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Obama se divorcia dos princípios no casamento gay

Só em 8 estados e em Washington

Eu estou como o vice-presidente americano, o democrata Joe Biden, que se diz “absolutamente confortável” com o casamento gay. Na sequência, esta semana, o ministro da Educação Arne Duncan disse algo semelhante. Mas na sua politicagem eleitoral, o presidente Barack Obama não dá sua benção, embora lá no seu íntimo ele concorde com os subordinados.

Com a prevaricação, Obama frustra a base mais liberal (e gay) e alimenta a ansiedade do país mais jovem, cada vez mais confortável nestas questões sociais e morais. O presidente quer se preservar em um terreno ainda minado. Eleições são ganhas em um punhado de “swing states” (estados oscilantes), como Carolina do Norte, onde na terça-feira foi aprovada uma legislação banindo não apenas o casamento gay, mas a união civil entre pessoas do mesmo sexo (este duplo banimento já acontece em 19 dos 50 estados, sendo que 30 proíbem apenas o casamento).

A emenda constitucional estadual na Carolina do Norte definindo casamento como estritamente entre um homem e uma mulher foi aprovada por margem folgada. Mas uma crescente maioria dos americanos evolui a favor do casamento gay de uma década para cá. É verdade que a pesquisa Gallup na terça-feira mostrou uma queda do apoio de 53%, no ano passado, para 50%, com desaprovação de 48%. Mais ilustrativa é uma outra pesquisa, esta NBC/Wall Street Journal de março: 49% a favor do casamento gay e  40% contra. Era o reverso em 2009.

Basta ver a crescente aceitação de diversas orientações sexuais em programas de televisão. O seriado mais popular  é Modern Family, da rede ABC, onde o casal gay (Cameron e Mitchell), está tentando adotar um segundo filho na atual temporada. O país avança no tema e  Obama diz há tempos que está evoluindo no tema (é a favor de união civil entre pessoas do mesmo sexo). Mas numa merecida maldade, a publicação de esquerda The Nation observou em 2009 que o presidente “evolui para a direita”.

No começo de carreira política, o professor de Direito Constitucional e campeão de direitos civis era um aberto defensor do casamento gay. Mas Obama foi subindo na escada politica e descendo nas convicções. Estimou que não trazia benefício eleitoral tanto liberalismo moral e nos direitos civis. Entre eleitores democratas, há setores que resistem ao casamento gay. Um exemplo é o eleitorado latino, mais conservador em questões morais. O mesmo acontece entre negros. A maior evolução no apoio ao casamento gay acontece entre mulheres, base crucial de apoio aos democratas

Para Obama, até hoje foi conveniente ficar na pista lenta, embora tenha assumido posições históricas como o repúdio ao compromisso “não pergunte, não conte”, em que militares escondiam sua orientação sexual. Mas agora o presidente foi ultrapassado por seu próprio vice Biden, que pertence a uma geração mais velha. Claro que a declaração de Biden também serve como um lance para apaziguar setores que votam nos democratas e que estão decepcionados com a reticência de Obama na questão do casamento gay. Com oportunismo, os democratas tentam se cobrir como podem, tanto com setores mais abertos, como os mais comedidos.

Sei, sei dos cálculos políticos, mas seria legal (em todos os sentidos) que a prevaricação política fosse alijada e o presidente se casasse com seus princípios. Do republicano Mitt Romney não se espera audácia na questão. Ele também está evoluindo, se desviando já para o acostamento à direita da pista. Romney firmou a promessa do grupo antigay Organização Nacional pelo Casamento, cobrando do Congresso, entre outras coisas, a aprovação de uma emenda na Constituição federal banindo o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Hoje ele é legal em oito estados e na capital Washington.

O estado de espírito do país sobre homossexualismo se desloca na direção certa de mais tolerância (em meio a estes bolsões de resistência principalmente encastelados no Partido Republicano e no universo evangélico), mas um líder (e este é o cargo de Barack Obama) deveria de vez em quando assumir mais riscos, abandonar a pista lenta e fazer a sua parte para acelerar a marcha para uma guinada moral e cultural.

ATUALIZAÇÃO: A evolução do presidente Obama finalmente terminou. Na tarde de quarta-feira, em entrevista `a rede de televisão ABC,  ele deu apoio ao casamento entre pessoas do mesmo sexo. É o primeiro presidente no exercício do cargo a assumir a corajosa posição. Obama deixou claro que se trata de sua opinião pessoal e que a decisão a respeito cabe a cada estado.  Considero a decisão correta, como cerca de metade da opinião pública americana. O anúncio presidencial obviamente terá implicações na campanha eleitoral, pois o candidato republicano Mitt Romney tem posição diametralmente oposta à opinião do presidente.  O lance de Obama é, repito, correto,  mas também esperto e, ao mesmo tempo, arriscado.

