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Arquivo da categoria Coréia do Norte

12/03/2013

às 6:00 \ Coréia do Norte, Coreia do Sul

Coreia é uma crise sem margem de erro

O poder de fogo (e de chantagem) de Kim Jong-un

A Coreia do Norte está em processo de modernização. A notícia é inquietante. Em poucos anos, o programa nuclear deste país retrô deverá atingir o patamar no qual americanos e russos estavam em meados dos anos 50, nos primeiros anos da Guerra Fria. Em dezembro, os norte-coreanos lançaram um foguete de três estágios e em fevereiro eles realizaram seu terceiro teste nuclear (mais poderoso).

Antes que todos em Seul ou San Francisco corram para o bunker antinuclear, podemos antecipar que o regime do garotão Kim Jong-un precisa amadurecer muito em termos tecnológicos a ponto de miniaturizar a bomba para que a ogiva possa ser transportada por um efetivo míssil. A ideia de jogar um bombão de um avião parece insana até para este regime teatral.

Enquanto a miniaturização da bomba não acontece, temos ameaças hiperbólicas, que são inusitadas até para os padrões norte-coreanos, como a conversa sobre um ataque nuclear preventivo contra os EUA e a anulação do armistício que suspendeu a guerra com a Coreia do Sul (1950-53), além do desligamento de comunicações telefônicas na zona fronteiriça.

Em termos estritamente racionais, é fácil explicar a lógica norte-coreana. Está baseada em dois pilares: dissuasão e chantagem. O primeiro é ter um arsenal nuclear que impeça o corolário de regimes como os de Saddam Hussein, no Iraque, e Muammar Khadafi, na Líbia. Sob cerco e ainda mais isolado do que outros regimes delinquentes, a Coreia do Norte amplia sua cartada dissuassiva. Quem vai ousar atacar um regime que ameaça com gestos insanos e suicidas em nome de sua lógica?

No armamento convencional, a Coreia do Norte, o quarto exército do mundo, não é um tigre de papel e suas peças de artilharia podem causar muito estrago. Basta ver que Seul, a capital sul-coreana, fica a 30 quilômetros da tensa zona desmilitarizada. No entanto, os norte-coreanos têm muitas deficiências. Sua Força Aérea sequer possui combustível suficiente para seus 820 jatos de combate.

Este quadro precário do armamento convencional é um motivo a mais para os norte-coreanos reforçarem seu poder nuclear dissuassivo. O resultado é a escalada, que pode levar os sul-coreanos que vivem no seu país próspero a democrático a flertarem com uma corrida nuclear contra seu vizinho monárquico, comunista, miserável e ditatorial.

O outro pilar do gangsterismo geopolítico é a chantagem. No ritual de avanço da tecnologia nuclear e das ameaças hiperbólicas, os norte-coreanos costumam achacar assistência econômica da comunidade internacional. Com chantagem mais pesada, eles esperam também obter a retirada das tropas norte-americanas da Coreia do Sul e eventualmente o reconhecimento do seu status nuclear. Mas quem quer ser sócio de um clube que aceita a Coreia do Norte?

São perguntas inquietantes em meio à dificuldade de lidar com um regime hermético. E sua imprevisibilidade demanda cautela de atores externos. Imagine, o único ocidental (sic!) que teve mais contato com o garotão-ditador Kim Jong-un foi o ex-jogador de basquete Dennis Rodman (feitos um para o outro). O jogo fica ainda mais incerto num momento de troca de presidentes na Coreia do Sul e na China (o único grande aliado de Pyongyang) e com um governo Obama, cuja estratégia essencial em política externa é evitar encrenca.

E aqui mora o perigo. Dissuasão é uma doutrina com mão dupla. Os norte-coreanos não podem atravessar certos limites, pois aí serão alvos de um devastador ataque norte-americanos e de seus aliados sul-coreanos. Logo, os EUA devem ser convincentes para manter o que for possível de estabilidade na encrenca.

