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Arquivo da categoria Crise nuclear

22/05/2012

às 6:00 \ Crise nuclear, Egito, EUA, Europa, Irã, Israel, Uncategorized

Curtas & Finas (Gritos & Sussurros)

Os cochichos de Netanyahu e Barak

Eu tenho revelações bombásticas nesta terça-feira. Prontos? Quarta-feira vem aí. Será um dia agitado no mundo e aqui me limito a eventos programados: reunião de cúpula, em Bruxelas, dos dirigentes da União Europeia (mais pressão para a austera Angela Merkel amolecer), o primeiro dia do primeiro turno de históricas eleições presidenciais egípcias e uma intrigante rodada de negociações nucleares, em Bagdá, entre seis potências mundiais e o Irã.

No primeiro assunto (Europa), é previsível a capacidade europeia de empurrar com a barriga, no segundo (Egito) é imprevisível garantir quais candidatos irão sobreviver para o segundo turno (numa disputa em que ressurgiu até o nasserismo e na qual liberais e islâmicos da linha-dura salafista respaldam o mesmo candidato). Vou me concentrar um pouco mais no terceiro evento (Irã nuclear).

Existe no jargão diplomático, o chamado otimismo cauteloso de que seja possível romper o impasse. Por esta narrativa, o Irã sente o peso das sanções e todo falatório estridente não passaria de preparação para anunciar concessões (como aceitação de inspeções rigorosas de suas instalações nucleares e diminuição drástica da produção de urânio enriquecido). O tom otimista já foi manifestado nesta terça-feira pelo diretor da Agência Internacional de Energia Atômica, Yukiya Amano, acenando com um acordo pelo qual o Irã permitiria investigações de uma instalação suspeita de realizar testes para o desenvolvimento de uma ogiva nuclear.

Mas não posso passar batido pela estridência abjeta, como na declaração esta semana do chefe do Estado-Maior das Forças Armadas iranianas, general Hassan Firouzabadi, de solidariedade à causa palestina de “total aniquilação de Israel”. Do outro lado (a destacar os EUA de Barack Obama em campanha de reeleição), interessa algum tipo de compromisso para afastar o cenário de um ataque às instalações nucleares iranianas.

Falta sempre combinar com Israel  (aquele país que deve ser “aniquilado”) e aqui está a informação interessante: na imprensa israelense, há especulações, que para mim soam muito otimistas, de que o governo estaria mais flexível (ou resignado) na questão de enriquecimento de urânio iraniano. Tal disposição teria sido manifestada aos americanos pelo ministro da Defesa Ehud Barak, enquanto o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu mantém a postura pública de inflexibilidade.

Na segunda-feira, Netanyahu voltou a advertir o Ocidente para não mostrar fraqueza. E mesmo em público, também na segunda-feira Barak é durão. Ele alertou os países ocidentais que o Irã está apenas fingindo disposição para fazer concessões nas negociações. Alertas `a parte, Israel toparia que o Irã continuasse o enriquecimento de urânio no nível baixo de 3.5% (a partir dos 20%, o que já acontece, fica mais fácil saltar rapidamente para o nível que possibilita a construção da bomba).

Um cenário nestas negociações em Bagdá seria pavimentar o caminho para um acordo interino, pelo qual o Irã interromperia o enriquecimento de urânio a 20% e abriria mão de 100 quilos de material neste nível. Em troca, as seis potências mundias (EUA, Grã-Bretanha, França, Alemanha, Rússia e China) suspenderiam os esforços para impor novas sanções. No entanto, o embargo europeu de petróleo ainda entraria em vigor em julho, assim como as sanções americanas contra o Banco Central iraniano. Entenda-se por resignação em Israel o fato de que avanços efetivos em negociações inviabilizariam um ataque militar por uns tempos (bom para os EUA, bom para o Irã).

Vamos aguardar os desdobramentos nesta quarta-feira em Bruxelas, Cairo e Bagdá, além de ficar na escuta dos cochichos em Jerusalém.

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Colher de chá para os comentários (concisos, algo que é uma benção para mim) desta terça-feira do João Felipe sobre as sutilezas da história, guerra e da diplomacia. 

30/04/2012

às 6:00 \ Crise nuclear, Irã, Israel

Curtas & Finas (Israel & Israel)

Yuval Diskin (esq.) agora aperta Netanyahu

Será que Israel vai atacar as instalações nucleares do Irã? Eu não sei. Só sei que no momento o governo de Israel está sendo atacado e questionado dentro de casa. Mais complicado é saber os motivos. De semanas para cá, gente do aparato militar e de inteligência (ativa e reserva) foi à carga. Obviamente, estes profissionais não são pombinhas que voaram para as bandas do inimigo. Meir Dagan, o ex-chefe do Mossad (serviço de contraterrorismo e espionagem), novamente expressou sua oposição a ataques preventivos contra as instalações nucleares iranianas.