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Não consigo me divorciar de leitores. Colher de chá para o Amauri, Felipe e Maisvalia que me cercaram logo cedo (dia 9) para debater o tema da coluna. Pedi um “break”, não para fugir do debate ou por falta de argumentos, mas simplesmente por estar casado com outros compromissos. 

Primeira Impressão (Partidos Americanos)

Paridade entre partidos

O nome do analista eleitoral Sean Trende permite trocadilhos com “trend” (tendência, em inglês) e ele é bom no assunto, tema do seu primeiro livro, Lost Majority, sob medida quando esquenta a corrida eleitoral americana. Um dos negócios de Trende, analista do obrigatório site RealClearPolitics,  é descartar falsas tendências nos EUA., especialmente quando envolvem teorias partidárias de realinhamento. Na época em que George W. Bush governava o país na década passada, seu guru Karl Rove anunciava uma “maioria republicana permanente”. A “sólida” tendência foi substituída com a vitória de Barack Obama em 2008 pela narrativa da “emergente maioria democrata”. Na sequência, os republicanos triunfaram nas eleições para o Congresso em 2010. E o que vem pela frente?

No seu livro de desconstrução dos mitos de realinhamento permanente, Trende caracteriza o atual quadro político, partidário e eleitoral como o “mais difícil de ser entendido em décadas, pois são “tempos de quase paridade entre os partidos”. Um termo muito usado por analistas é de extrema volatilidade eleitoral. Os partidos não conseguem saborear uma vitória, na medida em que ela escorrega rapidamente.

Trende argumenta que não devemos vislumbrar tão cedo maiorias duradouras republicanas ou democratas. Ele não é muito camarada com triunfalismos partidários. Claro que a teoria será colocada `a prova nas eleições de novembro, embora, de novo, não se espere um triunfo avassalador de nenhum dos dois partidos.

Trende descarta estes realinhamentos duradouros, mas argumenta que um cenário plausível na política americana são os “partidos racializados” e também com componentes de guerra dos sexos, algo duplamente preocupante. Homem branco, especialmente de classe sócio-econômica mais baixa, é republicano, enquanto a coloração dos democratas é marrom (negros e latinos), com toque feminino.

As causas são históricas: ressentimento de brancos sulistas, que eram democratas contra os direitos civis, o que resultou em uma longa marcha deles para o Partido Republicano (lembram-se? O partido de Lincoln), a deserção de brancos conservadores (filhos de imigrantes ) do Partido Democrata no norte do país, especialmente quando os republicanos asssumiram posições mais conservadoras e os democratas mais liberais nas chamadas guerras culturais. Em contrapartida, muitas mulheres buscaram refúgio no ninho democrata pelos mesmos motivos. E a agenda democrata favorecendo cotas raciais e subsídios sociais reforçou os laços do partido com minorias e mulheres.

As tendências para um Partido Republicano mais macho e mais branco e um Partido Democrata mais marrom e feminino se cristalizaram ao longo de décadas devido a mudanças constitucionais, sociais e econômicas. E hoje os políticos têm incentivos para seduzir o eleitorado com base nestes traços. No entanto, mudanças sociais e econômicas podem levar, por exemplo, o eleitorado latino a afrouxar seus laços com os democratas. Isto pode acontecer se imigração deixar de ser um cavalo de batalha para os republicanos ou o partido der um “upgrade” a políticos latinos (como candidato a vice-presidente). Já do outro lado, o Partido Democrata não pode se dar ao luxo de alienar o bloco de homens brancos, cada vez mais alinhado com os republicanos.

Partidos “racializados” movidos a guerra dos sexos seriam um péssimo caso de realinhamento político duradouro nos EUA.
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Com meu espírito bipartidário (really), colher de chá para o João Felipe e o Pablo, pelos vários comentários na sexta-feira.

A saúde de Obama e a justiça americana

Maioria conservadora na Corte Suprema, mas... Foto Getty

Para quem está cansado de acompanhar a maratona das primárias presidenciais americanas, existe uma opção a partir desta segunda-feira. São três dias de extenuantes apresentações de argumentos orais na Corte Suprema, em Washington, sobre a lei de reforma de saúde do governo Obama, aprovada há dois anos por uma margem estreita no Congresso. Serão seis horas de argumentos, a favor e contra. Desde 1966, a Corte Suprema não dedicava tanto tempo a um tema individual. E, ilustríssimos leitores e leitoras, vou tratar do tema com a merecida aridez. Fiquem despertos!