Mas, para a Coreia do Norte, encrencar é preciso. A escalada de tensões ocorre logo depois de uma nova rodada de sanções aprovadas de forma unânime pelo Conselho de Segurança da ONU e sul-coreanos e norte-americanos estão começando exercícios militares anuais por duas semanas. A Coreia do Norte avança com seu programa nuclear. A crise também.

O risco imediato é de um erro de cálculo ou passos acidentais. E não será surpresa se, em breve, a Coreia do Norte aprontar uma provocação, como um ataque contra algum alvo sul-coreano, como quando usou fogo de artilharia em 2010 contra uma ilha fronteiriça habitada, ou um novo teste nuclear. O regime de Kim Jong-un, em processo de modernização, testa os limites.

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Colher de chá matutina para os palpites do General Failure (dia 12, 8:56). 

15/02/2013

às 6:00 \ Coréia do Norte, Crise nuclear, Irã

Curtas & Finas (Irã & Coreia do Norte)

O míssil iraniano Shahab 3, inspiração norte-coreana

O Irã dos aiatolás e a Coreia do Norte da monarquia comunista não são países unidos por coisas boas. Ambos são muito religiosos e marcados pelo culto a personalidade de seus líderes. São países repressivos (muito pior na Coreia do Norte), com inimigos comuns (EUA) e tratados com mais camaradagem por outros (Rússia e China).

E ambos possuem afinidades inquietantes na frente nuclear. Existem evidências de cooperação na área e uma longa história de compartilhamento de tecnologia de mísseis, que remonta aos anos 80. A cooperação inclui a venda de tecnologia e armas norte-coreanas como o míssil BM-25, capaz de portar uma ogiva nuclear e atingir a Europa Ocidental; o míssil iraniano Shahab 3 é baseado no norte-coreano Nodong 1 e pode alcançar Israel e engenheiros nucleares iranianos estão na Coreia do Norte. Por sua vez, cientistas norte-coreanos visitam frequentemente o Irã.

A Coreia do Norte é um regime repressivo e uma corporação criminal. Ela subsiste graças a negócios ilícitos. Proliferação nuclear é uma forma de conseguir moeda estrangeira ou petróleo. O regime de Pyongyang, portanto, tem o incentivo de transferir tecnologia ou mesmo uma bomba para quem pague, mesmo uma organização terrorista, mas um parceiro ideal realmente é o Irã.

Uma reportagem no jornal Jerusalem Post sugere que os norte-coreanos possam ter feito o terceiro teste nuclear de sua história, nesta semana, em nome do regime de Teerã, na presença de cientistas iranianos. Na mesma linha, autoridades americanas disseram ao New York Times que os “norte-coreanos podem estar fazendo testes para dois países”, especulação reforçada pelas informações de que este último teste, ao contrário dos dois primeiros (realizados com plutônio), foi feito com urânio enriquecido

Talvez seja hiperbólico dizer que os iranianos terceirizaram seu programa nuclear para os norte-coreanos (expressão de David Pilling no jornal Financial Times), mas a ameaça de proliferação é cada vez maior. Estamos diante de dois regimes delinquentes, perigosos e fervorosos. Com suas ambições, eles são capazes de deflagrar uma corrida nuclear em suas respectivas regiões. Ambos querem extorquir legimitidade e garantias de segurança da comunidade internacional, enquanto avançam com seus programas nucleares (a Coreia do Norte ja tem seu arsenal de bombas, em um número indefinido, talvez em torno de meia dúzia).

Irã e Coreia do Norte são alvos de lances que misturam sanções internacionais,  pressões diplomáticas multilaterais, ofertas generosas e acenos de ações militares. No entanto, estes dois países-párias avançam com o seu desafio. Nos dois casos, a margem para boas opções para enfrentar o problema é cada vez mais estreita. Há menos apetite para algum ataque militar contra a Coreia do Norte do que contra o Irã, mas mesmo no segundo caso existem muitas dúvidas que traga resolução ao problema.