Dagan acredita que o regime de Teerã seja racional para tomar decisões, apesar da conversa do presidente Mahamoud Ahmadinejad de aniquilar Israel. Depois, foi a vez do chefe do estado-maior das Forças Armadas, general Benny Gantz, também racionalizar a liderança iraniana e enfatizar suas dúvidas se o regime islâmico queira realmente construir a bomba, diante do preço que pagará caso chegue a este ponto.

E, finalmente, tivemos as declarações mais pesadas de Yuval Diskin, ex-chefe do Shin Bet (inteligência doméstica), questionando a própria racionalidade, não dos dirigentes iranianos, mas dos israelenses (o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e o ministro da Defesa Ehud Barak), que foram cunhados como “nossos dois Messias”. Diskin disse nao ter “fé” na habilidade desta liderança para conduzir uma guerra em nome de Israel. No raciocínio de Diskin, um ataque preventivo pode levar o Irã a acelerar seu programa nuclear e dar legitimidade ao regime islâmico.

Os contraataques mais afiados foram disparados contra Diskin, acusado de ter uma agenda pessoal de ressentimento por não ter sido escolhido para chefiar o Mossad ou de ter ambições políticas, alinhado à oposição de centro e de esquerda que sonha com o desmanche da coalizão de direita chefiada por Netanyahu. As críticas foram lançadas quando esquenta a conversa sobre a antecipação das eleições gerais, programadas para o final de 2013, já para este segundo semestre.

Sociedades mais abertas (como a de Israel) ou mais fechadas (como a do Irã) têm jogos de rivalidades pessoais e políticas. No caso de Israel, com uma tradição de caótica democracia e de brutal franqueza nas relações entre seus cidadãos, este jogo é até mais escancarado. De qualquer forma, parece estranho quando altos ex-funcionários do serviço de informação resolver passar tanta informação. Pode realmente ser relutância sobre o que fazer com o desafio iraniano. Para quem gosta de intriga, uma especulação é que possa ser uma trama de desinformação para confundir os inimigos (e talvez os amigos).

Um cenário é que Netanyahu e Barak tenham o papel de “bad cops”, os policiais que pegam pesado no suspeito enquanto Dagan, Gantz e Diskin banquem os “good cops”, encarregados de falar macio, acalmar e fazer com que o suspeito fale sem ser intimidado ou na surra. Nesta metáfora, a idéia seria manter a pressão, ameaçar com um ataque para ver se é possível não ir às últimas consequências. Gente irritada com esta metáfora pode achar que Diskin e companhia são uns idiotas, que estão apenas encorajando um inimigo que vê dúvidas, caos e discórdia do outro lado.

Eu prefiro ver a confusão como fruto de um debate necessário em Israel em torno de uma decisão histórica. Em termos concretos, gente com credibilidade em Israel acaba se distanciando publicamente do governo Netanyahu e se aproximando de posições da comunidade internacionais (a destacar o governo Obama) de que é preciso dar mais tempo `as sanções e diplomacia antes de um eventual ataque e este deve ser fruto de uma ação coordenada e não apenas de Israel.

E eu, é claro, gostaria de ver bem mais dúvidas, nuances, caos e discórdia do lado iraniano.

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Colher de chá para o infatigável Carlos Cezar (talvez centenas de comentários sobre Israel). 

26/04/2012

às 6:00 \ Crise nuclear, Eleições francesas, EUA, França, Irã

Curtas & Finas (França & Irã)

Os aliados Obama e Sarkozy - Foto/Getty

Uma campeã da campanha contra o que considera islamificação da Europa, a líder da extrema direita francesa Marine Le Pen, não é muito chegada nos aiatolás de Teerã, mas tanto ela como Ali Khamenei estão se saindo bem no jogo eleitoral francês. Marine Le Pen não foi para o segundo turno, mas teve uma grande vitória com quase 20% dos votos dados `a Frente Nacional na primeira rodada.

Com a provável derrota do presidente conservador Nicolas Sarkozy contra o socialista François Hollande em 6 de maio, Marine Le Pen espera pegar o cetro da liderança da direita francesa. A derrota de Sarkozy será também uma vitória para os aiatolás, O presidente francês é complicado, hipócrita e oportunista na sua política externa, exagerando a importância francesa. Mas sua atuação decisiva em crises como da Líbia deve ser reconhecida e sua indignação com a brutalidade do regime Assad na Síria (aliado de Teerã) é louvável.

Sarkozy, conhecido como l’Américain, é bem mais próximo de Washington do que seu antecessor conservador Jacques Chirac (que era inclusive hostil aos interesses dos EUA, como aconteceu na guerra do Iraque). Sarkozy hoje está na linha de frente para unir o Ocidente contra as ambições nucleares iranianas. É verdade que ele compartilha com Barack Obama a antipatia pelo primeiro-ministro israelense Benjamim Netanyahu, mas tem até uma posição mais agressiva do que a do presidente americano sobre o Irã e aqui está mais afinado com Israel, no ceticismo sobre negociações nucleares, pressões por  sanções mais duras e tolerância zero com enriquecimento de urânio pelos iranianos.

