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Curtas & Finas (Nocautes & Pontos)

Pacquiao na lona, sob os olhares do nocauteado Romney

Para o espanto de muita gente, o ícone filipino do boxe Manny Pacquiao foi nocauteado no sexto round pelo mexicano Juan Manuel Márquez na luta de sábado à noite em Las Vegas. Para o espanto do meu sogro, em Manila, pugilista amador na juventude, e de Mitt Romney, perdedor profissional no pugilato eleitoral. Romney apareceu no vestiário antes da luta para desejar boa sorte a Pacquiao e disse: “Alô, Manny, eu concorri à presidência e perdi”. Pacquiao já é deputado nas Filipinas e quem saiba um dia dispute a presidência do seu país. Não precisa do endosso de pé-frio.
Já aquele pugilista ágil que nocauteou Romney em novembro continua com bom desempenho. Barack Obama vai derrotando por pontos os republicanos, que controlam a Câmara dos Deputados, na disputa sobre o chamado abismo fiscal. O presidente democrata encurrala os adversários no corner do ringue político, desferindo seus golpes sistemáticos. Nada da letargia de embates anteriores.

O presidente da Câmara, o republicano John Boehner, já deu uma enquadrada no seu plantel e prepara o terreno para concessões no aumento de impostos, anátema para os mais conservadores. Obama, porém, não pode bailar demais no ringue, nada de arrogância Muhammad Ali. Precisará fazer suas concessões no corte de benefícios sociais. Dito isto, o presidente vai ganhar por pontos neste seu segundo e último round presidencial.

Lá no ringue da Primavera Árabe, são várias lutas. No Egito, o presidente Mohammed Mursi forçou a barra para ter mais poderes. Os adversários revidaram. É gente que brigou na praça Tahrir até nocautear a múmia Hosni Mubarak, há pouco menos de dois anos. Mas, Mursi, treinado pela Irmandade Muçulmana, é peso-pesado.

Ele entregou alguns pontos simbólicos nesta questão de poderes adicionais, mas segue firme com a data do referendo, o próximo sábado, sobre o projeto de Constituição que com razão assusta gente mais moderada, temerosa do projeto de hegemonia islamista. No entanto, nesta primeira fase da Primavera Árabe não dá para reverter totalmente a vitória dos islamistas egípcios, talvez suavizá-la. É vital manter a guarda para impedir o nocaute de uma frágil democracia. Serão anos, décadas de embates na Primavera Árabe.

Já na parte do ringue com o pugilato dos sírios, não existe nada suave. É a brutalidade da guerra civil. Eu e tantos comentaristas subestimamos a duração da luta, mas no final das contas será um nocaute horrendo desferido contra Bashar Assad, com o sangue de muita gente na lona.

E tem lutador que não sabe que chegou a hora de pendurar as luvas. Silvio Botox Bunga-Bunga Bersluconi anunciou que vai concorrer novamente ao governo. Que coisa. A Itália mal se levanta com Mario Monti e agora este lance de Berlusconi, que pode nocautear o país. Pelo menos na Alemanha, ninguém derruba Angela Merkel. E se Berlusconi partiu e agora quer voltar, Hugo Chávez, outro lutador ególatra, ficou quando deveria ter partido devido a seu câncer e agora talvez seja forçado a partir.

Enquanto isto, o mundo aguarda a partida de Nelson Mandela, um modelo de lutador magnânimo e, aliás, sem metáfora, o ícone sul-africano foi boxeador na juventude.

E vamos arrematar com lutas menores. A presidente Dilma Rousseff estrilou com um mero editorial da revista The Economist, que gosta de bancar o juiz global em qualquer briga (por mim, tudo bem), pedindo a cabeça do peso-pena Guido Mantega. O Brasil dos golpes autodesferidos não espanta, que um dia seja salvo por algum gongo.

No primeiro round, colher de chá para o Jorji (dia 10, 10:07), pelas analogias.

10/04/2012

às 6:00 \ Brasil, Dilma Rousseff, EUA, Geopolítica, Obama

Curtas & Finas (Rabiscos Estratégicos II)

Apontando os caminhos - Foto Reuters

Uma grande contribuição da visita da presidente Dilma Rousseff aos EUA, pelo menos para mim, é permitir rabiscos estratégicos e traçar o papel do Brasil no desenho. Tratei do tema na coluna de segunda-feira e agora recomendo a abordagem de Walter Russell Mead, um dos meus sacadores favoritos, professor do Bard College e incansável blogueiro no site da publicação American Interest. Num texto no Wall Street Journal (sorry, exclusivo para assinantes), com o sugestivo titulo O Mito do Declínio Americano, Mead faz os seus rabiscos estratégicos.

