudancas sociais, como uma vida produtiva mais longa para os baby boomers. Mas não se trata de opção por um estilo de vida e sim de necessidade. Existe, portanto, um arco de frustração, que cobre gerações. Há ainda um estado de negação. Duro aceitar um longo período de sacríficios e de austeridade. Para muitos, pode ser para o resto da vida.

Vamos nos concentrar nos jovens e o senso de alienação. Nos últimos quatro anos, aumentou o número de jovens com menos de 24 anos fora do mercado de trabalho e também da escola. Vozes mais sombrias, como o economista Lawrence Katz, da Universidade de Harvard, sinalizam o cenário de uma “geração perdida”. Ainda não temos nos EUA protestos ou acampamentos ao estilo dos jovens “indignados”, da Espanha e de outros países europeus. Mas é pertinente falar de uma decepção generalizada com o sistema e com a mensagem de esperança do jovial Barack Obama, aquela de 2008.

Jovens votantes, em particular universitários, votaram em grande número em Obama em 2008. Na população entre 18 e 29 anos, Obama teve 66% dos votos, em contraste aos 32% dados ao republicano John McCain, perfazendo 18% do seu total. Os tempos mudaram e uma recente pesquisa Gallup mostra que a taxa de aprovação de Obama entre jovens eleitores está um pouco acima de 50%, uma queda superior a 20 pontos em relação à posse. O rumo da economia é uma explicação-chave.

Será que os jovens eleitoes irão se animar com um candidato republicano? Antes de tudo, Obama ainda pode cativar este seu eleitorado estratégico, pois é bom de campanha. Mas será difícil repetir a mesma paixão de 2008. Tampouco pode se esperar muito entusiamo dos jovens em relação a um candidato republicano, em particular se o partido insistir em mensagens mais moralistas, que destoam de uma vivência mais tolerante. Basta lembrar que o apoio ao casamento gay está sacramentado na juventude. Uma opção eleitoral de muitos jovens em 2012 talvez seja ficar em casa (e para muitos é cada vez mais a dos pais)

Na economia e na política, pode ser uma idade da alienação para a jovem geração americana. Cenário sombrio. Espero estar errado, inclusive pelo bem de minhas duas filhas.

26/01/2011

às 6:00 \ China, Educação, EUA

A mãe tigresa, o modelo chinês e a ansiedade americana

A verdade sobre elas

Por estes dias nos EUA, numa conversa na mesa de jantar de uma ansiosa família de classe média (aqui quase todo mundo se diz de classe média), Amy Chua é um nome familiar. Perdão, seu nome de guerra é familiar. Ela é a mãe tigresa. O debate sobre a necessidade de criar os filhos na linha dura ou na base de um autoritário modo asiático ronda na televisão, na Internet e está na capa de revistas, como esta da Time, na foto acima. O livro de Amy Chua, Battle Hymn of the Tiger Mother (O Hino de Guerra da Mãe Tigre), é best-seller, mas o que desfechou o debate foi um trecho publicado no Wall Street Journal com o título sensacionalista Porque as Mães Chinesas São Superioras.

A palavra “chinesa” ajuda a explicar tanto frenesi. Ninguém daria tanta importância se a tese fosse sobre a superioridade, digamos, da mãe dinamarquesa ou mesmo da japonesa. Na expressão da revista The New Yorker, existe um subtexto geopolítico no debate. A ansiedade não está apenas na família, ou seja, como educar os filhos para uma vida competitiva, mas também na rivalidade dos EUA com o tigre chinês. A mensagem de Amy Chua parece ser também contra o anacronismo ocidental, embora ela seja americana. É a hora e a vez deste eficiente modelo autoritário chinês (Estado sabe-tudo, mamãe-sabe tudo), com regras draconianas para se preparar, tanto na competição planetária, como na vida pessoal.

Para quem não sabe, estas são as linhas gerais: Amy Chua, 48 anos, filha de imigrantes chineses criados nas Filipinas, é altamente bem sucedida. Estudou em Harvard, é professora de Direito em Yale e casada com outro professor de Yale (que não é chinês e nem do Extremo Oriente, mas judeu americano). Amy é uma extremada, que agora recebe até ameaças de morte.

No livro, há relatos de como ela inferniza a vida das duas filhas para serem nota 10 (como a mãe). Foram criadas sob regras que alguns mais histéricos dizem equivaler a abuso infantil. As garotas devem ser  primeiro lugar em tudo (não apenas na escola), agir com perfeccionismo até para escrever um cartão de feliz aniversário e ter uma vida de quartel: nada de televisão, vida social ou dormir na casa das amigas, além de tocar piano e violino com padrão Carnegie Hall (a filha Sophia chegou lá). Quando as meninas não correspondem às altas expectativas, castigos e chacotas da mãe tigresa.

As regras de Amy Chua não são apenas extremadas, mas caricaturais. Ela mesmo nas entrevistas desconversa, dizendo que seu livro tem um tom irônico e autodepreciativo. Mas não dá esta impressão. Amy Chua soa insana. Pois bem, existem os excessos, mas creio que o livro chegou em boa hora. A sociedade americana precisa de um puxão de orelhas.

Não estamos falando apenas destas questões como declínio econômico, o avanço de um modelo de capitalismo autoritário chinês e a crise educacional, mas de uma complacência generalizada. Não basta rebater os argumentos e o método de Amy Chua com a ladainha de que nos EUA tudo vai dar certo porque este país é movido à inovação e criatividade.  Sempre aparece um Mark Zuckerberg (Facebook), que nem terminou Harvard, como o Bill Gates.