Com François Hollande no poder, podemos esperar uma política externa francesa menos exuberante e menos determinada em relação ao Irã. Haverá mais determinação do político socialista para fazer cobrança em cima de Angela Merkel na crise europeia e muito mais foco nas questões domésticas. Tudo será menor com Hollande, a destacar na postura napoleônica, uma marca de Sarkozy.

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Colher de chá bem matinal para o Orlando, que comentou lá dos Pirineus (dia 26, 9:07). E uma vespertina para o Maisvalia (dia 26, 13:57), por um comentário crítico e autocrítico


16/04/2012

às 6:00 \ Crise nuclear, Irã, Israel

Um Prêmio Nobel que diz o que deve ser dito sobre o Irã

Shirin Ebadi

Colunista (termo que prefiro a blogueiro), eu deveria ficar feliz da vida quando um texto mexe com as “multidões” e gera uma pilha de comentários. Mas meus sentimentos são mais complicados, pois meu maior “sucesso” neste espaço acontece quando falo de Israel. Mexe com a massa, a favor e contra. E mexe comigo, pois estou a favor e contra, dependendo as coisas, nos dramas que envolvem Israel, como a crise palestina e o conflito com o Irã.

Na coluna de sexta-feira, por exemplo, me posicionei contra o escritor alemão Günter Grass por seu poema/panfleto O Que Deve Ser Dito, denunciando Israel como a grande ameaça à paz mundial e que um ataque preventivo israelense contra as instalações nucleares iranianas pode levar à aniquilação do povo iraniano. Mas também lamentei a posição israelense de declarar Grass persona non grata. E se eu fosse um escritor, Nobel de Literatura, como Grass, não ficaria orgulhoso por receber solidariedade do regime islâmico iraniano, aquele que fala em varrer Israel do mapa e decreta fatwas contra escritores, como aconteceu com Salman Rushdie , que, por sinal, qualificou a decisão de Israel de “melindre infantil”.

O tambor retórico de Grass fez muito barulho num debate já com muito alarido sobre a questão nuclear iraniana. Gostaria aqui de trazer a opinião de outra pessoa premiada com o Nobel, este da Paz, mulher e iraniana (primeira muçulmana agraciada com a honraria). Ao contrário de Grass, Shirin Ebadi não recebe elogios do regime islâmico. Ela é persona non grata na sua terra natal. Vive no exílio na Grã-Bretanha. Shirin Ebadi esteve na semana passada nos EUA para uma conferência e acaba de expressar algumas opiniões interessantes em uma entrevista ao site The Daily Beast.

No fim-de-semana, ocorreu uma rodada de negociações em Istanbul entre emissários de seis países (EUA, Grã-Bretanha, França, Alemanha, Rússia e China) com os iranianos. A conclusão é de que esta diálogo foi construtivo e que compensa apostar em uma segunda rodada, prevista para 23 de maio. Mas Shirin Ebadi não compartilha o cauteloso otimismo. Ela acha que o regime iraniano basicamente quer ganhar tempo, enquanto avança com o enriquecimento de urânio.

Em contrapartida, nossa premiada diz que as sanções econômicas internacionais estão tendo impacto sobre o regime, mas prejudicando a população. Existe uma teoria de que mesmo a oposição iraniana, aquela brutamente reprimida pelo regime, considera o programa nuclear um motivo de orgulho e um direito soberano. Mas aqui está um dos pontos mais interessantes das declarações de Shirin Ebadi. Ela diz que, na verdade, a população hoje é favorável ao fim do enriquecimento de urânio. O custo em termos do isolamento do país é pesado e há temor pela localização geográfica do Irã, numa zona suscetível a terremotos. A população morre de medo de um acidente ao estilo de Fukushima.

Shirin Ebadi não endossa as garantias do regime iraniano de que o programa nuclear não tem objetivos de fabricar a bomba e ela faz questão de dizer o temor é de que o alvo seria Israel. Shirin Ebadi, porém, não acredita que Israel tenha capacidade para lançar um ataque, enquanto os americanos carecem de apetite para a empreitada.

Para ela, o caminho para resolver a crise e o Irã abandonar seu programa nuclear passa pela derrubada do regime através de uma revolta popular. O levante fracassou em 2009. E hoje a população e o mundo pagam o preço. Valeu, Shirin Ebadi, Prêmio Nobel que fala o que deve ser dito.

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Colher de chá para a Carmem por alguns e mails (manhã do dia 16) sobre como proceder na questão iraniana. Alguns mais opinativos do que fundamentados, mas quase sempre com argumentos sólidos, que devem ser levados em conta, mesmo quando discordamos de alguns.

