Curtas & Finas (Gritos & Sussurros)
Eu tenho revelações bombásticas nesta terça-feira. Prontos? Quarta-feira vem aí. Será um dia agitado no mundo e aqui me limito a eventos programados: reunião de cúpula, em Bruxelas, dos dirigentes da União Europeia (mais pressão para a austera Angela Merkel amolecer), o primeiro dia do primeiro turno de históricas eleições presidenciais egípcias e uma intrigante rodada de negociações nucleares, em Bagdá, entre seis potências mundiais e o Irã.
No primeiro assunto (Europa), é previsível a capacidade europeia de empurrar com a barriga, no segundo (Egito) é imprevisível garantir quais candidatos irão sobreviver para o segundo turno (numa disputa em que ressurgiu até o nasserismo e na qual liberais e islâmicos da linha-dura salafista respaldam o mesmo candidato). Vou me concentrar um pouco mais no terceiro evento (Irã nuclear).
Existe no jargão diplomático, o chamado otimismo cauteloso de que seja possível romper o impasse. Por esta narrativa, o Irã sente o peso das sanções e todo falatório estridente não passaria de preparação para anunciar concessões (como aceitação de inspeções rigorosas de suas instalações nucleares e diminuição drástica da produção de urânio enriquecido). O tom otimista já foi manifestado nesta terça-feira pelo diretor da Agência Internacional de Energia Atômica, Yukiya Amano, acenando com um acordo pelo qual o Irã permitiria investigações de uma instalação suspeita de realizar testes para o desenvolvimento de uma ogiva nuclear.
Mas não posso passar batido pela estridência abjeta, como na declaração esta semana do chefe do Estado-Maior das Forças Armadas iranianas, general Hassan Firouzabadi, de solidariedade à causa palestina de “total aniquilação de Israel”. Do outro lado (a destacar os EUA de Barack Obama em campanha de reeleição), interessa algum tipo de compromisso para afastar o cenário de um ataque às instalações nucleares iranianas.
Falta sempre combinar com Israel (aquele país que deve ser “aniquilado”) e aqui está a informação interessante: na imprensa israelense, há especulações, que para mim soam muito otimistas, de que o governo estaria mais flexível (ou resignado) na questão de enriquecimento de urânio iraniano. Tal disposição teria sido manifestada aos americanos pelo ministro da Defesa Ehud Barak, enquanto o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu mantém a postura pública de inflexibilidade.
Na segunda-feira, Netanyahu voltou a advertir o Ocidente para não mostrar fraqueza. E mesmo em público, também na segunda-feira Barak é durão. Ele alertou os países ocidentais que o Irã está apenas fingindo disposição para fazer concessões nas negociações. Alertas `a parte, Israel toparia que o Irã continuasse o enriquecimento de urânio no nível baixo de 3.5% (a partir dos 20%, o que já acontece, fica mais fácil saltar rapidamente para o nível que possibilita a construção da bomba).
Um cenário nestas negociações em Bagdá seria pavimentar o caminho para um acordo interino, pelo qual o Irã interromperia o enriquecimento de urânio a 20% e abriria mão de 100 quilos de material neste nível. Em troca, as seis potências mundias (EUA, Grã-Bretanha, França, Alemanha, Rússia e China) suspenderiam os esforços para impor novas sanções. No entanto, o embargo europeu de petróleo ainda entraria em vigor em julho, assim como as sanções americanas contra o Banco Central iraniano. Entenda-se por resignação em Israel o fato de que avanços efetivos em negociações inviabilizariam um ataque militar por uns tempos (bom para os EUA, bom para o Irã).
Vamos aguardar os desdobramentos nesta quarta-feira em Bruxelas, Cairo e Bagdá, além de ficar na escuta dos cochichos em Jerusalém.
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Colher de chá para os comentários (concisos, algo que é uma benção para mim) desta terça-feira do João Felipe sobre as sutilezas da história, guerra e da diplomacia.












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