O mundo está em uma enrascada, enroscado neste eixo do mal.

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Colher de chá para o Pietro (dia 15, 12:20). 

Rabiscos Estratégicos (Coreia do Norte)

O intragável ditador Kim-Jong-un

O teste nuclear norte-coreano de terça-feira foi o terceiro na história do regime comunista e o primeiro sob “gestão” do garotão Kim Jong-un. O teste também testa a nova gestão chinesa, sob  Xi Jinping.

Pequim é o único aliado de Pyongyang. É uma relação marcada por exasperação da parte dos chineses, pois as advertências e admoestações para os norte-coreanos não avançarem com suas provocações não são acatadas. Até humilhante que o regime de Pequim não controle o afilhado delinquente.

Da parte dos norte-coreanos, existe até ressentimento com o aliado protetor, pois ele já embarcou em ondas de sanções internacionais e participa do ritual de “protestos enérgicos” no Conselho de Segurança da ONU. Nada, da parte dos chineses, é claro, capaz de vergar o regime comunista em Pyongyang, embora ele avance cada vez mais no semáforo nuclear.

Difícil imaginar tão cedo um ponto de ruptura entre os dois países. A China não quer a Coreia do Norte aparelhada com efetivas ogivas nucleares (e, vale lembrar, não temos informações precisas sobre os progressos norte-coreanos neste sentido com o terceiro teste nuclear), mas na escala de preocupações, a frente nuclear não é a primeira para os chineses.

Para Pequim, inquietações maiores são um eventual colapso do regime no país vizinho ou alta instabilidade. E não convém para Pequim, uma Coreia unificada (aliada dos EUA). Os chineses perderiam um aliado que serve de zona-tampão. É verdade que a China não é um monolito nesta questão e há debates entre setores decisórios sobre como proceder em relação ao problema norte-coreano, especialmente com o excesso de travessuras e a apreensão que geram na comunidade internacional.

Do lado ocidental, a Coreia do Norte apresenta os desafios de sempre (embora mais graves): como lidar com um país que alimenta as tensões internacionais ao invés de alimentar o seu próprio povo, enquanto o vizinho é cada vez mais próspero e democrático? O argumento norte-coreano é no sentido de que seu programa nuclear é uma questão de autopreservação. Mas por que o mundo deve contribuir para preservar um regime tão asqueroso?

Os desafios são familiares quando Barack Obama inicia seu segundo mandato e há novos dirigentes no Japão (Shinzo Abe assumiu o poder em dezembro) e na Coreia do Sul (Park Geun-hye tomará posse no próximo dia 25). São dois dirigentes mais nacionalistas e a expectativa no caso do chinês Xi Jinping é de que adote uma postura mais agressiva na região (há risco de colisões incalculáveis com vários países, a destacar o Japão, em disputa sobre ilhas), enquanto mantém uma dança complicada com a superpotência americana, como tem sido a praxe.

É um cenário tenso em que a existência de um regime como a da Coreia do Norte coloca mais lenha na fogueira. E o risco é uma fogueira nuclear. O jogo de pressões diplomáticas e sanções não está funcionando. Existe um padrao há décadas de um regime norte-coreano que faz provocações para extorquir da comunidade internacional ajuda (inclusive alimentar) e garantias de segurança.

Não há boas opções na crise. Ninguém quer lançar um ataque contra a Coreia do Norte, mas uma escalada sempre é possível em caso de erro de cálculo ou alguma provocação intolerável do regime comunista. Sempre é difícil decifrar o que vem adiante em Pyongyang. Pode ser um novo teste nuclear ou uma ofensiva de charme diplomático. O fato é que o mundo está à mercê de um pequeno ditador.