21/03/2012

às 6:00 \ Crise nuclear, EUA, Irã, Israel

A liga dos “atacólogos” aposta, ora, no ataque ao Irã

Os "war games" de Netanyahu e Obama - Foto Getty

Adivinhar quando vai terminar, terminar, terminar a corrida das primárias republicanas é um dos esportes da temporada. Um outro é se e quando terá lugar o ataque israelense às instalações nucleares iranianas. Existe uma espécie de liga dos “atacólogos”. São repórteres com bom acesso ao círculo decisório israelense. Um deles é Jeffrey Goldberg, da revista Atlantic e que também tem uma coluna no site da Bloomberg. Ele se juntou com mais ênfase ao time que acredita ser muito provável um ataque neste ano.

Goldberg escreveu na Bloomberg que, “após entrevistar muita gente com conhecimento direito do pensamento interno do governo israelense, eu estou altamente confiante que Netanyahu não está blefando e, de fato, ele está na contagem regressiva para autorizar um ataque contra meia dúzia ou mais de instalações nucleares iranianas”. Um tom semelhante foi registrado no imenso artigo de janeiro de Ronen Bergman (que trabalha no jornal israelense Yedioth Ahronoth), publicado na revista do New York Times. Mesma coisa com Aluf Benn, editor-chefe do também diário israelense Haaretz, com o argumento de que Netanyahu já prepara a opinião pública do seu país para um ataque.

Em meio a este senso de inevitabilidade (termo que Mitt Romney voltou a arrebatar de forma ainda mais convincente ao vencer com folga as primárias de terça-feira no estado de Illinois), existe a narrativa de que o presidente Barack Obama está desesperado para não ser arrastado para uma guerra sobre este programa nuclear. Obama teria contido Netanyahu, por ora, com seu compromisso de que os EUA não irão permitir de jeito nenhum que os iranianos fabriquem a bomba. Como parte da barganha com os israelenses, Obama precisaria mostrar serviço nos próximos meses com diplomacia e sanções redobradas.

Nesta linha que Israel não está blefando, os “atacólogos” em geral esperam uma ação antes das eleições presidenciais americanas de novembro. Entre as razões: os avanços iranianos no seu programa nuclear e também a percepção de que o presidente Obama dará mais apoio a seu principal aliado na região antes do que depois da eleição. Há também a idéia de que, do ponto de vista israelense, Obama estará amarrado durante a campanha, incapaz de resistir ou condenar uma iniciativa contra os iranianos.

Uma zona de incerteza imensa existe em duas questões cruciais, caso ocorra o ataque: sua capacidade para reverter este programa nuclear e como o Irã responderia. Jeffrey Goldberg escreve que tanto Netanyahu, como o seu ministro da Defesa, Ehud Barak estão relativamente otimistas sobre o estrago que Israel poderia causar ao complexo nuclear iraniano e não se mostram alarmados sobre a magnitude de retaliações. Para Goldberg, algumas autoridades israelenses acreditam que a opção dos líderes iranianos será minimizar o golpe (como a Síria fez em 2007 quando sofreu um ataque `as suas incipientes instalações nucleares) e lançar apenas um punhado de foguetes em Tel Aviv, num gesto simbólico, ao invés de declarar guerra total.

Ademais, de acordo com Goldberg, fontes da segurança em Israel não acreditam que o Irá alvejará navios ou instalações americanas no Oriente Médio, em retaliação, como muitos americanos temem, na medida em que Teerã entende que uma retaliação dos EUA ameaçaria a própria sobrevivência do regime. Claro que existe aqui uma contradição com alegações feitas por Netanyahu de que os dirigentes iranianos integram um “culto apocalíptico e messiânico”, insensíveis a cálculos de autointeresse racional.

Já o New York Times, em reportagem na primeira página na terça feira, toma outra caminho e salienta que war games do Comando Central das Forças Armadas incrementaram a preocupação sobre retaliações iranianas, inclusive ataques com mísseis contra navios e instalações americanas no Golfo Pérsico. Deve-se levar em conta aqui que a liderança iraniana pode fazer erros de cálculo (seja messiânica, seja racional) e existem alguns centros difusos de poder.

Nunca se sabe é claro se o falatório em Teerã é para valer. Terça-feira, na sua mensagem do ano novo iraniano, o líder supremo, o aiatolá Khamenei disse: “Não temos armas nucleares e não vamos construí-las, mas diante da agressão dos inimigos, seja dos Estados Unidos ou do regime sionista, vamos atacar para nos defender no mesmo nível em que os inimigos nos atacarem”.

Golberg é pró-Israel e pró-Obama. Sempre manifestou dúvidas se um ataque é o melhor caminho. No entanto, ele arremata sua coluna, dizendo que, da “perspectiva de Netanyahu, um ataque contra o Irã, mesmo se apenas marginalmente bem-sucedido, compensa o risco e pode ser historicamente inevitável”. Palavra de “atacólogo”.

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Colher de chá ataca com Rodolfo (dia 21, 10:27), por argumentos bem fundamentados contra o ataque. E uma segunda colher de chá para o J.R. (dia 21, 13:15), por seu contra-ataque.