A decisão dos nove juízes será em junho, quando -esta é a suposição- os republicanos já terão seu candidato presidencial e assim os desdobramentos da decisão judicial serão cruciais na campanha para as eleições de novembro. Em uma situação extrema, a suprema vitória legislativa de Barack Obama poderá resultar na sua derrota eleitoral (o triunfo no Congreso em março de 2010 já foi fugaz, pois contribuiu para os democratas perderem o controle da Câmara nas eleições de novembro daquele ano). A politização do tema é inevitável e a decisão será histórica, pois irá além da eleição, na medida em que envolve questões como o modelo de relação entre o estado e os cidadãos, a alocação de poder entre o governo federal e os estados e a autoridade do Congresso para lidar com os problemas nacionais.

Não estão em julgamento aspectos da reforma de saúde como a eficiência de serviços ou os custos econômicos, mas sua constitucionalidade. Em termos essenciais, os três dias de audiência vão examinar o desafio legal ao mandato individual da lei de 2010, que força quase todos os consumidores a terem seguro de saúde através de planos privados ou programas públicos (haverá subsídios para quem não puder pagar). Num país com seu DNA individualista, um argumento visceral do desafio é que este mandato universal é uma ameaça à própria liberdade individual. Revogar a reforma de saúde se converteu em uma cruzada conservadora.

Em termos técnicos, o desafio, que tem como ponta- de-lança duas dúzias de procuradores-gerais de vários estados governados pelos republicanos, argumenta que o governo federal excedeu de sua autoridade sob a cláusula de comércio interestadual da Constituição, ao exigir que os cidadãos comprem um produto, o seguro de saúde. Esta cláusula permite que o governo federal regule atividades que afetam atividades comerciais nacionais. Para os oponentes, não comprar um seguro de saúde é uma “inatividade’ e não uma “atividade”. Nas inevitáveis hipérboles, o argumento vai ao ponto de alertar que próximos passos serão o governo decidir quantas vezes um cidadão poderá ir ao médico por ano ou que deve comer brócolis para se manter saudável (esta verdura é sempre campeã de escárnio, uma injustiça, pois eu gosto dela).

Já os defensores lembram que o argumento funciona ao contrário. Se a Corte Suprema derrubar o mandato universal na saúde, poderá abrir um precedente, por exemplo, contra o seguro obrigatório de carro. Em termos mais básicos, os defensores dizem que não há como argumentar que o sistema de saúde nos EUA não seja um comércio interestadual.  Nos últimos 75 anos, a Corte Suprema expressou deferência à autoridade do Congresso na esfera sócio-econômica. Os defensores também argumentam que não há como diferenciar ação de inação. Decidir não ter um seguro de saúde é uma ação financeira ou, por exemplo, a inação de não pagar impostos é sujeita à regulamentação governamental e penalidades.

A Casa Branca se diz confiante na vitória judicial e não tem um plano alternativo (numa pesquisa do equivalente americano da OAB, 75% dos especialistas em Corte Suprema disseram acreditar que a maioria dos juizes irá concluir que a obrigatoriedade do seguro médico é constitucional). Ironicamente, nestes últimos dois anos, o governo fracassou na tarefa de “vender” a reforma de saúde para a opinião pública e o tema impulsionou o Tea Party, além de ter se tornado cavalo-de-batalha para os republicanos e munição para os adversários do favorito nas primárias, Mitt Romney, que, quando era governador de Massachusetts, implantou um programa estadual com mandato individual.

Os democratas não se cansam de lembrar que o Romneycare (a assistência Romney) inspirou o Obamacare, assim como propostas da conservadora Fundação Heritage, delineadas para trazer mais eficiência e menos custos para um sistema de saúde que consome quase 20% do PIB americano. Romney hoje insiste que seu objetivo é revogar o ObamaCare.

Existem um foguetório de lobies e mobilização popular em torno desta audiência na Corte Suprema. Para dizer o mínimo, a opinião pública está polarizada (com republicanos esmagadoramente contra a reforma da saúde nos moldes aprovados e democratas, a favor). Existem, porém nuances, com apoio a alguns componentes, caso da proibição para seguradoras descartarem pessoas com condições médicas pré-existentes, e rejeição a outros, caso do mandato individual.

