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Arquivo da categoria Crise econômica

O estado da união, de Obama e dos republicanos

Barack Obama discursa no Congresso americano - Foto: Reuters

O estado da união é de injustiça econômica e de privilégios aos mais ricos, assim falou o milionário Barack Obama no seu discurso na terça-feira, em sessão conjunta no Congresso. Assim, o estado de sua campanha de reeleição é de populismo. E o Congresso foi o cenário para um comercial de campanha, quando Obama precisa dividir o palco com os os republicanos na guerra civil das primárias para escolher o seu candidato.

Há um estado de frustração com o desemprego no país, O presidente acena com dias melhores para os desempregados e investe nos temas de desigualdade social e os impostos pagos (e não pagos) pelos milionários. Obama assume o papel de paladino de uma classe média no sufoco (a maioria dos americano se identifica como integrante da classe média).

O risco deste populismo é que se torne uma mensagem de inveja e de ressentimento. Não é à toa que os republicanos martelam que o negócio do presidente é insuflar a luta de classes, para esconder o fracasso de sua política econômica e porque tem pendores socialistas. Que nada. É mero oportunismo populista e Obama no discurso inclusive deu os ombros a esta acusação de luta de classes, rebatendo que cobrar mais impostos de milionários é, na opinião da maioria dos americanos (entre eles, Warren Buffett), bom senso.

Mas o maior adversário do presidente democrata não são os republicanos e seus slogans de campanha. É a economia, mas ela também pode ser camarada em novembro se estiver melhorando, mesmo aos trancos e barrancos (a destacar com uma diminuição do desemprego). Sei, sei, já falei isto algumas vezes por aqui. Meu estado parece ser de repetição.

Claro que a economia também pode despencar (e o desemprego voltar a subir). Aí não há discurso populista que salve Obama do povo frustrado. Quando o presidente fez seu discurso do gênero há um ano, ele sinalizou um otimismo prematuro. Vieram um tsunami no Japão, a degringolada na Europa, o impasse sobre a elevação do teto da dívida e alta do preços do petróleo. Em meados do ano passado, a conversa era sobre uma volta da recessão.

Hoje na narrativa mais otimista (muito otimista), existe a tênue esperança de que os EUA se descolem de uma Europa em recessão e resistam a um mundo emergente menos acelerado. Sem contar (literalmente) os monstros fiscais que continuam crescendo. Obama praticamente ignorou temas como déficit, dívida e o fardo dos programas sociais no seu discurso. Ele aposta na sorte (uma velha companheira desde que começou a carreira política no estado de Illinois). Sorte existirá se o calendário econômico corresponder ao calendário eleitoral.

Obama no seu narcisismo já recorreu a alguns dos mais importantes presidentes da história americana, como Abraham Lincoln, Franklin Roosevelt e Ronald Reagan (os republicanos, claro, fazem a conexão de Obama com o fracassado Jimmy Carter). Ultimamente os referenciais de Obama são o democrata Harry Truman que investiu contra um Congresso que “não fazia nada” na eleição de 1948 e o republicano Teddy Roosevelt, que no começo do século 20 cavalgou em uma missão populista contra uma plutocracia e a necessidade de mais regulamentação da economia

Mas nesta sincronização entre economia e eleição, talvez seja necessário trazer um outro presidente, um Bush, o primeiro (George H. W. Bush). É possível traçar alguns paralelos entre o momento de Obama e o da campanha de reeleição de Bush em 1992, quando a situação econômica era amarga (bem menos do que agora, evidentemente). Lembram-se do antológico slogan da vitoriosa campanha do democrata Bill Clinton? É a economia, estúpido!

A economia agora começa a ter um conserto. A questão é a velocidade. Bush tinha esta corrida contra o relógio há 20 anos e perdeu. A recuperação não aconteceu com rapidez suficiente para neutralizar a frustração dos eleitores (e quase 20% deles premiaram o independente Ross Perot). A recuperação foi apenas sentida no segundo e terceiros trimestres de 1993 e Clinton, já na Casa Branca, pôde assumir o cédito.

Bush pai, ainda por cima, teve o azar de encarar um bom candidato, Clinton, e houve a distração Perot. Obama comoveu na sua campanha inaugural em 2008 com sua narrativa pessoal e havia o impacto do simbolismo racial, mas ele não é bom de bola como Clinton no quesito empatia com o eleitor, especialmente para se conectar com a profunda ansiedade de uma classe média que se sente empobrecida (a pose populista deu, é verdade, uma melhorada).

Por enquanto, quem parece se conectar melhor com as ansiedades de um setor da população é o candidato republicano Newt Gingrich, mas explorando o ressentimento contra o “state of the union”. Bom para começo de campanha, mas complicado para finalizar. Gingrich carece do otimismo de um Ronald Reagan. Já Mitt Romney e empatia não rimam.

