Coreia é uma crise sem margem de erro
A Coreia do Norte está em processo de modernização. A notícia é inquietante. Em poucos anos, o programa nuclear deste país retrô deverá atingir o patamar no qual americanos e russos estavam em meados dos anos 50, nos primeiros anos da Guerra Fria. Em dezembro, os norte-coreanos lançaram um foguete de três estágios e em fevereiro eles realizaram seu terceiro teste nuclear (mais poderoso).
Antes que todos em Seul ou San Francisco corram para o bunker antinuclear, podemos antecipar que o regime do garotão Kim Jong-un precisa amadurecer muito em termos tecnológicos a ponto de miniaturizar a bomba para que a ogiva possa ser transportada por um efetivo míssil. A ideia de jogar um bombão de um avião parece insana até para este regime teatral.
Enquanto a miniaturização da bomba não acontece, temos ameaças hiperbólicas, que são inusitadas até para os padrões norte-coreanos, como a conversa sobre um ataque nuclear preventivo contra os EUA e a anulação do armistício que suspendeu a guerra com a Coreia do Sul (1950-53), além do desligamento de comunicações telefônicas na zona fronteiriça.
Em termos estritamente racionais, é fácil explicar a lógica norte-coreana. Está baseada em dois pilares: dissuasão e chantagem. O primeiro é ter um arsenal nuclear que impeça o corolário de regimes como os de Saddam Hussein, no Iraque, e Muammar Khadafi, na Líbia. Sob cerco e ainda mais isolado do que outros regimes delinquentes, a Coreia do Norte amplia sua cartada dissuassiva. Quem vai ousar atacar um regime que ameaça com gestos insanos e suicidas em nome de sua lógica?
No armamento convencional, a Coreia do Norte, o quarto exército do mundo, não é um tigre de papel e suas peças de artilharia podem causar muito estrago. Basta ver que Seul, a capital sul-coreana, fica a 30 quilômetros da tensa zona desmilitarizada. No entanto, os norte-coreanos têm muitas deficiências. Sua Força Aérea sequer possui combustível suficiente para seus 820 jatos de combate.
Este quadro precário do armamento convencional é um motivo a mais para os norte-coreanos reforçarem seu poder nuclear dissuassivo. O resultado é a escalada, que pode levar os sul-coreanos que vivem no seu país próspero a democrático a flertarem com uma corrida nuclear contra seu vizinho monárquico, comunista, miserável e ditatorial.
O outro pilar do gangsterismo geopolítico é a chantagem. No ritual de avanço da tecnologia nuclear e das ameaças hiperbólicas, os norte-coreanos costumam achacar assistência econômica da comunidade internacional. Com chantagem mais pesada, eles esperam também obter a retirada das tropas norte-americanas da Coreia do Sul e eventualmente o reconhecimento do seu status nuclear. Mas quem quer ser sócio de um clube que aceita a Coreia do Norte?
São perguntas inquietantes em meio à dificuldade de lidar com um regime hermético. E sua imprevisibilidade demanda cautela de atores externos. Imagine, o único ocidental (sic!) que teve mais contato com o garotão-ditador Kim Jong-un foi o ex-jogador de basquete Dennis Rodman (feitos um para o outro). O jogo fica ainda mais incerto num momento de troca de presidentes na Coreia do Sul e na China (o único grande aliado de Pyongyang) e com um governo Obama, cuja estratégia essencial em política externa é evitar encrenca.
E aqui mora o perigo. Dissuasão é uma doutrina com mão dupla. Os norte-coreanos não podem atravessar certos limites, pois aí serão alvos de um devastador ataque norte-americanos e de seus aliados sul-coreanos. Logo, os EUA devem ser convincentes para manter o que for possível de estabilidade na encrenca.
Mas, para a Coreia do Norte, encrencar é preciso. A escalada de tensões ocorre logo depois de uma nova rodada de sanções aprovadas de forma unânime pelo Conselho de Segurança da ONU e sul-coreanos e norte-americanos estão começando exercícios militares anuais por duas semanas. A Coreia do Norte avança com seu programa nuclear. A crise também.
O risco imediato é de um erro de cálculo ou passos acidentais. E não será surpresa se, em breve, a Coreia do Norte aprontar uma provocação, como um ataque contra algum alvo sul-coreano, como quando usou fogo de artilharia em 2010 contra uma ilha fronteiriça habitada, ou um novo teste nuclear. O regime de Kim Jong-un, em processo de modernização, testa os limites.
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Colher de chá matutina para os palpites do General Failure (dia 12, 8:56).











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