A corte presidida pelo juiz John Roberts é conservadora (com frequentes votações de 5 x 4), Mas isto não significa que seja fácil prever como ela irá se comportar neste caso. Alguns dos juízes conservadores já defenderam a cláusula de comércio interestadual em decisões similares, embora não desta magnitude. Os juízes podem tanto ratificar a lei, rechaçá-la, acolher parte dela ou decidir que é cedo tomar uma decisão na medida em que a reforma da saúde apenas será plenamente implementada em 2014.

A expectativa é de que os juízes não atuem de forma partidária em uma decisão histórica no calor da campanha eleitoral e tendo como pano de fundo a decisão na Corte Suprema no ano 2000 que assegurou a vitória do republicano George W. Bush contra o democrata Al Gore, após uma controvertida recontagem de votos.

Melhor acreditar na isenção da Corte Suprema. Afinal, a independência do Judiciário é fiadora da saúde da democracia americana.

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Colher de chá matinal para o Rodolfo (dia 26, 9:54) e uma vespertina para o Pablo (dia 26, 14:06), pelos argumentos opostos apresentados aqui diante do Supremo (eu, hehehe). E mais uma para J.R. (dia 26, 14:59), pelo depoimento pessoal.

Curtas & Finas (Barack Hussein Obama)

Obama na Mesquita Azul em Istambul - Foto Getty

Eu admito que fico ligeiramente irritado quando alguém escreve ou diz que o atual presidente dos EUA se chama Barack Hussein Obama. Por que a ênfase no nome do meio? Há ainda a provocação de meramente tratá-lo como “Hussein”, ele, o presidente eleito democraticamente. A mensagem é que Barack Obama é o outro? Um muçulmano suspeito? O anterior na Casa Branca era George Bush, no máximo se acrescenta o W do nome do meio para diferenciá-lo do pai também presidente. Não se menciona o Walker. Para ficar nos mais recentes: William Jefferson Clinton, George Herbert Walker Bush, Ronald Wilson Reagan, James Earl Carter, Gerald Rudolph Ford, Richard Milhous Nixon e Lyndon Baines Johnson. Poucos conhecem os nomes do meio destes ex-presidente. No entanto, o Hussein do Barack Obama está consagrado. O único desconto que dou é o fato de ser realmente um nome mais “exótico” para os americanos.

Bem, parágrafo do meio desta pensata, vamos ao que interessa: antes das primárias republicanas na terça-feira no Mississippi e Alabama foi divulgada uma pesquisa reforçando os piores preconceitos contra os habitantes destes dois estados sulistas. Uma boa maioria dos republicanos não acredita na teoria da evolução e em número expressivo acham que Obama seja muçulmano. Vamos ficar com a segunda parte. Sites e blogs liberais estão fazendo a festa com estes dados da firma Public Policy Polling (que é ligada ao Partido Democrata), mostrando que 52% dos republicanos no Mississippi acreditam que Obama seja muçulmano e 45% no Alabama.  A chacota é uma bobagem (embora eu mesmo tenha feito piada sobre a ignorância dos rednecks, os caipiras sulistas). A pesquisa estimula a resposta. A pergunta é perniciosa. Se o objetivo fosse combater preconceito,  é um método errado.

Uma blogueira liberal esperta, Anne Marie Cox, falou coisa com coisa. Disse que muita gente gosta destas histórias pois elas confirmam suspeitas que os críticos de Obama sejam uns broncos, gente racista e islamofóbica (claro que estas espécies existem).  Mas acreditar que Obama não seja cristão (ou terráqueo) não torna alguém fundamentalmente contrário a ele.  Conservadores se opõem a Obama por razões variadas. Um eleitor com algum tipo de ressentimento ou frustração sobre a economia, o plano de saúde do governo ou o projeto sobre métodos anticoncepcionais, quando perguntado se acredita que o presidente seja muçulmano, pega no embalo de uma pergunta maliciosa. Pesquisas que contam envolvem perguntas sobre o desempenho do presidente ou se preferem se ele fique na presidência e não Willard Mitt Romney ou John Richard Santorum.

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Colher de chá matinal para o Ronaldo por seu vigor logo cedo e observações vigilantes.   Fui menos vigilante e o Celio fez uma correção apropriada (dia 15, 16;12). Colher de café.

