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Arquivo da categoria Direitos Humanos

02/05/2012

às 6:00 \ China, Direitos Humanos, Eleições 2012, EUA

Dissidente cego desafia visão estratégica dos EUA na China

Guangcheng fez um apelo por justiça ao premiê Jiabao

A história do dissidente chinês Chen Guangcheng é de doer o coração, mas agora ele é uma tremenda dor de cabeça para o governo Obama, pois este negócio de direitos humanos atrapalha os negócios dos EUA com a China. Guangcheng é a verdadeira audácia da esperança e, na perspectiva das autoridades dos dois paises, ele escolheu a pior hora para um gesto heróico.

Dissidente, cego e advogado autodidata, de 40 anos, em campanha infatigável contra abortos forçados e esterilizações, ele está na linha de frente na resistência à política de filho único no país de partido único. Guangcheng também é um campeão na defesa dos deficientes e batalha em geral contra abusos, arbítrio e corrupção, especialmente na sua província de Shandong, no leste do país. Na humilhação suprema ao regime vigilante, o dissidente cego conseguiu fugir na semana passada da prisão domiciliar, perto da cidade de Linyi, e se refugiou na embaixada americana em Pequim.

 

A peripécia do dissidente cego aos olhos do mundo (ele divulgou um vídeo no YouTube, depois da grande escapada, com um apelo direto ao primeiro-ministro Wen Jiabao pelo respeito às leis e fim dos desmandos) aconteceu dias antes da chegada a Pequim (em visita agendada) de uma delegação da pesada dos EUA (chefiada pela secretária de Estado, Hillary Clinton, e do Tesouro, Tim Geithner, para mais uma rodada de diálogo estratégico e econômico.

Na quinta-feira, horas antes do inicio formal dos encontros em uma espécie de arranjo diplomático, Guangcheng deixou a embaixada, na companhia do embaixador americano Gary Locke e foi para um hospital receber tratamento médico. De sua parte, as autoridades chineses protestaram e exigiram um pedido de desculpas de Washington como parte do teatro diplomático. As primeiras informações são de que os americanos receberam garantias chinesas de que Guangcheng poderá ter uma vida livre no país, não partindo para o exílio. Nestes acertos, muita coisa pode resultar em erros, especialmente se o dissidente fizer bom uso de sua suposta liberdade. Vamos ver. (atualização às 11:30, horário NY: e em uma confirmação dos lances convolutos nesta saga, as mais recentes informações dão conta de que, na verdade, Guangcheng estaria relutante em ficar no país e teria saído da embaixada americana devido `as ameaças que sua família estava recebendo).

O fato é que Guangcheng fugiu da prisão domiciliar, criou um fato consumado e Obama faz o que pode para se esconder. Em campanha pela reeleição, Obama não pode parecer banana. Para os republicanos de Mitt Romney, o dilema sobre o que fazer com o dissidente é um prato cheio, com as advertências de que o presidente não pode se curvar aos chineses (curioso ver como Romney se comportaria em uma saia-justa como esta, caso ganhe o poder).

Washington precisa de Pequim numa relação complicada de cooperação e competição, seja em questões da economia, seja em geopolítica, em crises como as do Irã, Síria e Coréia do Norte. Já na China, há uma tortuosa transição de poder no final do ano, bem menos suave do que se projetava, como ficou comprovado na defenestração da estrela em ascensão Bo Xilai. E agora a linha-dura pode ensaiar resistência com as concessões aos americanos no caso do dissidente.

Guangcheng também é linha-dura. Nunca quis partir para o exílio, que em princípio teria sido uma solução cômoda nesta crise. Fora do país, seu impacto se esvaziaria. Por esta razão, Guangcheng quer ficar em liberdade na China, com garantias de que não ira se repetir o prontuário de abusos contra ele e sua família. Mesmo com restrições, seu papel pode ser significativo, como tem sido o caso do artista e ativista Wei Wei.

Em um mundo ideal, os setores mais reformistas na China poderiam usar a encrenca para ganhar pontos, mostrando ao mundo que a China emergente é, de fato, um país mais maduro, capaz de conviver com dissidentes e enquadrar uma cultura de abusos. Num mundo ideal, Obama mostraria mais coragem e, ao invés de esconder direitos humanos debaixo do tapete, diria para os chineses que realismo e pragmatismo devem nortear as relações entre as duas superpotências do século 21, mas que princípios não podem ser tratados como mercadoria barata, made in China.

O drama é que está cada vez mais difícil conciliar pragmatismo e princípios. A China é um país cada vez mais importante e espera ser tratada com respeito, enquanto desrespeita cidadãos como Chen Guangcheng. Não gosta de receber lições de moral e detesta estas interferências em assuntos internos, especialmente quando se sente mais confiante e menos acuada. Ironicamente, foi a própria secretária de Estado, Hillary Clinton, que ao assumir o cargo, argumentou que “direitos humanos não deveriam interferir” em outros assuntos vitais nas relações EUA-China. Esta é a tradicional posição realista, advogada pelo bruxo diplomático Henry Kissinger desde que os dois países normalizaram as relações há 40 anos.

A palavra-de-ordem em Washington (em democratês ou republicanês) é tratar, na medida do possível, de forma discreta problemas ao estilo Guangcheng. Claro que cada partido age com oportunismo e cria constrangimentos quando o outro está na Casa Branca. Ao mesmo tempo, se a nova estratégia americana, como apregoa Obama, é se consolidar como potência dominante na área Ásia-Pacífico, inclusive arregimentando forças na região para neutralizar o avanço chinês, é preciso oferecer um modelo atraente de liberdades políticas e econômicas, e não apenas pragmatismo beirando o cinismo.