Na terça-feira, havia um texto ilustrativo no Wall Street Journal, de Bret Stephens, um dos mais cáusticos colunistas conservadores. Simplesmente exasperado, Stephens escreveu que os republicanos merecem perder as eleições. Ele simplesmente detonou o time dos quatro sobreviventes na maratona das primárias (Romney, Gingrich, Rick Santorum e Ron Paul). Para Stephens, Romney é só verniz. Carece de convicções. Sobre Gingrich, Stephens divagou que os eleitores nas primárias republicanas estão agora enamorados do candidato, não porque o visualizam na Casa Branca, mas pelo potencial de nocautear Obama num embate.

O estado de união é de campanha eleitoral,  o da economia, duvidoso, o de Obama já foi pior e o dos republicanos, por enquanto, de perdição.

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Colher de chá para o Rodrigo (dia 25, 10:53) pelo alerta contra as cansativas e despropositadas analogias entre Obama e Lula. E três colheres de café para o Pablo por três comentários em sequência (dia 25, 16:05, 16:19 e 16:36).  Assim, decreto falência. E  uma colher de sopa para o Henrique (dia 25, 17:09), pelo espírito cívico.

Eike Xiaoping, o otimista Buffett e o capitalista Romney

A edição corrente de VEJA traz reportagem de capa sobre os novos milionários brasileiros que têm Eike Batista como ídolo e não se envergonham da riqueza, seguindo a palavra-de-ordem do líder comuno-capitalista chinês Deng Xiaoping que “enriquecer é glorioso”. Eike é a oitava pessoa mais rica do mundo, na lista da revista Forbes.

A edição corrente da revista Time traz reportagem de capa sobre a terceira pessoa mais rica do mundo. Warren Buffett não se envergonha do capitalismo (hello!), mas não ostenta sua riqueza. Antes de tudo, ele está doando 99% de sua fortuna de US$ 45 bilhões. Buffett vive na mesma casa que ele comprou em 1958 (cinco quartos), em Omaha, no estado de Nebraska, e calcula que suas despesas pessoais anuais não passem de US$ 150 mil. Seu luxo é o avião privado.

Brasil e EUA estão em fases diferentes de capitalismo e seus milionárois (e bilionários) têm posturas distintas. Sobre o Brasil, leiam a gloriosa reportagem de VEJA. Eu vou falar sobre os EUA. Warren Buffett, para que não sabe, está indignado com seus companheiros. Quer que eles paguem mais impostos (o presidente Obama também, assim como a maioria dos americanos que não estão lá em cima, como Buffett ou um pouco abaixo dele). Buffett adverte que o país precisa levar a sério a necessidade de “dividir sacrifícios”.

Para ele, entre outras coisas, mais impostos para os mais ricos vão contribuir para mitigar a sensação nacional de que se vive em uma plutocracia. Tal sensação é uma ducha de água fria e desmotiva o país. Mais impostos claro significam mais dinheiro para o governo. Gente mais conservadora abomina a idéia, argumentando que significa apenas alimentar a besta governamental, que deveria, isto sim, passar fome e emagrecer. Buffett acredita que mais gastos governamentais são necessários.

Buffett está na contra-mão do capitalismo darwinista esposado por tantos conservadores, que acreditam que o mercado seja a palavra final, o único meio de distribuição dos ativos econômicos. Estes conservadores não podem chamar Buffett de socialista (como fazem no caso de Obama). A saída é rotulá-lo de ingênuo, inocente útil ou equivocado (para mim, rótulos pouco convincentes diante do sucesso de Buffett e sua esperteza).

A questão, claro, é política. Buffett está no epicentro do debate político-eleitoral americano, o debate que envolve temas como desigualdade social (bandeira de luta de democratas) e competitvidade sem rodeios (bandeira de luta dos republicanos). A ressalva é que existe uma esquizofrenia na campanha das primárias republicanas, com alguns candidatos atropelados pelo avanço de Mitt Romney com uma retórica demagógica e desesperada à esquerda de Obama e, digamos, de Warren Buffett. Imagine, quando o governador texano Rich “Oops” Perry chama Romney de “abutre do capitalismo”, ele deve chocar até Michael Moore. Aliás, Perry já é uma ave penada na corrida republicana. Por que não desiste, como o Jon Huntsman?

Mas, voltando a Warren Buffett, ele acredita no direito de se ganhar muito dinheiro, mas também em justiça e na habilidade do governo para tornar melhor a vida das pessoas. Anticapitalista? Não. Intervencionista estatal? Não. Ao contrário de tantos liberais, Buffett não acredita em regulamentação para coibir excessos de Wall Street. Para ele, é necessário o espirito animal do capitalismo. Buffett apenas acredita que uma política tributária mais justa irá dar conta dos excessos, além de subsidiar investimentos necessários em infraestutura e programas sociais.