Ele passa a borracha na idéia mecânica de declínio americano, argumentando que o processo é mais complexo. É um processo de reequilíbrio global. As alianças forjadas pelos EUA na Guerra Fria são insuficientes para encarar os novos desafios. E assim, desde o governo Bush, Washington tem costurado novas e difíceis parcerias. A era trilateral (de hegemonia americana e de seus parceiros da Europa Ocidental e Japão) foi atropelada em termos econômicos e geopolíticos. A chave do argumento de Mead é o declínio mais deste sistema trilateral e menos dos EUA.

Europa Ocidental e Japão, no raciocínio de Mead, são poderes estagnados, o que mina os pilares de uma ordem a grosso modo baseada em livre mercado e democracia ocidental. O sistema trilateral cede lugar a uma nova ordem. Em adição aos “três amigos”, temos China, Índia, Brasil e Turquia. Mead questiona se existe um lugar para a Rússia neste design. Eu questiono Mead. O desenho está mais para octógono. Mas é inquestionável que os EUA continuam sendo o principal player global.

O desafio para os EUA será aprofundar a conversa estratégica com novos parceiros, caso do Brasil, sem negligenciar os antigos e absorvendo demandas destes síndicos novatos no condomínio mundial. Mead arremata que a a influência global americana é toda-poderosa e, apesar de falhas e limites, segue sendo a melhor. De fato, não existe um projeto alternativo global, além deste projeto erguido pelo original sistema trilateral. O outro caminho seria uma ordem multifacetada ou caótica. Obama e Dilma não devem ter conversado nestes termos, mas este novo G-7 (ou G-8) dará as cartas e não a marquetagem dos Brics.

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Colher de chá para o infatigável Maisvalia (dia 10, 8:19), leitor literalmente de primeira hora desta coluna, ouvinte  dos meus comentários com péssima dicção na rádio Jovem Pan e espectador do Manhattan Connection. No final das contas, sou um fracasso para fazer lavagem cerebral da massa, pois ele nunca muda de idéia. E uma colher de chá vespertina para os rabiscos de G. Carvalho (dia 10, 14:45).

09/04/2012

às 6:00 \ Brasil, China, Dilma Rousseff, EUA, Obama

Na relação bilateral Brasil/EUA, o jogo triangular

Para onde vão as relações?

A visita em curso da presidente Dilma Rousseff aos EUA é uma boa oportunidade para alguns rabiscos estratégicos. Antes, um brinde à presidente brasileira e pode ser feito com cachaça, pois esta preferência nacional terá o acesso facilitado ao mercado americano, em uma vitória para os interesses comerciais do Brasil. Dilma Rousseff não parece fazer onda pública sobre o tal downgrade da visita, ou seja, não ser tratada com gala e jantar faustoso na Casa Branca. A viagem é de negócios, destinada a aprofundar parcerias e aceitar que existem divergências naturais mesmo entre aqueles que são considerados aliados naturais. Atitude madura para a pragmática dirigente de um país emergente, embora não existam grandes expectativas sobre esta visita.

Barack Obama é um dirigente negligente sobre América Latina, ainda mais do que antecessores, e não formulou uma química de relacionamento pessoal com Dilma Rousseff, mas os fatos estão aí. O Brasil é sexta economia mundial, o quarto detentor de títulos da dívida pública americana (US$ 229 bilhões) e um mercado importante para empresas americanas (e este presidente não se cansa de enfatizar a necessidade de geração de empregos num ano eleitoral).  Ademais, é uma democracia, ao contrário do superemergente chinês.

Do lado brasileiro, existem ranço antiamericano e um sentimento pavloviano na política externa, que resultam em posturas vexaminosas como o respeito conferido pelo governo Dilma à ditadura cubana ou falta de rigor com o regime carniceiro no poder na Síria, em nome da lenga-lenga de não-intervenção. No entanto, não há mais aquele exibicionismo da era Lula, que levou a encrencas como a mediação brasileira na crise nuclear iraniana e voto contra sanções, aprovadas pelo Conselho de Segurança da ONU. Aliás este protagonismo lulista é um dos motivos para a esnobada americana. Washington não conferiu o status de visita de estado à viagem de Dilma, pois ainda existe rescaldo de irritação com o teatro diplomático do governo anterior.