A não ser uma fulminante ação multilateral (e aqui falo de isolamento completo do país e não de um ataque militar) é dífícill imaginar a Coreia do Norte alterando seu comportamento ou mudanças no ritual da crise. Uma possibilidade muito remota é a China botar para quebrar. Já mencionei que impedir mais avanços nucleares norte-coreanos está abaixo de outras inquietações estratégicas para os chineses.

No entanto, a China pode  ser induzida a mudar seu comportamento por ações ocidentais, ou seja, países como EUA, Japão e Coreia do Sul aumentarem sua capacidade de defesa balística. Aliás, nesta quarta-feira, os sul-coreanos já anunciaram que vão ampliar o alcance dos seus mísseis balísticos. Há também uma variante mais radical, que é uma corrida nuclear na região.

São cenários que trazem instabilidades e riscos ainda maiores do que os atuais. A China precisará decidir se prefere apenas uma Coreia do Norte instável ou toda a região.

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Bons comentários estratégicos, de ângulos diferentes, nesta quarta-feira de cinzas (cinzas e assunto nuclear combinam, sorry).  Para a colher de chá, escolho o comentário do Marco (dia 13, 15:11).

18/12/2012

às 6:00 \ Coréia do Norte, Coreia do Sul

Curtas & Finas (Pais & Filhos)

Park Geun-hye com o pai-ditador, em 1977, dois anos antes de seu assassinato

O avô do novo primeiro-ministro japonês Shinzo Abe (eleito no domingo) também chefiou o governo deste país democrático. Na monarquia comunista da Coreia do Norte, o garotão Kim Jong-eun está no trono que já foi do pai e do avô. Nesta quarta-feira, na vizinha e democrática Coreia do Sul, teremos eleições e, pelas pesquisas, o favoritismo no sufoco é o de Park Geun-hye da candidata do partido conservador e governista Nova Fronteira.

Seu país hoje é uma democracia vibrante e uma economia dinâmica (a quarta da Ásia, depois da China, Japão e Índia). Mas já foi muito miserável. Sabem quando? Quando o pai de Park Geun-hye assumiu o poder em um golpe de estado em 1961. Assassinado por seu próprio chefe de espionagem, Park Chung-hee foi o pai ditatorial da modernização sul-coreana, forjada pelo casamento entre o estado e os maciços conglomerados econômicos familiares (chaebol, em coreano).

O país cresceu e amadureceu. Há 25 anos é uma democracia, onde se alternam conservadores e liberais, e a filha Park Geun-hye, não apenas se distancia do passado ditatorial do pai, como pediu desculpas pelos abusos dos direitos humanos.

O seu oponente nas eleições de quarta-feira, Moon Jae-in, foi lider estudantil e esteve preso nos tempos da ditadura. Sua chance de vitória cresceu com a desistência de um candidato independente e não convencional, o empresário da Internet Ahn Cheol-soo, que cativara o eleitorado mais jovem.

As propostas de inovação de Ahn Cheol-soo alteraram o próprio discurso conservador. Na economia, se eleita, Park Geun-hye, acena com limites no poder dos conglomerados, injetando mudanças neste modelo econômico que permitiu a decolagem, mas que agora pode travar um salto qualitativo de um país mais diversificado. A eleição em si de Park Geun-hye será um salto qualitativo, primeira mulher no poder em uma sociedade patriarcal. Solteira e sem filhos, ela costuma dizer que está casada com a nação.

Enquanto, a Coreia do Sul busca os seus rumos, a vizinha Coreia do Norte continua sem perspectivas, oprimida pelo filho e neto de ditador comunista, que mata sua população de fome e alimenta os pesadelos nucleares da região e do mundo. E para arrematar esta história familiar, a mãe de Park Geun-hye foi assassinada por um agente a mando do avô do atual ditador norte-coreano, que tentava alvejar o pai dela.

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Colher de chá para o abrangente comentário do André (dia 18, 12:46), dá margem para um rico debate. 