Sobre Buffett, um último comentário. Nem de longe, ele pode ser considerado um derrotista. Pelo contrário. Basta ver o título na capa de Time: “O Otimista”. Buffett acredita que quando o mercado imobiliário se recuperar, a economia americana estará de volta aos trilhos (a propósito, ele é um grande investidor na indústria ferroviária). Buffett insiste que seu otimismo não é emocional, mas quantitativo. Os EUA são um país de gente jovem, a América corporativa está enxuta e os estoques em baixa. Na visão dele, o motor de crescimento deverá engatar em breve. Eu espero que Buffett tenha razão.

Numa campanha eleitoral tão esquisita, o bilionário Buffett é garoto-propaganda do populismo de Barack Obama (enquanto temos aquela bizarrice populista de vários candidatos presidenciais republicanos). Toda a boiada (Obama e os republicanos ainda na parada contra Romney) é composta de milionários. Eriquecer pode ser glorioso, no Brasil, na China e nos EUA, mas na campanha eleitora americana, os candidatos fingem serem seguidores do estilo de vida de Warren Buffett, preferindo não exibir a riqueza, embora Mitt Romney apregoe uma “defesa clara e sem desculpas” dos ideais americanos do capitalismo de livre mercado.

Fingir ser do povo e sentir a dor de uma classe média espremida fazem parte do teatro político. Não se trata apenas da divisão de sacrifícios pregada por Warren Buffett. Como diz Ross Douhat (o outro colunista conservador do New York Times, ao lado de David Brooks), trata-se também de prometer uma competividade que não leve apenas ao crescimento, mas de crescimento que leve mais amplamente a uma divisão de prosperidade.

Douhat recomenda mais sensibilidade a Romney, no sentido de reconhecer que o capitalismo tem os seus custos, especialmente em uma era de insegurança. Criticar estes custos não expressa meramente ressentimento ou inveja dos vencedores. Para Douhat, a falta de sensibilidade pode custar a presidência a Mitt Romney.
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Colher de chá para o Ney (dia 16, 11:23), cada país no seu devido lugar, no seu devido contexto.

21/11/2011

às 6:00 \ Crise econômica, Espanha, Europa

O quixotesco espanhol Rajoy e seus inimigos reais

O primeiro-ministro eleito tem muito para pedir - Foto Juan Medina/Reuters

Como anunciar boas notícias diante da tarefa aparentemente quixotesca adiante de Mariano Rajoy, o novo encarregado de administrar uma Espanha que mescla azedume, indignação e resignação com o estado de coisas? A ascensão ao poder do Partido Popular, de centro-direita, é menos produto de merecimento e mais de inevitáveis trocas de guarda e punições na zona do euro, a quinta desde que a crise explodiu.

É verdade que o adiós dos socialistas do palácio foi menos caótico, embora também patético, do que as recentes partidas do grego George Papandreou e do italiano Silvio Berlusconi. É verdade também que, pouco carismático e com seu jeitão burocrático, Rajoy parece pertencer à escola de Lucas Papademos e Mario Monti, mas seu mandato é mais legítimo, pela urna, pois o Partido Popular conquistou maioria absoluta no Parlamento, no melhor desempenho na sua história (e o pior da economia desde o fim da ditadura). E eleições ocorridas na data de falecimento do ditador Francisco Franco (1975) ocorreram no quadro da sólida democracia espanhola.

Os inefáveis mercados, porém, continuam votando nesta crise na Europa e têm pressa. Na semana passada, ao elevar o custo dos empréstimos ao país para um nível quase insustentável, os mercados deixaram claro que não descolam a Espanha de crises mais urgentes ou mais dramáticas como as da Grécia e Itália (hoje na Europa está cada vez mais difícil até diferenciar núcleo da periferia).

E, por si, o desafio espanhol é dramático: o governo precisa “descolar” 150 bilhões de euros no ano que vem, os bancos privados uns 120 bilhões – três vezes mais do que neste ano-, enquanto empresas não financeiras necessitam arrecadar cerca de 30 bilhões de euros. O desemprego da ordem de 22.6% é o mais alto na União Europeia e supera 45% entre os jovens (18 a a 24 anos ). E, apesar do arrocho já iniciado tardiamente pelo desmoralizado governo socialista, o país não deverá atingir a meta de um déficit de 6% do PIB em 2011. Tudo indica que o país esteja à beira da recessão.

Embora sem muita demagogia e até discreto sobre promessas de redenção, Rajoy buscará a quadratura do círculo ao estabelecer o compromisso de mais austeridade, tentando convencer investidores e o país que também possui uma estratégia de crescimento. Será o esforço para gerar empregos com reformas trabalhistas, num país em que existe pouca flexibilidade para demitir e contratar, onde sindicatos estão encastelados nos privilégios dos seus velhos quadros enquanto os jovens, quando têm empregos, vivem de trabalhos temporários. O cenário é de mais protestos sociais, como os dos jovens “indignados” e de greves sindicais, mas existem evidências também da crença popular sobre a necessidade de sacrífícios.