Há riscos políticos, econômicos e estratégicos com este desafio ao modelo chinês de vamos fazer negócios e se dane gente como Guangcheng? Claro que há, mas é igualmente perigoso tentar manter um modus-vivendi com os chineses quando a sociedade local é cada vez mais dinâmica e inquieta. Basta ver a incrível atividade de microblogs repercutindo o caso, apesar da censura oficial. Outra situações como a de Cheng Guangcheng aparecerão. Perdão pelo trocadilho, mas não adianta se fingir de cego.

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Colher de chá para Chen Guangcheng e outros visionários dissidentes chineses. 

27/03/2012

às 6:00 \ Cristãos, Cuba, Direitos Humanos, Papa

Curtas & Finas (Papa & Castro)

O papa e Raúl em Santiago de Cuba- Foto Desdmond Boylan/Reuters

Claro que o papa Bento 16 detesta o comunismo, mas lá está o sumo pontíficie na ilha governada por aqueles irmãos Castro, educados em colégio de jesuítas. Tal visita é um dilema e muita gente, que também detesta o comunismo tropical da dupla Castro, não abençoa esta visita. É verdade que João Paulo Segundo, o bravo papa polonês que encarou de frente a abominação comunista na Europa Oriental e visitou sua terra natal em 1979 já como sumo pontíficie, também esteve na ilha  caribenha (1998).

Fidel,  que então governava, não se curvou às pressões por mais liberdade. Raúl agora no comando, mais pragmático e mais pressionado pela realidade, tem até se apoiado discretamente na Igreja para aliviar a carga sobre o estado combalido. As Ongs ligadas à Igreja católica são cada vez mais importantes em um país que precisa enxugar a anacrônica máquina assistencialista estatal. Por esta razão, o dilema cresce. A Igreja tem mais influência hoje do que nos anos 90, inclusive ao incentivar reformas econômicas (também é contrária ao embargo econômico americano).

O interlocutor local do ditador é o cardeal Jaime Ortega, que assume um papel cauteloso e pragmático nas relações com o estado comunista. Dentro da própria Igreja, além é claro no movimento dissidente mais amplo, existem vozes mais assumidas e críticas do papel institucional. Estas vozes pregam uma oposição mais aberta ao regime. Algumas destas vozes, inclusive entre líderes anticastristas na Flórida, acusam a hierarquia católica com um termo que é uma mácula: colaboracionismo.

De um lado, o pragmatismo do cardeal Ortega traz dividendos. A Igreja se converte em um ator importante, mas, de outro, ela oferece ganhos políticos ao regime. O regime de Havana acaba recebendo um sopro de legitimidade e assim pode resistir a mudanças mais abrangentes, embora empreendendo algumas reformas, especialmente na economia. Em contrapartida, o regime do partido único acaba tendo um parceiro e precisa ouvir alguns sermões sobre suas transgressões. Há um outro dilema. Uma resistência linha-dura poderá levar o regime a recuar de medidas de liberalização (inclusive religiosas) e radicalizar a oposição, quem sabe até no caminho da violência.

O papa encarna os dilemas. Antes de chegar à ilha, ele disse que a estrutura marxista em Cuba “não corresponde à realidade” e pediu a adoção de “um novo modelo”. Mas assim que desembarcou, Bento 16 reconheceu os esforços deste anacrônico regime para “se renovar e ampliar seus horizontes”.  A peregrinação papal em Cuba é tortuosa. Ossos do ofício do pastor da reconciliação.

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Colher de chá para o Benedito (dia 27, 11:32) pelo comentário provocativo (mais longo do que minha própria coluna), que trata sem piedade o regime cubano e o Vaticano.

China quer um mundo cheio de harmonia, mas e a Síria?

Os presidentes Bashar Assad e Hu Jintao - Foto AFP

A China quer negócios, não quer confusão. Qualquer encrenca geopolítica em algum buraco do planeta e lá vem o porta-voz do ministério das Relações Exteriores de Pequim com a declaração anódina de que os chineses esperam que tudo seja resolvido de forma harmoniosa, sem interferência externa nos assuntos internos de qualquer país, qualquer ditadura, qualquer regime genocida.