29/11/2012

às 6:00 \ China, Coréia do Norte, Irã, Síria

Os mísseis do homem mais sexy do mundo

O irresistível ditador norte-coreano Kim Jong-un

O PC chinês é um partido cinzento. Não pegou ou ignorou o sarcasmo do jornal satírico americano The Onion, que anunciou ao mundo a escolha do jovem ditador norte-coreano Kim Jong-un, 29 anos, como o “homem mais sexy do mundo” em 2012.

O site do jornal do partidão, Diário do Povo, mandou bala (atenção, metáfora irônica) com uma galeria de 55 fotos do garotão sexy, viril e virtuoso da Coreia do Norte, reproduzindo os dizeres do Onion de que “com este rosto redondo devastadoramente bonito, seu charme pueril e seu físico forte e resistente, este galã de Pyongyang torna realidade o sonho de toda mulher”.

O Diário do Povo omitiu que outros vencedores na lista do Onion de homem mais sexy do mundo já foram Bashar Assad, Bernard Madoff e o “Unabomber” Ted Kaczynski. O site precisou asssinar o atestado de ridículo e na quarta-feira removeu a história. Mas todos nós devemos pegar a seriedade das ameaças do nada sexy regime norte-coreano. De acordo com revelações do jornal não satírico The Wall Street Journal, Pyongyang continua com o fornecimento ilegal de tecnologia de mísseis e armas para a Síria de Bashar Assad, sob a administração do garotão Kim Jong-un.

As revelações dissipam as esperanças de que haveria moderação das atividades de proliferação da ditadura norte-coreana. A divulgação destas más notícias acontece em meio aos temores de que o regime comunista esteja preparando o lançamento do seu segundo míssil de longo alcance desde que Kim Jong-un ascendeu ao poder no final de 2011.

A Coréia do Norte, que já tem a bomba atômica, é um dos melhores (e poucos) parceiros da Síria e contribuiu para o desenvolvimento do seu programa de armas químicas e de mísseis, mesmo com a intensificação da guerra civil. Inspetores das Nações Unidas acreditam que Pyongyang ajudava o regime sírio a construir secretamente o reator nuclear no leste do país, cujas instalações foram destruídas por jatos israelenses em 2007.

Falando em ditaduras com programas nucleares secretos, o Onion também enganou o Irã este ano, quando a agência “noticiosa” Fars reproduziu a história da publicação satírica americana sobre uma pesquisa concluindo que mais americanos da zona rural votariam em Mahmoud Ahmadinejad para presidente do que para Barack Obama. Mais tarde, a agência pediu desculpas por ter caído na cascata, mas insistiu que Ahmadinejad era mais popular do que Obama.

Estas ditaduras comunistas e teocráticas matam e as vezes nos matam de rir.

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Espero que os leitores entendam, mas só posso dar a colher de chá para os editores do Diário do Povo. Sem eles, esta coluna não existiria.

11/07/2012

às 6:00 \ Coréia do Norte

Curtas & Finas (Coreia do Norte & Disney)

O deboche sobre o ditador no tablóide inglês

Precisamos estar solidários com o Reino Mágico da Disney caso ele declare guerra contra o Reino Eremita, também conhecido como a ditadura norte-coreana. Aquela monarquia comunista é chegada em pirataria (e coisas piores) e o garotão no trono, Kim Jong-un, acaba de sequestrar Mickey, Minnie e outros personagens da Disney. São os novos prisioneiros naquele gulag.

O ditador e a mulher-mistério

Sem pagamento de direitos autorais, eles foram encenados em uma produção, prestigiada pela família real e exibida na TV estatal. E existem as fofocas sobre a corte comunista. Há muita especulação sobre uma mulher misteriosa, atraente e elegante (não é a Minnie), ao lado do garotão naquele espetáculo e em outros eventos recentes. Pelos rumores e análises da inteligência da Coreia do Sul e do Japão, Hyon Song-wol foi uma paixão de adolescente que papai-ditador Kim Jong-il cortou e ela se tornou uma estrela pop, na versão norte-coreana, cantando aquelas músicas patrióticas e proletárias. Papai morreu e a paixão ressuscitou na corte. Será que a mulher-mistério já é ou será a primeira-dama? Mas ela não era casada com um oficial do Exército, com o qual teve um filho recentemente? E o que foi feito do pobre marido? Conto de fadas não é marca registrada naquele reino eremita.