08/03/2012

às 6:00 \ Crise nuclear, EUA, Irã, Israel

Curtas & Finas (Bombas & Bombas)

Primeira explosão atômica chinesa- 1964 - Foto/Getty

Conhecemos a frase que generais costumam travar a guerra passada. O cenário de um possível ataque (israelense e/ou americano) às instalações nucleares iranianas tem a mancha imensa do fiasco que foi a guerra do Iraque desfechada em 2003 com o falso pretexto das armas de destruição em massa de Saddam Hussein. Mas será que o fiasco passado é motivo para travar os argumentos para um ataque contra as instalações nucleares iranianas?

Aqui há uma questão, well, explosiva: se partimos da premissa de que a meta do programa nuclear iraniano é a bomba (o que é negado por Teerã), como será possível detectar o momento N, nuclear? Israel e EUA divergem sobre alguns pontos. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, por exemplo, em discurso feito em Washington, na segunda-feira, diante do lobby judaico Aipac, alertou novamente que a tecnologia nuclear iraniana avança para chegar em breve à bomba. Já a inteligência americana avalia que o Irã ainda não decidiu fabricar a bomba e prefere ficar, por ora, na zona de ambiguidade, apenas adquirindo a capacidade.

Num esforço para confortar os inquietos israelenses, os americanos dizem que terão condições de detectar a diferença entre capacidade e o desenvolvimento em si de um artefato nuclear. Os israelenses têm um argumento desconfortável para os americanos: ok, as agências de inteligência dos EUA exageraram ou tiveram seus dados manipulados por atores políticos (Bush e Cheney) no caso das armas de destruição em massa do Iraque. Era o arsenal que não existia.

Mas a inteligência americana também errou do outro lado. E que lista: ela foi supreeendida pelo primeiro teste nuclear soviético em 1949. Esperava que a bomba fosse detonada anos mais tarde. O erro de estimativa deixou furioso o então presidente Harry Truman. Coitado, Truman, afinal, só soube do Projeto Manhattan (o programa nuclear americano que levou ao uso das bombas no Japão) quando assumiu a presidência com a morte de Franklin Roosevelt em abril de 1945. E a inteligência de Washington também foi supreendida pelos primeiros testes nucleares da China, Índia e Paquistão, nas décadas de 60, 70 e 80, respectivamente.

Que bomba de inteligência.

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Colher de chá para o Praetor (dia 8, 9:54)), por seu inteligente conhecimento da história nuclear.  E uma de café para a Carmem (dia 8, 11:44), pelos argumentos simples e efetivos.  Muito generoso hoje. Colher de café também para o sempre bem informado Magno (dia 8, 11:48).  E no dia delas, COLHER DE  SOPA para todas as mulheres leitoras e comentaristas desta coluna.

21/02/2012

às 6:00 \ Crise nuclear, Irã, Israel, Uncategorized

Mais folias não carnavalescas iranianas (III)

A ameaça interna - Foto Getty

O Irã dos aiatolás e do presidente Mahmoud Ahmadinejad já tem uma bomba. É uma bomba-relógio. Por quanto tempo um regime como este poderá persistir? Claro que petróleo ajuda. E mais crise, eleva os preços do barril. Mas existem outros barris no país, com retorno cada vez mais baixo. O que está em alta são as divisões na cúpula do poder, que podemos definir como radicais do A x contra radicais do B. Existem diferentes blocos de poder na folia nuclear iraniana, mas em última instância quem toma a decisão sobre matar ou morrer é o aiatolá Khamenei. O dia em que não for assim, o Irã deixará de ser uma ditadura teocrática para se converter em uma mera ditadura.

Khamenei está entretido em uma guerra pelo poder com Ahmadinejad. Um iranólogo respeitado, Ali Ansari, da St. Andrews University (Escócia), avalia que as respostas confusas do Irã nesta crise nuclear, além de encenarem um típico jogo de ambiguidade em negociações e avanços na crise nuclear, de fato, refletem incerteza decisória.  Alguns lances recentes como os amadores atentados terroristas antiIsrael na Índia, Tailândia e Geórgia, podem ser reflexo também de desespero. O país sente o impacto das sanções e o quadro é de deterioração econômica. Ansari chega ao ponto de cogitar de estado terminal do regime, o que parece exagerado.
Para complicar, haverá eleições parlamentares em março, que serão boicotadas pelo oposição, que nunca engoliu a fraude eleitoral que conferiu um segundo mandato a Ahmadinejad em 2009. Como medida de precaução, o regime investe no bloqueio da Internet para impedir que a opposição use redes sociais para se mobilizar como em 2009. De qualquer forma, o boicote eleitoral será mais um golpe para a legitimidade do regime, que, é verdade, tem um bloco de convicta sustentação popular, ao lado da repressão, da fraude, da mentira e da paranóia.
Neste quadro, interessa a muito gente no Irã reforçar a visão de hostilidade implacável de forças estrangeiras contra o país, numa usual jogada de ditaduras para tentar forjar união nacional e desviar as atenções dos problemas internos. E por que não complicar e provocar, enviando dois navios de guerra para a Síria,  além de advertir o Ocidente para não ajudar a oposição síria?  Isto enquanto Teerã é sustentáculo do regime de Damasco. Sempre é razoável  fazer a pergunta: a maior ameaça para o regime iraniano é externa ou são suas contradições internas e seu estado de exaustão? Bombas de todos os lados. Melhor que o regime nunca tenha a sua, pois é um perigoso folião.
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Colher de chá para as folias especulativas do Alberto (dia 21, 12:22). E outra para as colocações do Pedro (dia 21, 13:43).