Rajoy não tem carisma para conduzir o país por este caminho desagradável. E credibilidade? Mario Vargas Llosa, o peruano Nobel de Literatura e também cidadão espanhol, tem suas dúvidas sobre a credibilidade dos vitoriosos. O escritor anunciou publicamente que não votaria no Partido Popular, embora satisfeito com as suas propostas de “necessárias reformas radicais” para enfrentar o monstro econômico.

Vargas Llosa argumentou que estava preocupado que a ala mais conservadora do Partido Popular, com remanscentes do franquismo e íntima da Igreja católica, agora desfaça reformas sociais aprovadas no governo socialista. Na avaliação do escritor (corrreta no meu entender), as reformas fizeram a Espanha avançar, como na autorização do casamento gay, ampliação da lei de aborto e os direitos da mulher.

Eu espero, porém, que Varga Llosa esteja errado e que que estes temas sociais não sejam uma camisa-de-força e um desvio de curso das urgentes tarefas fiscais, trabalhistas e de reativação do crescimento na Espanha para os vitoriosos conservadores, além de manterem o firme compromisso pró-Europa. No discurso da vitória no domingo à noite, Rajoy disse que o “destino” espanhol é na Europa e dinheiro europeu será necessário para tirar o país da zona de perigo para permanecer na zona do euro.

Mariano Rajoy não tem a férrea determinação de ícones conservadores como Margaret Thatcher ou sequer a beligerância do seu ex-jefe e ex-primeiro-ministro José Maria Aznar, mas foi durão e efetivo como ministro do Interior para combater o terror basco. E no mês passado, o grupo separatista ETA anunciou o fim da luta armada depois de 40 anos, derrotado tanto por governos conservadores, como socialistas.

Mas, diante da situação de terror econômico, é mais provável que Rajoy dê cutucadas nos espanhóis, tentando empurrá-los pela trilha de ajustes necessários. Pouco para a ocasião? Talvez não. O conservadorismo moderado e conciliatório de Rajoy pode permitir até composições com os derrotados socialistas em algumas circunstâncias.

Rajoy não hesitou em fazer isto quando estava na oposição, por exemplo, na formação de um governo Partido Popular-socialista no País Basco em 2009 ou ao votar por uma rara emenda constitucional pela estabilidade orçamentária no Parlamento, por pressão do alto comando europeu, a destacar a primeira-ministra alemã Angela Merkel. Resta saber como irão se comportar os socialistas que desejaram o melhor para os novos ocupantes do poder, mas prometem uma oposição ativa.

Há urgência na Espanha e o que o país tem no momento é o aparentemente quixotesco Mariano Rajoy, que venceu eleições gerais apenas na terceira tentativa e vai enfrentar inimigos que não têm nada de imaginários. Mas, citando, um escritor castelhano chamado Miguel de Cervantes, que demorou para conseguir a consagração, diligência é a mãe da boa sorte.
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Colher de chá para Queiroz (dia 21, 9:24) e Pablo (dia 21, 10:39), por comentários abrangentes sobre o cenário espanhol.

16/11/2011

às 6:00 \ Crise econômica, EUA, Wall Street

É a mensagem, estúpido! Não o método idiota

A proclamação policial no Zuccotti Park em 15 de novembro - Foto Stan Honda/AFP

Os manifestantes contra Wall Street em vários partes dos EUA, que se acham o centro do universo, repetem o slogan 68 “o mundo inteiro está vendo”. E, de fato, está, embora hoje em dia o mundo veja qualquer coisa na TV e na Internet, das mais transformadoras às mais triviais. E todo mundo na terça- feira viu a limpeza do parque Zuccotti, em Nova York, berço deste movimento, que, sem dúvida, ocupou espaço político.

Vou, antes de mais nada, deixar claro meu apoio à desocupação de acampamentos urbanos como objetivos permanentes. Basta destas falsas sociedades em miniatura nos EUA, no Canadá, na Austrália e na Europa. Mas me curvo ao impacto de uma boa operação teatral de agitação e propaganda. Foi um golpe de mestre agitar no coração financeiro e da mídia nos EUA. Nada de comparações levianas entra a turma do parque Zuccotti (ou em Oakland ou Portland, na costa oeste) e a ocupação imbecil da USP, por exemplo.

Por mais inconsequentes e alopradas que sejam as poses e algumas mensagens, os slogans essenciais são afinados com as preocupações nacionais. Nada de estocadas baratas de que se trata apenas de um bando de maconheiros tatuados, com argola no nariz furado, fazendo xixi na rua e tocando tambor, aliados a alguma Quarta Internacional, arregimentada para derrubar o sistema.

Sim, nestes protestos há maconheiros tocando tambor, vagabundos e radicais com agendas bizarras. Residentes e donos de lojas da área, com toda razão, deveriam marchar com alívio se tiverem um pouco de sossego e silêncio. O movimento tem um componente de atentado à segurança sanitária (mais do que contra a segurança nacional).