Mas há também incoerência na postura do governo Obama. Ok, a superpotência se irrita com gestos independentes de potências emergentes como o Brasil, mas existe mais tolerância com o comportamento de um emergente como a Índia, que atravessa muito mais os interesses americanos do que o Brasil com seu protecionismo comercial e íntimo relacionamento com o Irã. No entanto, Obama conferiu ao primeiro-ministro Manmohan Singh o status de visita de estado quando ele apareceu em Washington e endossou formalmente a aspiração indiana para se tornar membro permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas, algo até agora negado ao Brasil.

Numa zona extremamente quente do mundo (onde estão Irã, Paquistão, Afeganistão e a China), os americanos têm se empenhado desde o governo Bush para consolidar uma parceria estratégica com a Índia, um país com uma tradição pavloviana antiamericana. Os EUA engolem os dissabores, como a fúria que esta intimidade com a Índia provoca em outro aliado complicado, e nuclear, que é o Paquistão. E não custa lembrar que, apesar da nova intimidade, a Índia, como é o caso do Brasil, se alinha com os EUA em menos de 25% das votações nas Nações Unidas. Está bem, vamos reconhecer que, além do seu imenso potencial econômico, a importância geopolítica da Índia já é impressionante.

O essencial no raciocínio é que, na devida medida, também existe o potencial para que se seja concretizado um relacionamento estratégico entre Brasil e EUA. Obviamente não se trata de alinhamento automático. O mundo está mais multipolar e países emergentes como Índia e Brasil, embora sejam democracias estáveis (e corruptas), não estão e nunca estarão totalmente afinados com o projeto de modernização ao estilo americano, professando mais entusiasmo em dirigismo econômico. Viva o BNDES! (leitores distraídos, a última frase é uma ironia!).

Mas nestes rabiscos estratégicos, o ponto a destacar é que tanto EUA como Brasil estão cada vez mais conscientes das complexas relações bilaterais que ambos mantêm com o superemergente chinês. Logo o aprofundamento de relações Brasília-Washington é, na formulação óbvia, conveniente para ambas as partes. Os EUA precisam de contrapontos ao avanço chinês e o Brasil age corretamente com uma política de triangulação com Washington e Pequim. O Brasil receia cada vez mais se tornar um escravo da exportações de commodities para a China e de importações de bugigangas daquele país. Do outro lado do espectro, em meio a mais uma onda de conversas sobre o declínio do império americano, a máquina global ainda precisa desta “velha locomotiva” que sempre surpreende pelo pique renovado.

O negócio, portanto, é mesmo apostar no capital americano em alta tecnologia, educação, como no programa Ciência Sem Fronteiras de bolsas de estudos para brasileiros nos EUA, inovação e mais comércio. Seria ótimo um tratado bilateral de livre-comércio (só um sonho). Seria uma maravilha um Brasill menos antiamericano, assim como uma superpotência mais ciente da importância brasileira.  A realidade bilateral está longe de ser uma desgraça, apesar dos contenciosos, mas falta muito respeito mútuo.

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Colher de chá (sem cachaça) matinal para o Praetor (dia 9, 8:45), por seus rabiscos estratégicos. 

Governo Dilma e republicanos são anacrônicos sobre Cuba

A lenga-lenga do Raúl - Foto Ismael Francisco/AFP

A presidente Dilma Rousseff está para começar viagem oficial a Cuba  Não deveria fazer esta visita. O porta-voz do Itamaraty Tovar Nunes justifica em burocratês que o objetivo da viagem é “sistematizar o relacionamento econômico” entre Brasil e Cuba e que interesses mútuos não são movidos por solidariedade política. Claro que são. No mundo não dá para ignorar realpolitik ou interesses econômicos. Mas também não dá para ignorar a camaradagem do Brasil com a ditadura cubana.