20/02/2012

às 6:00 \ Crise nuclear, EUA, Irã, Israel

As folias não carnavalescas iranianas (II)

O fantasiado folião nuclear Ahmadinejad

Afinal, o que o Irã quer? Eu pessoalmente não vejo boas intenções da parte de um regime com ambições nucleares cujo líder supremo (líder “espiritual”), o aiatolá Khamenei, define Israel como “um tumor cancerígeno”. Não vejo boas intenções quando um site ligado a Khamenei, chamado Alef, publica um artigo de alguém vinculado à assessoria do aiatolá, Alireza Forghani, conclamando o Irã a usar seu arsenal de mísseis para aniquilar Israel. Ele garante que a solução final pode ser concretizada em nove minutos.

Bem, este tipo de lógica pode ser guerra de propaganda ou delírio de fanáticos entre os fanáticos. Mas estes argumentos são disparados em um momento de muita tensão na triangulação Irã-Israel-Ocidente. Não vou aqui recapitular os últimos lances da crise em torno da iminência ou não de um ataque israelense e/ou americano às instalações nucleares iranianas. O meu objetivo é tentar compartihar um pouco a lógica iraniana, tentando escapulir dos argumentos mais delirantes, como os deste Alireza Forghani ou da mensagem antissemita que emana de Khamenei e do presidente Mahmoud Ahmadinejad.

Aqui pego carona em Ray Takeyh, do Council on Foreign Relations, para tentar entender o que o Irã quer. Para Takeyh, a chave para tentar entender as fontes de conduta iraniana é a percepção que o Irã tem dele. Mais do que qualquer outra nação no Oriente Médio (e aqui não podemos incluir a Turquia, herdeira do Império Otomano), o Irã se considera o poder hegemônico natural nas redondezas. É uma pretensão fundada nas glórias do império persa, e, muito importante, no impulso conferido pela revolução islâmica de 1979. O regime não quer meramente conseguir independência e autonomia, mas projetar uma mensagem islâmica além de suas fronteiras (embora seja xiita num cenário majoritariamente sunita). A mensagem antiIsrael e antissemita, além da narrativa antiocidental, é uma alavanca para disseminar o zelo revolucionário, escapando da camisa-de-força xiita.

No começo dos anos 90, depois da morte do aiatolá Khomeini, o líder da revolução , e da carnificina na guerra contra o Iraque de Saddam Hussein, o Irã esboçou um recuo deste zelo revolucionário, nas pegadas de líderes pragmáticos como Ali Rafsanjani ou mesmo reformistas como Mohammad Khatami. No entanto, esta virada foi abortada por uma nova geração de líderes, como Ahmadinejad, que rechaçou o pragmatismo em favor da retomada do legado de Khomeini. Khamenei, o sucessor de Khomeini, abandonou sua posição de árbitro entre as facções, e abençoou esta jovem geração doutrinária (embora agora queira se desfazer de Ahmadinejad).

O ponto central do raciocínio de Ray Takeyh é o seguinte: o programa nuclear iraniano não começou com esta nova geração e nem mesmo com a revolução islâmica. Os investimentos na área remontam aos tempos do regime do xá Reza Pahlevi e a popularidade se mostra duradoura. A diferença é que armas nucleares (embora o propósito militar seja oficialmente negado pelo regime) são essenciais para as atuais ambições nacionais. Nos tempos de Rafsanjani e Khatami, um arsenal nuclear era visto como uma ferramenta de dissuasão. Hoje é um meio essencial para consolidar a hegemonia na região, embora continue sendo também de dissuasão. Um argumento em Teerã é que um programa nuclear irá impedir que o país tenha o mesmo destino da Líbia de Muamar Kadafi, que abriu mão de suas ambições no setor.

Este foco hegemônico, favorecido pela queda do regime do rival Saddam Hussein, reforçou o alarme no Ocidente e em Israel. E temos este cenário de escalada de tensões, com possiblidade de um ataque militar. Existe a idéia de que mesmo um regime como o de Khamenei seja racional e que sabe os limites do seu desafio. No entanto, o fervor revolucionário e a narrativa nacionalista dificultam a possiblidade de concessões da parte de Teerã. Como justificar compromissos, a não ser reconhecendo o sucesso do cerco internacional? Existe, é claro, o aceno diplomático quando a situação aperta bastante, mas pode meramente um tática diversionista e para dividir a comunidade internacional.