Não é, portanto, o fim da civilização ocidental. Tornou-se, porém, uma chatice, na verdade, uma irritação. A ação policial foi um favor, um oxigênio para a turma do movimento. Melhor isto do que ser despejado pelo inverno que se aproxima ou o tédio. E a desocupação do acampamento, please, também não mostra a consolidação de um estado policial ou um golpe devastador contra a liberdade de expressão. O prefeito Michael Bloomberg está cumprindo o seu trabalho cívico.

A ação policial foi contra a transformação do Zuccotti Park em acampamento permanente, com suas tendas e sacos de dormir, e não contra o protesto ou a presença no local. Estado policial é em qualquer parque na Síria ditatorial quando os manifestantes tentam protestar. Como decidiu o juiz em Nova York (não em Damasco) na terça-feira, acampar no parque (que é propriedade privada e não pública) não é uma forma de liberdade de expressão protegida pela Primeira Emenda da Constituição.

Vamos nos concentrar no essencial, indo além dos maconheiros tocando tambor. Na variação da frase já clássica do marqueteiro James Carville, é a mensagem, estúpido! Não o método idiota. Este movimento conhecido como Occupy Wall Street (OWS) é sintoma de um crescente mal-estar nacional com o funcionamento da economia.

Claro que há um choque quando muita gente constata que as coisas não vão ser entregues de mão beijada, que existe uma grave crise econômica, contas a serem pagas, impossiblidade de consumo sempre movido a dívida e perspectivas profissionais ingratas, mas a frustração faz sentido. Este é um país mal acostumado, melhor dizendo, não está acostumado com problemas tão graves há tempos, que tinha a ilusão de prosperidade permanente, de uma geração com uma vida melhor do que a anterior. Ajustes serão necessários, dos 99% e do 1% (dos slogans dos manifestantes).

Os frutos do sucesso econômico são distribuídos de forma crescentemente desigual nos EUA. O drama moral comove, mas injustiça social por si, nem sempre, não é um escândalo, pois ela serve de motivadora para a competividade, é um antídoto para a acomodação social. Um desafio é a percepção de ausência de mobilidade social nos EUA. E os fatos estão aí: 1% dos americanos detém quase 1/4 da renda, é o dobro em relação há 25 anos. O sistema bancário abusa dos seus privilégios e de suas conexões com Washington. Este é um clamor ouvido no espectro social, da esquerda para a direita.

Movimentos como este Occupy Wall Street sinalizam inquietações, aliás como o Tea Party, que teve um papel-chave para reger a nova sinfonia do Partido Republicano, numa banda mais à direita. Uma olhada nos simpatizantes do Occupy Wall Street e do Tea Party (indo mais fundo do que na superfície dos seus militantes nos parques e nas ruas) indica que os dois movimentos expressam ansiedade econômica, frustração e fúria com o sistema, que vão além da periferia ideológica.

Os dois movimentos conseguiram levar suas agendas para o centro do debate político. Pesquisas mostram que quase metade dos americanos se identificam ou apóiam um dos movimentos (e outros tantos se irritam com ambos, hoje mais com o Tea Party). O foco conservador é mais contra o estado, enquanto o Occupy Wall Street (hello!) é mais contra Wall Street. Numa pesquisa Wall Street Journal/NBC News, 38% dos americanos disseram que tanto o tamanho e alcance do governo, como dos bancos, devem ser reduzidos.

Os dois “partidões” e candidatos presidenciais (inclusive o presidente Obama) tentam agora incorporar as mensagens destes movimentos populistas. Ambos ocuparam um espaço político. Deveria haver no ciclo eleitoral que está esquentando terreno fértil para algum terceiro partido ou candidato independente plantar sua mensagem, algo mais consequente do que fincar uma tenda no parque.
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Colher de chá bem matinal para o Sérgio (dia 16, 8:56), que fez uma crítica pertinente ao meu texto.

02/11/2011

às 6:00 \ Crise econômica, Europa, Grécia

Hubris, ethos, outra expressão grega para a tragédia grega?

O trágico e patético Papandreou - Foto Yiannis Liako/AFP

Apropriado que no dia de Finados o tema desta coluna seja a Grécia, berço da democracia e paiseco decadente, mas com potencial para enterrar o projeto europeu. No drama grego e europeu cabem aquelas palavras eruditas como hubris, pois em Bruxelas, Berlim, Paris e Atenas houve insolência e desejos desmedidos. Agora é hora dos deuses tecnocráticos imporem o castigo, o diktat, com pesados pacotes de austeridade.