A exemplo da Rússia, a China tem uma uma visão tradicional de soberania nacional, enraizada em princípios diplomáticos do século 19, mas esta postura pode ser um tiro pela culatra, especialmente quando a não-interferência colide com seus interesses econômicos. Estamos falando da Síria, mas nem vamos falar da incoerência que é apregoar não-interferência, enquanto russos e chineses seguram a barra de um governo terrível.
A China secundou a Rússia ao vetar no fim-de-semana a resolução no Conselho de Segurança das Nações Unidas, pedindo uma transição política na Síria, com a saída do poder de Bashar Assad. Pequim também secundou Moscou e anunciou que vai despachar emissários para conversar sobre a tal harmonia com o truculento regime de Assad. Em parte, com o veto na ONU, Pequim não quer endossar o repúdio à brutal repressão de um governo contra o seu próprio povo, pois o feitiço pode se virar contra o feiticeiro em função do tratamento que a ditadura comunista dispensa à sua população e minorias étnicas e religiosas.
Esta crescente preocupação que instabilidade ao estilo da primavera árabe bata nas portas de Pequim fez com as autoridades comunistas batessem prontamente ao menor sinal de protesto político no ano passado. E explica também a disposição chinesa de segurar a barra do regime de Bashar Assad. E aqui precisamos levar em conta que a Síria é um produtor de petróleo de terceira categoria, de pouca importância econômica para a voraz China. Situação bem diferente de um arco de países que vão da costa atlântica da Africa à Ásia Central, com os quais os negócios chineses estão a plena vapor.
 O problema é que muitos países neste arco estão em polvorosa política, alguns ritmo de insurreição, a destacar no mundo árabe. Com sábio oportunismo ou por interesses geopolíticos ou sectários, muitas ditaduras do mundo árabe se afastam da Síria, entre elas monarquias do golfo Pérsico. E aqui a China tem parceiros petrolíferos essenciais. Saia justa para uma China, que não gosta de encrenca com parceiros comerciais.
Na crise líbia, foi relativamente fácil para os chineses se livrarem do dilema. Pequim se absteve na votação no Conselho de Segurança que efetivamente autorizou a intervenção militar internacional. Na verdade, a diplomacia chinesa foi adiante e apoiou sanções contra o regime Kadafi. Mesmo na crise nuclear iraniana, os chineses endossam as resoluções mais diluídas contra o regime de Teerã. Mais do que isto, em situações extremas, a China viola sua política de não-interferência, como no deslocamento de navios para a costa da Somália para combate pirataria.
São passos, porém, tímidos e incompatíveis com as ambições de uma superpotência emergente. As movimentações no seu quintal (especialmente marítimo) já são mais assanhadas, o que assusta a vizinhança. A China abomina o que considera o imperialismo moral do Ocidente e com razão. Sabe que pregação sobre direitos humanos (mesmo quando acompanhada de uma agenda econômica) expõe, em última instância, a falência moral do seu sistema, cujo pilar é o comunocapitalismo autoritário, no qual vale tudo na arena internacional desde que haja um bom negócio.
Mas a ascensão da China irá exigir uma atuação global mais muscular. Isto significará tomar partido em conflitos domésticos. Será uma China mais ativa, para o bem ou para o mal, uma China mais contraditória, a exemplo dos países ocidentais, e não apenas consistente no seu mercantilismo.
PS- Sobre os desafios diplomáticos de uma potência emergente, eu recomendo o artigo sobre o Brasil na edição desta quarta-feira no Financial Times.
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Colher de chá matinal para o Maisvalia (dia 8, 11:17). Cobrou logo cedo dos amantes da nobre causa de Pequim um ataque contra os defensores dos direitos humanos. Mas este pessoal parece que acorda tarde. Colher de chá noturna para a Karen (dia 8, 23:50), pela panorâmica. É um prazer para mim desenhar este arco.  Maisvalia e Karen, leitores com visões de mundo opostas, me acompanham desde o começo da coluna e “aprenderam” a se respeitar.

Na Síria de Assad (pai ou filho), tudo igual, tudo pior

Com Bashar Assad, "horror hereditário"

Para parafrasear o jogador pensante de beisebol Yogi Berra e suas frases folclóricas, na Síria, é déjà vu novamente. Vamos começar com o ministro das Relações Exteriores da Turquia (e está tudo tão desolador na Síria, que dou até colher de chá para a diplomacia turca). Ahmed Davutoglu disse que quando russos e chineses vetaram uma resolução no Conselho de Segurança das Nações Unidas, no sábado, condenando a brutalidade na Síria e pedindo a saída do poder do ditador Bashar Assad, estavam agindo com uma mentalidade de Guerra Fria, “baseando os votos, não em realidades existentes, mas em uma atitude mais automática contra o Ocidente”. E, de fato, na Guerra Fria, russos e chineses já apoiavam os massacres praticados por um ditador sírio, mas era Hafez Assad, o pai de Bashar.

Claro que também soa déjà vu novamente, como naquelas cruzadas do mundo livre contra o comunismo na Guerra Fria, integradas por Somoza e Pinochet, quando a secretária de Estado, Hillary Clinton, reage ao anacronismo sino-soviético (oops, russo), dizendo que agora será preciso articular uma coalizão dos “amigos da Síria democrática” a favor da oposição e contra a brutalidade do regime Assad. O que fazer? A coalizão vai incluir a Arábia Saudita.
Diplomacia tem estas ambiquidades e paradoxos, mas alguns casos são bem piores do que outros. Melhor ter a Arábia Saudita contra Assad do que a favor. A Rússia tem o despudor de argumentar que não podia apoiar uma resolução sobre a Síria, pois significava tomar partido de um dos lados. Vladimir, Vladimir, seu veto significa mais do que tomar partido de um dos lados, como você está fazendo na condição de grande sustentáculo internacional de Bashar Assad. Significa dar sinal verde para o ditador avançar na matança, tentar se entrincheirar no poder e dificultar ainda mais uma solução política para a crise, que ganha feições de guerra civil em larga escala.
Só há um argumento plausível a favor de Assad: o day after à sua queda pode ser pior do que o dia de hoje. com guerra de mílícias ou a ascensão ao poder de fundamentalistas sunitas. Talvez. Existe a idéia, portanto, de que seja melhor ficar com o demônio conhecido. Como assim? Sabemos que ele é horrível. Este é consolo? Com uma ditadura como a de Assad vamos justificar o status quo, na lógica russa de venalidade? E, de qualquer forma, o debate é acadêmico. A dúvida é quando Assad irá cair. Ele se tornou carga pesada até para as demais ditaduras da região.

Existem interesses geopolíticos contra o regime Assad (como o empenho de autocracias sunitas do Oriente Médio para enfraquecer o único aliado regional do Irã xiita), mas também os gestos humanitários. E pouca coisa deixa russos e chineses tão horrorizados como gestos humanitários. Afinal, tais gestos podem ser usados para condenar as condutas da semiditadura Putin e da ditadura do politburo chinês contra seus próprios povos e suas minorias. Mas já estamos refletindo com mais profundidade do que Yogi Berra. Há algo mais superficial, imediato e cínico para comentar. Neste episódio do Conselho de Segurança, o Ocidente (e seus aliados suspeitos do Oriente Médio) tiveram uma grande vitória em termos de realpolitik.