Para Takeyh, ainda é possível desamar o Irã sem usar a força. A figura-chave segue sendo Khamenei, que precisa ser convencido a fazer concessões. Em termos técnicos, um dos pontos é realmente aceitar o direito iraniano de ter um programa nuclear pacífico, pelos termos do tratado de não-proliferação nuclear. Mas o preço para Teerã seria um sistema de inspeção altamente rigoroso (e nem poderia ser de outra forma, devido à conduta iraniana). Outro ponto em negociações realmente substantivas seria o Ocidente simplesmente aceitar o Irã como ele é, ou seja, descartar a idéia de mudança de regime em troca de transparência no programa nuclear. São pontos essenciais em uma negociação e muito espinhosos.

Em reportagens nos últimos dias, o jornal britânico The Guardian salienta que não há muito mais para fazer. A visão mais forte hoje dentro do governo Obama é a de que as sanções e a diplomacia são improváveis para dissuadir o Irã a fazer concessões. Seus principais propósitos são adiar um ataque israelense, embora fontes do governo israelense, citadas pelo jornal Haaretz, reconheçam que a severidade das sanções seja acima das expectativas. Por esta lógica, podemos concluir que o Irã quer o conflito. Foi longe demais em seu programa nuclear para recuar. Com o recuo, o regime perde a razão de ser.  Abrir mão do programa nuclear seria uma mudança de regime.

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Colher de chá para a contribuição estratégica do Mario C. (dia 20, 15:42).

As folias (não carnavalescas) de israelenses e iranianos

Os porta-bandeiras Netanyahu e Khamenei - Fotos AFP

Existe uma guerra suja entre Israel e Irã. Existe também uma confusa guerra verbal, que parece apenas em parte deliberadamente confusa. Em parte, as duas partes parecem genuinamente confusas sobre como proceder na crise nuclear. Está muito confuso o que escrevi até agora?

Sobre a guerra suja, ela acontece cada vez menos nas sombras. Em comum, cientistas nucleares iranianos, diplomatas israelenses e “locais” em paragens tão díspares como Teerã, Nova Délhi, Bangcoc e Tblisi podem morrer ou serem feridos por bombas magnéticas colocadas em carros. Autoridades israelenses e iranianos não assumem o envolvimento e acusam o outro lado de ter praticado os atentados. E neste mundo furtivo, não sabemos, de fato, quem é o responsável direto. Podem ser dissidentes iranianos a serviço de Israel ou o Hezbollah libanês trabalhando para Teerã.

Sobre a questão que mais agonia (atacar ou não atacar as instalações nucleares iranianas), as mensagens de Israel são confusas e cifradas. Há dias em que parece que o ataque vai acontecer ontem. Em outros momentos, o recado parece ser dar mais tempo para as sanções. Há dias em Israel e os EUA parecem afinados na questão. Em outros, parece crescer a desconfiança entre dois aliados. Quem sabe, a divisão exista dentro da própria cabeça do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, que, em última instância, tomará a decisão histórica. O que é inegável é a dúvida entre setores militares e da inteligência de Israel sobre a validade deste ataque (inegável? Será que em parte é cortina de fumaça ou guerra psicológica para confundir o inimigo?)

Nas bandas iranianas, existem muitas bandas. E não escondo aqui o meu favoritismo. Não gosto de nenhuma delas. O poder no país parece opaco. Quem sabe alguns “frilas” estejam aprontando estes atentados pelo mundo afora, com um modus operandi amador, como no alegado complô para assasssinar o embaixador saudita em Washington. Temos as bravatas do presidente Mahmoud Ahmadinejad de que o país vai resistir às agressões do Ocidente e da “entidade sionista” ou anunciando avanços no programa nuclear. O Irã está acuado e Ahmadinejad está acuado dentro de casa.

Os malignos estiveram unidos para esmagar o movimento reformista e agora brigam entre eles. Falando em maligno, sempre melhor prestar mais atenção no aiatolá Ali Khamenei do que em Ahmadinejad. Khamenei é aquele líder espiritual que fala que Israel é um tumor cancerígeno. Estas coisas devem ser extirpadas, né? Khamenei parece também interessado em extirpar Ahmadinejad. Que consolo.

Em meio às bravatas e a estas declarações infames, existem também novas mensagens ambíguas do Irã de que estaria disposto a negociar com os ocidentais. Fala-se da existência de canais secretos de comunicação entre Teerã e Washington. O Irã muitas vezes acena vagamente com negociações nucleares para dividir os paises ocidentais, enquanto avança com seu programa no setor. Um analista em Irã que eu respeito muito Karim Sadjadpour, especula que a beligerância acompanhada de acenos conciliatórios podem, no final das contas, mostrar como o Irã está enfraquecido devido às sanções, às brigas internas, ao novo cenário no Oriente Médio pós-primavera árabe e à mera exaustão do regime. Animais feridos e acuados podem ser muito perigosos.