Os gregos se vingam fazendo mais confusão. Podemos ser até camaradas com o trágico e patético primeiro-minstro George Papandreou, que, depois de tudo acertado com a cúpula europeia para mais um pacote de resgate da Grécia, decidiu para a surpresa global que era precisa consultar o povo num referendo de terminologia incerta e sem prazo definido para ocorrer, tudo isto quando a crise tem um ritmo frenético. Mas até dá para entender a lógica de Papandreou. Afinal, a Grécia é uma democracia, afinal ele estava acuado. Precisava de uma jogada arriscada e desesperada, exigindo uma clara postura da sociedade e da classe política. Mas o lance se tornou um referendo imediato sobre o próprio primeiro-ministro Papandreou. Ele já sobreviveu a outras situações dramáticas. Vamos ver agora.

Existem ondas de frustração popular, arruaças nas ruas, estado permanente de greves, rebeliões dentro do ainda governista Partido Socialista e o oportunismo de uma oposição que promete mundos e fundos quando o mundo está cansado do saco sem fundo nesta tragédia grega. Em questão de dias, se passou do euroalívio para o europânico. A jogada europeia é empurrar com a barriga até onde der, mas os gregos sempre empacam.
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As pesquisas mostram que os gregos não querem austeridade, mas querem ficar na zona do euro. De certa forma, Papandreou quer que o país entenda que não dá para ter tudo. Os gregos gostam do crédito barato e a mão generosa dos europeus nos tempos de bonança (em grande parte ilusória), mas nada de pagar a dívida e apertar os cintos agora que é necessário, inevitável. A má vontade até que é compreensível no ethos grego (outra expressão erudita) de corrupção, excesso de regulamentação, dependência do estado para empregos, economia informal a todo vapor e baixa taxa de investimentos.

Na piada maldosa, é um disparate a austeridade. Significa que gregos, especialmente os mais ricos, vão precisar começar a pagar impostos, isto no país sinônimo de sonegação. Há estudos mostrando que existem mais carros Porsche Cayennes registrados na Grécia do que contribuintes declarando renda anual acima de 50 mil euros. E um Porsche Cayenne custa no mínimo 60 mil euros. O gregos querem apenas a parte boa da integração da zona do euro, aquela que permitiu que em 15 anos eles saltassem de uma renda per capita de 40% da Alemanha para 66%. Os gregos querem ser alemães e não gregos, mas com a crise voltarão a ser o que deveriam ser.

Hubris leva ao castigo. A expectativa do mundo é que os gregos agora tolerem anos de vida dura, numa penúria que será estendida aos demais “gregos” do club Med da Europa, como italianos, espanhóis e portugueses. Mas por que castigar apenas os gregos? Na semana passada, horas depois de saudar mais um pacote de resgate, o presidente francês cheio de prosa Nicolas Sarkozy disse que fora um erro aceitar a Grécia na zona do euro, pois as contas apresentadas eram fajutas. Mas a Europa queria abraçar a Grécia, a toque de caixa, foi cúmplice na farsa e participou do teatro. Bancos fizeram um bacanal de empréstimos a quem não tinha meios para pagar e agora querem socializar os prejuízos. Socorro, Europa! Socorro, China! Socorro!

Neste dia de Finados, precisamos reconhecer que o nascimento do euro foi parto prematuro e houve o pecado original de costurar uma união monetária sem integração política. E ainda por cima aceitando a convivência do núcleo duro (hoje frouxo) da zona do euro com a periferia mais ampla da União Europeia. Eu espero que o projeto europeu sobreviva e para que isto aconteça será necessária mais integração, menos soberania nacional. Incerto saber se aquela velha Grécia será parte do clube reformado, assim como países importantes fora da zona do euro, a destacar a Grã-Bretanha.

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Nesta tristeza europeia, colher de chá (eles realmente precisam) para os fiéis leitores de Portugal, o João-Lisboa (dia 2, 10:50) e o Abílio (dia 2, 10:59). Outra para o Arnaldo (dia 2, 10;15). Aliás, algumas metáforas gregas estão boas hoje.

16/10/2011

às 17:48 \ Crise econômica, EUA, Europa, Obama, Republicanos

Cadê o barulho da maioria silenciosa contra os furiosos?

Fogo e circo em Roma - Foto Alessandro Bianchi/Reuters

Antes de tudo, algumas palavras de solidariedade à filial italiana deste movimento de indignados e ocupantes pelo mundo afora que é contra isto ou contra aquilo. Manifestantes em Roma (e a imensa maioria dos italianos) também são contra os vândalos mascarados, que no sábado provocaram os mais violentos distúrbios na cidade em uma década, ao se infiltrarem em uma das marchas.

Os manifestantes, em sua maioria pacíficos, primeiro imploraram para estes bandoleiros abandonarem os protestos. Fracassaram. Aí o pessoal de paz e amor (e quero manter os meus benefícios sociais) chutou e cuspiu nos arruaceiros violentos. Manifestantes inclusive arrastaram bandoleiros mascarados e os entregaram à polícia. Não é mole estar numa cidade com estes arruaceiros e também com o Silvio Berlusconi. Difícil manter a compostura. Vale questionar a lerdeza da repressão policial. A conversa agora é sobre a violência e não sobre a indignidade que é o primeiro-ministro italiano. Uma boa distração para Berlusconi, que na sexta-feira suadamente venceu um voto de confiança (mais um) no Parlamento. Aparentemente, anarquistas e arruaceiros de direita ligados a torcidas de futebol botaram para quebrar.