Como ignorar uma China a caminho de ser superpotência governada pela ditadura comunista? É chato ver como os EUA  “sistematizam” uma relação estratégica com a ditadura saudita, mas é um constrangimento necessário. No caso do Brasil, não só existe solidariedade política em relação a Cuba, mas um orgulho do PT governante com os irmãos (no sentido literal e figurativo) que governam a ilha-presídio. Falta constrangimento.
 A visita da presidente Dilma Rousseff, portanto, é um oxigênio para o regime cubano. Exceto para os cubanos na ilha-presídio, cubanos na Flórida e correligionários continentais, Cuba não tem maior importância. É basicamente uma mancha na consciência mundial. Cuba está lá embaixo na lista global de opressão. Começa a perder o bonde da história até para Mianmar, o país da briosa dissidente Aung San Suu Kyi, que finalmente empreende reformas políticas. A prêmio Nobel da Paz, que passou 15 dos últimos 23 anos em prisão domiciliar, está agora fazendo campanha por uma cadeira no Parlamento. Dá para imaginar quando a dissidente cubana Yoani Sánchez poderá fazer o mesmo?

 Raúl Castro tem um projeto de reformas econômicas e administrativas. Empreende passos cautelosos para Cuba se converter em Vietnã do Norte e não acabar na história como uma Coreia do Norte. O projeto é liberalizar a economia e separar o aparato partidário da gestão governamental, ao estilo norte-vietnamita.. Claro que isto, em nenhuma hipótese, significa afrouxar o monopólio do poder político.

É aquela coisa atroz do artigo 5 da Constituição cubana, que “sistematiza” a ditadura: “O Partido Comunista de Cuba é vanguar­da organizada da nação cubana, é a força dirigente superior da sociedade e do Estado, que orga­niza e orienta os esforços co­muns na direção dos altos fins da construção do socialismo do progresso na direção da sociedade comunista”. Numa reunião do PC no fim de semana, Raúl Castro reiteirou o plano de mandatos limitados para os dirigentes, mas nada de limites para a ditadura, pois fez mais uma ode ao sistema de partido único.

Existe resistência a estas reformas econômicas de Raúl Castro nos bastiões stalinistas do partido e da parte do ”big brother” Fidel. Neste anacronismo, cubanos na ilha estão irmanados a bastiões da comunidade anticastrista na Flórida. Candidatos republicanos à presidência em campanha no estado – devido às primárias desta terça-feira – têm uma linguagem durona na questão cubana. Prometem reviver o embargo total e acusam o presidente democrata Barack Obama de “apaziguamento”" em sua política cubana (também de ser frouxo sobre a Venezuela de Hugo Chávez). Mas esta “frouxidão” em Washington reflete uma suavização da própria comunidade cubana na Flórida.
 A linha dura republicana destoa dos novos tempos. Ironicamente, os republicanos americanos e petistas brasileiros estão irmanados em uma visão atrasada de Cuba. O argumento desta linha dura americana é que suavizar o embargo – medidas como permitir visitas familiares ilimitadas a Cuba e transferência de dinheiro para parentes -  dá sobrevida à ditadura cubana. Mas e o contra-argumento? Meio século de embargo é munição para a lenga-lenga castrista contra o imperialismo ianque (expressão tão surrada como a ditadura de Havana).
 Cubanos da Flórida querem investir em Cuba (tirando proveito de estímulos a pequenos negócios privados e liberalização no mercado imobiliário). Evidentemente, muito mais estará em jogo caso haja descoberta generosa de petróleo na fatia cubana do golfo do México. Aí, gigantes empresariais americanos deverão fazer um lobby da pesada contra o embargo econômico, que para ser derrubado exige aprovação do Congresso. O fim do embargo seria também uma farra para a “nomenklatura” no poder em Havana, abrindo espaço para corrupção ao estilo Rússia pós-comunismo.
 Pesquisas mostram esta suavização das atitudes dos cubano-americanos, como a que foi feita pela empresa Bendixen & Associated, a mais respeitada na radiografia da comunidade hispânica nos EUA. Os cubano-americanos estão divididos sobre o embargo: 41% contra e 40% a favor. Na avaliação da Bendixen, existe uma “evolução do pensamento” na comunidade anticastrista. A divisão de hoje contrasta com o consenso de anos atrás e reflete um conflito de gerações, com os mais jovens da comunidade cubana da Flórida favoráveis a maiores laços com a ilha, ainda uma ilha-presídio.
O eleitor cubano-americano é mais conservador do que os demais latinos nos EUA,  mas ele conta cada vez menos na Flórida devido à crescente diversidade da minoria no estado (quase 1/4 da população). Em 2008,  Obama derrotou o republicano John McCain entre os eleitores latinos na Flórida  (57% a 42%) e teve uma avanço expressivo entre os cubano-americanos (McCain obteve 53% e o presidente ficou com 47%).
São novos tempos. Washington também precisa “sistematizar” suas relações com Havana de um modo diferente, mas não ao estilo de Brasília. O desafio é manter laços com Cuba, sem manter a camaradagem com a ditadura Castro e lhe conferir uma sobrevida.
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Colher de chá inevitável para o Ricardo (dia 30, 12:11), o primeiro a fazer comentários depois de uns dias de seca devido a problemas técnicos.

