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30/01/2013

às 6:00 \ Congresso EUA, Demografia, Imigrantes, Obama

Os prós e prós da reforma de imigração nos EUA

Juramento de cidadania

Influentes senadores democratas e republicanos agilizaram na segunda-feira um esboço de acordo bipartidário para a reforma da imigração nos EUA e o presidente Barack Obama, que se esquivou da questão no primeiro mandato, fez discurso a respeito na terça-feira em Las Vegas. Em clima de comício eleitoral, Obama elogiou o empenho bipartidário, mas alertou que se as coisas atolarem no Congresso, ele vai enviar ao Legislativo o seu próprio pacote de propostas.

O presidente bradou que o momento é “agora” para a reforma da imigração. Uma aposta razoável é que um acordo possa ser aprovado até o final do ano, em torno de compromissos que envolvem segurança nas fronteiras (fronteira mexicana, a rigor), um caminho para a legalização de 11 milhões de imigrantes ilegais no país, uma nova política de vistos que permitam e racionalizem o trabalho temporário de estrangeiros (com diferentes níveis de qualificação) e mais agilidade para a entrada de imigrantes legais.

La frontera

O avanço das negociações, como é fácil prever, será mais tortuoso na Câmara com controle republicano, devido a bolsões muito conservadores avessos a compromissos com os democratas e a Casa Branca. A palavra-de-ordem destes setores é que reforma de imigração é sinônimo de anistia e demagogia. Fácil enquadrar estes setores mais conservadores nos dados de uma pesquisa da rede de televisão CBS: 24% dos americanos são a favor da mera deportação de ilegais, 20% topam apenas vistos temporários para eles e 51% apoiam a abertura do caminho para a cidadania de quem já está aqui.

É ilustrativo que dois dos mais influentes jornais americanos tenham saudado, em editorial, os avanços rumo à primeira reforma de imigração desde 1986 (governo do republicano Ronald Reagan, quando havia 3 milhões de ilegais). O New York Times com mais entusiasmo e o Wall Street Journal, com mais cautela, advertindo sobre pressões de Obama por um acordo mais conveniente para sua agenda partidária, tentando encurralar os republicanos como inflexíveis ou muito tímidos nesta reforma. Para Obama, é melhor pegar carona num sólido plano bipartidário. Melhor dos mundos. Com o sucesso, ele poderá cantar vitória. Com o fracasso, poderá responsabilizar os republicanos.

Colheita econômica e de votos

Evidentemente, os incentivos para uma reforma de imigração são políticos e econômicos. Existe uma urgência republicana para reverter a perda do eleitorado latino e o risco do partido se tornar um enclave de eleitores brancos, homens e sulistas. E o estímulo para os democratas é cimentar o bloco latino como vital na sua coalizão eleitoral (Obama teve 71% do voto da minoria nas eleições de novembro e 73% dos asiáticos).

O senador democrata e latino de Nova Jersey, Robert Menendez, resumiu bem o cenário favorável a um acordo de imigração: “Os americanos apoiam, os eleitores latinos esperam, os democratas querem e os republicanos precisam”. Sobre a economia, os ilegais em sua maioria são parte dela, fazem parte de nossa vida aqui nos EUA. Milhões deles foram acolhidos e absorvidos pela economia e sociedade, sejam empresários que precisam de empregados, sejam donas-de-casa que precisam de empregadas.

Mesmo para gente ilegal que “está dentro do sistema” não será uma moleza conseguir a cidadania. Com a nova legislação, ela poderá levar 15 anos, exigindo pagamento retroativo de impostos e não furar a fila daqueles que esperam legalmente os documentos. E flexibilizar a entrada de trabalhadores temporários é eficiente, pois vai acompanhar as marchas e contramarchas da economia.

E está no DNA do país. Bacana a seguinte frase do editorial do Wall Street Journal: “Um caminho para a cidadania também irá ajudar no processo de assimilação que tem sido uma das forças históricas dos EUA. Não interessa aos EUA uma classe permanente de residentes que nunca poderão ser cidadãos e assim terão menos incentivos para se adaptar aos costumes culturais, falar inglês e deixar enclaves étnicos segregados”.

Resta ver como irá se comportar Washington. Paralisia está no seu DNA. O conceito de compromisso migrou. Mas a nova realidade política abre espaço para uma dinâmica de acordo, lastreada na tradição de acolher imigrantes.

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Colher de chá para o Rony e seu depoimento (dia 30, 9:54).  E outra para o Marcel, pelo mesmo motivo (dia 30, 10:40).