Os países ocidentais têm a vantagem moral na crise síria. Russos e chineses agora são cúmplices escancarados da carnificina praticada pelo regime Assad. São co-responsáveis acintosos pela escalada de violência, pois a oposição, que já está militarizada, tem pouco a fazer além de incrementar a luta armada. O que aconteceu no sábado nas Nações Unidas foi um vexame histórico para russos e chineses. Na frase dita à exaustão nos últimos dias, eles deram a Assad permissão para matar (para matar mais ainda).

Moscou e Pequim vetaram uma resolução, que já fora diluída para satisfazê-los, no momento em que as forças de Bashar Assad massacravam inocentes na cidade de Homs (os números de baixas são incertos, variam de dezenas a centenas). Existe ojeriza quase que universal ao regime de Assad. Do lado dos sírios estão os russos (chineses menos ativamente), a desgraça que é o regime iraniano, os asseclas do Hezbollah (até o Hamas se livra da saia justa), as tralhas bolivarianas e relíquias do ativismo terceiro-mundista. Em termos táticos, teria sido mais conveniente para russos e chineses engolirem o sapo. Para que queimar bala diplomática (no caso russo, bala mesmo) por um ditador que dia menos dia será carta fora do baralho? E qual  é o cenário mais provável? Uma intervenção militar americana parece improvável (talvez , assim como um sucesso diplomático. Hillary Clinton alerta sobre uma “brutal guerra civil”. Podemos acrescentar que terá violentas tonalidades sectárias, com apoio de monaquias sunitas à oposição.

Esta coluna está recheada de citações diplomáticas. Vamos terminar com mais uma. O embaixador francês nas Nações Unidas, Gerard Araud, lembrou como tudo é parecido na Síria,. Este massacre em Homs em 2012 teve lugar quando eram lembrados os 30 anos da mortandade em Hama (entre 10 mil e 40 mil mortos),. Em 1982, o responsável foi o ditador Hafez Assad. Agora, é o seu filho. Como disse o embaixador Araud, na Síria o “horror é hereditário”. Déjà vu novamente.

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Colher de chá para o comentário do Pablo (dia 6, 13:50)  sobre as posturas da Rússia e China. E uma colher de café para a Carmem (dia 6, 15:40),  por sua saborosa advertência contra as estapafúrdias analogias, especialmente as hitleristas.

 

Governo Dilma e republicanos são anacrônicos sobre Cuba

A lenga-lenga do Raúl - Foto Ismael Francisco/AFP

A presidente Dilma Rousseff está para começar viagem oficial a Cuba  Não deveria fazer esta visita. O porta-voz do Itamaraty Tovar Nunes justifica em burocratês que o objetivo da viagem é “sistematizar o relacionamento econômico” entre Brasil e Cuba e que interesses mútuos não são movidos por solidariedade política. Claro que são. No mundo não dá para ignorar realpolitik ou interesses econômicos. Mas também não dá para ignorar a camaradagem do Brasil com a ditadura cubana.

Como ignorar uma China a caminho de ser superpotência governada pela ditadura comunista? É chato ver como os EUA  “sistematizam” uma relação estratégica com a ditadura saudita, mas é um constrangimento necessário. No caso do Brasil, não só existe solidariedade política em relação a Cuba, mas um orgulho do PT governante com os irmãos (no sentido literal e figurativo) que governam a ilha-presídio. Falta constrangimento.
 A visita da presidente Dilma Rousseff, portanto, é um oxigênio para o regime cubano. Exceto para os cubanos na ilha-presídio, cubanos na Flórida e correligionários continentais, Cuba não tem maior importância. É basicamente uma mancha na consciência mundial. Cuba está lá embaixo na lista global de opressão. Começa a perder o bonde da história até para Mianmar, o país da briosa dissidente Aung San Suu Kyi, que finalmente empreende reformas políticas. A prêmio Nobel da Paz, que passou 15 dos últimos 23 anos em prisão domiciliar, está agora fazendo campanha por uma cadeira no Parlamento. Dá para imaginar quando a dissidente cubana Yoani Sánchez poderá fazer o mesmo?

 Raúl Castro tem um projeto de reformas econômicas e administrativas. Empreende passos cautelosos para Cuba se converter em Vietnã do Norte e não acabar na história como uma Coreia do Norte. O projeto é liberalizar a economia e separar o aparato partidário da gestão governamental, ao estilo norte-vietnamita.. Claro que isto, em nenhuma hipótese, significa afrouxar o monopólio do poder político.

É aquela coisa atroz do artigo 5 da Constituição cubana, que “sistematiza” a ditadura: “O Partido Comunista de Cuba é vanguar­da organizada da nação cubana, é a força dirigente superior da sociedade e do Estado, que orga­niza e orienta os esforços co­muns na direção dos altos fins da construção do socialismo do progresso na direção da sociedade comunista”. Numa reunião do PC no fim de semana, Raúl Castro reiteirou o plano de mandatos limitados para os dirigentes, mas nada de limites para a ditadura, pois fez mais uma ode ao sistema de partido único.