Este desordem desvia as atenções de um movimento com marquetagem global e que não tem um foco, além de um falatório contra a ganância financeira e as mazelas do sistema capitalista. A moçada e alguns dos seus pais continuam protestando com vigor e desobediência nem sempre civil. O movimento mostra uma capacidade de agitação e propaganda que não deve ser subestimada.

Nada como agendar protestos para o fim-de-semana, quando o noticiário está morto e o fundamental é ter uma postura bem televisiva. Também as táticas se mostram criativas, embora algumas mereçam o meu repúdio, como o pessoal que invadiu agências bancárias em Manhattan ou os manifestantes presos em Chicago quando se recusaram a empacotar suas tendas e tralhas e deixar um parque público.

Por ora, no caso americano, de acordo com uma pesquisa da revista Time, este movimento deflagrado pelo pessoal do “Ocupem Wall Street” conta com mais tolerância popular do que a banda conservadora do Tea Party (o que para mim não é nenhum consolo), cuja indignação é direcionada mais contra o governo e não os bancos. A surpresa é a demora para que tivesse florescido algum tipo de protesto mais à esquerda devido ao banzo econômico e à desilusão de uma parte da base eleitoral de Barack Obama.

Mas o pique inicial é fácil. As palavras-de-ordem são difusas e quase todo mundo é contra os excessos dos banqueiros (até alguns banqueiros). O desemprego é alto, a renda média dos americanos caiu em 10% em uma década e quem não quer “reestruturar” as dívidas, ou seja, dar algum tipo de calote? Mas a paciência popular, mesmo dos caloteiros em potencial, com um movimento que mistura fúria e folclore pode se esgotar.

A própria revista Time joga pelo meio-do-campo e na sua principal reportagem da edição corrente anuncia o “retorno da maioria silenciosa”, interessada em resultados práticos, pragmatismo, menos barulho e mais compromisso entre os partidos. Caso os democratas e Obama não consigam canalizar para sua agenda eleitoral as palavras-de-ordem e os sentimentos deste movimento, o beneficiário talvez seja alguém como o republicano Mitt Romney.

Visto como o moderado sem sal e pimenta, Romney quase certamente irá superar as barreiras do Tea Party e emergir como o candidato presidencial das primárias republicanas. Wall Street sente os ventos e começa a fazer mais doações de campanha para Romney do que para Obama. Ironicamente, se investir mais no discurso populista, pegando carona neste movimento contra a “ganância financeira”, o presidente democrata vai acelerar a tendência. Mas um país ainda povoado de republicanos tradicionais, democratas moderados e independentes também têm suas exigências. Na pesquisa Time, quase 3/4/ são favoráveis a impostos mais altos para os milionários. O mínimo de populismo faz bem para os cofres públicos e para o senso de justiça.

Mas a “maioria silenciosa” enfrenta o desafio das bases ruidosas nas duas bandas. A energia gerada pelo Tea Party foi crucial para o Partido Republicano e o ajudou a produzir sua vitória nas eleições para o Congresso em 2010. Mas o Tea Party tornou o Partido Republicano mais rigidamente de direita, mais obstrucionista. É possível que o Tea Party tenha atingido o pico de influência e isto irá se confirmar com a resignação conservadora com uma vitória de Mitt Romney nas primárias.

O pessoal do “Ocupem Wall Street” ainda está no estágio inicial de sua mobilização. Pode dar energia para o Partido Democrata, mas levá-lo para a esquerda e dificultar ainda mais os compromissos para os problemas nacionais, como deseja a tal maioria silenciosa, que talvez esteja apenas no imaginário da revista Time. Contra o populismo de direita, seria o populismo de esquerda.

Na Europa, os cenários são ainda mais preocupantes. O que é definido como neopopulismo pode crescer, à esquerda e à direita, pois os ajustes econômicos serão penosos. Prematuro talvez ecoar os anos 30, com uma falência generalizada de lideranças na Europa. mas é neste vácuo que a indignação populista ganha voz e ocupa espaço. Dar um chega-pra-lá nos arruaceiros de Roma é o mínimo.
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Colher de chá para Anouk (dia 17, 11:47), fiel leitora que escreve de Hamburgo, na Alemanha. Em meio ao barulho de algumas opiniões passionais sobre estes movimentos, ela fala com bom senso, a voz, espero, da maioria silenciosa.

02/10/2011

às 20:00 \ Crise econômica, EUA, Nova York

Ocupar Wall Street, a ponte do Brooklyn e o espaço político

Os indignados de Nova York - Foto Mario Tama/Getty

Eu fico com um pé atrás quando a moçada (embora aqui haja também o grupo das “vovós pela paz”) marcha em Nova York com a benção da classe dominante da esquerda-celebridade, gente como Michael Moore, Susan Sarandon, Cornel West e o vovô Noam Chomsky. Mas, provando que eu sei linguismos finos, estes protestos difusos encampados no movimento “Ocupem Wall Street” pegam o zeitgeist 2011.