31/10/2011

às 6:00 \ Brasil, China, Demografia, Globalização, Índia

Sete bilhões, mortos de fome, mortos de gordura

O superemergente bebê chinês- FotoThinkStock

Para os filhos intelectuais de Thomas Malthus e Paul Ehrlich nada mais assustador e sintomático que esta segunda-feira de Halloween, dia das bruxas, tenha a marca do bebê, do nascimento de um ser humano, que significa sete bilhões de habitantes no planetinha. E lá estão os alertas apocalípticos sobre superpopulação, guerra por recursos, fome, doenças e múltiplas mazelas.

A revista National Geographic ressalta com consternação que “é difícill não ficar alarmado”, mas bem melhor seguir a linha de uma excelente revista brasileira chamada VEJA. Na reportagem especial da edição corrente com o título Sete Bilhões de Oportunidades, VEJA enfatiza que “o novo inquilino da Terra é emblemático de um mundo em que a espécie humana tem sido extremamente bem sucedida diante das adversidades”.

Eu não vou repisar o tom de VEJA (caro leitor desta coluna, vá lá, leia uma reportagem bem mais abrangente do que esta rápida pensata), mas, em um esforço de marcar presença nesta data redonda (de bebê gordo), vou acrescentar alguma coisa. O inquilino do planeta de número sete bilhões, já sabemos, terá quase que certamente uma vida mais afortunada do que os bilionários anteriores. Basta ficar na própria Índia, pois nenhum país gera mais medo de superpopulação do que este gigante emergente. Na Índia, a produção de comida tem crescido mais do que a população desde a Revolução Verde dos anos 60. Sim, as mazelas existem e vão persistir por um bom tempo, mas um bebê indiano nascido em 2011 tem quase o dobro de probalidade de sobreviver o primeiro ano de vida do que um nascido em 1960.

Será que o prato está meio cheio ou meio vazio? Com esta metáfora meio anoxérica, chegamos num ponto interessante. É o argumento que colide com os alertas automáticos do gênero Oh My God de gente catastrofista de guerras iminentes sobre recursos. Os conflitos e desafios são ainda mais complexos. Consumidores de países emergentes (e no saco de mantimentos podemos colocar Índia, China e Brasil), com cada vez mais renda disponível, vão adotar um cardápio mau presságio para a saúde e os custos resultantes. São multidões ávidas para consumir o refrigerante, o salgadinho, a porcaria açucarada e o hambúrguer gorduroso.

Como no caso do álcool, do cigarro e de outras drogas, há o conflito entre o preço da segurança alimentar e liberdade individual de escolha. Nas palavras de um recente editoral do jornal Financial Times , “os indivíduos têm o direito às indulgências, mas também responsabilidade sobre os custos”. Se somos bebês em educação alimentar e na consumação de vícios e prazeres, será que não faz sentido o estado-babá para policiar e coibir alguns de nossos hábitos? Os excessos policialescos irritam, mas cruzadas como a do prefeito Michael Bloomberg, em Nova York, são pertinentes. Muitos estados americanos, em tempos de arrocho fiscal e crescentes custos de saúde, se inclinam pesadamente para o chamado “imposto sobre o pecado”.

Obviamente, obesidade ainda é mais visível em países ricos (ou cada vez menos ricos e com bolsões de pobreza, como nos EUA, que ajudam a explicar a má nutrição ao ritmo fast food), mas a condição se alastra por outras partes do mundo, no fenômeno conhecido como “globesidade”‘: 1/4 da população do planeta está acima do peso. Thomas Malthus realmente errou esta de longe. E há partes do mundo em desenvolvimento em que obesidade convive com a fome.

Mas já que começamos falando da índia, vamos terminar falando da China, superpopulosa e supermergente. A ditadura comunista implantou o controle de natalidade com a política de “filho único”. Esta geração é a mais gorda da história chinesa. Nada mais irônico que num período de 50 anos, a China tenha feito a jornada da desastrada política agrícola do maoísmo que matava milhões de fome para uma abertura econômica que pode matar por obesidade. Como diz Thomas Barnett, o geoestrategista que escreve na World Politics Review, uma dávida da globalização foi mover a humanidade da era da subsistência para a era da abundância (não para todos, evidentemente). Velhos problemas convivem com os novos, como lidar com um sucesso sem precedentes. Prato meio vazio, prato meio cheio.
***
Colher de chá para o Jorji (dia 31, das bruxas, 12:29), com um comentário original e polêmico, como é a sua marca. Também uma colher para todos os leitores que elogiaram minha gravata no último Manhattan Connection. Sorry, por plagiar o trocadilho infame de um leitor aqui, mas a gravata estava gozada.

 

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