05/10/2011

às 6:00 \ Brasil, Bulgária, Dilma Rousseff, Europa

Dilma Rousseff vai a Gabrovo, eu não vou a Soroca

Os verdadeiros heróis búlgaros- Foto Vassil Donev/Efe

E, então, a presidente Dilma Rousseff finalmente apareceu na Bulgária. Viagem histórica, a história dela em Gabrovo, a cidade natal do pai Pedro, a cidade que mais recebe fundos da União Européia por habitante. Cidade na Bulgária, o país mais pobre e mais recente integrante do clube da União Européia. Também um dos mais corruptos da Europa. Boa visita, presidente. Quanto a mim, não faria uma viagem histórica a Soroca, a cidade onde nasceu minha avó na Moldávia, que fica naquelas bandas da Bulgária.

Vou poupá-los do sofrimento e não dar uma aula sobre Soroca. A Moldávia está em piores condições do que a Bulgária (mas tem boas vínícolas). Soroca é pior do que Gabrovo. Confiem nas minhas palavras. Minha avó partiu fugida. Nunca pensou em voltar, nunca teve nostalgia. Em comparação a Soroca, o bairro da Barra Funda, em São Paulo, onde meu pai nasceu, era e ainda é paraíso. do qual tenho maravilhosas memórias de infância. Pobre do meu pai. Lamentava que países como Moldávia e Ucrânia (de onde veio o resto da minha família para o Brasil) jamais seriam aceitos na União Européia. Nada de passaporte europeu para os Kraisers (meu outro sobrenome) e os Blinders. Até os búlgaros conseguiram. E agora tem europeu tentando descolar passaporte em tudo quanto é lugar.

Aprendi com repórteres brasileiros forçados a conhecer Gabrovo devido à viagem histórica da presidente que a cidade de 60 mil habitantes é capital do humor búlgaro. E aprendi sozinho, por cortesia do Wall Street Journal, que os grafiteiros e artistas também sabem fazer humor em Sófia, a capital do país. Esta aí na foto acima do texto.

Recentemente, os artistas vandalizaram um horrendo monumento construído em homenagem às tropas soviéticas que libertaram o país dos nazistas em 1944 para, aí, erguer outra ditadura. No monumento, saem os heróis soviéticos, entram superheróis como Super-Homem e Capitão América, além do Ronaldo McDonald, Papai Noel e o Coringa, do Batman. Tive até premonição, pois em setembro do ano passado, pouco antes da vitória eleitoral de Dilma Rousseff escrevi um texto sobre a Bulgária, com uma referência ao homem-morcego. Aproveito para republicar, abaixo deste texto monumental.

Voltando ao horror da arte comunista, os ex-comunistas (hoje fantasiados de socialistas) ainda têm muito capital político na Bulgária. E ficaram escandalizados com o bom humor dos grafiteiros. Querem punições severas (imagine quais seriam nos velhos tempos da Cortina de Ferro?). Mesmo o governo, hoje corrupto, mas de centro-direita, se mostrou insatisfeito com o vandalismo. Disse que só ele pode “destruir os monumentos do socialismo”. Existe uma certa nostalgia dos austeros tempos comunistas agora que o governo implantou um governo de austeridade, mas, para reavivar a memória das massas, as autoridades abriram um museu que reúne a arte pavorosa e kitsch daqueles velhos tempos. Entre outras coisas, há um amontoado de imensas estátuas de Lênin.

O ministro das Finanças, Simeon Djankov, deve ser de Gabrovo, pois tem senso de humor. Ele disse não aprovar o vandalismo no monumento em homenagem às tropas soviéticas, mas reconheceu apreciar as qualidades artísticas dos responsáveis e arrematou: “Eu sou mais fã do Super-Homem do que de Lênin”. E quem não é? Dilma Rousseff já foi mais do Lênin.
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Colher de chá monumental para o Alberto (dia 5, 9:01), por divagar sobre novas caras pintadas no Monumento aos Bandeirantes em São Paulo. Como reagiriam as famílias quatrocentonas? E uma colherzinha ao Lucas R (dia 5, :12), que gosta do Lênin. Que ideologia kitsch.

 

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