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Arquivo da categoria Cuba

27/03/2012

às 6:00 \ Cristãos, Cuba, Direitos Humanos, Papa

Curtas & Finas (Papa & Castro)

O papa e Raúl em Santiago de Cuba- Foto Desdmond Boylan/Reuters

Claro que o papa Bento 16 detesta o comunismo, mas lá está o sumo pontíficie na ilha governada por aqueles irmãos Castro, educados em colégio de jesuítas. Tal visita é um dilema e muita gente, que também detesta o comunismo tropical da dupla Castro, não abençoa esta visita. É verdade que João Paulo Segundo, o bravo papa polonês que encarou de frente a abominação comunista na Europa Oriental e visitou sua terra natal em 1979 já como sumo pontíficie, também esteve na ilha  caribenha (1998).

Fidel,  que então governava, não se curvou às pressões por mais liberdade. Raúl agora no comando, mais pragmático e mais pressionado pela realidade, tem até se apoiado discretamente na Igreja para aliviar a carga sobre o estado combalido. As Ongs ligadas à Igreja católica são cada vez mais importantes em um país que precisa enxugar a anacrônica máquina assistencialista estatal. Por esta razão, o dilema cresce. A Igreja tem mais influência hoje do que nos anos 90, inclusive ao incentivar reformas econômicas (também é contrária ao embargo econômico americano).

O interlocutor local do ditador é o cardeal Jaime Ortega, que assume um papel cauteloso e pragmático nas relações com o estado comunista. Dentro da própria Igreja, além é claro no movimento dissidente mais amplo, existem vozes mais assumidas e críticas do papel institucional. Estas vozes pregam uma oposição mais aberta ao regime. Algumas destas vozes, inclusive entre líderes anticastristas na Flórida, acusam a hierarquia católica com um termo que é uma mácula: colaboracionismo.

De um lado, o pragmatismo do cardeal Ortega traz dividendos. A Igreja se converte em um ator importante, mas, de outro, ela oferece ganhos políticos ao regime. O regime de Havana acaba recebendo um sopro de legitimidade e assim pode resistir a mudanças mais abrangentes, embora empreendendo algumas reformas, especialmente na economia. Em contrapartida, o regime do partido único acaba tendo um parceiro e precisa ouvir alguns sermões sobre suas transgressões. Há um outro dilema. Uma resistência linha-dura poderá levar o regime a recuar de medidas de liberalização (inclusive religiosas) e radicalizar a oposição, quem sabe até no caminho da violência.

O papa encarna os dilemas. Antes de chegar à ilha, ele disse que a estrutura marxista em Cuba “não corresponde à realidade” e pediu a adoção de “um novo modelo”. Mas assim que desembarcou, Bento 16 reconheceu os esforços deste anacrônico regime para “se renovar e ampliar seus horizontes”.  A peregrinação papal em Cuba é tortuosa. Ossos do ofício do pastor da reconciliação.

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Colher de chá para o Benedito (dia 27, 11:32) pelo comentário provocativo (mais longo do que minha própria coluna), que trata sem piedade o regime cubano e o Vaticano.

Governo Dilma e republicanos são anacrônicos sobre Cuba

A lenga-lenga do Raúl - Foto Ismael Francisco/AFP

A presidente Dilma Rousseff está para começar viagem oficial a Cuba  Não deveria fazer esta visita. O porta-voz do Itamaraty Tovar Nunes justifica em burocratês que o objetivo da viagem é “sistematizar o relacionamento econômico” entre Brasil e Cuba e que interesses mútuos não são movidos por solidariedade política. Claro que são. No mundo não dá para ignorar realpolitik ou interesses econômicos. Mas também não dá para ignorar a camaradagem do Brasil com a ditadura cubana.

Como ignorar uma China a caminho de ser superpotência governada pela ditadura comunista? É chato ver como os EUA  “sistematizam” uma relação estratégica com a ditadura saudita, mas é um constrangimento necessário. No caso do Brasil, não só existe solidariedade política em relação a Cuba, mas um orgulho do PT governante com os irmãos (no sentido literal e figurativo) que governam a ilha-presídio. Falta constrangimento.
 A visita da presidente Dilma Rousseff, portanto, é um oxigênio para o regime cubano. Exceto para os cubanos na ilha-presídio, cubanos na Flórida e correligionários continentais, Cuba não tem maior importância. É basicamente uma mancha na consciência mundial. Cuba está lá embaixo na lista global de opressão. Começa a perder o bonde da história até para Mianmar, o país da briosa dissidente Aung San Suu Kyi, que finalmente empreende reformas políticas. A prêmio Nobel da Paz, que passou 15 dos últimos 23 anos em prisão domiciliar, está agora fazendo campanha por uma cadeira no Parlamento. Dá para imaginar quando a dissidente cubana Yoani Sánchez poderá fazer o mesmo?

 Raúl Castro tem um projeto de reformas econômicas e administrativas. Empreende passos cautelosos para Cuba se converter em Vietnã do Norte e não acabar na história como uma Coreia do Norte. O projeto é liberalizar a economia e separar o aparato partidário da gestão governamental, ao estilo norte-vietnamita.. Claro que isto, em nenhuma hipótese, significa afrouxar o monopólio do poder político.