Alguns rugidos da mãe tigresa são benéficos. É precisa forçar mais os filhos, herdeiros menos privilegiados de uma sociedade que vai exigir cada vez mais sacrifícios. A vida, de fato, está mais dura, inclusive para setores mais privilegiados (como os do universo de Amy Chua). Portanto, é preciso se preparar com mais rigor, dar menos moleza para os filhos e explorar mais a fundo o potencial e a capacidade da criançada para tolerar dissabores.

Amy Chua expressa desprezo pelos “pais ocidentais” molengas. Isto que é crise de identidade. O que ela pensa ser? Será que gostaria de ser professora na Universidade de Pequim e não Yale? Amy Chua irrita com esta atitude maximalista e maniqueísta, além do seu narcisismo de querer filhas como ela. Precisamos também escutar os filhos e impedir que sejam robotizados. Mas alguns pontos para a tigresa: chega de investir tanto na autoestima, negligenciando algumas verdades sobre a vida. Sem fazer muito sociologia, mas também correndo o risco de ser banal no exemplo, realmente incomoda esta mania de dar troféu para qualquer criança. Só porque ela jogou? É preciso exigir mais e guardar elogios para ocasiões especiais. Chega do infame *good job”! Um filho que arruma a cama, faz um bom trabalho? Não deveria passar de trabalho obrigatório.

Claro que é difícil aguentar o rojão. Haja coração, Nem a Amy Chua é robô chinês. Na sua narrativa, o clímax do livro acontece num restaurante em Moscou quando Lulu, a filha de 13 anos, tem um chilique: “Eu odeio violino. Eu odeio minha vida. Eu te odeio. Eu odeio esta famila”. A menina joga o copo de água no chão. A mãe tigresa amolece e dá permissão para a filha largar o violino e jogar tênis. Sophia, a mais velha, tem namorado. Não dá para ser mãe tigresa permanente. O mesmo vale para a China: autoritarismo permanente não vai funcionar.

Quanto a mim, estou longe de ser um pai tigre. Estou mais para pai coruja. E vou abusar do meu poder neste espaço e, nepotista, dar uma colher-de-chá para minha filha Ana publicar no texto abaixo suas impressões sobre esta celeuma já global.

26/01/2011

às 5:59 \ Educação, Filha

Minha mãe, mais mãe, menos tigresa

Ana Blinder

Ana Blinder

Minha mãe costuma não passar dos limites. Ela fica em cima de mim, mas não sufoca. Não é mãe tigresa. É uma mãe. Vigia, impõe regras e cobra. É verdade que muitas vezes me irrita (e vice-versa). Sobre a mãe tigresa Amy Chua, eu entendo algumas coisas de sua atitude. Ela pensa que a disciplina radical é o melhor caminho para preparar os filhos para o futuro, especialmente se a gente levar em conta o declínio econômico nos EUA.

Eu concordo com alguns pontos do modo de ser e de agir da mãe tigresa. Em primeiro lugar, a competição da vida é difícil. É preciso preparar os filhos para o que vem depois do high school e da universidade. E reconheço que aqueles elogiados pelo trabalho duro enfrentam novas tarefas com mais determinação do que aqueles elogiados apenas pelo esforço. Mas eu não acredito que a atitude como um todo da mãe tigresa seja a mais efetiva e correta de uma mãe.
As duas filhas de Amy Chua podem até entender o valor de trabalho duro e competição, mas eu duvido que ser chamada de “lixo” pela mãe é uma fonte saudável de motivação. Eu acredito ser normal permitir que os filhos tenham vida social e possam assistir à televisão. Nada de forma excessiva. Nós, adolescentes, merecemos ter uma típica vida de adolescentes. E com o crescente número de suicídios de adolescentes, é desconcertante ver mães como Amy Chua deixando as filhas tão estressadas.
Meu pai me ensinou uma gíria em português. Vou usar aqui. É mais provável que criança criada por alguém como Amy Chua tenha um “chilique” do que uma outra criada por pais como os meus. Nossa, dá até medo. Eu tenho algumas coisas em comum com Sophia e Lulu, as filhas de Amy Chua. Aqui em casa, também somos duas filhas. A mãe tigresa Amy Chua é de uma família chinesa que viveu nas Filipinas. O marido dela é judeu. Existe o esteriótipo de asiáticos e judeus serem pais rígidos, em particular na educação dos filhos. Há a ideia convencional sobre o modo chinês de educar os filhos, um modo que abre o caminho para o sucesso.
Meu pai é brasileiro judeu e minha mãe é filipina. Eu e minha irmã mais velha fomos criadas para sermos perseverantes e trabalhadoras, mas sempre tivemos uma grande dose de liberdade. Sou profundamente grata por ter crescido com este equilíbrio. Sob carinho vigilante e assistência constante dos meus pais, sou excelente aluna, ligada nas notícias e estou acostumada a ver programas de qualidade na televisão (adoro Mad Men). Aliás, negociei e depois de muito tempo consegui ter uma televisão no meu quarto. Estudo muito, mas sempre vou às festas.
Tenho uma vida cheia de tarefas, mas também tempo livre.  Acabei de receber uma notícia fantástica. Fui aceita na UPenn, uma universidade Ivy League, uma das melhores dos EUA. Creio que estou sendo preparada e me preparando para a vida, embora Alma Blinder não seja uma mamãe tigresa e Caio Blinder definitivamente não seja um papai tigre. Não existe uma associação automática entre pais obcecados, meio loucos, e sucesso.
Ana Blinder é estudante, tem 17 anos e, para quem passou os olhos de forma distraída no texto, filha do Caio.
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