Há também especulações sobre o sentido político desta encenação Disney. Os mais fantasiosos acham que seria um aceno conciliatório do comissário cultural Kim Jong-un para o Ocidente. Bem, melhor isto do que sinalizar com o lançamento de míssil (o último fracassou) ou fazer teste nuclear.  Em outros tempos, entre a China e os EUA, tivemos a diplomacia do pingue-pongue. Agora seria a diplomacia Mickey-Minnie.

Mas quem sabe seja um recado que o garotão se sente seguro no trono. Afinal, seu irmão mais velho, Kim Jong-nam, foi amaldiçoado a perdeu a chance de ganhar o trono do papai quando foi flagrado com passaporte falso ao tentar visitar a Disneylandia de Tóquio em maio de 2001. Como é que pode? Render-se assim publicamente à poluição cultural ocidental? Isto antes podia ser feito apenas privadamente na corte comunista. Hoje em dia é este espetáculo público e, de qualquer forma, mesmo no Gulag norte-coreano, o povão consegue contrabandear material da cultura pop ocidental.

Vamos deixar de lado as fantasias. A Coreia do Norte é bizarra, mas, antes de tudo é uma realidade cruel. Stálin não era mais humano por gostar de assistir a filmes de Hollywood no Kremlin (mas não permitia que as massas fizessem o mesmo). A encenação com Mickey e Minnie em Pyongyang deve ser vista mesmo como um capricho de um tirano juvenil e também para mostrar que existe rejuvenescimento em meio ao pavoroso continuísmo. Melhor fantasiar sobre o dia em que os norte-coreanos vão escapar daquela ratoeira.

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Colher de chá para o saboroso comentário de J.R. Monteiro (dia 11, 12:52). Leiam! 

19/12/2011

às 3:48 \ Coréia do Norte

Kim Jong-Il já vai tarde, mas nada melhora tão cedo

Que fim-de-semana estranho. Tivemos a morte de um herói da democracia, dos direitos humanos e líder de um triunfo contra o comunismo soviético, o tcheco Vaclav Havel, e também a partida de um vilão que oprimia o seu povo e gerava pesadelos geopolíticos, a relíquia comunista norte-coreana Kim Jong-Il. A morte de Havel é lamentada, motivo de reflexões sobre uma dura caminhada, mas reconfortante. Sim, as coisas podem melhorar, existem algumas primaveras de Praga. Já a morte do tirano norte-coreano, como a de um Stálin ou um Saddam Hussein, não merece lamentos. Não vamos chorar, como a apresentadora da TV que fez o anúncio do falecimento e a nação lobotomizada, mas vamos expressar preocupações sobre o futuro do país e da península coreana.

Kim Jong-Il matava o seu povo de fome e pancada (em contraste a seu estilo de vida nababesco e excêntrico), enquanto alimentava a neurose internacional com seu arsenal nuclelar e chantagens para conseguir assistência. Uma transição fora armada desde que o déspota sofrera um derrame em 2008, agora esta mudança de guarda deve ser abreviada. Na monarquia comunista norte-coreana, o poder passa de pai para filho. O falecido pegara o trono do seu pai, Kim Il Sung, o fundador deste regime abjeto.

E tudo caminhava para o poder passar no ano que vem, nas celebrações apoteóticas e bizarras do centenário do nascimento do fundador desta pátria isolada, perigosa e imprevisível, para o garotão Kim Jong-Un, que tem 27 ou 28 anos e já é general. Obviamente, o garotão é inexperiente. O que se passa lá dentro, nos intestinos do poder, é meio indecifrável, mas se acredita que o tio do garotão, Jang Song-Thaek, deva ser uma espécie de regente do trono e os militares já estejam arregimentados para esta transição.