Existe resistência a estas reformas econômicas de Raúl Castro nos bastiões stalinistas do partido e da parte do ”big brother” Fidel. Neste anacronismo, cubanos na ilha estão irmanados a bastiões da comunidade anticastrista na Flórida. Candidatos republicanos à presidência em campanha no estado – devido às primárias desta terça-feira – têm uma linguagem durona na questão cubana. Prometem reviver o embargo total e acusam o presidente democrata Barack Obama de “apaziguamento”" em sua política cubana (também de ser frouxo sobre a Venezuela de Hugo Chávez). Mas esta “frouxidão” em Washington reflete uma suavização da própria comunidade cubana na Flórida.
 A linha dura republicana destoa dos novos tempos. Ironicamente, os republicanos americanos e petistas brasileiros estão irmanados em uma visão atrasada de Cuba. O argumento desta linha dura americana é que suavizar o embargo – medidas como permitir visitas familiares ilimitadas a Cuba e transferência de dinheiro para parentes -  dá sobrevida à ditadura cubana. Mas e o contra-argumento? Meio século de embargo é munição para a lenga-lenga castrista contra o imperialismo ianque (expressão tão surrada como a ditadura de Havana).
 Cubanos da Flórida querem investir em Cuba (tirando proveito de estímulos a pequenos negócios privados e liberalização no mercado imobiliário). Evidentemente, muito mais estará em jogo caso haja descoberta generosa de petróleo na fatia cubana do golfo do México. Aí, gigantes empresariais americanos deverão fazer um lobby da pesada contra o embargo econômico, que para ser derrubado exige aprovação do Congresso. O fim do embargo seria também uma farra para a “nomenklatura” no poder em Havana, abrindo espaço para corrupção ao estilo Rússia pós-comunismo.
 Pesquisas mostram esta suavização das atitudes dos cubano-americanos, como a que foi feita pela empresa Bendixen & Associated, a mais respeitada na radiografia da comunidade hispânica nos EUA. Os cubano-americanos estão divididos sobre o embargo: 41% contra e 40% a favor. Na avaliação da Bendixen, existe uma “evolução do pensamento” na comunidade anticastrista. A divisão de hoje contrasta com o consenso de anos atrás e reflete um conflito de gerações, com os mais jovens da comunidade cubana da Flórida favoráveis a maiores laços com a ilha, ainda uma ilha-presídio.
O eleitor cubano-americano é mais conservador do que os demais latinos nos EUA,  mas ele conta cada vez menos na Flórida devido à crescente diversidade da minoria no estado (quase 1/4 da população). Em 2008,  Obama derrotou o republicano John McCain entre os eleitores latinos na Flórida  (57% a 42%) e teve uma avanço expressivo entre os cubano-americanos (McCain obteve 53% e o presidente ficou com 47%).
São novos tempos. Washington também precisa “sistematizar” suas relações com Havana de um modo diferente, mas não ao estilo de Brasília. O desafio é manter laços com Cuba, sem manter a camaradagem com a ditadura Castro e lhe conferir uma sobrevida.
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Colher de chá inevitável para o Ricardo (dia 30, 12:11), o primeiro a fazer comentários depois de uns dias de seca devido a problemas técnicos.

07/10/2011

às 9:33 \ Direitos Humanos, Mundo Árabe

Curtas & Finas (Nobel da Paz)

O trio premiado (Fotos: AP)

O trio premiado (Fotos: AP)

Havia a expectativa de premiações mais incisivas para o Nobel da Paz 2011, em particular organizações e personagens ligados aos países que foram vanguarda na Primavera Árabe, como Tunísia e Egito, mas quem luta por uma vida melhor para as mulheres e um mundo mais democrático e tolerante pode ficar satisfeito com as decisões: ganharam duas liberianas (a presidente Ellen Johnson Sirleaf e ativista Leymah Gbowee) e, sintomaticamente, a ativista iemenita Tawakkul Karman, na linha de frente da Primavera Árabe. Merecem, como disse a comissão julgadora do Nobel, pela “luta não violenta pela segurança das mulheres e pelo direito de participar do processo de paz”. Tawakkul Karman é a primeira mulher árabe a ganhar o Nobel da Paz. Já Ellen Johnson Sirleaf foi a primeira mulher eleita democraticamente na África. Curiosamente, nestes tempos de fúria populista contra bancos, vale lembrar que ela também foi vice-presidente do Citibank. Um bom dia na luta pelos direitos humanos, um mau dia para tiranos e opressores de mulheres, inclusive islamistas que querem substituir um jugo por outro em tantos países do Oriente Médio e África do Norte. Foram premiações politicamente corretas no sentido mais amplo e menos pejorativo da expressão.
PS: Sem esquecer que o vencedor do Nobel da Paz de 2010, o dissidente Liu Xiabo, continua na masmorra chinesa.

06/10/2011

às 18:00 \ Coréia do Norte, Direitos Humanos

Curtas & Finas (Coréia do Norte)

Tal pai, tal filho - Foto Kcna/Kns/AFP

Na Rússia, consuma-se a transição de Vladimir Putin para Vladimir Putin. Na Coréia do Norte, todas as indicações são de uma suave transição de poder de Kim para Kim, no caso, de pai para filho, de Kim Jong-il, também conhecido como anão atômico, para o seu filho, o garotão Kim Jong-eun. As informações sobre esta cogovernança ditatorial partem de think-tanks da vizinha Coréia do Sul. O processo levou uma ano. O garotão já teria colocado seu pessoal nas organizações que contam, como as Forças Armadas e o aparato de repressão/propaganda. Claro que sempre há dúvidas sobre a inexperiência de Kim-Jong-eun. E curiosamente, em meios acadêmicos na China (país-patrono da Coréia do Norte) existem projeções de caos em três ou quatro anos. Terrível neste país de famintos oprimidos e que exerce chantagem nuclear. A sucessão foi acelerada devido ao derrame sofrido por papai Kim há três anos. Pobres norte-coreanos (e aqui a expressão não é metafórica), eles vão sofrer muito em 2012. Será a maciça e sem precedente celebração do centenário do pai fundador desta monarquia comunista, Kim Il-sung, avô do garotão. O regime destaca que a obra da família é este “país próspero e poderoso”. Sem dúvida para a família, num negócio odioso que passa de pai para filho.