Homens são de Marte e mulheres são de Vênus e Obama

Obama faz discurso para mulheres - Foto Kevin Lamarque/ Reuters

Vamos falar de sexo, mas só um pouco. Eu não tenho muito a dizer sobre o assunto em público, como é o caso de candidatos republicanos à presidência americana. Eles cometeram pecado politico e agora que paguem. Não adianta culpar a mídia liberal, o politicamente correto e o presidente democrata Barack Obama, em campanha de reeleição. Seria estupidez política da parte de Obama não tirar proveito da carolice republicana. Obama, movido a populismo, já investiu em guerra de classes (os 99% contra 1%, entre eles, Mitt Romney). Agora ele fatura com a guerra dos sexos.

Os candidatos republicanos, a destacar Rick Santorum, ressuscitaram as guerras culturais, em temas como métodos anticoncepcionais (meu Deus, o assunto já está sacramentado). Aborto é um assunto mais complicado, que divide inclusive as mulheres (ao contrário de métodos anticoncepcionais), mas o radicalismo partidário (a palavra correta é reacionarismo) em questões sociais e morais incomoda mulheres, mesmo republicanas moderadas, sem falar as independentes. Quem são estes homens republicanos para dar lição de moral e ditar regras em assuntos reprodutivos da mulher?

A Casa Branca esteve por um momento na defensiva quando enfureceu a hierarquia da Igreja católica, ao insistir que hospitais católicos oferecessem seguro médico que cobrisse métodos anticoncepcionais. Precisou alterar a política, ainda batendo na tecla de que se trata de uma questão de saúde da mulher e não de guerra à religião, como apregoam os republicanos. Mas, sortudo como de hábito, Obama foi abençoado pela cafajestice do papa do talk-radio conservador, Rush Limbaugh, que chamou de vadia e prostituta uma estudante da Universidade de Georgetown (católica), que advoga esta cobertura médica.

O debate sobre religião e exorbitância do papel do estado se converteu em uma conversa sobre falta de civilidade e mulheres. E também sobre falta de macho entre os republicanos. Um cardeal dos colunistas conservadores, George Will, perguntou: se Mitt Romney não teve coragem de encarar para valer Limbaugh por sua cafajestice, como vai enfrentar os aiatolás iranianos numa crise nuclear? Ok, meio folclórica a analogia de George Will. De qualquer forma, ela mostra a exasperação mesmo de gente conservadora com o primarismo republicano nestas primárias.

Em questões de mulher, o partido dá o palco para o coro evangélico e tem um tom pré-revolução feminista. Rick Santorum chegou a lamentar o “feminismo radical” que encoraja mulheres a trabalhar fora de casa, sem falar de suas perorações que sexo deve ter função reprodutiva e não de prazer. Bem, agora é hora dos republicanos sofrerem na pele. Basta ver a pesquisas recentes. A situação de Obama ficou um pouco mais confortável neste primeiro trimestre, com alguns sinais de melhoria na economia e o desgaste republicano na guerrra civil das primárias. Mas é simplesmente escandalosa a vantagem do presidente entre mulheres.

Há duas décadas existe o fosso dos sexos nas eleições. Mulheres votam mais nos democratas e os homens, nos republicanos. Mulheres são receptivas a um governo mais intervencionista, porém acolhem com menos ardor intrusões na vida privada. No geral, mulheres são mais liberais do que homens em questões sociais e menos fogosas para apoiar guerras. Este fosso diminui ou desaparece numa crise econômica. Nas eleições para o Congresso em 2010, os republicanos trucidaram os democratas, mesmo entre mulheres. As pesquisas das últimas semanas recolocaram as coisas nos eixos (para os democratas).  Se as eleições fossem hoje, Obama massacraria qualquer oponente republicanos no voto feminino. Em alguns pesquisas, diferença na faixa de 20 pontos. O consolo republicano é ter um bastião entre homens, a destacar brancos de nível econômico e educacional mais baixo.

Meu conselho para os republicanos: falem menos de sexo (se quiserem, façam bastante). O fosso entre sexos em eleições é um problema muito mais grave para os republicanos. Não se trata apenas desta radicalização para a direita do partido, que ficou ainda mais flagrante na atual temporada das primárias. É mera demografia eleitoral. Mulheres são maioria e votam mais do que os homens. Ganharam este direito bem antes da revolução feminista.

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Colher de chá matinal para o infatígável cabo eleitoral republicano Maisvalia (dia 12, 9:25). E uma colher de chá vespertina para a Vera (dia 12, 15:15), pelas colocações sobre religião.