Pela lógica, o foco norte-coreano será interno nos próximos anos, sem perspectivas de avanços nas negociações nucleares. De acordo com a empresa de inteligência global Stratfor, a curto prazo pode se apostar em uma situação tensa, porém estável. No entanto, pode haver um jogo competitivo com o potencial de gerar conflitos internos.

O risco sempre nesta hora é que estes conflitos resvalem para o exterior, com uma postura mais agressiva, ainda mais nacionalista e mais paranóica. Em uma visão alarmista, facções ou o novo poder em torno do reizinho podem recorrer a mais testes nucleares ou provocações militares para amealhar legitimidade. Nas capitais internacionais, não interessa no momento tirar proveito da situação, pois o resultado poderá ser o caos ou justamente alguma loucura militar da parte dos norte-coreanos.

A suposição é uma resposta coordenada da Coreia do Sul, China (o único patrono da Coreia do Norte), Japão, Rússia e EUA para manter alguma medida de estabilidade na situação. O tom das primeiras respostas diplomáticas da comunidade internacional justamente evita o pânico. Basta dizer que a Coreia do Sul e China não querem “administrar” o caos ou absorver repentinamente um fluxo maciço de refugiados norte-coreanos.

Neste 2011 já partiram para o além ou para a prisão tantos ditadores. As mudanças ainda não são edificantes como na Praga de Vaclav Havel. Em contraponto ao lobotomizado pranto dos norte-coreanos, temos o mais famoso ensaio do então dissidente Havel. Em 1978, ele escreveu “O Poder dos Sem Poder”, sobre o efeito devastador do totalitarismo na dignidade humana. Nas palavra de Havel, o totalitarismo exige que as pessoas “vivam dentro de uma mentira”.
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Fácil dar esta colher de chá. Vai para o Caio Blinder que mal começou as férias e voltou a trabalhar para escrever um comentário norte-coreano às pressas, na madrugada de domingo, depois de ver na televisão o último episódio da primeira temporada de Homeland (genial!). Comentários serão liberados o mais cedo possível, mas em princípio não devo conversar com os leitores até a volta formal ao batente em 28 de dezembro. Espero que minha dolce vita até lá não seja importunada por ditadores ou líderes democratas… mortos ou vivos.

06/10/2011

às 18:00 \ Coréia do Norte, Direitos Humanos

Curtas & Finas (Coréia do Norte)

Tal pai, tal filho - Foto Kcna/Kns/AFP

Na Rússia, consuma-se a transição de Vladimir Putin para Vladimir Putin. Na Coréia do Norte, todas as indicações são de uma suave transição de poder de Kim para Kim, no caso, de pai para filho, de Kim Jong-il, também conhecido como anão atômico, para o seu filho, o garotão Kim Jong-eun. As informações sobre esta cogovernança ditatorial partem de think-tanks da vizinha Coréia do Sul. O processo levou uma ano. O garotão já teria colocado seu pessoal nas organizações que contam, como as Forças Armadas e o aparato de repressão/propaganda. Claro que sempre há dúvidas sobre a inexperiência de Kim-Jong-eun. E curiosamente, em meios acadêmicos na China (país-patrono da Coréia do Norte) existem projeções de caos em três ou quatro anos. Terrível neste país de famintos oprimidos e que exerce chantagem nuclear. A sucessão foi acelerada devido ao derrame sofrido por papai Kim há três anos. Pobres norte-coreanos (e aqui a expressão não é metafórica), eles vão sofrer muito em 2012. Será a maciça e sem precedente celebração do centenário do pai fundador desta monarquia comunista, Kim Il-sung, avô do garotão. O regime destaca que a obra da família é este “país próspero e poderoso”. Sem dúvida para a família, num negócio odioso que passa de pai para filho.

 

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