Um sujeito metido a analista de relações internacionais, como eu, deveria ao menos fingir que tem respostas, mas nesta crise entre Israel e Irã estou particularmente acometido de dúvidas sobre quem é quem e o que deve ser feito (a destacar, no dilema nuclear). O ideal seria que Israel não lançasse um ataque e que o regime iraniano fosse alvo de uma implosão.

Claro que a situação é explosiva. Erros de cálculo e de comunicação podem levar a consequências não planejadas ou simplesmente catastróficas. Graham Allison, professor na Universidade de Harvard e um guru nos estudos sobre a crise dos mísseis em Cuba, em 1962, que poderia ter levado o mundo a um confronto nuclear quando americanos e russos jogavam um pôquer geopolítico, define o que está acontecendo hoje da seguinte forma: o confronto sobre o programa nuclear iraniano é uma crise dos mísseis em Cuba em câmara lenta. Atentados em várias partes do mundo, mensagens mal interpretadas, ânimos acalorados e reações exageradas têm o potencial de gerar um perigoso efeito-cascata.

Folias (não carnavalescas) podem resultar em uma guerra acidental. Quem não quiser pensar nestas coisas, que literalmente caia na folia neste feriadão. Depois, sempre tem uma quarta-feira de cinzas, até em Bangcoc, Teerã ou Tel Aviv.

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Vou ser parcial e inclusive me servir. Colher de chá para todos que não gostam de folia (inclusive carnavalesca).  E uma exclusiva para o Ícaro (dia 17, 17:27), pela folia retórica.

09/02/2012

às 6:00 \ Crise nuclear, Irã, Israel, Oriente Médio, Síria

Curtas & Finas (Síria & Irã)

Amigão e amiguinho - Foto Atta Kenare/AFP

Israel vai atacar ou não o Irã? Deve ou não atacar? São dilemas estratégicos com ramificações globais. Há momentos em que uma decisão parece iminente. Em outros, parece cortina de fumaça ou realmente o dilema está sendo negociado em público por vários atores, dentro e fora de Israel. Uma medida didática dos prós e contras está neste texto da National Public Radio, nos EUA, da qual sou um viciado ouvinte e leitor.

Outro texto importante foi publicado na quarta-feira no New York Times. O autor é Efraim Halevy, ex-diretor do Mossad. uma das vozes, como outras na comunidade de inteligência e nos meios militares, advertindo contra um ataque às instalações nucleares iranianas, que parece ter como advogados mais estridentes o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e o ministro da Defesa Ehud Barak. Há a impressão também que o presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad está pedindo este ataque, além do infame aiatolá Khamenei, aquele que considera Israel um tumor cancerígeno.
Halevy pega uma terceira via interessante (as outras são pressões/sanções e ataque militar) neste texto com o título “O Calcanhar de Aquiles do Irã”. É a Síria. O ex-chefe do Mossad escreve que o debate público nos EUA e Israel parece estar “focado obssessivamente” se deve haver um ataque contra o Irã para deter suas ambições nuclelares. Ele lamenta que não haja a devida atenção para os eventos na Siria (discordo, existe a devida atenção), na medida em que a queda de Bashar Assad pode significar um desastre estratégico para o Irã.
No tabuleiro regional, a queda do peão Assad (o único país aliado do Irã nas vizinhanças) privaria o regime de Teerã de acesso a seus asseclas do Hezbollah (Líbano) e Hamas (Gaza), além de abalar ainda mais o poder e prestígio dos aiatolás dentro e fora de casa. Halevy não tem dúvidas que a queda de Assad “seria uma opção mais segura e compensadora do que a opção militar”.
Obviamente existem as ressalvas: não adianta Assad cair, mas a presença iraniana no Síria sobreviver a esta queda. E Halevy lembra que seria preciso convencer russos e chineses a puxarem o tapete de Assad. Seriam necessários também desdobramentos domésticos (no Irã). Como diz Halevy, “o povo precisa se levantar novamente contra o regime que inflinge tanta dor e sofrimento”.
No cenário mais otimista de Halevy, uma hemorragia na Teerã pós-Assad poderia levar  os iranianos a suspenderem suas ambições nucleares. Muitos verbos no tempo condicional. Mas se estivessem lendos juntos este artigo, está aí um dia em que Netanyahu, Ahmadinejad e Assad concordariam em discordar de alguma coisa.
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Colher de chá (erva doce) para a fiel e vigilante leitora Betty (dia 9, 10:59), azeda comigo, pois eu disse que Netanyahu, Ahmadinejad e Assad concordariam com alguma coisa. Obviamente, eu jamais trataria a trinca de forma equivalente. Creio que a Betty extrapolou, mas estou aqui para ser cobrado.

 

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