Curtas & Finas (Caciques & Índios)

Romney precisa selar o casamento com a base - Foto Brian Snyder/ Reuters

Com calculismo, com relutância e com alarme, cada vez mais caciques republicanos se alinham com Mitt Romney. Eles esperam que as prévias desta terça-feira em 10 estados, a Super Tuesday, sele o casamento desconfortável, porém, definitivo (até que a vitória na eleição presidencial de novembro os separe) entre a base partidária e um candidato que durante meses (inclusive por este colunista) foi definido como inevitável, até que obstáculos inevitáveis em qualquer campanha surgiram. Obstáculos como gafes, surpresas, volatilidade e a radicalização para a direita da base do Partido Republicano.

Estão aí os números da pesquisa Wall Street Journal/NBC News. Romney recuperou a liderança nas prévias republicanas (em termos nacionais). Mas a má noticia para ele é que sofreu ferimentos graves, na percepção da opinião pública, devido à guerra civil republicana e o tom negativo da campanha. A taxa de aprovação do presidente democrata Barack Obama alcançou a marca de 50%, a mais alta desde maio, com maior confiança popular na economia e também mais desconfiança dos candidatos republicanos. Por esa pesquisa, Obama venceria Romney por seis pontos (50 a 44)). Se o adversário fosse Rick Santorum, a diferença seria de 14 pontos (53 a 39). No caso de Newt Gingrich, de 17 (54 a 37). Depois de Romney, o adversário mais forte contra Obama seria Ron Paul (8 pontos  de diferença, 50 a 42), uma mostra do appeal deste político iconoclasta entre eleitores independentes e democratas desencantados com o presidente. E mesmo entre eleitores republicanos existem sinais de fadiga com a maratona das prévias presidenciais, com queda de interesse para participar da eleição de novembro.

Mesmo influentes senadores e deputados conservadores, como Eric Cantor, o líder da maioria republicana na Câmara, já se alinham com Romney. Os cálculos dos caciques republicanos fazem sentido. Só falta combinar com os caciques dissidentes e os índios rebeldes.

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O cacique aqui dá colher de chá matinal para o Ricardo (dia 6, 10:04), pelo comentário sobre os índios republicanos. E um prêmio especial para o Carlos Cezar. Ele  merece uma chaleira pela profusão de comentários na manhã desta terça-feira. Nossa, quanta premiação hoje, parece o Golden Globe. E uma colher de café para a Karla (dia 6, 11:14) por inflar meu ego e elogiar os títulos criativos desta coluna.

03/02/2012

às 6:00 \ Democratas, Eleições 2012, EUA, Obama, Republicanos, Romney

Primeira Impressão (O Mito do Declínio Americano)

USA! USA! USA!  A patriotada apenas aumenta em campanha eleitoral, com setores republicanos inclusive questionando o patriotismo do presidente Barack Obama. Solução, muitas vezes, é ser mais realista do que o rei. E Obama se enrola cada vez mais na bandeira, para rechaçar as críticas de que seja derrotista, declinista ou avesso a aceitar o excepcionalismo americano. USA! USA! USA! Melhor ainda, como no jogo, o negócio é tentar roubar a bandeira do adversário.
 
Marotamente, a assessoria da Casa Branca anuncia que o presidente simplesmente ficou “enamorado” do ensaio de Robert Kagan, na revista New Republic  contra o mito do declínio americano. E quem é Kagan? É assessor da campanha de Mitt Romney para segurança nacional e política externa.  No ensaio (que é um enxerto do seu novo livro The World America Made), Kagan argumenta ser falsa a narrativa sobre o declínio americano ou que seu poder e influência estejam se desvanecendo devido a problemas econômicos, ascensão de outras potências mundiais, o fracasso americano para resolver grandes problemas e vai por aí.

 
Kagan reconhece que declínio é um risco e se acontecer será perigoso. Ele salienta que declínio é uma “escolha’”, arrematando que “impérios e grandes poderes ascendem e caem e que a única questão é quando. Mas o quando importa. Se os EUA começarem o declínio nas próximas duas décadas e não por outros dois séculos será muito importante, tanto para os americanos, como para a natureza do mundo em que vivemos”.
 
Não é preciso se enrolar na bandeira nem ser americano, para aceitar um fato: na frase da ex-secretária de Estado, Madeleine Albright, os EUA serão uma “nação indispensável” por um bom tempo, num mundo de maior ou menos multipolaridade geopolítica e geoeconômica. Será que alguém vai se enrolar na bandeira chinesa e achar que Pequim tenha envergadura para assumir tão cedo as responsabilidades (com a carga e privilégios) de uma liderança global?
 