É aquela coisa atroz do artigo 5 da Constituição cubana, que “sistematiza” a ditadura: “O Partido Comunista de Cuba é vanguar­da organizada da nação cubana, é a força dirigente superior da sociedade e do Estado, que orga­niza e orienta os esforços co­muns na direção dos altos fins da construção do socialismo do progresso na direção da sociedade comunista”. Numa reunião do PC no fim de semana, Raúl Castro reiteirou o plano de mandatos limitados para os dirigentes, mas nada de limites para a ditadura, pois fez mais uma ode ao sistema de partido único.

Existe resistência a estas reformas econômicas de Raúl Castro nos bastiões stalinistas do partido e da parte do ”big brother” Fidel. Neste anacronismo, cubanos na ilha estão irmanados a bastiões da comunidade anticastrista na Flórida. Candidatos republicanos à presidência em campanha no estado – devido às primárias desta terça-feira – têm uma linguagem durona na questão cubana. Prometem reviver o embargo total e acusam o presidente democrata Barack Obama de “apaziguamento”" em sua política cubana (também de ser frouxo sobre a Venezuela de Hugo Chávez). Mas esta “frouxidão” em Washington reflete uma suavização da própria comunidade cubana na Flórida.
 A linha dura republicana destoa dos novos tempos. Ironicamente, os republicanos americanos e petistas brasileiros estão irmanados em uma visão atrasada de Cuba. O argumento desta linha dura americana é que suavizar o embargo – medidas como permitir visitas familiares ilimitadas a Cuba e transferência de dinheiro para parentes -  dá sobrevida à ditadura cubana. Mas e o contra-argumento? Meio século de embargo é munição para a lenga-lenga castrista contra o imperialismo ianque (expressão tão surrada como a ditadura de Havana).
 Cubanos da Flórida querem investir em Cuba (tirando proveito de estímulos a pequenos negócios privados e liberalização no mercado imobiliário). Evidentemente, muito mais estará em jogo caso haja descoberta generosa de petróleo na fatia cubana do golfo do México. Aí, gigantes empresariais americanos deverão fazer um lobby da pesada contra o embargo econômico, que para ser derrubado exige aprovação do Congresso. O fim do embargo seria também uma farra para a “nomenklatura” no poder em Havana, abrindo espaço para corrupção ao estilo Rússia pós-comunismo.
 Pesquisas mostram esta suavização das atitudes dos cubano-americanos, como a que foi feita pela empresa Bendixen & Associated, a mais respeitada na radiografia da comunidade hispânica nos EUA. Os cubano-americanos estão divididos sobre o embargo: 41% contra e 40% a favor. Na avaliação da Bendixen, existe uma “evolução do pensamento” na comunidade anticastrista. A divisão de hoje contrasta com o consenso de anos atrás e reflete um conflito de gerações, com os mais jovens da comunidade cubana da Flórida favoráveis a maiores laços com a ilha, ainda uma ilha-presídio.
O eleitor cubano-americano é mais conservador do que os demais latinos nos EUA,  mas ele conta cada vez menos na Flórida devido à crescente diversidade da minoria no estado (quase 1/4 da população). Em 2008,  Obama derrotou o republicano John McCain entre os eleitores latinos na Flórida  (57% a 42%) e teve uma avanço expressivo entre os cubano-americanos (McCain obteve 53% e o presidente ficou com 47%).
São novos tempos. Washington também precisa “sistematizar” suas relações com Havana de um modo diferente, mas não ao estilo de Brasília. O desafio é manter laços com Cuba, sem manter a camaradagem com a ditadura Castro e lhe conferir uma sobrevida.
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Colher de chá inevitável para o Ricardo (dia 30, 12:11), o primeiro a fazer comentários depois de uns dias de seca devido a problemas técnicos.

15/09/2010

às 7:18 \ Cuba

Os golfinhos de Fidel

Chris McGrath /Getty Images

Eu aprendi na revista ”Superinteressante” que os golfinhos são inteligentes e espertos. A explicação estaria no tamanho do cérebro, ou,  melhor dizendo, na relação do peso e do cérebro com o peso do corpo todo. Os golfinhos só perdem para os humanos (quase todos).  E daí?  Precisava de uma isca para falar de Fidel Castro e os golfinhos do aquário de Havana.  Foi lá,  na semana passada,  na presença da veterinária Célia Guevara,  filha de “Che” que “El  Jefe” teve parte da antológica conversa com o repórter americano Jeffrey Goldberg,  da revista “The Atlantic”.

Entre outras coisas, “El Jefe” disse:  os golfinhos são realmente inteligentes,  o modelo cubano não funciona mais e Mahmoud Ahmadinejad deveria parar de arrotar sandices antissemitas.  Mais tarde,  Fidel quis desdizer o negócio do modelo cubano, mas,  agora na segunda-feira, o regime hoje governado formalmente pelo irmão Raúl anunciou que mais de 500 mil funcionários públicos serão demitidos,  num gesto desesperado para transformar uma economia falida em um sistema  mais lógico. Terapia de choque e um sabor de Cuba Libre. 

Julia Sweig, uma especialista em Cuba, do “Council on Foreign Relations”,  em Washington, que estava no aquário e no resto das conversas de Goldberg com Fidel,  disse que os irmãos Castro têm divergências (não sobre cétaceos,  mas sobre o futuro dos cubanos),  mas ela acha que Fidel não será um obstáculo para as reformas empreendidas pelo caçula.  Não é preciso ser muito inteligente para saber que os dois irmãos são dois polvos. Os golfinhos podem ficar presos no aquário e Célia Guevara até manter o seu emprego,  mas quem vai demitir o regime cubano?


 

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