O terror do 11 de setembro e os atentados contra a verdade

Fugindo do terror e da negação da realidade- foto Doug Kanter/AFP

O que aconteceu em 11 de setembro de 2001? Resposta simples e histórica: terroristas suicidas da rede Al Qaeda lançaram ataques nos EUA. Mas, como diz Christopher Hitchens, “é muito provável que aqueles que aceitam esta narrativa convencional são, pelo menos globalmente, a minoria”. Estamos, de fato, na era da desinformação, dos atentados às verdades mais elementares e da persistência das mais bizarras teorias conspiratórias, alimentadas na Internet.

A descrença no convencional sobre o 11 de setembro nestes dez anos não foi lugar-comum apenas no mundo muçulmano. Logo após os ataques, ganharam vida em todas as partes as bizarrices sobre um complô do governo americano e dos judeus (sempre eles). Havia a história que quatro mil judeus tinham sido alertados sobre os atentados e não apareceram para trabalhar naquele dia no World Trade Center, inicialmente publicadas no jornal sírio Al Thawra. Existem as fantasias detalhadas sobre o míssil que o próprio Pentágono disparou contra o Pentágono. Na França, o livro de Thierry Meyssan sobre a “mentira assustadora” do 11 de setembro foi best-seller, disparando esta fantasia sobre o míssil ou um pequeno avião investindo contra o Pentágono.

Arautos profissionais da paranóia na imprensa alternativa americana, de direita e de esquerda, se uniram para denunciar as tramas. Personagens folclóricos como o apresentador de rádio Alex Jones e o repórter conspiratório Michael Ruppert tinham certeza sobre os planos diabólicos do governo Bush para manufaturar os atentados. Tudo elementar: era preciso um pretexto para invadir o Afeganistão e o Oriente Médio, beneficiar a indústria petrolífera e de armamentos, forjar um estado fascista que suprimisse as liberdades civis e consolidar uma nova ordem mundial. Sacou? World Trade Center? Centro do Comércio Mundial.

Logo depois dos atentados, a maluquice popular nos EUA até que estava sob controle. Numa pesquisa no começo de 2002, apenas 8% acreditavam que o governo Bush, então muito popular, mentia sobre o que acontecera. Os números cresceram depois da guerra do Iraque diante do fato real de que o governo Bush, de fato, enganara sobre as armas de destruição em massa de Saddam Hussein. O número de céticos sobre a narrativa convencional dos atentados do 11 de setembro saltou para 16% em 2004. Escaramuças burocráticas em Washington e esforços do governo (como acontecem em qualquer governo) para acobertar ou minimizar suas falhas na prevenção dos atentados também alimentaram as teorias conspiratórias.

Políticos da ala mais esquerdista do Partido Democrata deram munição para os conspiradores e Michael Moore com o seu documentário Fahrenheit 11 de Setembro foi uma festa para os paranóicos ao martelar nas conexões da família Bush com a Arábia Saudita e o clã Bin Laden. Por volta de 2007, pesquisas revelararam que até 1/3 dos americanos duvidavam da narrativa convencional sobre o 11 de setembro.

O tempo passou, Bush esvaneceu e Barack Obama assumiu a presidência. O ódio a um presidente foi transferido a outro. Um parte dos conspiradores sobre a verdade do 11 de setembro (os “truthers”) inclusive migrou para a nova conspiração sobre as falsidades na vida daquele “queniano” que mentira sobre ter nascido no Havaí. Hoje “só” uns 10% dos americanos não acreditam que a rede Al Qaeda tenha sido responsável pelos atentados. Um alerta deve ser feito: o campo continua fértil para teorias conspiratórias, de qualquer gênero, em tempos de incerteza econômica nos EUA, falta de confiança nas lideranças políticas e um descrédito sem precedentes das instituições, a destacar o governo federal.

E já que não dá para ter um final feliz para esta história, vamos para o mundo islâmico. Uma pesquisa de julho do Centro Pew confirma que, uma década depois, existe ceticismo no mundo islâmico sobre os eventos de 11 de setembro de 2001. A maioria dos muçulmanos acha inconcebível que árabes tenham sido responsáveis pelos ataques (numa descrença que inclui vergonha para assumir a verdade, crença no pacifismo da religião, desconfiança na capacidade técnica de árabes realizarem os atentados, preconceitos, antiamericanismo e antissemitismo). Dos 19 terroristas suicidas, 15 eram sauditas, dois dos Emirados Árabes Unidos, um libanês e um egípcio. A pesquisa englobou sete países e os territórios palestinos. Em nenhum deles, sequer 30% aceitam que árabes realizaram os ataques. Pior, muçulmanos na Jordânia, Egito e Turquia estão mais céticos hoje do que há cinco anos.

Um dos dados mais preocupantes, aliás, é que esta pesquisa foi feita com a primavera árabe em curso. E no mesmo revolucionário Egito que derrubou Hosni Mubarak existe o nivel mais alto de negação da realidade, com 75% dos egípcios registrando sua descrença que árabes tenham sido responsáveis pela obra de destruição.

Eric Trager, um especialista em Oriente Médio da Universidade da Pensilvânia, passou alguns meses no Egito, fazendo pesquisas e seu relato sobre a percepção do 11 de setembro é desolador. Islamistas encampam este revisionismo sobre o terror, pois reescrever a história é fundamental para desviar a acusação de que sua ideologia motiva o assassinato em massa. O ex-guia supremo da Irmandade Muçulmana, Mehdi Akef, disse para o incrédulo Trager “que não existe o terror da Al Qaeda, é uma expressão americana”. Na narrativa de Akef, os atentados do 11 de setembro representaram um ataque americano contra o Oriente Médio e existe uma política islamista de autodefesa.