Nos referenciais de política doméstica e jogo eleitoral,  os republicanos advertem que o declínio será acelerado se Obama e os democratas seguirem à frente do país. Mitt Romney, o chefe de Kagan, ja disse em debate que “nosso presidente acredita que os EUA estejam em declínio. Está se ele é o presidente. Não estará se eu for o presidente”. Obama, ainda presidente e em busca de reeleição, como eu disse, quer roubar a bandeira do adversário. No seu discurso sobre o estado da união, na semana passada, Obama afirmou “qualquer um que diga que os EUA estejam em declínio ou que sua influência esteja minguando, não sabe do que está falando”.
 
E todos os candidatos estão falando: USA! USA! USA!
Colher de chá para a Carmem! Carmem! Carmem! (dia 3, 9:47), que seus desejos se realizem.

O estado da união, de Obama e dos republicanos

Barack Obama discursa no Congresso americano - Foto: Reuters

O estado da união é de injustiça econômica e de privilégios aos mais ricos, assim falou o milionário Barack Obama no seu discurso na terça-feira, em sessão conjunta no Congresso. Assim, o estado de sua campanha de reeleição é de populismo. E o Congresso foi o cenário para um comercial de campanha, quando Obama precisa dividir o palco com os os republicanos na guerra civil das primárias para escolher o seu candidato.

Há um estado de frustração com o desemprego no país, O presidente acena com dias melhores para os desempregados e investe nos temas de desigualdade social e os impostos pagos (e não pagos) pelos milionários. Obama assume o papel de paladino de uma classe média no sufoco (a maioria dos americano se identifica como integrante da classe média).

O risco deste populismo é que se torne uma mensagem de inveja e de ressentimento. Não é à toa que os republicanos martelam que o negócio do presidente é insuflar a luta de classes, para esconder o fracasso de sua política econômica e porque tem pendores socialistas. Que nada. É mero oportunismo populista e Obama no discurso inclusive deu os ombros a esta acusação de luta de classes, rebatendo que cobrar mais impostos de milionários é, na opinião da maioria dos americanos (entre eles, Warren Buffett), bom senso.

Mas o maior adversário do presidente democrata não são os republicanos e seus slogans de campanha. É a economia, mas ela também pode ser camarada em novembro se estiver melhorando, mesmo aos trancos e barrancos (a destacar com uma diminuição do desemprego). Sei, sei, já falei isto algumas vezes por aqui. Meu estado parece ser de repetição.

Claro que a economia também pode despencar (e o desemprego voltar a subir). Aí não há discurso populista que salve Obama do povo frustrado. Quando o presidente fez seu discurso do gênero há um ano, ele sinalizou um otimismo prematuro. Vieram um tsunami no Japão, a degringolada na Europa, o impasse sobre a elevação do teto da dívida e alta do preços do petróleo. Em meados do ano passado, a conversa era sobre uma volta da recessão.

Hoje na narrativa mais otimista (muito otimista), existe a tênue esperança de que os EUA se descolem de uma Europa em recessão e resistam a um mundo emergente menos acelerado. Sem contar (literalmente) os monstros fiscais que continuam crescendo. Obama praticamente ignorou temas como déficit, dívida e o fardo dos programas sociais no seu discurso. Ele aposta na sorte (uma velha companheira desde que começou a carreira política no estado de Illinois). Sorte existirá se o calendário econômico corresponder ao calendário eleitoral.

Obama no seu narcisismo já recorreu a alguns dos mais importantes presidentes da história americana, como Abraham Lincoln, Franklin Roosevelt e Ronald Reagan (os republicanos, claro, fazem a conexão de Obama com o fracassado Jimmy Carter). Ultimamente os referenciais de Obama são o democrata Harry Truman que investiu contra um Congresso que “não fazia nada” na eleição de 1948 e o republicano Teddy Roosevelt, que no começo do século 20 cavalgou em uma missão populista contra uma plutocracia e a necessidade de mais regulamentação da economia

Mas nesta sincronização entre economia e eleição, talvez seja necessário trazer um outro presidente, um Bush, o primeiro (George H. W. Bush). É possível traçar alguns paralelos entre o momento de Obama e o da campanha de reeleição de Bush em 1992, quando a situação econômica era amarga (bem menos do que agora, evidentemente). Lembram-se do antológico slogan da vitoriosa campanha do democrata Bill Clinton? É a economia, estúpido!

A economia agora começa a ter um conserto. A questão é a velocidade. Bush tinha esta corrida contra o relógio há 20 anos e perdeu. A recuperação não aconteceu com rapidez suficiente para neutralizar a frustração dos eleitores (e quase 20% deles premiaram o independente Ross Perot). A recuperação foi apenas sentida no segundo e terceiros trimestres de 1993 e Clinton, já na Casa Branca, pôde assumir o cédito.