Para a moçada, a praça Tahrir, no Cairo, é aqui mesmo agora em Nova York, no Zuccotti Park (perto do Marco Zero dos atentados do 11 de setembro), acampamento do movimento. O protesto é, para dizer o mínimo, maximalista e vago. Tem palavras-de-ordem contra a ganância capitalista, desigualdades sociais e o governo corrupto que resgatou Wall Street. Existem propostas mais específicas de alguns participantes como acabar o dinheiro(?). Esta proposta faz sentido a jovens entrevistados no fim-de-semana como Erin Larkins, estudante de pós-graduação da Universidade de Columbia. Ela e o namorado devem US$ 130 mil de empréstimo educacional.

Como falei (e bonito), há o zeigeist. É o espírito dos tempos. Existem jovens com alto nível educacional (e outros menos) que tinham altas expectativas. O que temos hoje é um desemprego teimosamente alto, uma economia que patina, uma frustração com as promessas de Barack Obama (mesmo entre os jovens que votaram nele) e decepção generalizada com a classe dominante dos políticos (democratas e republicanos). O deputado democrata Charlie Rangel (um símbolo do que existe de mais atrofiado e corrupto no Congresso) foi recebido friamente e até intimidado por um militante quando apareceu para emprestar solidariedade (não dinheiro) no Zuccotti Park.

Wall Street, de fato, se safou do pior da crise de 2008. Claro que não comove muito mais, quando o país resvala para a recessão, o presidente Obama lembrar que seu pacote de resgate aos bancos impediu um colapso financeiro ou uma volta da depressão (é verdade). Pouco consolo para uma moçada que hoje se sente deprimida.

A moçada se diz inspirada na primavera árabe e nos jovens “indignados” da Espanha, assim como de outras partes do mundo subemergente. Diz que o movimento sem liderança (os sindicatos estão se metendo, além da esquerda-celebridade) quer restaurar a democracia nos EUA. Ué, o que existe agora?

Em Nova York, capital da mídia mundial, não se dava muito atenção ao movimento. Agora está dando e o mundo também. A polícia ajudou com alguma brutalidade (nada, obviamente, no padrão Bashar Assad de qualidade) e a marcha no sábado pela ponte do Brooklyn, que resultou em mais de 700 presos, garantiu um cartão postal ao protesto. Casamento perfeito no espetáculo. Polícia atuou como polícia e agitadores agiram como agitadores. Policiais montaram uma armadilha para os manifestantes na ponte e havia ativista implorando para ser preso.

Difícill saber se o movimento “Ocupem Wall Street” vai decolar para valer. De fato, ocupou espaço político e na mídia, além das expectativas dos participantes. Agitações semelhantes estão tendo lugar em outras cidades (mas somente em Boston o movimento já é mais significativo, embora protestos tenham crescido também em Chicago e Los Angeles). A idéia em Nova York é persistir acampado em Zuccotti Park por meses a fio (mais fácil para quem está desempregado ou desocupado). Muito vai depender de como a polícia reagir (ou não) e a capacidade de fagulhas gerarem incêndios políticos. Nesta próxima quarta-feira, um teste importante, com a programação de outra manifestação, com apoio sindical.

O movimento bate na tecla que ele representa 99% da população contra 1% dos privilegiados. Bom slogan, mas 100% errado. De novo, “Ocupem Wall Street” captura o zeitgeist de banzo econômico, decepção com políticos, uma classe média espremida e aumento do índice de pobreza. É saudável que haja esta agitação, em contraponto ao Tea Party, o movimento conservador que no começo parecia folclórico e ridículo, com integrantes fantasiados de americanos do final do século 18, mas se mostrou consistente e em condições de fixar a agenda do país, em torno de questões como disciplina fiscal e governo mais enxuto. O azar é que o Tea Party pode devorar o próprio Partido Republicano com o seu maximalismo e testes de pureza ideológica.

Nada errado com cafeína política do outro lado da ponte (não no meio da ponte). Em comum com o Tea Party, a moçada do “Ocupem Wall Street” foi tomada por uma aversão populista a Washington e Wall Street. As classes dominantes que se mexam para reocupar o seu devido lugar, de forma mais produtiva e com mais respeito aos cidadãos, eleitores e contribuintes.
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Pessoal, nestes tempos bicudos, serei generoso. Duas colheres de chá. A de ouro vai para o Fernando (dia 2, 21:22), com seu comentário afinado e que captou o zeitgeist. A de prata vai para o infatigável Maisvalia (dia 2, 21:33) com sua tirada de humor. Leiam ambos comentários para entenderem do que estou falando.


 

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