Líderes mais jovens da Irmandade Muçulmana gostam da tese que os atentados do 11 de setembro, por sua sofisticação, só podem ter sido obra da CIA ou do Mossad. Mesmo líderes seculares, socialistas ou liberais no “novo Egito” também negam a responsabilidade da Al Qaeda. Mustafa Shawqui, da Coalizão da Juventude Revolucionária, disse a Trager que se tratou de maquinação para dominação global por interesses imperiais. Até o vice-primeiro-ministro do governo provisório, Ali ElSalmy, pisou na bola. Homem educado nos EUA, integrante do governo Sadat nos anos 70 e ex-vice-diretor da Universidade do Cairo, ele disse “não ter certeza sobre quem foi responsável pelos atentados”.

Dez anos depois dos atentados do 11 de setembro, é preciso impedir novos ataques e ainda por cima estes atentados à verdade em países com ou sem primavera árabe.

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A colher-de-chá madrugou. Vai para Ivanildo Terceiro (dia 7, 8:27), por trazer o material didático e visual da construção e desconstrução das teorias conspiratórias no 11 de setembro.

Os destroços e as construções de setembro

Bush nos destroços do World Trade Center- Foto Win McNamee/Reuters

O décimo aniversário dos atentados de 11 de setembro de 2001 é uma data redonda, um maná dos céus para a imprensa. Existe, portanto, uma exuberância celebratória. Mas, como este aniversário acontece em um momento de fragilidade econômica e de crise de confiança na liderança ocidental, uma narrativa constante (com as metáforas inevitáveis) é vincular a derrubada das torres gêmeas do World Trade Center a um colapso econômico.

Ironicamente, uma tese que esvazia um pouco o triste furor comemorativo é que a crise econômica terá mais impacto histórico do que os ataques terroristas do 11 de setembro. Basta ver um artigo na edição corrente de VEJA (um especial de 31 páginas sobre os 10 anos dos atentados, leitura obrigatória!), de Bill Emmott, jornalista e escritor (ex-diretor da revista The Economist). O título é O 15 de setembro de 2008, em referência à quebra do Banco Lehman Brothers, um estopim da crise econômica.

Mas, deixemos este debate detalhado sobre o impacto da crise econômica para 15 de setembro de 2018. No aqui e agora, estamos prestes a ultrapassar os dez anos dos atentados. A data é sóbria e existem questões sobre a validade de vários aspectos da obra no Marco Zero, em particular a construção da nova torre com o nome 1 World Trade Center e o risco de uma localizada bolha imobiliária. Porém, vale muito mais destacar esta mescla de comemoração e renascimento.

Não existem apenas destroços físicos e emocionais. A torre sobe em Manhattan, num desafio ao terror. Claro que esta é uma nação fragilizada, polarizada, frustrada e incerta sobre o seu futuro. Na narrativa do historiador Paul Kennedy, não vai dar outra: os excessos imperiais (e aqui contam custos de guerras americanas sem a devida tributação, sem falar, é claro, das perdas humanas) deverão levar a um declínio inevitável. Sim, o declinio acontece em meio ao que o guru Fareed Zakaria chama de “ascensão do resto”, inclusive o Brasil. No entanto, por favor, não vamos assinar o atestado de óbito dos United States of America ou desmerecer a capacidade de recuperação.

Nesta semana de tanto enfoque sombrio no décimo aniversário de uma data nada querida, vamos ressaltar alguns aspectos positivos: Osama bin Laden está morto, o perigo do terror Al Qaeda sobrevive, mas a rede está enfraquecida e desde aquele 11 de setembro nenhum grande atentado aconteceu nos EUA. Infelizmente, tantas outras sociedades foram vítimas. A infame agenda ideológica de uma jihad global não tem vez contra o Ocidente. Pode causar estragos, mas até no mundo islâmico está desacreditada, embora a mensagem mais moderadamente islamista (como a da Irmandade Muçulmana) tenha appeal e ganhe espaço na primavera árabe.

O Ocidente e sua capital Nova York aguentaram o tranco há dez anos (podemos reconversar sobre aspectos mais complexos do rombo em 15 de setembro de 2018, ao estilo Bill Emmott) e os ataques deixaram destroços, mas, apesar de alguns excessos na guerra contra o terror, prevalecem sólidas instituições democráticas. A rede Al Qaeda não destruiu o nosos modo de vida (inclusive coisas patéticas como o atual nível do confronto político-partidário nos EUA).

Houve o ataque direto em 11 de setembro e existe aquela conversa que o grande plano de Osama bin Laden era fazer a gente sofrer com a hemorragia (inclusive econômica) e morrer. Ele morreu. Viveremos na banda ocidental. É verdade que num clima de mais tempestades econômicas, medo de novos ataques terroristas e competição de modelos que contestam a democracia e o capitalismo liberal, seja nas bandas chinesas, seja em bandas islamistas.