Bush pai, ainda por cima, teve o azar de encarar um bom candidato, Clinton, e houve a distração Perot. Obama comoveu na sua campanha inaugural em 2008 com sua narrativa pessoal e havia o impacto do simbolismo racial, mas ele não é bom de bola como Clinton no quesito empatia com o eleitor, especialmente para se conectar com a profunda ansiedade de uma classe média que se sente empobrecida (a pose populista deu, é verdade, uma melhorada).

Por enquanto, quem parece se conectar melhor com as ansiedades de um setor da população é o candidato republicano Newt Gingrich, mas explorando o ressentimento contra o “state of the union”. Bom para começo de campanha, mas complicado para finalizar. Gingrich carece do otimismo de um Ronald Reagan. Já Mitt Romney e empatia não rimam.

Na terça-feira, havia um texto ilustrativo no Wall Street Journal, de Bret Stephens, um dos mais cáusticos colunistas conservadores. Simplesmente exasperado, Stephens escreveu que os republicanos merecem perder as eleições. Ele simplesmente detonou o time dos quatro sobreviventes na maratona das primárias (Romney, Gingrich, Rick Santorum e Ron Paul). Para Stephens, Romney é só verniz. Carece de convicções. Sobre Gingrich, Stephens divagou que os eleitores nas primárias republicanas estão agora enamorados do candidato, não porque o visualizam na Casa Branca, mas pelo potencial de nocautear Obama num embate.

O estado de união é de campanha eleitoral,  o da economia, duvidoso, o de Obama já foi pior e o dos republicanos, por enquanto, de perdição.

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Colher de chá para o Rodrigo (dia 25, 10:53) pelo alerta contra as cansativas e despropositadas analogias entre Obama e Lula. E três colheres de café para o Pablo por três comentários em sequência (dia 25, 16:05, 16:19 e 16:36).  Assim, decreto falência. E  uma colher de sopa para o Henrique (dia 25, 17:09), pelo espírito cívico.

29/11/2011

às 6:00 \ Democratas, Eleições 2012, Republicanos

Curtas & Finas (Ross Perot/Ron Paul)

Ross Perot na campanha de 1992 - Foto Eugene Garcia/AFPCom 80% dos americanos insatisfeitos com o rumo do país e amplas maiorias desencantadas com os dois “partidões”, o cenário parece ideal para um candidato presidencial independente nas eleições do ano que vem. Num clima menos azedo (quando 40% dos americanos estavam insatisfeitos), o bilionário texano Ross Perot baratinou a eleição de 1992, conquistando 19% dos votos populares (zero no Colégio Eleitoral). O sucesso de Perot, que investia contra o déficit fiscal e a globalização, facilitou a vitória do democrata Bill Clinton e prejudicou o presidente republicano George H.W. Bush, que buscava a reeleição quando o país se safava da recessão.

É improvável que o bilionário prefeito de Nova York Michael Bloomberg faça um lance presidencial, o Bloomberg visto como centrista ou moderado. E um outro texano, sem o dinheiro, mas desbocado como Perot? O deputado republicano Ron Paul cativa um setor do país com sua mensagem de rigorosa disciplina fiscal (e um chamado bizarro e inviável pela abolição do Banco Central), um discurso libertário (que choca muitos conservadores por pedir, entre outras coisas, a legalização das drogas) e uma postura isolacionista (e irrealista) em política externa. Ron Paul está na corrida das primárias republicanas e não tem chances de vitória.

A imagem clássica de Ron Paul é do tio excêntrico que diz o que vem na cabeça na mesa de jantar. Mas com políticos movidos a marketing e com consistência de esponja, Ron Paul transmite integridade, como no debate dos candidatos republicanos da semana passada quando definiu tortura como tortura. Ele diz não ter “intenção” de concorrer como independente, mas não descarta a possibilidade.

Uma recente pesquisa Wall Street Journal/ NBC News revela que 18% de eleitores dariam o voto a Ron Paul, contra o presidente democrata Barack Obama e o republicano Mitt Romney. São cifras consideradas surpreendentes. No geral, a conversa de um lance presidencial independente assusta mais os republicanos do que os democratas. Mesmo um independente centrista seria mais favorável a Obama. Se for assim, na variação da frase clássica do marqueteiro de Clinton, James Carville, é a sorte, estúpido!
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Colher de chá para o Angelo (dia 29, 12:15) pela visão panorâmica e por devassar a cabine eleitoral americana.


 

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