A crise econômica poderá ser longa e brava e o perigo mora em qualquer esquina, em qualquer torre, mas é vital que o valor da democracia liberal permaneça intacto, por todos os setembros adiante.
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A colher-de-chá nos comentários vai para o Maurício (dia 5, 13:05) pelas pinceladas do anti-americanismo crônico, solidariedade em larga escala no mundo aos americanos no 11 de setembro e o debate sobre oportunidades perdidas na era Bush. A colher-de-chá está generosa. Outra para a Carmem (13:16), pela declaração de amor a Nova York (que, de colher, ela estendeu ao Rio de Janeiro)

A direita amiga de “nossos filhos da mãe” no mundo árabe

Mubarak e Obama, bons tempos? foto-Khaled Desouk/AFP

Este negócio de ver o outro lado da questão traz o risco de objetividade protocolar ou falsas equivalências, mas eu preciso ir até a banda de lá na sequência do meu texto publicado inicialmente em 24 de agosto, desancando a esquerda que justifica tipos como Kadafi e Assad por estarem na linha de frente contra um tal de neocolonialismo e por resistirem à agressão ocidental e de Israel (claro que esqueci as aspas). Bem, conhecemos a pataquada. Hoje é dia do outro lado, de falar de uma direita (aqui tão simplificada como esquerda), que tem uma nostalgia do outono anterior à “primavera árabe”, aquele dos bons tempos de ditadores como o egípcio Hosni Mubarak.

É a tal história da frase atribuída a Franklin Roosevelt sobre o ditador nicaraguense Anastásio Somoza. Por pudor, vou deixar em inglês mesmo: “He is a son of a bitch, but he is our son of bitch”. Filho da mãe (o Roosevelt também). A frase é um emblema do mais puro cinismo-pragmatismo-realismo em política. O sujeito pode ser um canalha, mas está do nosso lado (opa! é a palavra mais abusada neste texto).

No contexto da Guerra Fria, bandidos como Somoza ajudavam na luta contra os crimes maiores, o comunismo ou qualquer tipo de rebeldia que ameaçasse os interesses ocidentais em alguma república de banana. Nos dias de hoje, tipos como Mubarak (e podemos lembrar também de tantos reis e déspotas no Oriente Médio) tinham ou têm esta mesma serventia. São um anteparo ao radicalismo islâmico e os riscos de uma apressada alvorada democrática.

Cautela registrada. O problema é seu excesso. E eu assumo que tolerei por muito tempo o Mubarak, “nosso filho da mãe”. Tolerei demais, demorei para deserdá-lo.

Realistas mais extremados na banda da direita até justificam ditaduras do outro lado, como a de Assad, na Síria. Antes de tudo, pois, ironicamente, ele também tem um papel para conter o radicalismo islâmico (afinal, Assad é um mero ditador secular, embora aliado ao regime xiita do Irã). E existe também a idéia de que estabilidade ainda é melhor do que o risco de mudanças (imagine o preço desta estabilidade). Sem Assad, pode ser o caos, com a espiral de violência sectária e o cenário de um Iraque na Síria. No caso da Líbia pós-Kadafi, poderia emergir uma Somália, com anarquia e guerras de milícias.

Calma! No novo jogo da Líbia, a rigor ainda não pós-Kadafi, estamos aos dois minutos do primeiro tempo. E estão aí lições para serem aprendidas. Uma aposta sóbria deve ser feita, por exemplo, no Conselho Nacional de Transição na Líbia, empenhado ao menos em não repetir o fiasco que foi a fase inicial da ocupação do Iraque. Aliás, antes de mais nada, apesar da ajuda ocidental, a Líbia não foi e não será ocupada por estrangeiros e estes dirigentes transitórios estão antenados na tarefa de impedir o esfacelamento abrupto da velha ordem. Algumas prioridades elementares são não desmantelar o aparato de segurança do regime anterior ou expurgar de forma draconiana a burocracia.

Mas o fundamental aqui é voltar á conversa da nostalgia de tipos como Mubarak. Regimes como o dele recebiam um dinheirão dos americanos e mantiveram uma paz fria com Israel, Mas vamos para o outro lado. Estes tiranos também alimentaram radicais islâmicos. Quando o povo não pode ir à praça (exceto para saudar o ditador), resta o caminho da mesquita.

O caso de outro aliado americano, a Arábia Saudita, é ainda mais flagrante. O espaço cultural e religioso sempre esteve nas mãos de clérigos obscurantistas. Estas tiranias foram e são incubadoras do terror islâmico. Somente a prática democrática (e me flagro usando clichês) irá alimentar a tolerância. Sim, eu sei do risco de pressa eleitoral levar radicais islâmicos ao poder no Egito. Mas de onde veio a força deste pessoal?

Mubarak tinha encontros frequentes com dirigentes isralenses. Mas os desencontros entre os povos e as culturas persistiram. As instituições educacionais e a imprensa oficial no Egfito na época de Mubarak eram um horror com a mensagem de ódio a Israel e antissemitismo. Na verdade, antissemitismo é uma língua política comum no Egito, manifestada não apenas por islamistas, mas também por grupos assumidamente liberais e que resistiam na época da ditadura de Mubarak. Há dois meses, em uma conferência em Budapeste, o líder do partido Wafd (secular e um dos mais liberais no Egito) declarou que o Holocausto era uma mentira e que o Diário de Anne Frank era uma farsa.

Então, dá para ter nostalgia ou justificar de forma tão resoluta a velha ordem no Oriente Médio? Usando outros termos, eu já disse algumas vezes neste espaço que a caravana avança no deserto, vamos torcer e se possível ajudá-la a encontrar uma boa trilha. O ceticismo de muita gente esconde também uma arrogância ocidental. Afinal, por que os povos árabes não podem arriscar uma democracia? Por que não o direito de falar bobagem como nós ou criticar o estado ou a mesquita sem o risco de ser preso ou morto? Quero também o nosso lado na banda de lá.

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A colher-de-chá nos comentários vai para a Betty e outros leitores que madrugaram na quarta-feira para se rebelar contra meus argumentos e mostrar o outro lado do outro lado.


 

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